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domingo, 14 de agosto de 2022

Olhar para trás e dar um passo a frente - 167 anos de Congregacionalismo Brasileiro

Em 19 de agosto de 2022 comemoramos os 167 anos do Congregacionalismo Brasileiro, e como faço em todas as demais datas comemorativas, aproveito para fazer uma retrospectiva da história e avaliar tanto se tenho motivos para estar comemorando, quanto qual a lição que os meus irmãos deixaram para mim, que eu possa aplicar hoje.

Acredito que essa análise é extremamente necessária, e quando olhamos para trás, podemos claramente  vê-la na própria razão de ser congregacional. Foi a análise feita por parte de um grupo de puritanos inseridos na Igreja Anglicana sobre si e sobre a estrutura da Igreja, compelindo-os a lutar pelo direito de ter igrejas autônomas e independentes. No fim, ser congregacional sempre será a liberdade de olhar para sua igreja, associação ou União de Igrejas e tentar mudar a história ativamente através da sua voz e voto.

A data que comemoramos não é a do surgimento das primeiras igrejas evangélicas congregacionais no mundo, e sim o início do congregacionalismo no Brasil. Não é uma história que inicia com uma grande igreja e um templo chamativo: ela começa com um casal, uma pequena escola dominical e serviços de culto doméstico, oração e estudos bíblicos. A nossa história começa em 19 de agosto de 1855, com a fundação de uma escola dominical em Petrópolis, sob a direção de Robert Kalley e Sara Kalley.

Assim como foi no começo, precisa ser hoje. A sua história e contribuição para nossa denominação começa no seu pequeno grupo de influência, nas pessoas a sua volta que você consegue alcançar através do seu ensino, e principalmente do seu exemplo. Antes de formar uma igreja estruturada, o casal Kalley estruturou pessoas para fazerem parte do Corpo de Cristo, dando a elas o ensino da Palavra, e meios para acessá-la.

A primeira igreja congregacional só vai surgir quase três anos depois, em 11/07/1858, no Rio de Janeiro, chamada de Igreja Evangélica Fluminense, onde ocorreu o primeiro batismo de um brasileiro: Pedro Nolasco de Andrade. 

Não sei se você sabe, mas o nome "Congregacional" estava com a imagem um tanto manchada naquela época, razão pela qual tanto a Igreja Evangélica Fluminense, quanto a Igreja Evangélica Pernambucana, fundada em  19/10/1873 não receberam essa palavra no nome! Ainda assim, foram as duas primeiras igrejas congregacionais. Isto porque ser congregacional nunca foi sobre a palavra que aparece na placa da sua igreja, mas sobre a forma como nós vivemos como comunidade de fé. Ser congregacional é acreditar que Deus é soberano nas decisões locais e diárias de cada igreja, de maneira igual, não havendo hierarquia entre elas, mas uma abençoada relação de colaboração e comunhão.

Entretanto, não basta ter um modelo congregacional na organização da igreja. É preciso partilhar a mesma fé e doutrinas fundamentais do Cristianismo, que podem ser resumidas no documento oficial adotado pela nossa denominação: os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, lançados em 02/07/1876. Os artigos são realmente curtos, mas nem por isso são rasos no seu conteúdo. A base de uma vida cristã e conhecimento saudável sobre Deus e Sua igreja estão contidas ali.

O número de igrejas foi crescendo, crescendo e cresceu mais um pouco, tanto no Brasil quanto em Portugal, razão pela qual, em 06/07/1913, igrejas brasileiras e portuguesas formaram a Aliança das Igrejas Evangélicas Indenominacionais (até agora o nome continua sendo evitado). Aquelas igrejas compreenderam que ser autônomas e independentes não as tornavam o foco exclusivo de comunhão e adoração ao Senhor. Em um exercício de humildade, tais igrejas se uniram em uma união de igrejas que visava buscar uniformidade na sua prática da fé e colaboração mútua, afinal, adoravam ao mesmo Senhor! Elas entendiam que deveriam honrar e glorificar ao nome do Senhor juntas, colaborando umas com as outras em benefício do Reino de Deus! 

Nós também precisamos viver essa comunhão que extrapola os limites geográficos da igreja local, e buscar estar juntos em nossas associações de igrejas e na UIECB. Falando diretamente a você que é jovem, tem UMEC, FEMEC e COMEC, em nível local, regional e nacional, respectivamente! Queremos seu envolvimento conosco na UICEB, junto com outros milhares de jovens que partilham a sua fé! Você não está sozinho, e você pode edificar e ser edificado por outros irmãos espalhados por todo o país! Você pode (e deve hein!) fazer a diferença na vida dos seus irmãos em Cristo, dentro da sua denominação! 

