Mostrando postagens com marcador congregacionalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador congregacionalismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de agosto de 2022

Olhar para trás e dar um passo a frente - 167 anos de Congregacionalismo Brasileiro

Em 19 de agosto de 2022 comemoramos os 167 anos do Congregacionalismo Brasileiro, e como faço em todas as demais datas comemorativas, aproveito para fazer uma retrospectiva da história e avaliar tanto se tenho motivos para estar comemorando, quanto qual a lição que os meus irmãos deixaram para mim, que eu possa aplicar hoje.

Acredito que essa análise é extremamente necessária, e quando olhamos para trás, podemos claramente  vê-la na própria razão de ser congregacional. Foi a análise feita por parte de um grupo de puritanos inseridos na Igreja Anglicana sobre si e sobre a estrutura da Igreja, compelindo-os a lutar pelo direito de ter igrejas autônomas e independentes. No fim, ser congregacional sempre será a liberdade de olhar para sua igreja, associação ou União de Igrejas e tentar mudar a história ativamente através da sua voz e voto.

A data que comemoramos não é a do surgimento das primeiras igrejas evangélicas congregacionais no mundo, e sim o início do congregacionalismo no Brasil. Não é uma história que inicia com uma grande igreja e um templo chamativo: ela começa com um casal, uma pequena escola dominical e serviços de culto doméstico, oração e estudos bíblicos. A nossa história começa em 19 de agosto de 1855, com a fundação de uma escola dominical em Petrópolis, sob a direção de Robert Kalley e Sara Kalley.

Assim como foi no começo, precisa ser hoje. A sua história e contribuição para nossa denominação começa no seu pequeno grupo de influência, nas pessoas a sua volta que você consegue alcançar através do seu ensino, e principalmente do seu exemplo. Antes de formar uma igreja estruturada, o casal Kalley estruturou pessoas para fazerem parte do Corpo de Cristo, dando a elas o ensino da Palavra, e meios para acessá-la.

A primeira igreja congregacional só vai surgir quase três anos depois, em 11/07/1858, no Rio de Janeiro, chamada de Igreja Evangélica Fluminense, onde ocorreu o primeiro batismo de um brasileiro: Pedro Nolasco de Andrade. 

Não sei se você sabe, mas o nome "Congregacional" estava com a imagem um tanto manchada naquela época, razão pela qual tanto a Igreja Evangélica Fluminense, quanto a Igreja Evangélica Pernambucana, fundada em  19/10/1873 não receberam essa palavra no nome! Ainda assim, foram as duas primeiras igrejas congregacionais. Isto porque ser congregacional nunca foi sobre a palavra que aparece na placa da sua igreja, mas sobre a forma como nós vivemos como comunidade de fé. Ser congregacional é acreditar que Deus é soberano nas decisões locais e diárias de cada igreja, de maneira igual, não havendo hierarquia entre elas, mas uma abençoada relação de colaboração e comunhão.

Entretanto, não basta ter um modelo congregacional na organização da igreja. É preciso partilhar a mesma fé e doutrinas fundamentais do Cristianismo, que podem ser resumidas no documento oficial adotado pela nossa denominação: os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, lançados em 02/07/1876. Os artigos são realmente curtos, mas nem por isso são rasos no seu conteúdo. A base de uma vida cristã e conhecimento saudável sobre Deus e Sua igreja estão contidas ali.

O número de igrejas foi crescendo, crescendo e cresceu mais um pouco, tanto no Brasil quanto em Portugal, razão pela qual, em 06/07/1913, igrejas brasileiras e portuguesas formaram a Aliança das Igrejas Evangélicas Indenominacionais (até agora o nome continua sendo evitado). Aquelas igrejas compreenderam que ser autônomas e independentes não as tornavam o foco exclusivo de comunhão e adoração ao Senhor. Em um exercício de humildade, tais igrejas se uniram em uma união de igrejas que visava buscar uniformidade na sua prática da fé e colaboração mútua, afinal, adoravam ao mesmo Senhor! Elas entendiam que deveriam honrar e glorificar ao nome do Senhor juntas, colaborando umas com as outras em benefício do Reino de Deus! 

Nós também precisamos viver essa comunhão que extrapola os limites geográficos da igreja local, e buscar estar juntos em nossas associações de igrejas e na UIECB. Falando diretamente a você que é jovem, tem UMEC, FEMEC e COMEC, em nível local, regional e nacional, respectivamente! Queremos seu envolvimento conosco na UICEB, junto com outros milhares de jovens que partilham a sua fé! Você não está sozinho, e você pode edificar e ser edificado por outros irmãos espalhados por todo o país! Você pode (e deve hein!) fazer a diferença na vida dos seus irmãos em Cristo, dentro da sua denominação! 

E não se deixe enganar por palavras e relatos pessimistas de que não há conformidade entre as igrejas na UIECB, que há muita discordância e brigas nas nossas assembleias deliberativas, e que por vezes pastores se afastam de colegas de ministério em decorrência desses problemas. Afinal, se você olhar para história da nossa denominação vai perceber que ser congregacional não é pensar igual em tudo, mas permanecer unido, apesar das diferenças, mesmo que por um breve período de tempo a relação com seu irmão pareça rompida. É entender que somos todos parte do mesmo Reino, e um Reino no qual não há divisão.

É por isso nossa história e composta de uniões, separações e reaproximações. Em 1942, por exemplo, nós nos unimos com a Igreja Cristã Evangélica do Brasil e formamos a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil (UIECCB). Por discordância nas práticas de batismo, questões acerca da segurança da salvação e modo de governo, um grupo de 51 igrejas se separou 1960 e formou a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). Mas calma, que essa ainda não é a nossa!

Em 1968 as igrejas que permaneceram na UIECCB desfizeram a união de igrejas e ficaram sendo representadas pela Igreja Evangélica Congregacional do Brasil. No fim de tudo, os dois grupos se uniram novamente, em 1969 e formaram a nossa UIECB!

