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sábado, 29 de julho de 2023

Jesus e a mulher samaritana - Parte 03 (João 4:27-38)

E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela?

Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens:

Vinde, vide um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?

Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele.

E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come.

Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.

Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?

Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.

Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.

Lucas 4:27-38




Os discípulos que haviam saído para comprar comida retornaram do mercado e se surpreenderam de encontrar Jesus conversando com uma mulher. A razão pela qual os discípulos ficaram surpresos já foi apresentada nos sermões anteriores, podendo se considerar não apenas o fato de Jesus estar falando publicamente com uma mulher, mas também pelo fato de sendo ele um mestre judeu, estava conversando com uma samaritana. Entretanto, nenhum deles se dispõe à questionar o mestre sobre o que falava com ela ou qualquer coisa do tipo.

Precisamos compreender que os discípulos também eram judeus, sendo razoável compreender que suas relações com os samaritanos também não fossem além das relações comerciais e estritamente necessárias. Por outro lado, ver Cristo dialogando publicamente com uma mulher samaritana ia muito além do que poderia ser considerado normal.

Entretanto, naquele momento nenhum dos discípulos se arrisca a fazer qualquer questionamento, mesmo que as ações de Jesus levantassem curiosidade. Pode ser que naquele momento os discípulos tenham se dado conta que o Senhor sentar-se para conversar com uma mulher samaritana era tão inesperado quanto que ele escolhesse para seus discípulos um pescador e um cobrador de impostos. Tão inusitado quanto confiar o tesouro do evangelho para homens pobres e incultos, ao invés de trazer para seu lado fariseus e doutores da Lei.

Já de início temos a primeira lição: Muitas vezes ao caminhar com Cristo nos deparamos com questões e situações que não somos capazes de compreender. 

Nestas oportunidades, devemos agir da mesma forma que os discípulos, e com extrema humildade aguardar até que o Senhor decida nos revelar a Sua sabedoria e nos iluminar com o entendimento vindo do Espírito Santo. 

Há mesmo na própria Palavra passagens e trechos que num primeiro momento podemos ser incapazes de compreender, ou até mesmo ficar chocados com relatos como o de filhas que embebedaram seu pai para terem filhos, povos inteiros sendo dizimados, profetas sumonando ursas para atacar jovens ou coisas do tipo. 

Neste momento, a barbaridade dos relatos bíblicos, a extensão de fé que é esperada do cristão diante de situações complexas ou mesmo situações que nos expõem à risco de morte podem nos causar indignação. Entretanto, conforme pedimos orientação ao Espírito Santo e maturidade e humildade para nos submetermos à Palavra, percebemos que aquele primeiro choque decorre, na verdade, da nossa própria incapacidade de pensar à luz da Palavra e pela falta de experiência na vida cristã.

Ao mesmo tempo em que os discípulos estão retornando, a mulher sai imediatamente em direção à cidade da qual eles haviam acabado de chegar. A resposta da mulher à afirmação de Jesus de que Ele era o Messias foi a imediata fé, da qual não decorreu qualquer resposta ou pronunciamento apaixonado. A maior demonstração de uma fé genuína foi a vontade imediata de partilhar as boas novas que havia acabado de receber.

Eis a segunda lição: devemos ter o mesmo zelo evangelístico que a mulher samaritana. 

Importante ressaltar que a única coisa que aquela mulher ouviu da parte de Jesus é que Ele era o Messias. Jesus não havia ensinado nada como fizera no sermão da montanha, não explicou para aquela mulher o Pentateuco que ela possuía, não abordou as grandes profecias do Antigo Testamento acerca da Sua vinda. Ele havia apenas declarado para aquela mulher quem Ele era, e para ela, que havia acabado de testemunhar o Seu poder, foi o suficiente.

Aquela mulher então parte em direção à cidade, e convida aos demais a testemunhar da presença santa de Jesus Cristo. Ela não se presta a tentar convencer qualquer homem acerca de quem Cristo era, e os convida para desfrutar da presença do Mestre e desenvolver um relacionamento pessoal com Ele, dando o testemunho de tudo que Jesus havia revelado sobre a vida dela, demonstrando Seu próprio poder. 

Aquela mulher não tinha qualquer instrução para dar, e para piorar, era detentora de um passado sórdido, e provavelmente conhecido por toda a cidade. Não era só mulher, o que por si só já descredenciaria a sua palavra; mas também era adúltera, o que fazia dela uma pessoa socialmente reprovável, e até mesmo passível de apedrejamento.

As nossas limitações podem nos impedir de entrar em debates teológicos e nos fazer perceber que somos incapazes de convencer alguém acerca da existência de Deus e da divindade de Jesus Cristo. E de fato, nós somos incapazes. As pessoas podem zombar de nós por nosso passado e história, e até mesmo tripudiar tudo aquilo que nós falamos simplesmente por ter sido dito por nós mesmos. Da mesma forma que a mulher samaritana poderia ser desconsiderada por ser uma mulher adúltera, podemos ser desconsiderados por sermos ex-traficantes, ex-adúlteros, devassos, maliciosos ou criminosos. Nem por isso podemos nos acovardar e deixar de pregar a Palavra. Se nossa própria regeneração não é suficiente para apontar Jesus para uma pessoa, façamos como a mulher samaritana, e convidemos as pessoas a elas mesmas terem contato com Jesus.

Aquelas pessoas então vão em direção à Jesus, diante do anúncio da mulher samaritana de que Ele era o Messias esperado. Neste meio tempo, os discípulos solicitam a Jesus que pare o que estava fazendo para se alimentar. Até aquele momento Jesus não havia se alimentado, e possivelmente não havia matado a Sua sede, tendo em vista que a mulher samaritana deixou seu cântaro e correu para cidade. 

A resposta de Jesus foi que Ele tinha comida para se alimentar naquele momento, mas os discípulos não conheciam. E de fato os discípulos não compreendiam o que Jesus falavam, tendo em vista que ficaram se questionando se alguém havia levado comida para eles enquanto estiveram fora, e por isso não era mais necessário comer. Nesse momento, Jesus os responde que a comida dele era fazer a vontade do Pai e realizar a obra à qual seu ministério estava proposta.

Jesus está  nos dando a terceira lição: Fazer a vontade de Deus é uma necessidade maior do que as nossas próprias necessidades pessoais. 

Jesus não está impondo aos seus discípulos que fizessem rigorosos jejuns de comida ou bebida, nem estava estabelecendo que deveriam ficar sem comer. Jesus está mostrando para seus discípulos que a necessidade dos samaritanos era espiritual e urgente, enquanto as dele eram secundárias. Como humano, Jesus poderia ficar dias sem comer ou beber, como outrora fizera no deserto enquanto fora tentado por Satanás, sem com isso morrer. Os samaritanos, por outro lado, estavam mortos em delitos e pecados, e precisavam urgentemente nascer de novo. Os discípulos queriam que Jesus deixasse aquelas pessoas esperando enquanto ele comia, mas para Jesus, alimentar espiritualmente as  pessoas era mais importante. 

Precisamos ter esse senso de urgência que coloca a missão do cristão acima das suas volições e anseios. Na prática muitas vezes vemos o chamado cristão para o evangelismo e pregação ser colocado de lado em decorrência de necessidades aparentemente mais urgentes como trabalhar, concluir uma carreira acadêmica, gerir nossos relacionamentos pessoais, ter momentos de lazer, etc.

É para nos fazer refletir o que é mais importante quando estamos a caminho de um passeio no fim de semana e recebemos uma ligação de uma pessoa precisando da nossa companhia; para refletir quando separamos dinheiro para pedir uma pizza e tomamos conhecimento das necessidades de um missionário; ou aquele momento em que estamos atrasados ou apressados para qualquer coisa e uma pessoa em situação de rua pede nossa atenção. Você para, olha a pessoa nos olhos enquanto ela fala, mesmo sabendo que muitas vezes ela só quer pedir dinheiro? Ou então você a interrompe com rispidez ou joga dinheiro imediatamente em suas mãos, como se fosse essa a única necessidade daquela pessoa?