E não se deixe enganar por palavras e relatos pessimistas de que não há conformidade entre as igrejas na UIECB, que há muita discordância e brigas nas nossas assembleias deliberativas, e que por vezes pastores se afastam de colegas de ministério em decorrência desses problemas. Afinal, se você olhar para história da nossa denominação vai perceber que ser congregacional não é pensar igual em tudo, mas permanecer unido, apesar das diferenças, mesmo que por um breve período de tempo a relação com seu irmão pareça rompida. É entender que somos todos parte do mesmo Reino, e um Reino no qual não há divisão.

É por isso nossa história e composta de uniões, separações e reaproximações. Em 1942, por exemplo, nós nos unimos com a Igreja Cristã Evangélica do Brasil e formamos a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil (UIECCB). Por discordância nas práticas de batismo, questões acerca da segurança da salvação e modo de governo, um grupo de 51 igrejas se separou 1960 e formou a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). Mas calma, que essa ainda não é a nossa!

Em 1968 as igrejas que permaneceram na UIECCB desfizeram a união de igrejas e ficaram sendo representadas pela Igreja Evangélica Congregacional do Brasil. No fim de tudo, os dois grupos se uniram novamente, em 1969 e formaram a nossa UIECB!

E esse é um breve resumo da nossa história! Uma história de altos e baixos, onde pessoas foram perseguidas por sua fé, direitos precisaram ser conquistados e igrejas se uniram e separam. Por outro lado, o nome do Senhor foi pregado com amor e zelo, e mais e mais igrejas continuaram a surgir. Essa não é apenas a história da nossa denominação. É a história da sua igreja, e também a sua história.

Rogo ao meu Senhor Jesus Cristo que você possa desenvolver a atitude e coragem necessária para viver a sua história conosco, exercendo os dons e talentos que o Senhor te deu, em benefício da sua igreja, em primeiro lugar, mas também da sua Associação Regional e União de Igrejas.

Que Deus nos abençoe em mais um ano!



terça-feira, 9 de junho de 2020

Ko Thah Byu - O Apóstolo dos Karen





Introdução

Na última aula ministrada na disciplina de História das Missões estudamos sobre a história do missionário Adoniram Judson, e nos deparamos com o seguinte questionamento: Adoniram aparentemente não obteve êxito na sua função de missionário, pois só depois de 6 anos conseguiu batizar seu primeiro convertido.

O que nos deixou intrigado, é que o missionário estava enfadado com o seu ministério. Ele se punha a pregar na praça para birmaneses budistas sem muito êxito, entretanto, em 1.831 ele percebeu que um grande avivamento havia começado!

Adoniram Judson decidiu dedicar-se à tradução da bíblia para o birmanês, sem saber que esta seria a base para este grande movimento de Deus. Aliás, um movimento que começou centenas de anos antes, gerações e gerações antes da chegada do missionário.

O Deus do livro perdido

O avivamento da Birmânia é a prova definitiva da misericórdia de Deus e da sua busca pelos seus filhos. Nos deparamos com dez povos diferentes numa região do sudeste da Ásia que partilhavam a fé num Deus Todo-Poderoso, cujos ensinos foram perdidos por seus ancestrais.

A tribo Karen, por exemplo, acreditavam que um dia o “irmão branco” levaria de volta pra eles o livro de Y’wa, perdido por seus ancestrais em tempos remotos. Em mais de mil aldeias karen da Birmãnia, Bukhos (um tipo de mestre, profetas de Y’wa) mantinham os karen conscientes dos caminhos de Y’wa, para o qual precisavam voltar seus olhos.

Já os kachin criam em Karai Kasang, um ser sobrenatural e benigno que excede a compreensão do homem. Esse grande Ser também era denominado Hpan Wa Ningsang – O Glorioso que Cria, e Che Wa Ningchang – Aquele que sabe.

Os lahu mantiveram a tradição de que Gui’Sha – Criador de Todas as Coisas – dera a lei aos seus ancentras em bolos de arroz, que durante um período de grande forme foram consumidos. Assim, afirmavam que a sua lei estaria no seu interior.