E esse é um breve resumo da nossa história! Uma história de altos e baixos, onde pessoas foram perseguidas por sua fé, direitos precisaram ser conquistados e igrejas se uniram e separam. Por outro lado, o nome do Senhor foi pregado com amor e zelo, e mais e mais igrejas continuaram a surgir. Essa não é apenas a história da nossa denominação. É a história da sua igreja, e também a sua história.

Rogo ao meu Senhor Jesus Cristo que você possa desenvolver a atitude e coragem necessária para viver a sua história conosco, exercendo os dons e talentos que o Senhor te deu, em benefício da sua igreja, em primeiro lugar, mas também da sua Associação Regional e União de Igrejas.

Que Deus nos abençoe em mais um ano!



segunda-feira, 29 de março de 2021

Resumo do livro "Congregacionalismo Brasileiro"

Editado pelo Departamento de Educação Religiosa e Publicações – DERP da União de Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.



Os congregacionais foram chamados originalmente de “independentes”, por volta do final do século XVI e início do século XVII, durante a Reforma Inglesa. Trata-se de um modelo de comunidades autônomas que surge de movimentos históricos como o de Wycliffe, os lolardos, menonitas e anabatistas.

É certo que quando falamos de modelos de estruturação eclesiástica, podemos nos deparar com três regimes gerais: (1) Episcopal; (2) Congregacionalista; (3) Presbiteriano.

No tocante ao Congregacionalismo, trata-se do modelo onde cada comunidade local é uma igreja completa e autônoma, não sujeita a qualquer entidade além da própria assembleia de membros. Assim, as igrejas se unem para cooperação e consulta, e não por hierarquia e submissão de algumas igrejas a outras. Na forma, adota uma democracia, porém na prática é uma teocracia, pois é Cristo o Cabeça da igreja.

Trata-se de um tipo de organização político-administrativa resultante da prática dos princípios teológicos fundamentais descobertos pela Reforma Protestante. Suas primeiras manifestações históricas ocorreram em Londres, com a prisão e condenação de grupos em 1567 e 1568. É certo que em 1561 já havia aparecido na cidade de Londres uma declaração de fé.

O congregacionalismo brasileiro se dá através de Robert Reid Kalley, que era de origem presbiteriana, mas ao criar a primeira Igreja Evangélica do Brasil se distanciou da tradição presbiteriana na matéria eclesiástica e introduziu uma constituição do tipo Congregacionalista na igreja.

Kalley também evitou adotar a nomenclatura “Congregacional”, que não tinha boa reputação por causa do liberalismo das igrejas americanas no final do século XIX. Por essa razão adotou unicamente a nomenclatura “Evagélica” na fundação das duas primeiras igrejas: a Igreja Evangélica Fluminense (Rio de Janeiro - 1858) e a Igreja Evangélica Pernambucana (Recife – 1873). Quando 13 igrejas brasileiras se uniram às 5 igrejas de Portugal formaram uma entidade denominacional chamada Aliança das Igrejas Evangélicas Indenominacionais.

Se por um lado Kalley não queria ser ligado às demais denominações existentes, também se recusava a atribuir “Congregacional” à sua nomenclatura, diante do erro teológico das comunidades que traziam o nome. O pastor não queria que as igrejas fossem consideradas como parte do grupo de liberais da época. É certo que a designação de “Congregacionais” foi adotada definitivamente em 1916.

Quando falamos de Congregacionalismo as seguintes obras devem ser consideradas: Os Axiomas da Religião (Dr. E. Y. Mullins); A Manual of Congregational Principles (Dr. R. W. Dale); Nossos Princípios: Um Manual da Igreja Congregacionalista (Rev. G. B. Johnson); Creeds and Plataforms of Congregationalism (W. Walker); Evangelical & Congregational (The Evangelical Fellowship of Congregational Churches - EFCC).


 PRINCÍPIOS CONGREGACIONAIS 

A) Igreja:

 

A comunidade de crentes de todos os tempos que Cristo irá apresentar ao Pai. Historicamente e no tempo, é a comunidade dos que professam a fé em Cristo, segundo a Palavra. O termo também pode ser adotado para designar um grupo de igrejas locais, em semelhança com Atos 9:31. O modelo bíblico é a da comunidade local, onde cada igreja é autônoma, completa e independente, ligadas umas as outras pela fé e amor.


B) Autonomia e Soberania das igrejas locais:

As igrejas são autônomas, pois podem se administrar por suas próprias leis, sendo administrativamente independentes. Também são soberanas, pois não estão subordinadas a qualquer poder coercitivo fora de si mesmas. A assembleia de membros é o poder supremo de direção da igreja, e nenhuma autoridade denominacional pode exercer sobre a igreja qualquer parcela de comando ou poder legislativo.

No congregacionalismo, independência não significa isolamento, e sim autonomia, liberdade de consciência e de governo. Como Cristo está presente em cada igreja integralmente, dirigindo-as pelo Espírito, entende-se pela capacidade de tomar decisões de acordo com a vontade do próprio Senhor Jesus, sem excluir a possibilidade de erro quando a igreja se encontra fraca ou afastada do Senhor.

 

C) Comunidades de igrejas locais: 

O que caracteriza uma comunidade como igreja local é ser dirigida por Deus e ser obediente a Ele. Seguindo esta lógica, a união das igrejas com Cristo cria necessariamente a união das igrejas entre si, no sentido simples de companheirismo e ajuntamento. Assim: (1) cada igreja respeita o caráter e atos das demais; (2) cada igreja deve promover o bem estar das demais; (3) cada igreja deve buscar fortalecimento junto às outras nas tarefas comuns ao Evangelho.

Torna-se natural e conveniente a constituição de federações e associações pelas quais expressem tal comunhão e companheirismo.  Essas entidades não tem caráter eclesiástico, ou qualquer poder legislativo sobre as igrejas. Uma União, Associação, Federação, Confederação, Concílio ou Convenção de Igrejas não é uma igreja em si mesma, de forma que não batiza, não recebe, não disciplina, não exclui membros de igrejas, não dirige assembléias das igrejas locais e nem administra os seus bens.

Essas comunidades de igrejas locais também não ordenam ministros por seu próprio poder, mas a pedido das igrejas. Esse ministro pode ser pastor, ainda que não assuma a direção de uma igreja, ou nunca venha a exercer.