Certa vez presenciei durante um culto a entrada de um morador de rua na igreja, e durante a ministração do louvor um dos cantores que estava no púlpito pediu para demonstrarmos nossa alegria e comunhão através de cumprimentos e abraços. Entristeci-me ao constatar que mesmo as pessoas na mesma fileira de cadeiras daquele senhor não se dispuseram sequer a apertar a mão daquele homem. 

Via-se que não era "só mais um bêbado", pois o homem estava lúcido, não cheirava a álcool, mas apresentava mal cheiro intenso, e percebia-se não só pelo odor como aspecto que ele de fato habitava nas ruas. Ele estava na última fileira da igreja, eu na terceira, e me desloquei até ele, apertei sua mão, olhei nos seus olhos e perguntei seu nome. Ele, com extrema alegria me disse seu nome... Gustavo. Então ele agradeceu por eu ter perguntado o nome dele, sorriu, e o culto seguiu normalmente.

E se minhas roupas tivessem sujado? - Em casa eu as poderia lavar.

Ele estava sujo, poderia me contaminar com alguma bactéria ou vírus. - Eu poderia discretamente lavar as mãos em algum momento, sem levá-las à boca ou olhos.

Eu poderia ficar fedendo? -  Dificilmente, mas caso ocorresse, seria por muito pouco tempo comparado àquele homem.

Mas aquele culto poderia ser a última oportunidade daquele homem experimentar o calor da comunhão do corpo de Cristo. Poderia ser a oportunidade dele sair dali quebrantado pela Palavra e pelo acolhimento, ao invés de sair decepcionado, nos acusando de tratá-lo como se fosse menos humano que qualquer um. A necessidade daquele homem era maior do que qualquer coisa que nós pudéssemos alegar para nos mantermos afastados dele naquele momento.

Isso se confirma pela afirmação de Jesus, ao comparar o que estava ocorrendo com a ceifa que estava para acontecer. O tempo de ceifar as colheitas estava previsto para ocorrer daqui há quatro meses, e Jesus se aproveita disso para chamar a atenção dos seus discípulos.

Neste momento ele nos traz o quarto ensinamento: O tempo da colheita é agora.

Enquanto eles esperavam quatro meses pela colheita, ela já estava pronta para ser realizada. Jesus estava dizendo que a sua fome era de realizar a vontade do Pai, a semente que havia sido lançada no coração daqueles samaritanos já estava pronta para ser colhida naquele momento. Aquela era a hora de pregar o Reino de Deus e promover os batismos. 

A mensagem da mulher samaritana não demandaria meses para surtir efeitos, através do ensino da Palavra programático, de enviar um discípulo para passar meses com os samaritanos... O momento era aquele. Aliás, a semente em si já fora plantada desde o Pentateuco que os samaritanos consideravam como texto bíblico. A chegada de Jesus em Sicar era o momento da colheita dos frutos decorrente da Lei que previa a vinda do Messias. Quando Jesus declara que Ele era o Messias, estava realizando a colheita decorrente da semente plantada na Palavra. 

E o que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem.

Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa.

Eu vou enviei a ceifar onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.

Por fim, Jesus nos dá o quinto ensinamento: a função dos seus discípulos deve ser pregar o Reino, vejam o resultado ou não.

Quando Cristo declara que seus discípulos ceifam o que não plantaram, Ele está declarando a verdade do Evangelho pela qual compete a cada cristão pregar Jesus Cristo, e ter isso como sua única preocupação. Os discípulos estavam colhendo os frutos da pregação da Lei e dos profetas, e nós, hoje, colhemos os frutos que muitas vezes não fomos os responsáveis por plantar. Eles continuaram o trabalho que não haviam começado, e nós também fazemos isso.

Jesus também está falando sobre galardão que é ajuntado para vida eterna, deixando claro que tanto aquele que semeia quanto aquele que colhe se regozijam  nos frutos para vida eterna. O galardão portanto é apresentado como um benefício dado por Deus aos homens por sua graciosa vontade de ser abençoador e galardoador daqueles a quem ama. Não há uma distinção entre quem planta e quem  colhe, e no fim das contas, todos devemos administrar nossos talentos com dedicação e alegria.





quinta-feira, 6 de abril de 2023

Uma Páscoa para recordar a segurança que só Cristo concede

A Páscoa é uma data comemorativa para nós, cristãos, de extrema importância e complexidade. Ela é capaz de gerar os mais variados sentimentos naquele que reflete o que a Palavra registra sobre a morte e ressurreição de Jesus Cristo. O nosso Senhor, o Filho de Deus, levou sobre si as nossas dores e transgressões, sofrendo castigo que estava reservado para cada um de nós. Os últimos capítulos do evangelho de Mateus relatam a história do martírio de Jesus em nosso lugar, e a grande questão que fica é: como recordar com alegria e reverência uma data tão especial para nós, mas que envolve tanto sofrimento do nosso Senhor?

Jesus deixa para nós o verdadeiro exemplo de que a vida também é composta de momentos nos quais sorrimos e nos alegramos em meio ao sofrimento e ansiedades. São os sorrisos ensombrecidos que somos capazes de dar durante um momento de muita angústia. Quando somos capazes de nos contentar, mesmo que infimamente, em meio a lágrimas e tristezas. Na véspera da sua traição, tortura e morte, Jesus ceiava na companhia dos discípulos que amava; eu meio a dores físicas e emocionais ele conseguiu olhar com amor para sua própria mãe; e mesmo sob zombaria, ele clamou ao Pai pelo perdão daqueles que só desejavam a sua morte.

Relembrar o sofrimento de Jesus é sempre um motivo de muita tristeza, mas pensar que tudo ocorreu da exata forma como Ele determinou, e que tudo foi feito intencionalmente em nosso benefício torna a lembrança também um motivo de alegria. Pensar que tudo foi feito por misericórdia de amor é motivo para glorificar e se alegrar no Senhor!

São os pequenos detalhes que fazem toda a diferença! É dito que ele "entregou o espírito" (Mateus 27:50), Sua vida não foi roubada, e sim dada de boa vontade para nos dar vida. A morte foi apenas uma etapa do plano do Senhor, e após o terceiro dia o Senhor ressuscitou, tendo reaparecido para os seus discípulos, orientado eles e prometido que estaria conosco até a consumação dos séculos. Cristo foi o sacrifício definitivo para perdoar os pecados de todos os homens que depositam nEle a sua fé. 

Então podemos encarar a Páscoa como a oportunidade de recordar a segurança que só Cristo concede. Se seguirmos os exemplos do nosso Senhor Jesus, seremos capazes sim de sofrer imaginando as dores que Cristo levou em nosso lugar, mas, ao mesmo tempo, seremos capazes de sorrir sabendo que o sepulcro amanheceu vazio. 

Cristo é o Cordeiro Pascal, que foi ferido e moído por nós. O Cordeiro que levou sobre si a iniqudade e nossas dores, embora não tenha aberto sua boca, como um cordeiro levado ao matadouro (Isaías 53:4-7 c/c Atos 8:34-35. É o dia de recordar a segurança que só Cristo pode trazer, e compreender que a morte já foi derrotada, e que o sepulcro está vazio. Em Cristo nascemos novamente, e um dia estaremos  pessoalmente na presença dEle. Sem pecados ou sua influência. Apenas a alegria de se estar diante de Deus.

A Páscoa traz a lembrança do sofrimento, mas também nos traz alegria da salvação e o exemplo maior do amor de Deus. A lembrança da agonia do Senhor na cruz, e da esperança, surpresa e felicidade de encontrar o sepulcro vazio, e constatar que de fato o Senhor cumpriu a promessa que nos daria a vida eterna.


domingo, 2 de abril de 2023

O que dar a quem pode te dar tudo?

 Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam.

Hebreus 11:6


Constantemente eu me pego pensando no qual desequilibrada é a relação do cristão com Jesus. Entenda como equilíbrio o estado no qual ambos os lados possuem o mesmo peso, de forma que a balança não pende para nenhum dos lados. É uma relação desequilibrada no tocante as partes envolvidas, tendo em vista que de um lado temos o Deus Todo Poderoso, ilimitado em conhecimento, poder, autoridade, santidade, bondade; enquanto do outro lado temos um homem, pequeno, breve, inconstante e incapaz de agradar ao Senhor em seu estado natural e pecaminoso.