O povo wa tinha profetas que surgiam de tempos em tempos, em nome de Siyeh, exortando o povo a abandonar práticas que afrontavam o Deus verdadeiro. As tribos shan e palaung esperavam o cumprimento das profecias de Are-Metaya, o Senhor da Misericórdia.

Os kui esperavam o dia em que um mensageiro de Deus chegaria com o livro perdido, e da mesma forma, o povo lisu também aguardava. As tribos naga aguardavam que Gwang o Deus que tudo sustenta, traria novamente as palavras que deu ao Seu povo em peles de animais, que por não terem sido bem cuidadas, foram devoradas por cães.

Por fim, os mizo da Índia acreditavam em Pathian – que significa Pai Santo – era o Criador de todas as coisas, o Bondoso que deu seu livro aos ancestrais do povo, que infelizmente o perderam. Esse é o contexto que Adoniram Judson e os demais missionários da Birmânia encontraram na sua vida.

Entretanto, pode-se dizer que Judson preparou o caminho para o grande missionário que iniciou o seu trabalho junto da tribo karen, e logo eclodiu por todas as demais tribos que aguardavam sedentas pelo “irmão branco” portador do livro. Seu nome é Ko Thah Byu.

Ko Thah Byu – O apóstolo dos karen

            Podemos concluir que o grande avivamento da Birmânia começou com a obra de tradução da bíblia por Adoniram Judson, mas o missionário responsável pelo boom evangelístico foi Ko Thah Byu, um membro da tribo karen,violento, cruel, e que teria matado mais de 30 homens antes da sua conversão. Em razão dos seus crimes, Ko Thah Byu foi preso pelo governo de Burman e vendido como escravo, tendo sido comprado e liberto por Adoniran Judson.

            Ko Thah começou a trabalhar para Judson, e aos poucos foi aprendendo acerca do evangelho de Jesus Cristo. Começou a questionar sobre os missionários brancos e o livro que traziam do Ocidente, até que foi iluminado pelo Espírito Santo, e toda a sua tradição karen passou a fazer sentido na sua experiência de conversão.

            Um casal de missionários chegou a Rangum para ajudar Adoniram. George e Sarah Boardman iniciaram uma escola para os convertidos analfabetos, e imediatamente Ko Thah Byu se matriculou, pois estava decidido a aprender a ler a bíblia birmanesa. Ciente de que era o primeiro karen a ter conhecimento da chegada do “irmão branco” com a Palavra, assumiu a responsabilidade de proclamar as boas-novas para o seu povo.

George e Sarah Boardman tinham planos para iniciar uma nova missão na cidade de Tavoy, no sul da Birmânia, ao que Ko Thah Byu se voluntariou para ir junto. Chegando ao destino, pediu que fosse batizado por George, e após o sacramento partiu imediatamente para as montanhas ao sul, pregando a Palavra em cada tribo karen que encontrava.

Ko Thah Byu enfrentou os perigos da selva e assassinos pelo caminho, e, em pouco tempo, centenas de ouvintes começaram a aparecer em Tavoy para ver o “irmão branco”. Boardman começou a receber dezenas de convites para visitar as aldeias que aguardavam a sua chegada, para completar o ministério de Ko Thah Byu e levar os ensinamentos de Y’wa, aguardado por gerações.

Uma dessas tribos guardava um exemplar dos salmos e hinos, dado por um muçulmano que a visitou, sem ensiná-lo ou traduzi-lo ao povo. Este exemplar era cultuado liturgicamente, até que Boardman ensinou o verdadeiro evangelho, e a forma de usar aquela Palavra.

Muitos karen das tribos mais distantes vinham diariamente conhecer o mestre branco e ouvir as verdades que ensinava. Sarah Boardman relatou em seus diários que Ko Thah Byu passava dias e noites lendo e explicando a Palavra para as aldeias que encontrava.

O ministério do apóstolo dos karen deu origem à um movimento missionário dentro das tribos. Na mesma medida em que iam sendo batizados, saiam a ensinar a verdade aprendida, conforme Jonathan Wade pode testemunhar a  320km ao norte de Tavoy. Esses missionários se deslocaram 420km a noroeste, de forma que quando os missionários americanos chegaram a Bassein, encontraram 5.000 karens convertidos e prontos para o batismo!

Ko Thah Byu deixou Tavoy e se dirigiu para região central da Birmânia. Por quase não descansar, e em razão das dificuldades da sua empreitada, assim como Judson, o apóstolo dos karen morreu em poucos anos de tanto trabalhar.