 

D) Oficiais Eclesiásticos: 

Os oficiais são denominados pastores, presbíteros e diáconos. O pastor exerce as funções de presidente da igreja, sendo responsável pela doutrina; os presbíteros e diáconos são oficiais de função restrita à igreja que os elegeu  e ordenou. As igrejas locais possuem prerrogativa para consagrar obreiros para atividades específicas do seu ministério, além dos oficiais acima, sempre que julgar conveniente e útil.


E) Recepção e Disciplina de Membros de uma Comunidade Local: 

Membros de uma igreja local são recebidos por batismo, transferência ou por jurisdição (caso em que não é possível conseguir a Carta de Transferência da igreja anterior). A fim de evitar proselitismo e zelar pelo respeito entre igrejas, não é  recomendado receber uma pessoa sob disciplina em outra igreja, a menos que haja reconciliação.

As igrejas locais devem disciplinar seus membros de forma amorosa, com o objetivo de restaurar o disciplinado.

O autor defende que disciplina, transferência ou reconciliação de membros é de competência da assembleia eclesiástica. Entretanto, o que vemos na prática é a aplicação da disciplina sem a submissão à assembleia da igreja, a fim de preservar ao  máximo o disciplinado. A maior parte das disciplinas atualmente são aplicadas em gabinete pelo pastor da igreja, ou mediante decisão colegiada do corpo  de oficiais.

 

F) Ordenações Eclesiásticas:

As igrejas congregacionais não são sacramentalistas, e consideram Eucaristia e Batismo como símbolos da continuidade da comunhão dos crentes com Deus e a igreja. Tais ordenanças não conferem qualquer graça especial que já não tenha sido derramada sobre o cristão. Isso não anula a possibilidade de que  tais ocasiões se tornem motivo de bênçãos pessoais e coletivas  para igreja.

Quanto ao batismo, as igrejas congregacionais reconhecem a validade do batismo por imersão ou afusão, entretanto, praticam exclusivamente o batismo por aspersão. Como o batismo é um sinal de fé adulta e consciente, as igrejas congregacionais não praticam o pedobatismo.

 

A HISTÓRIA CONGREGACIONAL DO BRASIL

 

A) Primeiro Período – Maio de 1855 a Julho de 1876: período correspondente à estada do casal Kalley no Brasil, com a implantação do trabalho. Funda-se a Escola Dominical em Petrópolis (19/05/1855). Em 08 de novembro de 1857 é fundada a Igreja Evangélica Fluminense, e efetuado o batismo do primeiro brasileiro: Pedro Nolasco de Andrade. Período de grande perseguição, no qual Kalley conseguiu o reconhecimento da liberdade de culto, casamento de não católicos, registro civil, óbitos e possibilidade de sepultamento em cemitérios públicos. Em 10 de julho de 1876 o casal  parte definitivamente para Escócia, oito dias após a aceitação do texto dos 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo.

B) Segundo Período – 1876 a 1913: período do desenvolvimento eclesiástico e instalação da Convenção das Igrejas do Brasil e Portugal. Fundação da Sociedade de Evangelização e do O Cristão.

C) Terceiro Período – 1913 a 1942: período da expansão nacional e da união da Primeira Convenção das Igrejas do Brasil e Portugal com a Igreja Cristã Evangélica. Período de instalação do Seminário Evangélico Congregacional, em 03 de março de 1914. O Cristão  se torna o órgão oficial da Denominação.

D) Quarto Período – 1942 a 1969: a União das Igrejas Evangélicas do Brasil e a Igreja Cristã Evangélica do Brasil se fundiram como União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil, na 13ª Convenção (1942). Fundação do Instituto Bíblico da Pedra em 1944, onde passou a funcionar o internato do Seminário Congregacional. A União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil surge como um grupo dissidente da União de 1942, em discordância à pratica de dois modos de batismo, diversidade no modo de governo e discordância no tocante à segurança da salvação. Em 1969 os dois grupos congregacionais se unem novamente como a UIECB.

 E) Quinto Período – 1969 aos dias atuais: período de consolidação nacional com a aprovação da Constituição de 1969 e instituição da atual União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

 

OS 28 ARTIGOS DA BREVE EXPOSIÇÃO DAS DOUTRINAS FUNDAMENTAIS DO CRISTIANISMO

 Trata-se de 28 artigos, com embasamento bíblico, nos quais a síntese da teologia cristã pode ser apresentada para qualquer cristão, os quais abordam:

 

1º.  Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus;

2º.  Do Testemunho da Revelação a Respeito de Deus e do Homem;

3º.  Da Natureza dessa Revelação;

4º.  Da Natureza de Deus;

5º.  Da Trindade na Unidade;

6º.  Da  Criação do Homem;

7º.  Da Queda do Homem;

8º.  Da Consequência da Queda;

9º.  Da Imortalidade da Alma;

10º.  Da Consciência e do Juízo Final;

11º.  Da Perversidade do Homem e do Amor de Deus;

12º.  Da Origem da Salvação;

13º.  Do Autor da Salvação;

14º.  Da Obra do Espírito Santo no Pecador;

15º.  Do Impenitente;

16º.  Da Única Esperança de Salvação;

17º.  Da Obra do Espírito Santo no Crente;

18º.  Da União do Crente com Cristo e do Poder para o Seu Serviço;

19º.  Da União do Corpo de Cristo;

20º.  Dos Deveres dos Crentes;

21º.  Da Obediência dos Crentes;

22º.  Do Sacerdócio dos Crentes e dos Dons do Espírito;

23º.  Da Relação de Deus para com o Seu Povo;

24º.  Da Lei Cerimonial e dos Ritos Cristãos;

25º.  Do Batismo com Água;

26º.  Da Ceia do Senhor;

27º.  Da Segunda Vinda do Senhor;

28º.  Da Ressurreição para Vida ou para a Condenação.

Kalley entendeu a necessidade de elaborar uma súmula das doutrinas fundamentais para instrução dos neófitos e para os membros da Igreja Evangélica Fluminense. Por tal razão, em 02/10/1874, apresentou a necessidade de artigos de fé que resumissem as doutrinas fundamentais do Cristianismo.