Mas essa relação também  é desequilibrada quando pensamos no próprio objeto da nossa relação com Deus. O preço da nossa vida, o perdão dos nossos pecados, a restauração da santidade verdadeira e nossa capacidade de viver plenamente felizes por toda a eternidade ao lado do próprio Deus que nos criou está de um lado da balança, enquanto do nosso lado há apenas fé naquele que é capaz de todas estas coisas. Em termos simples, Jesus nos diz: "Eu posso te dar tudo!"; e nós respondemos "Eu posso acreditar nisso!". 

Há de fato esse desequilíbrio, que nos levaria a acreditar verdadeiramente que estamos em constante dívida com o Senhor Jesus. Entretanto, a carta aos Hebreus, e mais especificamente seus capítulos 10 e 11 nos mostram que estamos errados! Acreditar que você está em dívida com Jesus é negar o que Ele mesmo fez por você, afinal, Ele é Deus, e morreu na cruz no seu lugar exatamente para que a dívida do seu pecado fosse quitada. E somente nesse caso poderíamos falar de equilíbrio na nossa relação com Deus, pois de um lado temos o Senhor pronto para receber o preço dos nossos pecados, e do outro o Filho de Deus com plena capacidade de quitar a dívida por nós.

A questão que fica é: O que podemos dar para Jesus, se Ele próprio é quem pode nos dar todas as coisas?

Podemos (e devemos), dar ao Senhor a nossa fé.

Não são poucos os versículos espalhados pela bíblia sagrada no qual o nosso Senhor deixa claro que o que Ele deseja de nós é a fé. Em João 6:35 o Senhor declara: "Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.". Em João 11:25 ele declara: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá". Então o que nós de fato somos capazes de dar a Deus é a nossa própria fé.

E dar a nossa fé não é apenas uma questão de sentimentos, pois dela depende a nossa própria salvação.  Os textos lidos acima deixam bem claro que é necessário ter fé no Senhor Jesus para que não haja mais fome e sede, e para que viva eternamente, ainda que morto. 

É impossível agradar a Deus sem fé em Jesus, pois a condição do homem sem a ação de Jesus Cristo na vida dele é de ser objeto da Ira de Deus. A gravidade dos nossos pecados faz com que não haja boa disposição do Senhor ao nos contemplar como criaturas rebeldes que diariamente vivemos como se Ele não importasse. 

É impossível agradar a Deus sem a fé em Jesus, porque antes de tudo é impossível estar diante de Deus e Sua santidade plena com a mancha dos nossos pecados. É preciso estar santificado e irrepreensível para estar diante de Deus, que é Santo.

Então o primeiro passo é acreditar que Ele existe

A mensagem sobre a fé não é sobre ter fé na humanidade, ter fé no nosso potencial para o bem, ter fé nas gerações futuras, e espiritualmente falando, nunca foi sobre ter fé com base em sinais e prodígios. Fé é desenvolver o conhecimento de Deus, acreditando que Ele existe, e, mais especificamente, caminhou entre nós, morreu por nós, ressuscitou por nós e ainda hoje intercede por nós junto ao Pai. É muito fácil para o homem acreditar que Jesus é uma figura histórica que marcou o mundo, deu bons exemplos e lições de como desenvolver a humanidade, mas isso não é tudo.

A verdade é que precisamos crer que Deus existe, e Jesus não era só um homem, mas também o próprio Deus conosco. Ele não pregava sobre o potencial do homem melhorar e conquistar a sua própria salvação, pelo contrário, ele sempre pregou o Reino de Deus, declarando a Si mesmo como o caminho, a verdade e a vida. Ele é categórico ao afirmar que NINGUÉM vai ao Pai senão por meio dEle. Ele não pede que os homens tenham fé na sua capacidade de fazer o bem e evoluir um tanto mais a cada geração que passa. Jesus ensina constantemente que é preciso depositar a sua fé no próprio Senhor, pois o mundo jaz no maligno.

O segundo passo é acreditar que Ele é galardoador daqueles que o buscam

O autor da carta aos Hebreus encerra o versículo sobre a impossibilidade de agradar a Deus dizendo não apenas que é necessário ter fé e acreditar que Deus existe, mas também que ele é galardoador daqueles que O buscam. Portanto é certo que Deus se agrada de você no seu reconhecimento das bênçãos que diariamente Ele o presenteia.

A fé é trabalhada não apenas como o acreditar que Deus existe, mas que Ele existe e cuida de você diariamente. É impossível agradar a Deus se você vive como se o Senhor estivesse distante, afinal, a fé não é liturgia e rito, e sim relacionamento. Quanto mais se conhece de Deus, mas fé nós desenvolvemos. É por isso que é impossível agradar a Deus sem uma fé que O reconhece como abençoador daqueles que O buscam, pois quanto mais próximo você está do Senhor, mais e mais você consegue ver as bênçãos dEle pra sua vida.

A fé compreende acreditar nas bênçãos do Senhor, porque o relacionamento do homem com Deus já começa com uma bênção, e a principal delas: a salvação. Se você não crê nessa bênção logo no começo, não vai conseguir ter fé e agradar ao Senhor. Jesus morreu na cruz te oferecendo o melhor e maior presente da sua vida. E não só te presenteou com essa salvação, como também com todas as demais coisas as quais você pode ser grato. Família, emprego, alimentos, proteção física, cura de doenças, felicidade, amor, etc. Você agrada a Deus reconhecendo que todas essas boas dádivas são presentes dEle para você.

Deus não quer apenas que você saiba que Ele existe, é Todo Poderoso e está irado com os homens pelos seus pecados. Muitas religiões acreditam na existência de uma divindade poderosa que abusa dos homens ou exige deles sacrifícios em troca de benefícios para aplacar a sua ira. Nosso amado Deus apenas exige que tenhamos fé na obra dEle em nosso benefício, e isso nos é imputado por justiça, como diz Romanos 4:3-5.

Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada por justiça.

Romanos 4:3-5

Você agrada a Deus tendo fé no que Ele fez por você, na Sua misericórdia contigo. Isso para o homem já é extremamente difícil, pois desejamos o controle e a certeza naquilo que fazemos. A salvação, por outro lado está totalmente fora do nosso controle, pois Cristo realizou toda a obra sozinho. Isso tira do homem o controle sobre o que de fato o leva para perto de Deus e o coloca na condição de uma criança totalmente dependente dos cuidados dos seus pais.

Então a resposta é simples: 

O que dar a quem pode te dar tudo? Apenas a sua fé. Acredite diariamente que Deus existe, e que Ele existe para você. Que as Suas misericórdias se renovam a cada dia. Que Ele te deu gratuitamente a salvação, e todas as demais bênçãos que você tem na sua vida. Agrade a Deus com fé, se aproximando e conhecendo mais dele, desenvolvendo um relacionamento mais íntimo com ele. Dê ao Senhor a única coisa que Ele exige de você.



sábado, 29 de outubro de 2022

Relacionamentos que edificam (Romanos 12:2)

 



"E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12:2

Quando lemos o capítulo 12 da carta de Paulo aos Romanos, vemos a sua exortação e apelo à igreja, para que seus irmãos em Cristo consagrem a sua vida a Deus. O capítulo, como um todo, é um apelo para que o filho de Deus seja humilde na sua vida cotidiana e reflita em como fazer o seu dia a dia neste mundo caído um exercício constante da busca pela vontade de Deus. A luz deste texto, precisamos falar de relacionamentos que edificam.

1º O seu relacionamento com Deus

Quando falamos de relacionamentos que edificam, não há como não começar pelo mais importante deles: o relacionamento com Deus. Este versículo nos ensina a necessidade de experimentar mais de Deus e Sua vontade boa, perfeita e agradável, e, na mesma medida, afastar-se do doce veneno do pecado e oportunidades que o mundo oferece. Paulo está falando de relacionamento, na medida em que roga que apresentemos nossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; mas também está falando dos nossos pensamentos, sentimentos e emoções. Toda ação, seja em direção a Deus ou não, começa naquilo que pensamos. 