Ko Thah Byu morreu de tuberculose, em 09 de setembro de 1840, e no final da sua correira missionária era carregado no leito de vila para vila, pregando a Palavra até o fim da vida. Sua história chega até nós através da biografia escrita por Francis Mason.

Os frutos do ministério de Ko Thah Byu

A morte do grande missionário karen não pôs fim ao avivamento. Os karen haviam recuperado o livro perdido, e agora estavam cientes que os outros povos precisavam receber as boas-novas também. Assim, aquelas tribos isoladas e menosprezadas pelo povo da Birmânia deu início às missões transculturais entre as outras nove tribos.

Ainda que fossem consideradas intelectualmente inferiores pelos povos de tradição budista e taoísta, a Palavra foi compreendida por eles, que era tão numerosos que alcançavam a marca de centenas de milhares de pessoas espalhadas pelas selvas da Ásia menor.

Assim, em 1858 os karen pregaram para os kachin acerca da chegada do livro perdido de Karai-Kasang, de forma que nos anos 90 haviam cerca de 250.000 membros do povo kachin convertidos.

Em 1890, Willian Marcus Young pregou para os lahu e para os ha acerca da Palavra de Gwi’sha. Seus filhos, Harold e Vincent atuaram como professores de escola bíblica, e este último foi responsável pela primeira tradução do Novo Testamento para as línguas lahu e wa.

Conclusão

O cenário e contexto, bem como o trabalho de Ko Thah Byu traz diversas reflexões. Em primeiro lugar, a eficácia da missão não se mede por números, mas por fidelidade à Palavra e vontade de Deus. Adoniram Judson poderia ser considerado fracassado por qualquer cristão com uma visão triunfalista do evangelho. Entretanto, vemos que cabia a ele a tradução da bíblia para o birmanês, a fim de que um dos poucos convertidos do seu ministério pudesse atuar.

Também resta evidente que a missão é da igreja, não do missionário. O que começou com Adoniram ganhou força quando cada cristão assumiu a sua tarefa. Judson traduziu a bíblia, o casal Boardman preparou o obreiro e ensinou os novos convertidos, e Ko Thah Byu foi de cidade em cidade pregando-a para todas as tribos karen.

O mais importante! É Deus quem manda o missionário; é Deus quem prepara o caminho! Judson, os Boardman e demais missionários birmaneses encontraram corações preparados para receber a mensagem do evangelho de Cristo! O mesmo Deus que os enviou, suplantou a fé no coração dos ancentrais daquela tribo, para aguardarem da redenção do seu povo!

Ademais, o evangelho eleva o homem das trevas e da ignorância. As tribos karen eram nômades, isoladas pelas selvas, e após o contato com Cristo, foram alfabetizadas pelos missionários a fim de poderem ler a Palavra. Um povo inculto e nômade, em 1995, haviam fundado uma escola para seus filhos, como a Nichols' Sgaw Karen High School, em Bassein, com aproximadamente 1.400 alunos, cujo diretor e professores não eram missionários estrangeiros, mas cristãos karen. Há outras escolas em Henzada, Tharrawaddy, Toungoo, Moulmein e Rangum.

Por fim, é belo admirar a obra redentora de Cristo na vida de um homem. Ko Thah Byu, assim como Paulo, foi um homicida, um assassino que no tempo certo foi encontrado por Cristo e conheceu a graça de Deus. Não há extensão de pecado maior do que a abundância da misericórdia de Deus e do seu amor para/com os Seus filhos!

Que Deus seja louvado neste trabalho.
Pedro Silva Drumond.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Richardson, Don. O fator Melquisedeque: o testemunho de Deus nas culturas por todo o mundo/ Don Richarson ; tradução Neide Siqueira. – 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.

Ko Tha Byu Leads “Stupid Wild Buffalos” to Enlightenment (Ko Tha Byu lidera “búfalos selvagens e estúpidos” para Iluminação), disponível em:

Elder Tha Byu, illiterate but effective evangelist  (Ancião Tha Byu, evangelista iletrado, mas eficaz), disponível em:

Ko Thah Byu: Murderer and Apostle to the Karen (Ko Thah Byu: Assassino e Apóstolo de Karen), disponível em:

Burma and the Karens (Burma e os Karens), disponível em:




terça-feira, 26 de novembro de 2019

Resenha do livro: História das Doutrinas Cristãs - Louis Berkhof

Um cara com um nome difícil, e uma pegada teológica bem pesada: Louis Berkhof! Não sei se é apenas o meu ponto de vista, mas sempre considerei que esse autor escreve pressupondo que você tem uma série de conhecimentos prévios. Não me recordo o nome do livro, mas tive contato com uma obra dele na qual ele abordava formação do cânon pressupondo que você conhecia uma série de temas sobre cultura judaica! Mas enfim...