 


segunda-feira, 1 de março de 2021

O que eu achei do "Manual para evangelismo de crianças"?

 




Maria Esi Boechat Leal: teóloga, pedagoga engajada com a APEC e  formada em Psicanálise Clínica pelo Seminário Teológico Congregacional do Estado do Rio de Janeiro - SETECERJ. Além disso tudo, ampla experiência no trabalho infantil em igrajas, atuando junto ao seu marido dos anos de 1975 a 2011.

Tia Esi se propôs a partilhar conosco um grande compilado de todo conhecimento adquirido no curso da sua história. Uma obra que se propõe a ser uma boa ferramenta em prol da evangelização e ensino de crianças em nossas igrejas! 

O  livro aborda a finalidade do trabalho com crianças, apresentando-as como carentes de Jesus e da salvação. É importante que os pais considerem seus filhos, por menores que sejam, como pecadores, pois os primeiros anos da vida são os melhores para se receber a mensagem. Ademais, uma criança que cresce dentro da igreja está mais protegida de diversas setas do maligno. O livro apresenta o professor bíblico como um evangelista de crianças, apresentando as bases bíblicas do trabalho com crianças.

Em primeiro lugar, a escrita é concisa. Parágrafos constituídos de frases curtas, apresentando o conteúdo em sua maior na forma de listas não numeradas. Essa talvez seja a característica mais marcante do livro, cujo conteúdo se apresenta de forma extremamente organizada e simples.

Trata-se de um verdadeiro manual. Fica evidente a experiência da autora e sua coerência bíblica, pois muitas das informações evidenciam uma pessoa com prática com crianças, sem com isso perder a precisão teológica. Não há contradição entre a teologia e experiências da autora, o que torna a obra segura para aplicação em nossas igrejas.

Podemos seguramente dividir o livro em 3 partes: (1) base bíblica e conselhos iniciais - Capítulos 1 a 4; (2) Sabedoria com trabalho infantil - Capítulos 4 a 7; Ferramentas para classes dominicais - Capítulos 8 e 9.

A sabedoria com trabalho infantil traz diversas dicas, conselhos técnicas para a prática do evangelismo infantil, como tipos de encontro com crianças, classes bíblicas, eventos e atividades que visam alcançar a criança para Cristo, dentro da sua capacidade de compreensão da mensagem. A autora reforça a necessidade de clareza e simplicidade da mensagem, visto que os trabalhos elencados começam a partir dos 2 anos de idade, na classe de maternal.

Considerações finais

É muito bom ver meus irmãos congregacionais produzindo bom material, com a finalidade de edificar nossas igrejas! A obra da Tia Esi nos apresenta a história de uma pessoa perseverando na missão que recebeu de Cristo! Anos e anos, e eu fico imaginando quantos obreiros, presbíteros e pastores tiveram a bênção de ouvir a mensagem do evangelho através dela!

Eu tenho a tendência a me apaixonar pelo trabalho infantil, pois fui alcançado por Cristo já na vida adulta, e quando olho para as crianças da minha igreja, sorridentes e estudando a bíblia, eu penso no quanto eu queria ter crescido aprendendo sobre Jesus!

Desejo que o Senhor levante mais e mais "Tias Esi" dentro de nossas igrejas!

Recomendaria o livro?

Com certeza!

Embora o estilo mais conciso da autora não seja a minha preferência, não deixa de ser bom! É de fácil assimilação pelos nossos professores dominicais, que muitas vezes são extremamente jovens e com pouco tempo para leitura além das suas atividades habituais!

Por ser de fácil consulta e compreensão, se torna uma ferramenta extraordinária para cursos de curta duração e capacitação dos nossos professores! Ademais, tem por detrás toda a base e experiência de alguém que caminhou junto com a APEC!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A Integridade da Pregação - John Knox

Bem... 

Recentemente precisei fazer uma resenha sobre o texto "A Integridade da Pregação", do autor John Knox, e confesso que foi um dos textos que menos me agradou. Não digo com isso que a obra é ruim, mas apenas um tanto enfadonha.

Não tive a oportunidade de ler outros textos do mesmo autor, mas a despeito da qualidade teológica das informações acerca da pregação bíblica, a leitura foi extremamente custosa. O texto em si possuía 33 páginas, mas levei um tempo considerável para conseguir terminar a leitura, simplesmente por não sentir vontade de continuar.

Por vezes me sentia andando em círculos durante a leitura, e embora os argumentos e parágrafos fossem longos, tudo que Knox queria apresentar poderia ser escrito  em poucas linhas. Pior ainda, por algumas vezes senti que estava diante de um emaranhado de palavras que no final sequer traziam uma definição satisfatória da ideia do capítulo.

Entretanto, confesso que minhas impressões pessoais da obra podem ser consequência direta da pouca apreciação que senti pela escrita do autor... Ou pelo menos da forma como o texto foi traduzido.

Feitas as considerações pessoais, o texto não deixa de trazer informações importantes e interessantes acerca da pregação! Destaco, neste sentido, a pregação ser considerada como uma oferta a Deus. E coloco abaixo a resenha que apresentei no seminário, tendo o referido texto como base!

Espero que possa ajudar vocês!


RESENHA:

Título do original THE INTEGRITY OF PREACHING. Abingdon Press, New York, 1.a edição, 1957. Edição em língua portuguesa, com colaboração do Fundo de Educação Teológica, pela Associação de Seminários Teológicos Evangélicos. São Paulo, 1964.

 

Nesta obra, o autor busca apresentar a importância da integridade na pregação, salientando, inicialmente o desvio que a pregação bíblica estava sofrendo. Havia, em seu contexto social e histórico, uma ênfase na cultura, experiências pessoais e opiniões dos pregadores, ao passo que a Palavra de Deus era posta de lado nas pregações.

Portanto, o autor inicia pontuando que a pregação bíblica não diz respeito ao modo da exposição, e sim quanto ao seu conteúdo. Neste sentido, é uma armadilha para qualquer pregador perder-se do sentido do texto, ao fazer uso das diversas ferramentas de hermenêutica e homilética. Com isto, não devemos negligenciar o uso de tais instrumentos, visto que dados por Deus. Entretanto, é necessário que o pregador não se distancie da Palavra, e nem analise-a de forma fria e descomprometida.