Então o primeiro passo para construir relacionamentos que edificam, e construir um relacionamento com Deus. Você precisa entender que a coisa mais importante do mundo é caminhar com o Deus que te ama, e o relacionamento que efetivamente você não pode viver sem é o relacionamento com o Senhor Jesus. Você precisa compreender que Jesus sempre esteve e sempre estará comprometido com você, mesmo quando você nunca tinha ouvido falar dEle. 

Jesus Cristo leva o relacionamento com você tão a sério, que Ele ofereceu a própria vida por isso. Cristo tem um amor e compromisso tão sério com você que se dispôs a morrer para isso! Você PRECISA compreender que o relacionamento que mais vai edificar a sua vida é e sempre será o seu relacionamento com Deus. Você precisa pensar como suas ações e palavras afetam as pessoas a sua volta, mas acima de tudo, você precisa pensar em como afeta o seu relacionamento com Jesus.

Não se conformar com o mundo é a receita que Paulo apresenta para que você possa experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Isso significa que se você quiser experimentar mais de Deus, você precisa se afastar cada dia mais das coisas que te afastam dEle. Veja que o versículo não está dizendo que Deus te abandona, porque isso não é verdade. Ele diz que você será capaz de experimentar essa relação, e sentir o quanto ela é boa pra você.

Você vai perceber que ter amigos e família é bom. mas ter amigos e família caminhando com Jesus é perfeito. Você vai perceber que as dores e dificuldades são menos dolorosas, e que mesmo nos piores momentos ainda é possível sorrir. Você vai perceber que todas as pessoas a sua volta podem estar enlouquecendo e perdendo a cabeça, mas você continua firme nas promessas do Senhor.

2º O seu relacionamento com você

Você também precisa compreender o quanto é importante refletir a forma como você se relaciona consigo mesmo, afinal, tirando Deus, é a outra única pessoa que vai estar ao seu lado 24h por dia. Veja que Paulo adverte que o cristão não deve se conformar ao mundo, e, ao invés de mandar nós corrermos para as colinas ou nos escondermos numa caverna, ele manda que façamos uma transformação nas nossas mentes. Aprender a se relacionar consigo mesmo, refletindo seus sentimentos, motivações, ações, planos e projetos é extremamente importante.

Você precisa renovar o seu entendimento primeiro, antes de tentar ajudar as pessoas a sua volta. É aquela velha questão do homem que tenta apontar um cisco no olho do seu irmão, tendo uma estaca cravada no seu próprio olho. Se você precisa investir no seu relacionamento com Deus, precisa estar atento em como a sua forma de pensar pode beneficiar ou prejudicar isso!

Por um lado, você precisa sempre estar atento para que a sua estima não seja tão alta que te torne uma pessoa soberba e desumilde. Você precisa compreender que é um pecador sim, que erra tanto quanto os outros a sua volta, e, às vezes, tem pecados mais escandalosos que o de algumas pessoas que não tem Jesus Cristo. Você, estando de pé, precisa tomar cuidado para que não caia.

Por outro lado, você não pode estar ancorado nos seus erros e decisões do passado, afinal, a cada dia que passa Cristo renova as misericórdias dEle em nossas vidas. Quem você foi, as palavras que disse, e os erros que cometeu não devem te impedir de seguir em frente com Jesus. Você precisa refletir nas suas ações sim, mas não ficar preso a elas, lamentando ou justificando a sua omissão no fato de ser um pecador. Na igreja, todos nós somos.

Assim, você precisa renovar o seu entendimento acerca de si mesmo, das pessoas e do mundo a sua volta, olhando para Palavra de Deus e pensando em como você pode fazer para viver e experimentar a boa, perfeita e agradável vontade do Senhor em todas as coisas. Você precisa focar menos nos problemas e mais na solução, que é Jesus. Lembrar do amor dEle, e da forma como pra Ele, que é Deus, o seu passado não importa.

3º O seu relacionamento com o mundo e com o outro

Colocar o seu relacionamento com o mundo como um "relacionamento que edifica" é um convite e desafio necessário na vida de cada um de nós. Não se trata do mundo nos edificar, mas de nós, renovados em nosso entendimento, fazer dele um lugar melhor. Afinal, a boa, perfeita e agradável vontade de Deus pode ser experimentada ainda neste tempo, através da presença da igreja e do Espírito Santo no mundo.

Sim, o mundo é cruel, jaz no maligno e hostiliza a vontade de Deus. Quanto mais santa e correta for uma coisa, mas o mundo vai odiar ela. Entretanto, a sua ação pode mudar a vida das pessoas a sua volta. Não é você que tem que ser influenciado pelas falas e ideias erradas que o mundo tem a oferecer; Deus espera que você seja a influência. E ainda que não possa convencer uma única pessoa que seja, Ele espera que você possa se manter digno diante dEle e não ceder. Sacode o pó das suas vestes e segue firme.

Você precisa entender que a aprovação de ninguém vale a pena a desaprovação de Deus. Um namorado, amigos, carreira e mesmo popularidade e influência social não valem a pena uma vida distante de Deus. Você precisa colocar Jesus em todos os seus relacionamentos. Afinal, se Deus é o caminho, a sua carreira e passos tem que ser nEle; se é a Verdade, qualquer amizade só vai ser verdadeira com a benção dEle; se é a Vida, não dá pra viver sem Ele de forma alguma.

Se você quiser ter um relacionamento de verdade com uma pessoa, Cristo precisa estar nessa relação. Você precisa viver relacionamentos que edificam a sua vida com Cristo, mas que também edificam a vida das pessoas a sua volta. Você é a luz em meio as trevas do mundo, a pessoa que Jesus separou pra viver a pregar a vontade dEle a todos que ainda precisam ouvir. Veja que todo o capítulo 12 fala sobre isso, e sobre a forma como você ama, perdoa, se alegra e se entristece com as pessoas a sua volta. Não se relacione com alguém simplesmente para se relacionar: se relacione com uma pessoa, sabendo que a sua presença na vida dele deve trazer a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Você pode ser o instrumento de salvação que Deus para a vida de alguém.

sábado, 19 de dezembro de 2020

João 20:18 - A loucura da fé

Cristo ressuscitou, mas os discípulos ainda não sabiam disso. Maria Madalena havia visitado o sepulcro pela madrugada, encontrando-o aberto. Rapidamente ela sai em busca Pedro e João com uma péssima notícia: levaram o corpo do Senhor Jesus.

Os discípulos rapidamente correm para o sepulcro, encontrando-o vazio. Os lençóis que cobriam o corpo estavam no chão, os que cobriam o rosto estavam dobrados no canto. Vendo o sepulcro vazio, os discípulos creram na notícia de Maria, de que o corpo havia sido levado, e foram embora para suas casas.


Maria, por outro lado, permaneceu junto ao sepulcro. Ela chorava pelo corpo desaparecido do seu Senhor, quando de repente foi abordada por ele. No começo, ela não havia percebido, e acreditava até mesmo na possibilidade de ser o homem que havia levado o corpo embora. Até que Jesus chama a sua atenção.


Então, ele dá a ela uma tarefa: ir até  os discípulos e avisar que ele havia ressuscitado, e que estaria com o Pai. Então ela declara:


Eu vi o Senhor!


Em seguida, narra o encontro e as coisas que Ele havia lhe dito.


Na reflexão de hoje nós falaremos um pouco sobre a loucura da graça. Há momentos em que percebemos que a graça de Deus desafia as nossas expectativas e preconceitos. Cristo havia morrido, e a primeira pessoa para a qual se revelou foi Maria Madalena.


Eis o primeiro preconceito a se considerar: ela era uma mulher. A primeira testemunha da ressurreição de Cristo, que ficou responsável por proclamar que Ele estava vivo era uma mulher! Num período onde mulheres não tinham, participação no diálogo público ou político. Mulheres era submissas aos seus pais ou maridos, e quando eles morriam, tornavam-se extremamente vulneráveis, e dependiam da assistência da comunidade, sob o risco de ingressarem até mesmo na prostituição.