A obra aborda a História das Doutrinas do Cristianismo, que, embora o autor aponte a diferença dos termos “doutrina” e “dogma”, acaba por usar o primeiro como sinônimo do segundo. Assim, nas palavras do autor, a doutrina é a expressão direta de uma verdade religiosa; ao passo que o dogma é uma realidade religiosa baseada sobre autoridade, oficialmente formulada por qualquer assembléia eclesiástica. Quando diz que um dogma “pode ser definido como uma doutrina, derivada da Bíblia, oficialmente definida pela Igreja e declarada firmada sobre a autoridade divina” o autor está unindo os elementos definidores da doutrina, do dogma, bem como adicionando a ação de Deus na condução da formulação.
Cabe ressaltar que nos primeiros capítulos a obra adota um tom mais doutrinário, no qual o autor estabelece os fundamentos para compreensão do tema, mediante a definição de termos e sua construção história. Após, o livro aborda as doutrinas cristãs em sete blocos temáticos, onde cada capítulo aborda o tema em determinado período histórico. Também precisa ser destacado que, ainda que o autor aborde as controvérsias com base na sua cronologia, o método adotado na literatura leva em consideração os temas até a exaustão de sua discussão. Podemos citar como exemplos as discussões cristológicas, que são abordadas nos Concílios do Período da Patrística e retornam nos séculos XVIII e XIX com as definições do Jesus Histórico.
O leitor precisa considerar tais informações, pois, se por um lado exaure o debate sem a interrupção para discorrer outros temas; por outro lado o autor não se preocupa em definir quais controvérsias foram concomitantes. Cite-se como exemplo que as controvérsias da doutrina do pecado, da graça e da expiação ocorreram no Oriente durante ao mesmo período, assim como o fato das mesmas serem concomitantes aos debates cristológicos no Oriente.
O livro, semelhante à obra do autor Roger Olson, demonstra que toda a construção dogmática da igreja é sustentada pela vida dos seus construtores, mantendo certa continuidade lógica e histórica. Não se tratavam de meras especulações ou amor ao debate, mas da própria construção da base da igreja, que durante certo período não teve o cânon completo. Os debates cristológicos foram conseqüência dos debates trinitários que os antecedeu, que por sua vez acompanham todos os debates filosóficos, perversões judaicas e acusações de politeísmo do seu período histórico.
Todo o desenvolvimento doutrinário iniciou com as perversões do evangelho, tanto da parte do judaísmo quanto dos gentios, devendo-se destacar o gnosticismo como o maior inimigo da igreja primitiva. Assim, coube aos Pais da Igreja defender o ensino dos apóstolos quanto a pessoa de Cristo, a autoridade dos escritos apostólicos e a salvação. Destaque-se as controvérsias acerca da caracterização de Jesus como o Logos, conceito vinculado à filosofia grega; a natureza da obra salvífica, que os gnósticos vinculavam à recepção de um conhecimento especial e superior ao dos apóstolos; e a relação entre o Pai e o Filho debatida pelo monarquismo.
Essas controvérsias foram o pano de fundo para que a controvérsia trinitariana eclodisse com o conflito de Ário e Atanásio, resolvido em parte pelo Concílio de Niceia. Entretanto, como a definição nicena não satisfez nem os seguidores de Ário e nem os de Atanásio, razão pela qual os o Concílio da Constantinopla foi instaurado para reformular o credo, inclusive considerando os debates dos Pais Capadócios acerca do Espírito Santo. As discussões trinitárias receberam novo ânimo com o retorno do sabelianismo e subordinacionismo no período da Reforma e após.
Quanto à doutrina de Cristo, as discussões tiveram início com as controvérsias oriundas dos debates trinitarianos, com grupos ebionitas, alogi e monarquianos dinâmicos que negavam a deidade de Jesus; ao mesmo tempo que docéticos, gnósticos e modalistas rejeitavam a humanidade. É certo que o Concílio de Calcedônia não foi suficiente para por fim a questão, cujo debate retornou com os monofisistas e outros grupos. Esse debate não ocupou a base das discussões durante a Idade Média. Destaca-se a ação de Tomás de Aquino, que aderia à doutrina da união hipostática. Durante o período da Reforma a cristologia luterana reflete na forma como se entende a Eucaristia. Para Lutero, as duas naturezas se permeiam, e a humanidade de Cristo participa dos atributos da divindade.