Tal conteúdo é nada mais nada menos do que a própria literatura de Deus, que nos transmite Sua presença e ação poderosa, de forma que é objetivo da pregação bíblica transmitir a mesma presença e ação poderosa do Senhor aos homens que estão ouvindo. Portanto, a bíblia não é apenas útil na pregação, conforme Knox, mas absolutamente indispensável.

O autor define a pregação bíblica por quatro pontos: (1) mantém proximidade com as ideias bíblicas essenciais; (2) se preocupa com o evento principal das Escrituras. Jesus Cristo; (3) dá respostas e nutre a vida essencial da Igreja; (4) a mensagem pregada é recorrente, e se repete na vida dos ouvintes e pregador.

Em seguida, o autor aborda a relevância da pregação bíblica, que deve ser aquela não apenas comprometida com o contexto do texto bíblico, mas também com o contexto presente, interrelacionando autenticidade histórica e relevância. Neste ponto, John Knox apresenta a importância de haver equilíbrio, para que o pregador não se torne nem desconexo com a sua realidade, e nem descontextualizado ao período bíblico.

Knox informa a necessidade de que para um texto seja utilizado, o pregador tenha conhecimento acerca do seu sentido original, pois o sentido básico do texto bíblico é o seu significado histórico. E, ainda que de fato possamos afirmar que as palavras dos autores bíblicos são mais fecundas do que o próprio conhecimento deles, Knox afirma que o principal autor dotado desta característica é o próprio Jesus Cristo. O problema é que não há como alegar que as palavras de Jesus são mais fecundas do que o seu próprio conhecimento, uma vez que Cristo é a própria revelação, e por diversas vezes demonstrou saber extraordinário e autoridade.

Ato contínuo, o autor informa que pregação é ensino, e que todos os apóstolos eram professores. Faz, entretanto, uma distinção entre profetas e professores, ao definir que nem todos os professores eram profetas, embora todos os profetas fossem professores.

Knox acerta ao defender que nem todos os assuntos, por mais edificantes que sejam, devem ser conteúdo de sermões. Os sermões precisam ter como característica a pessoalidade, consubstanciado pelos conhecimentos, preparo, personalidade e devoção daquele que ministra o conteúdo. Portanto, o sermão pode ser definido como expressão humana.

Essa ênfase na pessoalidade acaba se direcionando para o caráter de culto da pregação. Há uma ligação íntima e necessária entre pregação e culto, uma vez que o sermão é uma oferta a Deus, desde o preparo disciplinado até a exposição diante da congregação com temor e tremor. Conforme bem apontado pelo autor, é  no momento da pregação que o cristão sente de forma mais aguda a sua fraqueza, vazio e pecado.

Por fim, o autor encerra o seu texto definindo a pregação como um sacramento, tomando como base o fato dela também se caracterizar como uma oferta a Deus.

Assim sendo, com base no Novo Testamento, pode-se inferir que a pregação é também ação do Espírito Santo e dom espiritual. Segundo John Knox, à semelhança da Eucaristia, quando o pregador está proclamando o sermão, não há apenas palavras sendo ditas, como toda a ação descrita está sendo novamente efetuada para os ouvintes. Isso entra em concordância com o ensino de Knox ao declarar que a mensagem do evangelho é recorrente.

Conclui-se, portanto, que a pregação bíblica é aquela que mantém a integridade dos seus aspectos. É dotada de vida, poder, e ação direta do Espírito Santo, através de servos que vivem a própria mensagem pregada.




quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Resenha do Livro: Reino de Deus e Desenvolvimento Social: Uma perspectiva Latino Americana