E esse é o segundo preconceito: Maria Madalena não era apenas uma mulher, como também aquela pega em adultério, que quase foi apedrejada em praça pública, momentos antes da sua conversão. Maria Madalena não era bem quista  pelo  povo, e se dependesse dele, já estaria morta há tempos pelo flagrante adultério. Ela não gozava, portanto, nem da  credibilidade dos homens, quanto das mulheres, com exceção daquelas que conheciam seu histórico de conversão e caminhada com Cristo.


Quando eu olho para essa passagem, fico imaginando a incredulidade daqueles que a ouviram dizer que havia visto o Senhor!  Até porque há alguns momentos antes ela havia declarado que seu corpo foi levado! Neste momento, eu começo a pensar sobre a loucura que é a graça de Deus.


Maria Madalena não é o primeiro exemplo da graça abundante e incompreensível do Senhor com a humanidade. Raabe foi uma prostituta que deu abrigo aos espias israelitas em Jericó que recebeu misericórdia da parte do Senhor, e teve sua vida preservada na invasão da cidade, passando a viver com o povo de Deus por toda a sua vida. Ela entrou para o rol da fé em Hebreus 11. Mais ainda! Tornou-se parte da própria genealogia de Jesus, como mãe de Boaz e descendente direta do rei Davi.


Este último também é um exemplo da graça. Homem que empunhava a espada, desobediente em diversos momentos, fez o censo do povo que havia sido proibido. Mais grave ainda, Davi foi adúltero e tomou a esposa do seu soldado para si, inclusive mandando-o para guerra para que morresse e pudesse encobrir seu pecado tomando Bateseba como esposa! Mas dele foi dito que era um homem segundo o coração de Deus. Salomão, seu filho, seria responsável por construir o templo ao Senhor, que até então era adorado no tabernáculo.


Salomão era sábio, e com seu governo Israel teve paz. Mas ele também é um exemplo  da graça. Entregou-se à poligamia e amou mais a suas esposas do que a Deus. Suas mulheres eram idólatras de diversas nações, e seu coração acabou sendo corrompido pela idolatria, e ele passou a seguir Astarote. Ainda assim o arrependimento o alcança, e seu livro de Eclesiastes é a prova das experiências de vida adquiridas.


O ladrão na cruz morreu cristão. O discípulo que negou Jesus foi o primeiro  a pregar após o derramamento do Espírito Santo. Estes e outros exemplos servem para nos mostrar aspectos maravilhosos da graça de Deus e sua aplicação em nossas vidas.


Em primeiro lugar, olhar para a graça na vida do pecador reforça a mensagem da fé:


Para o homem sem Cristo é comum esperar que qualquer boa nova venha de um homem ou mulher virtuosos e bem sucedidos. É comum esperar que eles tenham a vida impecável e idealizada de bons cidadãos e bons familiares. O que vemos na prática é que muitas vezes a mensagem é apresentada por alguém cuja multidão dos pecados exalta a infinitude da misericórdia de Deus.


Nessa hora o Espírito Santo exercita no perdido, ou mesmo em nós, a fé. É preciso ter fé para ouvir uma prostituta dizer que viu o Senhor, ainda mais depois de cidadãos “de respeito” o terem  visto morrer na cruz! É preciso ter fé para crer que um rei adúltero foi um homem segundo o coração de Deus, pois se derramava em busca da sua misericórdia. É preciso ter fé quando vemos alguém cujos pecados nos são conhecidos pregar sobre o amor de Deus e não fechar de cara o seu coração, julgando haver hipocrisia ou algum interesse escuso.


Cristãos são acusados diariamente de hipocrisia, pois pecam, pecam, pecam e depois encontram Jesus. Como se a intenção fosse saborear o máximo os prazeres do mundo antes de pensar em Deus e não poder fazer mais nada. Quem se converte dentro do presídio é acusado de fazer isso pra receber redução de pena e acesso à ala de presídio separada de facção. Homens que eram fraudulentos são acusados de se converter para conseguir vantagens das ovelhas inocentes.


O que as pessoas que fazem essas acusações não entendem, é que quando elas se deparam com o testemunho e a conversão de um pecador conhecido, Deus está convocando-as e desafiando-as a ter fé! A olhar além das expectativas e acreditar! Olhar além do homem e ver Jesus operando na vida dele!


Também pode ser um exercício para a fé de alguns de nós. Há muitos lobos entre nós, e por vezes podemos cair na armadilha de não crer na mudança e conversão das pessoas! Estamos prontos para confiar no arrependimento daqueles que nos feriram? Somos capazes de perdoar aqueles que nos enganaram? Será que não temos fé suficiente para crer que Deus reergue um irmão que caiu? Que ele pode restaurar um casamento ou um cônjuge que nos feriu? Será que nossa fé é tão pequena que não conseguimos ver além das ofensas?


Quando Deus usa homens e mulheres tão escandalosos, trazendo-os para si, Ele está primeiramente lançando um desafio de fé.


Em segundo lugar, tais pecadores evidenciam a misericórdia de Cristo:


Quando testificamos a conversão de homens cuja multidão de pecados causam asco e desprezo, Deus nos dá uma breve demonstração do tamanho da Sua misericórdia. Quando olhamos para Raabe, Maria Madalena, Davi e Salomão vemos homens  com pecados tão absurdos quanto os nossos,  mas que no final receberam bençãos incomparáveis!


Nesse rol, especificamente, todos que foram citados eram descendentes diretos do Senhor Jesus. Maria Madalena, por sua vez, recebeu a importante tarefa de pregar a ressurreição aos homens antes mesmo dos apóstolos! Veja o tamanho das bênçãos e bondade do Senhor, a despeito do tamanho da miséria e passado de cada um!


Tais pecadores convidam você a conhecer a misericórdia de Deus. Veja que o Senhor trata com amor homens e mulheres com pecados  iguais e piores que os seus! Não há qualquer pecado que você tenha cometido e que o Senhor não possa perdoar! Tenha fé em Jesus! O homem que olhava para o publicano  e via mais que um ladrão de impostos; que olhava para adúltera com amor; pra prostituta com carinho. O Jesus que declara em Sua Palavra que pode e tem o poder de te fazer filho de Deus. Receba-o com fé!


Não há pecado tão grande que não possa ser perdoado quando você se coloca aos pés de Jesus. Se Deus pode perdoar estas pessoas que eu falei, Ele com certeza pode te perdoar também!


Por último, como Maria Madalena somos desafiados a declarar todos os dias… Eu vi o Senhor!


O mundo precisa saber quem causou  a mudança  da sua vida! Maria Madalena recebeu a missão de testemunhar as palavras que Jesus lhe disse. Nós, semelhantemente, somos desafiados a proclamar o mesmo evangelho diariamente.


Muitas vezes poderão olhar para nós da mesma forma que possivelmente olharam para ela: com descrença e desprezo. Mas podemos ser consolados na experiência de ter vivido um encontro pessoal e real com o próprio Senhor Jesus. 


Ele nos deu apenas uma missão: ir e pregar o evangelho, fazendo discípulos por todo o mundo. Na sua casa, no seu bairro, na sua cidade e por todo lugar onde a sua voz consiga alcançar pessoas. Corra em direção às ovelhas perdidas e pregue que Cristo morreu e ressuscitou por elas! Pregue com a sua boca, com a sua vida e testifique a misericórdia do Senhor em relação ao pecador.


1º Ouça com fé!

2º Creia em Jesus!

3º Proclame!



Imagem extraída de:


https://blogdorogerinho.wordpress.com/2016/03/11/porque-jesus-apareceu-primeiro-para-madalena/


terça-feira, 9 de junho de 2020

Ko Thah Byu - O Apóstolo dos Karen





Introdução

Na última aula ministrada na disciplina de História das Missões estudamos sobre a história do missionário Adoniram Judson, e nos deparamos com o seguinte questionamento: Adoniram aparentemente não obteve êxito na sua função de missionário, pois só depois de 6 anos conseguiu batizar seu primeiro convertido.

O que nos deixou intrigado, é que o missionário estava enfadado com o seu ministério. Ele se punha a pregar na praça para birmaneses budistas sem muito êxito, entretanto, em 1.831 ele percebeu que um grande avivamento havia começado!

