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terça-feira, 23 de maio de 2023

Mandado Cultural - A relação do cristão com o mundo

Mandado Cultural

A relação do cristão com o mundo


Introdução

A bíblia nos ensina em Gênesis 1:26 que Deus fez o homem a sua imagem, conforme a Sua semelhança. Na prática a gente não pensa muito nisso, e a discussão sobre o que o Senhor quis dizer com isso acaba ficando muito restrita aos círculos de debate teológico, escolas dominicais e sermões expositivos. 

Ocorre que esse conceito é de extrema importância para nossa, e está longe de ser uma mera discussão e conceituação sem implicação prática. Compreender a imagem e semelhança de Deus vai nos ajudar a compreender o que é o mandado cultural, e nos tornar cristãos mais conscientes sobre nós mesmos e nossa relação com o mundo a nossa volta.

O homem à imagem e semelhança de Deus

Imagem (tselem) e semelhança (demût) são dois termos que aparecem na mesma frase, na qual o nosso Senhor informa o seu desígnio de criar uma nova criatura totalmente diferente de todas as demais. Esta nova criatura criada por Deus foi moldada pelo próprio Senhor, que soprou o fôlego de vida em suas narinas e lhe deu uma missão gloriosa. Essa nova criatura divergia das demais, porque ela carregava em si mesma a imagem de Deus. O homem, segundo essas palavras, é similar, porém não idêntico ao Deus que o criou, tendo recebido a tarefa de representá-lo no cuidado do Jardim do Éden.

Como bem se entende hoje, dizer que o homem carrega a imagem e semelhança de Deus significa que Ele foi criado com características do Senhor, para representá-lo em funções semelhantes às que o nosso Deus exerce dos altos céus. Com isso, carregar em si a imagem de Deus significa que o homem possui aspectos semelhantes ao do Senhor, tais quais:
  • Capacidade intelectual
  • Pureza moral (antes da Queda)
  • Natureza espiritual
  • Domínio sobre a terra
  • Criatividade
  • Capacidade de tomar decisões éticas
  • Imortalidade (antes da Queda)
  • Sociabilidade e comunhão
Mesmo a Queda foi incapaz de tirar do homem a imagem de Deus (Gn 9:6 c/c Tg 3:9), mas tirou dele a plena semelhança com o Senhor, tendo em vista que o caráter pecaminoso do homem é incompatível com a santidade de Deus. Assim, o homem carrega em si mesmo a imagem de Deus corrompida pelos seus próprios pecados. Moral, intelecto, vida espiritual; tudo se encontra corrompido pela Queda do homem.

O que são os mandados criacionais?

Embora a imagem de Deus em nós esteja distorcida pelo pecado, ainda representamos o Senhor naquilo que Ele determinou que caberia à humanidade efetuar.  Podemos dividir a forma como o homem representa Deus na sua relação com o cosmos utilizando os três mandados criacionais encontrados desde o início da história humana.
  1. Mandado cultural - o homem precisava cultivar e proteger o Jardim do Éden.
  2. Mandado social - o homem recebeu a ordem de crescer e multiplicar, constituindo família.
  3. Mandado espiritual - o homem precisava se relacionar com Deus.

O que é o mandado cultural?

A criação do homem à imagem de Deus tem como aplicação os mandados criacionais, sendo o primeiro deles o mandado cultural. Ele se realiza através do domínio e sujeição (Gn 1:28) e da guarda e cultivo (Gn 2:15). Basicamente homem e mulher deveriam governar, desenvolver e manter o cosmos através do seu trabalho, que não pode ser interpretado como castigo, mas como um privilégio e responsabilidade. Pelo mandado cultural, compete ao homem cuidar da criação e do seu próximo.

Recebemos do Senhor a missão de reger a criação, portanto, o homem deve se envolver em todas as áreas que impliquem necessariamente no seu dever original de cuidar da criação, tais quais:

  • Política
  • Comércio
  • Artes
  • Trabalho
  • Indústria
  • Tecnologia
  • Lazer
  • Ecologia

Como funciona na prática?