Depois de meses sem postar nada, eis-me aqui! A razão é que, embora eu esteja lendo mais e produzindo mais textos do que nunca, todos eles são para o seminário. Eu sequer tenho tempo de publicá-los aqui! Pra piorar, tentei mudar a plataforma do blog, e acabei perdendo tempo na Wordpress.
Para mim é um grande prazer (e também uma grande responsabilidade) escrever o presente artigo! O Fábio foi meu mentor durante o tempo que trabalhei num projeto chamado "Papo Alternativo", mas isso não me impede de colocar um olhar crítico de estudante na obra dele!
A questão é... O LIVRO É BOM DEMAIS! O Reverendo Fábio explica de forma clara acerca do seu tema, muito pertinente para nós. Afinal, hoje em dia qualquer proclamação de justiça social é chamada de pauta de esquerda. O problema é que tem gente de má-fé que de fato alega que o evangelho tem espectro político, só pra atrair essa nova geração que graças a Deus começou a olhar com mais carinho para os hipossuficientes do nosso tempo!
A definição acerca do que vem a ser o Reino de Deus pode variar bastante de cristão para cristão, de forma que a obra do autor Fábio Macedo visa estudar as implicações presentes e futuras deste reino. Entre pontos de vista extremamente futuristas ou de aplicação exclusivamente histórica, o autor busca expor o quanto esse Reino é presente, histórico e experimental, sem perder seu caráter espiritual e mesmo escatológico.
O autor traz as concepções bíblicas acerco do tema, desde o Antigo Testamento, elucidando que a própria criação do cosmos aponta para o reinado de Deus, na medida em que Ele não apenas criou todas as coisas como as sustém pela eternidade. Toda a criação sempre estará sujeita ao Seu poder. Deus é considerado como o Rei acima de todos os reis e deuses, como o governador do mundo. Quanto às expectativas messiânicas, o autor aborda exemplos em todo o Antigo Testamento de ações e personagens que prefiguraram a obra que Cristo haveria de realizar.
Quando o autor declara que as expectativas do Reino de Deus cumprem-se na Pessoa de Jesus, do Seu ensino, sinas e prodígios, deixa claro que o reino messiânico vai além do Reino eterno que aguardamos no fim dos tempos. Isso porque o Reino de Deus apontado nos evangelhos, conforme comprovado pelo autor, demonstra não apenas uma realidade escatológica, como também uma realidade presente.
Há diversas passagens que evidenciam um reino futuro, e outras tantas que o apresentam como parte da realidade do povo cristão. O autor esclarece de forma brilhante que, quando declaramos que o reino de Deus está em nós/entre nós, declaramos que Cristo Reina em nossas vidas. Reinando entre sua igreja perseverante, o reino de Deus não deixa de existir de forma invisível e intangível; mas também não deixa de mudar a realidade visível e se manifestar em coisas tangíveis. Para ressaltar que o Reino de Deus é tanto uma realidade quanto uma expectativa, o autor nos lembra que o conceito de eternidade não apenas como algo que não tem fim, mas também como uma realidade sem começo, sempre existente.
Portanto, quando dizemos que o Reino de Deus é eterno, declaramos que Cristo não se tornará o Rei apenas no fim dos tempos, mas que Ele reina sobre todas as coisas no tempo presente. Não apenas sobre a vida de todos que nEle crêem, como também daqueles que negam-lhe a fé, por ter recebido o nome sobre todo nome. Entretanto, sendo a realização da vontade de Deus, o Reino não está perfeitamente realizado nesta era, visto que parte da vontade de Deus está reservada para o fim dos tempos.
É certo que no curso da história essa visão de Reino foi desconsiderada. A teologia do século XIX, com o seu Jesus histórico, tornou irrelevantes quaisquer referências a um Reino futuro. A idéia do evangelho social era estabelecer o reino presente, que consiste em fazer a vontade de Deus na terra.
O autor também destaca a forma como a visão do Reino de Deus afeta a missão da igreja. Trazer o Reino de Deus como uma perspectiva presente e futura nos incita a praticar o bem e a justiça social, mas também nos dá esperança e forças para seguir a caminhada. A autoridade do Rei se manifesta para a igreja, seu poder transforma a realidade humana, a igreja revela e aponta para o Rei, realizando a sua missão. Um ponto de destaque se dá pelo esclarecimento do autor de que a vida eterna não é outra vida, mas a vida presente, ressurreta na vida de Cristo. A vida eterna é a nossa vida projetada para a eternidade, sem descontinuidade desta existência para a que está por vir.
Assim, o terceiro capítulo da obra é dedicado a demonstrar como o Reino de Deus transforma a sociedade. O Reino gera uma consciência transformadora e histórica, que nas palavras do autor “revela uma práxis que afeta diretamente nossa postura social, política e religiosa” sem deixar de ser uma realidade transcendente e eterna. Vemos esta visão refletir na Teologia da Libertação e suas influências na América-latina, na qual a realidade do Reino está diretamente ligada à transformação social, com respostas práticas à questões concretas como fome, justiça, racismo e outros temas.
As reflexões acerca da transformação social culminaram na Teologia da Missão Integral, pela qual o evangelho deve ser levado a todos os homens, e ao homem todo. Com isto, define-se que tanto os aspectos físicos quanto os espirituais do homem devem ser levados em consideração. O homem passa a ser considerado em sua integralidade, de forma que o autor defende a necessidade de se fazer teologia que leve em consideração a população Latino-Americana e suas demandas. Também ratifica a necessidade de compreender nossa cultura para realizar a missão de forma mais eficaz.
Isso é fato! É falta de senso só orar pelo que tem fome, se você tem comida para oferecer! Não to falando de dar o que vai lhe faltar, mas de ter condições de atender a demanda do outro e não fazer! Não adianta só pregar que o homem deve deixar seus vícios, se ao menos não tentarmos ensiná-lo como fazer isso! No mínimo encaminhar as pessoas em direção a quem possa efetivamente ajudar!
O autor conclui a obra abordando a relação da Igreja com o Reino de Deus, ressaltando que no Novo Testamento a igreja é compreendida como comunidade do Reino, sem, entretanto, ser confundida com o mesmo. Ela é agente e testemunha do Reino celestial.
Desejo tudo de bom ao Reverendo Fábio Macedo! Se a igreja dele aplicar tudo que o livro ensina, poderei descansar que há uma igreja séria cuidando das pessoas!


terça-feira, 10 de abril de 2018

Posso/Devo beber? O cristão e o álcool.

E aí gente, beleza? Pra quem acompanhou meus dois artigos sobre os presbíteros, devem saber que deixei a questão do consumo de bebida alcoólica para um artigo individual. A razão disto é porque o assunto tem muita discussão, e, se por um lado não é uma questão fundamental do Cristianismo, por outro lado, não merece o tratamento leviano e as ponderações descuidadas e por vezes sem fundamentos com as quais o tema é abordado.



Correntes

Quando um cristão é questionado acerca do consumo de bebidas alcoólicas a resposta não é unânime. é bem capaz de encontrarmos numa roda de amigos da igreja ao menos um que defenda uma das três posições abaixo:

Proibitivo: um cristão de posicionamento proibitivo vai defender não apenas a abstenção do vinho, como também a proibição nas Escrituras.

Abstêmios: um cristão abstêmio (eu por exemplo) reconhece que não há um imperativo proibitivo para o consumo de bebida, mas desencoraja o consumo. Um abstêmio jamais afirmará que a bíblia proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, mas nem por isso ele irá beber, em consideração ao potencial negativo do consumo de bebidas.

Moderado: um cristão moderado é aquele que não só afirma que a Palavra não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, como também consome.

Logo, há três possíveis resposta no seio da igreja. Qual será a correta? Há uma correta?

Onde a bebida alcoólica aparece na bíblia?

A bebida alcoólica aparece na bíblia  em diversas passagens que informam o consumo do vinho. E, caso analisemos as palavras originais traduzidas para vinho (seguindo um estudo do tema proposto por John MacArthur), todas elas dizem respeito à bebidas fermentadas, de teor alcoólico.

No Antigo Testamento, temos a ocorrência do termo yayin, o qual não diferencia nem o vinho velho, nem o novo, nem o suco de uva. Ou seja, embora alguns aleguem tratar-se de tradução para suco ou extrato não fermentado de uva (como em Jeremias 48:33), isto não estará correto em todos os casos. Por exemplo, em Gênesis 9:21, Noé bebeu vinho a ponto de embriagar-se e ficar nu. 