Adoniram Judson decidiu dedicar-se à tradução da bíblia para o birmanês, sem saber que esta seria a base para este grande movimento de Deus. Aliás, um movimento que começou centenas de anos antes, gerações e gerações antes da chegada do missionário.

O Deus do livro perdido

O avivamento da Birmânia é a prova definitiva da misericórdia de Deus e da sua busca pelos seus filhos. Nos deparamos com dez povos diferentes numa região do sudeste da Ásia que partilhavam a fé num Deus Todo-Poderoso, cujos ensinos foram perdidos por seus ancestrais.

A tribo Karen, por exemplo, acreditavam que um dia o “irmão branco” levaria de volta pra eles o livro de Y’wa, perdido por seus ancestrais em tempos remotos. Em mais de mil aldeias karen da Birmãnia, Bukhos (um tipo de mestre, profetas de Y’wa) mantinham os karen conscientes dos caminhos de Y’wa, para o qual precisavam voltar seus olhos.

Já os kachin criam em Karai Kasang, um ser sobrenatural e benigno que excede a compreensão do homem. Esse grande Ser também era denominado Hpan Wa Ningsang – O Glorioso que Cria, e Che Wa Ningchang – Aquele que sabe.

Os lahu mantiveram a tradição de que Gui’Sha – Criador de Todas as Coisas – dera a lei aos seus ancentras em bolos de arroz, que durante um período de grande forme foram consumidos. Assim, afirmavam que a sua lei estaria no seu interior.

O povo wa tinha profetas que surgiam de tempos em tempos, em nome de Siyeh, exortando o povo a abandonar práticas que afrontavam o Deus verdadeiro. As tribos shan e palaung esperavam o cumprimento das profecias de Are-Metaya, o Senhor da Misericórdia.

Os kui esperavam o dia em que um mensageiro de Deus chegaria com o livro perdido, e da mesma forma, o povo lisu também aguardava. As tribos naga aguardavam que Gwang o Deus que tudo sustenta, traria novamente as palavras que deu ao Seu povo em peles de animais, que por não terem sido bem cuidadas, foram devoradas por cães.

Por fim, os mizo da Índia acreditavam em Pathian – que significa Pai Santo – era o Criador de todas as coisas, o Bondoso que deu seu livro aos ancestrais do povo, que infelizmente o perderam. Esse é o contexto que Adoniram Judson e os demais missionários da Birmânia encontraram na sua vida.

Entretanto, pode-se dizer que Judson preparou o caminho para o grande missionário que iniciou o seu trabalho junto da tribo karen, e logo eclodiu por todas as demais tribos que aguardavam sedentas pelo “irmão branco” portador do livro. Seu nome é Ko Thah Byu.

Ko Thah Byu – O apóstolo dos karen

            Podemos concluir que o grande avivamento da Birmânia começou com a obra de tradução da bíblia por Adoniram Judson, mas o missionário responsável pelo boom evangelístico foi Ko Thah Byu, um membro da tribo karen,violento, cruel, e que teria matado mais de 30 homens antes da sua conversão. Em razão dos seus crimes, Ko Thah Byu foi preso pelo governo de Burman e vendido como escravo, tendo sido comprado e liberto por Adoniran Judson.

            Ko Thah começou a trabalhar para Judson, e aos poucos foi aprendendo acerca do evangelho de Jesus Cristo. Começou a questionar sobre os missionários brancos e o livro que traziam do Ocidente, até que foi iluminado pelo Espírito Santo, e toda a sua tradição karen passou a fazer sentido na sua experiência de conversão.

            Um casal de missionários chegou a Rangum para ajudar Adoniram. George e Sarah Boardman iniciaram uma escola para os convertidos analfabetos, e imediatamente Ko Thah Byu se matriculou, pois estava decidido a aprender a ler a bíblia birmanesa. Ciente de que era o primeiro karen a ter conhecimento da chegada do “irmão branco” com a Palavra, assumiu a responsabilidade de proclamar as boas-novas para o seu povo.

George e Sarah Boardman tinham planos para iniciar uma nova missão na cidade de Tavoy, no sul da Birmânia, ao que Ko Thah Byu se voluntariou para ir junto. Chegando ao destino, pediu que fosse batizado por George, e após o sacramento partiu imediatamente para as montanhas ao sul, pregando a Palavra em cada tribo karen que encontrava.

Ko Thah Byu enfrentou os perigos da selva e assassinos pelo caminho, e, em pouco tempo, centenas de ouvintes começaram a aparecer em Tavoy para ver o “irmão branco”. Boardman começou a receber dezenas de convites para visitar as aldeias que aguardavam a sua chegada, para completar o ministério de Ko Thah Byu e levar os ensinamentos de Y’wa, aguardado por gerações.

Uma dessas tribos guardava um exemplar dos salmos e hinos, dado por um muçulmano que a visitou, sem ensiná-lo ou traduzi-lo ao povo. Este exemplar era cultuado liturgicamente, até que Boardman ensinou o verdadeiro evangelho, e a forma de usar aquela Palavra.

Muitos karen das tribos mais distantes vinham diariamente conhecer o mestre branco e ouvir as verdades que ensinava. Sarah Boardman relatou em seus diários que Ko Thah Byu passava dias e noites lendo e explicando a Palavra para as aldeias que encontrava.

O ministério do apóstolo dos karen deu origem à um movimento missionário dentro das tribos. Na mesma medida em que iam sendo batizados, saiam a ensinar a verdade aprendida, conforme Jonathan Wade pode testemunhar a  320km ao norte de Tavoy. Esses missionários se deslocaram 420km a noroeste, de forma que quando os missionários americanos chegaram a Bassein, encontraram 5.000 karens convertidos e prontos para o batismo!

Ko Thah Byu deixou Tavoy e se dirigiu para região central da Birmânia. Por quase não descansar, e em razão das dificuldades da sua empreitada, assim como Judson, o apóstolo dos karen morreu em poucos anos de tanto trabalhar.

Ko Thah Byu morreu de tuberculose, em 09 de setembro de 1840, e no final da sua correira missionária era carregado no leito de vila para vila, pregando a Palavra até o fim da vida. Sua história chega até nós através da biografia escrita por Francis Mason.

Os frutos do ministério de Ko Thah Byu

A morte do grande missionário karen não pôs fim ao avivamento. Os karen haviam recuperado o livro perdido, e agora estavam cientes que os outros povos precisavam receber as boas-novas também. Assim, aquelas tribos isoladas e menosprezadas pelo povo da Birmânia deu início às missões transculturais entre as outras nove tribos.

Ainda que fossem consideradas intelectualmente inferiores pelos povos de tradição budista e taoísta, a Palavra foi compreendida por eles, que era tão numerosos que alcançavam a marca de centenas de milhares de pessoas espalhadas pelas selvas da Ásia menor.

Assim, em 1858 os karen pregaram para os kachin acerca da chegada do livro perdido de Karai-Kasang, de forma que nos anos 90 haviam cerca de 250.000 membros do povo kachin convertidos.

Em 1890, Willian Marcus Young pregou para os lahu e para os ha acerca da Palavra de Gwi’sha. Seus filhos, Harold e Vincent atuaram como professores de escola bíblica, e este último foi responsável pela primeira tradução do Novo Testamento para as línguas lahu e wa.

Conclusão

O cenário e contexto, bem como o trabalho de Ko Thah Byu traz diversas reflexões. Em primeiro lugar, a eficácia da missão não se mede por números, mas por fidelidade à Palavra e vontade de Deus. Adoniram Judson poderia ser considerado fracassado por qualquer cristão com uma visão triunfalista do evangelho. Entretanto, vemos que cabia a ele a tradução da bíblia para o birmanês, a fim de que um dos poucos convertidos do seu ministério pudesse atuar.

Também resta evidente que a missão é da igreja, não do missionário. O que começou com Adoniram ganhou força quando cada cristão assumiu a sua tarefa. Judson traduziu a bíblia, o casal Boardman preparou o obreiro e ensinou os novos convertidos, e Ko Thah Byu foi de cidade em cidade pregando-a para todas as tribos karen.