A abordagem da história da cristologia realizada por Berkhof é sem dúvidas a mais elaborada. Visto que aborda desde o período dos Pais Apostólicos até as discussões no século XIX acerca da abordagem de Cristo, que na concepção dos teólogos modernos deveria partir do Jesus Histórico, e não dos atributos divinos e revelação especial acerca de Cristo. Ademais, Jesus é despido de parte da sua obra, sendo abordado como um mártir ou exemplo de autruísmo.
Em seguida o autor aborda a doutrina do pecado e da graça, com destaque à Agostinho e Pelágio, cujo embate permeou toda a discussão subseqüente, que hoje é melhor conhecida nas posições de Armínio e João Calvino acerca da depravação, livre-arbítrio e soberania de Deus. Também destaca o arminianismo wesleyano (que diverge do clássico em alguns pontos como a graça para ter fé e arrependimento) e as posições pós-reformas, que contemplam o pecado até mesmo como um mal metafísico, e não ético; ou, como no caso de Schleiermacher, considerá-lo como produto da natureza sensual do homem.
A doutrina da expiação é abordada inicialmente com a teologia dos Pais gregos até o período pós-reforma. Destaque-se a Teoria da Recapitulação apresentada por Irineu, pela qual Cristo teria recapitulado em si todas as etapas e experiências da vida humana, revertendo a obra de Adão e transmitindo aos homens a sua imortalidade. Já Anselmo fez a primeira tentativa de expor a doutrina da expiação de forma harmoniosa e coerente, criticando as teorias da recapitulação e do resgate, justificando a obra redentora como necessária em razão da honra de Deus, a qual o homem deveria ter se sujeitado. Visões sincretistas que fundamentam a expiação também são abordadas, como a tese de Pedro Lombardo. Tomás de Aquino abordava que a expiação não era totalmente necessária, visto que Deus poderia ter permitido que a humanidade perecesse; bem como Deus poder redimir toda a humanidade sem exigir qualquer satisfação adequada. Para os Reformadores, a expiação mediante os sofrimentos e morte de Jesus estão em plena harmonia com a sabedoria divina. No período após a Reforma, diversas teorias foram formuladas, tais quais a de Schleiermacher, Ritschl e Bushnell.
Consequentemente, com a doutrina da expiação desenvolve-se a doutrina da aplicação da graça divina. Se num primeiro momento a igreja entendeu a soteriologia através dos conceitos de arrependimento e fé, no período da reforma os luteranos passam a abordá-la em torno da fé e da justificação, tratando o arrependimento e regeneração como passos preparatórios para conduzir o pecador a Cristo. Quanto aos arminianos, ensinaram que Deus outorgou ao homem uma graça universal e suficiente para capacitar os pecadores a crer no evangelho e ser obediente.
A obra encerra com a doutrina das últimas coisas, que segundo o autor, não teve grandes modificações no curso da história, e nem foi o centro da atenção, de forma que os Pais Apostólicos sequer refletiram sobre o estado intermediário, pois tinham a idéia de glória ou punição imediata após a morte. Essa visão evoluiu com os Pais posteriores, que ensinavam que os mortos descem ao Hades até o momento do juízo final, evoluindo para formulação da figura do purgatório, a qual encontrou oposição perto do fim da Idade Média, através de John Huss e John Wycliffe.
Quanto à volta de Cristo, a visão do retorno milenar imediato foi sendo ultrapassada gradualmente no curso da história. A doutrina do milênio foi rejeitada pelas igrejas protestantes, ressurgindo com nova roupagem no século XVII na forma de um reino mais espiritual do que material. Entretanto, por mais que tenha ganhado certa força, a doutrina do milênio ainda não foi incorporada em qualquer confissão de fé, de forma que, nas definições do termo, não pode ser considerada um dogma da Igreja, mas apenas uma doutrina de grande repercussão.
Por fim, acho que não poderia deixar de elogiar as perguntas que ele faz ao final de cada capítulo! A verdade é que o autor te incentiva a reforçar tudo que aprendeu, e de certa forma, é um bom mecanismo para usar o livro para preparar uma aula pra EBD, pois coloca o teor do capítulo nas suas próprias palavras. Assim, é possível montar o seu próprio resumo.

Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...