Há também a ocorrência do termo shekar, que pode ser traduzido como "bebida forte", e é oriundo do verbo shakar, que significa "embebedar-se". Ora, se o vinho não possui teor alcoólico, por que a raiz da palavra é o termo referente ao consumo de bebida capaz de embriagar um homem? O que seria "bebida forte", senão a bebida com teor alcoólico?

Há também o uso da palavra tirôsh, referente a sucos doces e mostos, sendo associado ao suco de uva não fermentado. Ora, se há uma palavra no Antigo Testamento que especificamente aborda o suco de uva não fermentado, seria hipocrisia ou tolice afirmar que todas dizem respeito a suco de uva sem teor alcoólico.

A discussão sobre o consumo de bebida alcoólica no Antigo Testamento tem fim no uso de yayin e shekar no mesmo versículo, hipótese na qual referem-se à vinho totalmente fermentado, como em Isaías 28:7. Ora, até o presente momento eu nunca vi um homem cambalear tomando suco de uva!

Já no Novo Testamento, o termo original em grego seria oinos, que  não faz distinção entre o vinho no início da fermentação (Marcos 2:22 - o vinho recém produzido é posto nos odres), o vinho fermentando (Marcos 2:22 - o início da fermentação faz os odres se romperem) ou já fermentado (Lucas 1:15). 

Também há o termo sikera, que diz respeito a "bebida forte", correspondente ao hebraico shekar.

E o que podemos dizer sobre o vinho na Palavra?

Antes de mais nada, é importante dizer que mesmo o dito "vinho novo" pode ter teor alcoólico, visto que a fermentação é um processo quase que imediato. Ocorre que para os homens, o "vinho velho" era considerado bom, em razão da elevada fermentação (Lucas 5:39). Há quem diga, neste sentido, que o vinho que Jesus produziu em seu milagre nas bodas seria fermentado!  Seria costume dar o vinho mais fermentado no começo (o bom!) e quando todo mundo já estava embriagado, davam o vinho novo, pouco fermentado. É certo inclusive afirmar que o vinho que é muito diluído nem mesmo é elogiado, conforme podemos inferir em Isaías 1:22. 

Fica difícil para os que dizem que o vinho da bíblia não possui teor alcoólico sustentar essa posição quando nos deparamos com passagens como Salmos 104:15, que faz alusão ao efeito de contentamento do consumo de bebida alcoólica, ou Provérbios 31:6, que recomenda vinho aos amargurados de espírito.

O vinho é vinculado também à tratamentos médicos (1 Timóteo 5:23), como antisséptico ou lenitivo para dores estomacais.

E, para os que dizem que o vinho é algo proibido, abordando a bebida como uma espécie de coisa impura e do diabo, tal posição carece de fundamento quando vemos a bebida ser oferecida nas ofertas ao Senhor, como em Êxodo 29:40 e Números 15:5.

E qual o erro dos proibidores?

Das três posições, eu consideraria a dos Proibidores a única incorreta. Afirmar que a Palavra proíbe o consumo de bebidas, diante de todas as informações acima é ir além do que a Palavra nos ensina. A Palavra de Deus é: inerrante, autoritativa e condena expressamente o abuso do álcool.

Se a Palavra de Deus não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, ao afirmar o contrário, o cristão coloca em xeque a inerrância das Escrituras, visto que dispensa tratamento diverso ao assunto, como se Deus houvesse errado ou se omitido ao não proibir o consumo. Também afronta a autoridade das Escrituras, ao impor a própria autoridade sobre a de Deus, impondo uma regra de fé e prática que a Palavra não exige, em semelhança aos líderes judeus que impunham a tradição.

Em passagem alguma vemos uma ordem para que o cristão em nenhuma hipótese beba vinho! A Palavra não condena o uso, e sim o abuso do consumo de bebidas. 

Como argumento, peguemos os versículos de I Timóteo 3 e Tito 1, que traz como requisito que o candidato "não seja dado ao vinho". Essa expressão vem da palavra paroinos, que pode ser traduzida como "colocar-se ao lado", ou seja, dizia respeito ao homem que sentava-se junto ao odre pra beber, de forma que seu copo estava sempre cheio e sua tendência era embriagar-se. 

O abuso do álcool usurpa a consciência e discernimento do homem, que precisa estar no controle de suas faculdades. Um bêbado se entrega às paixões e não discerne sequer a própria vontade! Quem dirá a de Cristo então? Falta-lhe lucidez e domínio próprio! Por esses e outros motivos, a embriaguez é condenada por Deus!

Ah, Pedro, mas o vinho era misturado com água!

De fato era! Pisado no lagar e desidratado até virar uma pasta, que era diluída em água para o consumo! Isso é verdade! Mas quem disse que isso tira o teor alcoólico de uma bebida?

A verdade é que TODA BEBIDA É MISTURADA COM ÁGUA! Toda bebida alcoólica leva água na composição, o que muda é a concentração de álcool!

A Escala Gay Lussac é responsável por determinar o teor alcoólico de uma bebida, medindo-se a razão de mililitros de álcool por 100ml da composição.

Só a título de exemplo, a cada 100ml de água na cerveja, há entre 5% a 9% de álcool! A aguardente tem entre 38% a 54%; a cachaça tem 38% a 48%, e por aí vai!

Mas e o vinho? O vinho tem entre 11% a 14% de álcool! Sobre a alegação da pasta ser diluída em água, cumpre ressaltar que dependendo do grau de diluição, as vezes o vinho não chegava nem a 3% de teor alcoólico! Mas mesmo assim, não dá pra dizer que não tinha álcool! Daí se entende a expressão "dado ao vinho" com mais clareza! Pro cara se embriagar com um vinho bem diluído, ele tinha que beber muito, ou seja, sentava-se junto ao vinho!

Caso semelhante no nosso tempo, quando a Ambev foi multada por dizer que sua cerveja Kronenbier era sem álcool, só por estar abaixo do percentual adotado para considerar uma bebida como alcoólica, mas havia uma porcentagem de álcool ainda menor que a deste vinho muito diluído!

E qual o dilema dos Moderados?