O mais importante! É Deus quem manda o missionário; é Deus quem prepara o caminho! Judson, os Boardman e demais missionários birmaneses encontraram corações preparados para receber a mensagem do evangelho de Cristo! O mesmo Deus que os enviou, suplantou a fé no coração dos ancentrais daquela tribo, para aguardarem da redenção do seu povo!

Ademais, o evangelho eleva o homem das trevas e da ignorância. As tribos karen eram nômades, isoladas pelas selvas, e após o contato com Cristo, foram alfabetizadas pelos missionários a fim de poderem ler a Palavra. Um povo inculto e nômade, em 1995, haviam fundado uma escola para seus filhos, como a Nichols' Sgaw Karen High School, em Bassein, com aproximadamente 1.400 alunos, cujo diretor e professores não eram missionários estrangeiros, mas cristãos karen. Há outras escolas em Henzada, Tharrawaddy, Toungoo, Moulmein e Rangum.

Por fim, é belo admirar a obra redentora de Cristo na vida de um homem. Ko Thah Byu, assim como Paulo, foi um homicida, um assassino que no tempo certo foi encontrado por Cristo e conheceu a graça de Deus. Não há extensão de pecado maior do que a abundância da misericórdia de Deus e do seu amor para/com os Seus filhos!

Que Deus seja louvado neste trabalho.
Pedro Silva Drumond.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Richardson, Don. O fator Melquisedeque: o testemunho de Deus nas culturas por todo o mundo/ Don Richarson ; tradução Neide Siqueira. – 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.

Ko Tha Byu Leads “Stupid Wild Buffalos” to Enlightenment (Ko Tha Byu lidera “búfalos selvagens e estúpidos” para Iluminação), disponível em:

Elder Tha Byu, illiterate but effective evangelist  (Ancião Tha Byu, evangelista iletrado, mas eficaz), disponível em:

Ko Thah Byu: Murderer and Apostle to the Karen (Ko Thah Byu: Assassino e Apóstolo de Karen), disponível em:

Burma and the Karens (Burma e os Karens), disponível em:




terça-feira, 10 de abril de 2018

Posso/Devo beber? O cristão e o álcool.

E aí gente, beleza? Pra quem acompanhou meus dois artigos sobre os presbíteros, devem saber que deixei a questão do consumo de bebida alcoólica para um artigo individual. A razão disto é porque o assunto tem muita discussão, e, se por um lado não é uma questão fundamental do Cristianismo, por outro lado, não merece o tratamento leviano e as ponderações descuidadas e por vezes sem fundamentos com as quais o tema é abordado.



Correntes

Quando um cristão é questionado acerca do consumo de bebidas alcoólicas a resposta não é unânime. é bem capaz de encontrarmos numa roda de amigos da igreja ao menos um que defenda uma das três posições abaixo:

Proibitivo: um cristão de posicionamento proibitivo vai defender não apenas a abstenção do vinho, como também a proibição nas Escrituras.

Abstêmios: um cristão abstêmio (eu por exemplo) reconhece que não há um imperativo proibitivo para o consumo de bebida, mas desencoraja o consumo. Um abstêmio jamais afirmará que a bíblia proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, mas nem por isso ele irá beber, em consideração ao potencial negativo do consumo de bebidas.

Moderado: um cristão moderado é aquele que não só afirma que a Palavra não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, como também consome.

Logo, há três possíveis resposta no seio da igreja. Qual será a correta? Há uma correta?

Onde a bebida alcoólica aparece na bíblia?

A bebida alcoólica aparece na bíblia  em diversas passagens que informam o consumo do vinho. E, caso analisemos as palavras originais traduzidas para vinho (seguindo um estudo do tema proposto por John MacArthur), todas elas dizem respeito à bebidas fermentadas, de teor alcoólico.

No Antigo Testamento, temos a ocorrência do termo yayin, o qual não diferencia nem o vinho velho, nem o novo, nem o suco de uva. Ou seja, embora alguns aleguem tratar-se de tradução para suco ou extrato não fermentado de uva (como em Jeremias 48:33), isto não estará correto em todos os casos. Por exemplo, em Gênesis 9:21, Noé bebeu vinho a ponto de embriagar-se e ficar nu. 

Há também a ocorrência do termo shekar, que pode ser traduzido como "bebida forte", e é oriundo do verbo shakar, que significa "embebedar-se". Ora, se o vinho não possui teor alcoólico, por que a raiz da palavra é o termo referente ao consumo de bebida capaz de embriagar um homem? O que seria "bebida forte", senão a bebida com teor alcoólico?

Há também o uso da palavra tirôsh, referente a sucos doces e mostos, sendo associado ao suco de uva não fermentado. Ora, se há uma palavra no Antigo Testamento que especificamente aborda o suco de uva não fermentado, seria hipocrisia ou tolice afirmar que todas dizem respeito a suco de uva sem teor alcoólico.

A discussão sobre o consumo de bebida alcoólica no Antigo Testamento tem fim no uso de yayin e shekar no mesmo versículo, hipótese na qual referem-se à vinho totalmente fermentado, como em Isaías 28:7. Ora, até o presente momento eu nunca vi um homem cambalear tomando suco de uva!

Já no Novo Testamento, o termo original em grego seria oinos, que  não faz distinção entre o vinho no início da fermentação (Marcos 2:22 - o vinho recém produzido é posto nos odres), o vinho fermentando (Marcos 2:22 - o início da fermentação faz os odres se romperem) ou já fermentado (Lucas 1:15). 

Também há o termo sikera, que diz respeito a "bebida forte", correspondente ao hebraico shekar.

E o que podemos dizer sobre o vinho na Palavra?

Antes de mais nada, é importante dizer que mesmo o dito "vinho novo" pode ter teor alcoólico, visto que a fermentação é um processo quase que imediato. Ocorre que para os homens, o "vinho velho" era considerado bom, em razão da elevada fermentação (Lucas 5:39). Há quem diga, neste sentido, que o vinho que Jesus produziu em seu milagre nas bodas seria fermentado!  Seria costume dar o vinho mais fermentado no começo (o bom!) e quando todo mundo já estava embriagado, davam o vinho novo, pouco fermentado. É certo inclusive afirmar que o vinho que é muito diluído nem mesmo é elogiado, conforme podemos inferir em Isaías 1:22. 

Fica difícil para os que dizem que o vinho da bíblia não possui teor alcoólico sustentar essa posição quando nos deparamos com passagens como Salmos 104:15, que faz alusão ao efeito de contentamento do consumo de bebida alcoólica, ou Provérbios 31:6, que recomenda vinho aos amargurados de espírito.

O vinho é vinculado também à tratamentos médicos (1 Timóteo 5:23), como antisséptico ou lenitivo para dores estomacais.

E, para os que dizem que o vinho é algo proibido, abordando a bebida como uma espécie de coisa impura e do diabo, tal posição carece de fundamento quando vemos a bebida ser oferecida nas ofertas ao Senhor, como em Êxodo 29:40 e Números 15:5.

E qual o erro dos proibidores?

Das três posições, eu consideraria a dos Proibidores a única incorreta. Afirmar que a Palavra proíbe o consumo de bebidas, diante de todas as informações acima é ir além do que a Palavra nos ensina. A Palavra de Deus é: inerrante, autoritativa e condena expressamente o abuso do álcool.

Se a Palavra de Deus não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, ao afirmar o contrário, o cristão coloca em xeque a inerrância das Escrituras, visto que dispensa tratamento diverso ao assunto, como se Deus houvesse errado ou se omitido ao não proibir o consumo. Também afronta a autoridade das Escrituras, ao impor a própria autoridade sobre a de Deus, impondo uma regra de fé e prática que a Palavra não exige, em semelhança aos líderes judeus que impunham a tradição.

Em passagem alguma vemos uma ordem para que o cristão em nenhuma hipótese beba vinho! A Palavra não condena o uso, e sim o abuso do consumo de bebidas. 

Como argumento, peguemos os versículos de I Timóteo 3 e Tito 1, que traz como requisito que o candidato "não seja dado ao vinho". Essa expressão vem da palavra paroinos, que pode ser traduzida como "colocar-se ao lado", ou seja, dizia respeito ao homem que sentava-se junto ao odre pra beber, de forma que seu copo estava sempre cheio e sua tendência era embriagar-se. 

O abuso do álcool usurpa a consciência e discernimento do homem, que precisa estar no controle de suas faculdades. Um bêbado se entrega às paixões e não discerne sequer a própria vontade! Quem dirá a de Cristo então? Falta-lhe lucidez e domínio próprio! Por esses e outros motivos, a embriaguez é condenada por Deus!

Ah, Pedro, mas o vinho era misturado com água!

De fato era! Pisado no lagar e desidratado até virar uma pasta, que era diluída em água para o consumo! Isso é verdade! Mas quem disse que isso tira o teor alcoólico de uma bebida?

A verdade é que TODA BEBIDA É MISTURADA COM ÁGUA! Toda bebida alcoólica leva água na composição, o que muda é a concentração de álcool!

A Escala Gay Lussac é responsável por determinar o teor alcoólico de uma bebida, medindo-se a razão de mililitros de álcool por 100ml da composição.

Só a título de exemplo, a cada 100ml de água na cerveja, há entre 5% a 9% de álcool! A aguardente tem entre 38% a 54%; a cachaça tem 38% a 48%, e por aí vai!

Mas e o vinho? O vinho tem entre 11% a 14% de álcool! Sobre a alegação da pasta ser diluída em água, cumpre ressaltar que dependendo do grau de diluição, as vezes o vinho não chegava nem a 3% de teor alcoólico! Mas mesmo assim, não dá pra dizer que não tinha álcool! Daí se entende a expressão "dado ao vinho" com mais clareza! Pro cara se embriagar com um vinho bem diluído, ele tinha que beber muito, ou seja, sentava-se junto ao vinho!

Caso semelhante no nosso tempo, quando a Ambev foi multada por dizer que sua cerveja Kronenbier era sem álcool, só por estar abaixo do percentual adotado para considerar uma bebida como alcoólica, mas havia uma porcentagem de álcool ainda menor que a deste vinho muito diluído!

E qual o dilema dos Moderados?

Eu não posso afirmar que os moderados erram, mas posso afirmar que eles vivem em grande dilema, de forma que ainda creio que a abstenção é o melhor caminho. Primeiro pela facilidade de se embriagar que nós temos hoje em dia, pois, como vimos acima, a bebida alcoólica que a Palavra apresenta é bem diferente da que temos hoje em dia! São bebidas com até o triplo do teor alcoólico dos vinhos e licores. A lógica é que bebidas mais fortes embriagam mais rápido!

Fica muito difícil apurar o momento em que a embriaguez torna-se um problema, visto que não há um parâmetro objetivo para dizer "Eu estou embriagado", bem como haver fatores externos que dificultam o impulso de parar, como por exemplo, o sabor da bebida; e fatores que facilitam a embriaguez, como consumir a bebida em jejum; e fatores biológicos como sexo (as mulheres ficam bêbadas mais rápido), idade ou ser obeso ou estar acima do peso.

Ainda tem o dilema jurídico! Quando a embriaguez é pecado, se, juridicamente falando, os efeitos do álcool como contentamento e relaxamento citados alguns parágrafos acima podem pressupor o primeiro estágio da embriaguez?  Nas aulas de Direito Penal, a fim de trabalhar a embriaguez como excludente de culpabilidade, minha querida professora me apresentou uma comparação antiga, onde três estágios da embriaguez são representados por três animais!

Segundo a comparação, o primeiro estágio é a euforia, representada pelo macaco, em razão de ser um animal saltitante e hiperativo, que representa o homem no início da embriaguez, quando fica eufórico, alegre e brincalhão! Neste estado, ele ainda conserva a sua consciência, mas já está sob os efeitos do álcool! Nossa tendência é considerar a embriaguez apenas a partir do segundo estágio, representado pelo leão, para retratar as mudanças temperamentais geradas pela bebida, por ser a fase, por exemplo, onde, já não tendo domínio de suas faculdades, o homem torna-se agressivo e suscetível. O terceiro estágio então nem se fala! Representado pelo porco, o homem já está na lama! Diz respeito ao ápice da embriaguez, caracterizada pela inconsciência e perda total das faculdades!

Ora, se para medicina legal e para o Direito os efeitos do álcool na primeira fase da embriaguez e antes dela são os mesmos, como posso saber se já não estou embriagado, ainda que consciente?

Outro dilema seria o escândalo, hipótese na qual Paulo apresenta o princípio da abstenção para não contaminar a consciência de irmãos considerados mais fracos. Ao abordar o consumo de carne sacrificada a ídolos, Paulo informa para os irmãos que têm consciência de que comer ou não não fará diferença, mas, se um irmão fraco ver o consciente comendo e isso lhe for razão de escândalo, isso se torna um pecado contra Cristo (I Coríntios 8). Assim como a carne, se a bebida escandalizar meu irmão, o correto é que eu não beba mais.

Uma forma apresentada pelos moderados de evitar essa abstenção é o consumo de bebidas em casa, sozinho ou com outros irmãos também moderados, para não haver o risco de um irmão fraco passar e ver!



O que seria a potencialidade negativa para um Abstêmio?

Como um abstêmio, além da questão do escândalo, eu, Pedro Silva Drumond, peco contra minha consciência se consumo álcool, pois, embora saiba que não é proibido, não me sinto bem, por ligar a bebida ao meu velho homem. Logo, se não peco contra a consciência de outrem, peco contra a minha.

Além disso, o consumo alcoólico é potencialmente lesivo, se considerarmos o risco de alcoolismo, e do ponto de vista médico legal, o aumento das possibilidades de cometer-se um ilícito penal sob efeito da bebida.

Outrossim, fica muito complicado você mostrar para um homem que a vida toda foi alcoólico, e que quer lutar por amor a Cristo e renovação de vida, que o consumo de álcool é lícito. É como colocar um hipocondríaco perto de uma bula de remédio e pedir para ele não ler! Esse homem precisa encontrar na igreja o que não encontrou no mundo, e não o contrário!

E por incrível que pareça, ainda temos que lidar com a ideia de falsa aceitação e tolerância ao mundo que o consumo de álcool propõe, quando na verdade este mundo e seus ideais não tem conformidade com os nossos! Só como exemplo, minha maravilhosa e incomparável mãe (os elogios são porque sei que ela vai ler e depois reclamar que falei dela) que, ao receber uma garrafa de cerveja artesanal que comprei para ela experimentar, pois sabia que ela gostava, quis logo postar nas redes sociais da seguinte forma: "Presente do meu filho crente", no sentido de que as pessoas me vissem como um cara tolerante, mas que também poderia ser mal interpretado como um cara anuente! Para mim foi uma lição de que eu não sou apenas filho, ou estudante, ou homem simplesmente; eu sou cristão! Filho cristão, estudante cristão, trabalhador cristão, homem cristão. Tudo que eu fizer, por mais inocente que seja aos meus olhos, vai refletir na forma como o mundo verá o cristianismo!

Além disso, eu também vejo um padrão no qual homens separados para Deus deveriam se abster do vinho, ainda que em caráter temporário! É o caso dos nazireus (Nm 6:2-6), sacerdotes em exercício (Lv 10:8-11), reis (Pv 31:4-5) e mesmo o caso de João Batista (Lc 1:15), Estes homens não deveriam consumir bebida alcoólica, e eu, como embaixador de Cristo, separado para Deus, missionário em tempo integral (tudo fora da igreja é um campo missionário), tenho essa regra para mim não como um peso da lei, mas como uma decisão de amor à Deus e ao meu próximo.

Conclusão

O consumo de bebidas alcoólicas não tem proibição na bíblia, recomendando-se moderação caso opte por beber. Há, ainda, recomendações para não consumir, se isso for escandalizar seu irmão e ser causa de tropeço para ele! Considerando todos os contras do consumo de bebidas, opto pela postura de abstenção.

Observação:

Consumir bebidas alcoólicas aumenta as chances de ouvir Pablo, Maiara e Maraísa ou Wesley Safadão, e, por mais esta razão, não recomendo o consumo de bebida alcoólica!

Eeeeeeh sofrência!!!


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