Eu não posso afirmar que os moderados erram, mas posso afirmar que eles vivem em grande dilema, de forma que ainda creio que a abstenção é o melhor caminho. Primeiro pela facilidade de se embriagar que nós temos hoje em dia, pois, como vimos acima, a bebida alcoólica que a Palavra apresenta é bem diferente da que temos hoje em dia! São bebidas com até o triplo do teor alcoólico dos vinhos e licores. A lógica é que bebidas mais fortes embriagam mais rápido!

Fica muito difícil apurar o momento em que a embriaguez torna-se um problema, visto que não há um parâmetro objetivo para dizer "Eu estou embriagado", bem como haver fatores externos que dificultam o impulso de parar, como por exemplo, o sabor da bebida; e fatores que facilitam a embriaguez, como consumir a bebida em jejum; e fatores biológicos como sexo (as mulheres ficam bêbadas mais rápido), idade ou ser obeso ou estar acima do peso.

Ainda tem o dilema jurídico! Quando a embriaguez é pecado, se, juridicamente falando, os efeitos do álcool como contentamento e relaxamento citados alguns parágrafos acima podem pressupor o primeiro estágio da embriaguez?  Nas aulas de Direito Penal, a fim de trabalhar a embriaguez como excludente de culpabilidade, minha querida professora me apresentou uma comparação antiga, onde três estágios da embriaguez são representados por três animais!

Segundo a comparação, o primeiro estágio é a euforia, representada pelo macaco, em razão de ser um animal saltitante e hiperativo, que representa o homem no início da embriaguez, quando fica eufórico, alegre e brincalhão! Neste estado, ele ainda conserva a sua consciência, mas já está sob os efeitos do álcool! Nossa tendência é considerar a embriaguez apenas a partir do segundo estágio, representado pelo leão, para retratar as mudanças temperamentais geradas pela bebida, por ser a fase, por exemplo, onde, já não tendo domínio de suas faculdades, o homem torna-se agressivo e suscetível. O terceiro estágio então nem se fala! Representado pelo porco, o homem já está na lama! Diz respeito ao ápice da embriaguez, caracterizada pela inconsciência e perda total das faculdades!

Ora, se para medicina legal e para o Direito os efeitos do álcool na primeira fase da embriaguez e antes dela são os mesmos, como posso saber se já não estou embriagado, ainda que consciente?

Outro dilema seria o escândalo, hipótese na qual Paulo apresenta o princípio da abstenção para não contaminar a consciência de irmãos considerados mais fracos. Ao abordar o consumo de carne sacrificada a ídolos, Paulo informa para os irmãos que têm consciência de que comer ou não não fará diferença, mas, se um irmão fraco ver o consciente comendo e isso lhe for razão de escândalo, isso se torna um pecado contra Cristo (I Coríntios 8). Assim como a carne, se a bebida escandalizar meu irmão, o correto é que eu não beba mais.

Uma forma apresentada pelos moderados de evitar essa abstenção é o consumo de bebidas em casa, sozinho ou com outros irmãos também moderados, para não haver o risco de um irmão fraco passar e ver!



O que seria a potencialidade negativa para um Abstêmio?

Como um abstêmio, além da questão do escândalo, eu, Pedro Silva Drumond, peco contra minha consciência se consumo álcool, pois, embora saiba que não é proibido, não me sinto bem, por ligar a bebida ao meu velho homem. Logo, se não peco contra a consciência de outrem, peco contra a minha.

Além disso, o consumo alcoólico é potencialmente lesivo, se considerarmos o risco de alcoolismo, e do ponto de vista médico legal, o aumento das possibilidades de cometer-se um ilícito penal sob efeito da bebida.

Outrossim, fica muito complicado você mostrar para um homem que a vida toda foi alcoólico, e que quer lutar por amor a Cristo e renovação de vida, que o consumo de álcool é lícito. É como colocar um hipocondríaco perto de uma bula de remédio e pedir para ele não ler! Esse homem precisa encontrar na igreja o que não encontrou no mundo, e não o contrário!

E por incrível que pareça, ainda temos que lidar com a ideia de falsa aceitação e tolerância ao mundo que o consumo de álcool propõe, quando na verdade este mundo e seus ideais não tem conformidade com os nossos! Só como exemplo, minha maravilhosa e incomparável mãe (os elogios são porque sei que ela vai ler e depois reclamar que falei dela) que, ao receber uma garrafa de cerveja artesanal que comprei para ela experimentar, pois sabia que ela gostava, quis logo postar nas redes sociais da seguinte forma: "Presente do meu filho crente", no sentido de que as pessoas me vissem como um cara tolerante, mas que também poderia ser mal interpretado como um cara anuente! Para mim foi uma lição de que eu não sou apenas filho, ou estudante, ou homem simplesmente; eu sou cristão! Filho cristão, estudante cristão, trabalhador cristão, homem cristão. Tudo que eu fizer, por mais inocente que seja aos meus olhos, vai refletir na forma como o mundo verá o cristianismo!

Além disso, eu também vejo um padrão no qual homens separados para Deus deveriam se abster do vinho, ainda que em caráter temporário! É o caso dos nazireus (Nm 6:2-6), sacerdotes em exercício (Lv 10:8-11), reis (Pv 31:4-5) e mesmo o caso de João Batista (Lc 1:15), Estes homens não deveriam consumir bebida alcoólica, e eu, como embaixador de Cristo, separado para Deus, missionário em tempo integral (tudo fora da igreja é um campo missionário), tenho essa regra para mim não como um peso da lei, mas como uma decisão de amor à Deus e ao meu próximo.

Conclusão

O consumo de bebidas alcoólicas não tem proibição na bíblia, recomendando-se moderação caso opte por beber. Há, ainda, recomendações para não consumir, se isso for escandalizar seu irmão e ser causa de tropeço para ele! Considerando todos os contras do consumo de bebidas, opto pela postura de abstenção.

Observação:

Consumir bebidas alcoólicas aumenta as chances de ouvir Pablo, Maiara e Maraísa ou Wesley Safadão, e, por mais esta razão, não recomendo o consumo de bebida alcoólica!

Eeeeeeh sofrência!!!


Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...