Levando em consideração tudo que já foi dito, fica claro que o mandado cultural está longe de ser um mero conceito. Nele consiste a base da relação do homem com tudo a sua volta.  Se o homem recebeu uma missão desde o Éden que compreendia cuidar do jardim do Senhor, isso mostra a nossa responsabilidade com tudo que ocorre à nossa volta.

É preciso entender como o pecado afetou não somente a imagem de Deus em nós, como também a nossa capacidade de representá-Lo no cuidado do universo. Veja que nosso pecado não afeta somente o planeta terra, e um exemplo muito simples dessa afirmação é o fato de que atualmente nós somos capazes de produzir lixo espacial composto pelo resto de satélites e espaçonaves que lançamos para fora do planeta.

O homem que deveria dominar e sujeitar a natureza com amor e zelo, atualmente o faz de forma predatória, sem qualquer preocupação efetiva com guardar e cultivar aquilo que diariamente consome e destrói para fins de lucro, poder, acumulação de riquezas. Animais e plantas que deveriam ser preservados acabam sendo extintos, o solo que deveria ser cultivado é explorado até se tornar infértil e as árvores que deveriam prover sombra, alimento e recursos são desmatadas violentamente.

Na prática, compreender o mandado cultural é compreender que Deus te deu uma missão desde o início dos tempos. Você precisa representar Ele na forma como interage com o universo a sua volta! Precisa combater os impactos do pecado na natureza a sua volta! Como cristão, você precisa ser um agente de transformação e preservação. Deus não te criou pra destruir tudo a sua volta para satisfazer seus próprios desejos, afinal, você é apenas um servo cuidando da propriedade do seu Senhor. 

É a luta por políticas públicas de preservação e proteção da natureza, seres vivos e outros seres humanos; é o comércio que não explora o mercado de consumo; é a preocupação com a ecologia, com o impacto da indústria no meio ambiente, na forma que as tecnologias afetam nossa relação com o universo. 

Mandado cultural não é só um conceito. É a forma como você se relaciona com o mundo.





quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Resenha do Livro: Reino de Deus e Desenvolvimento Social: Uma perspectiva Latino Americana


Depois de meses sem postar nada, eis-me aqui! A razão é que, embora eu esteja lendo mais e produzindo mais textos do que nunca, todos eles são para o seminário. Eu sequer tenho tempo de publicá-los aqui! Pra piorar, tentei mudar a plataforma do blog, e acabei perdendo tempo na Wordpress.
Para mim é um grande prazer (e também uma grande responsabilidade) escrever o presente artigo! O Fábio foi meu mentor durante o tempo que trabalhei num projeto chamado "Papo Alternativo", mas isso não me impede de colocar um olhar crítico de estudante na obra dele!
A questão é... O LIVRO É BOM DEMAIS! O Reverendo Fábio explica de forma clara acerca do seu tema, muito pertinente para nós. Afinal, hoje em dia qualquer proclamação de justiça social é chamada de pauta de esquerda. O problema é que tem gente de má-fé que de fato alega que o evangelho tem espectro político, só pra atrair essa nova geração que graças a Deus começou a olhar com mais carinho para os hipossuficientes do nosso tempo!
A definição acerca do que vem a ser o Reino de Deus pode variar bastante de cristão para cristão, de forma que a obra do autor Fábio Macedo visa estudar as implicações presentes e futuras deste reino. Entre pontos de vista extremamente futuristas ou de aplicação exclusivamente histórica, o autor busca expor o quanto esse Reino é presente, histórico e experimental, sem perder seu caráter espiritual e mesmo escatológico.
O autor traz as concepções bíblicas acerco do tema, desde o Antigo Testamento, elucidando que a própria criação do cosmos aponta para o reinado de Deus, na medida em que Ele não apenas criou todas as coisas como as sustém pela eternidade. Toda a criação sempre estará sujeita ao Seu poder. Deus é considerado como o Rei acima de todos os reis e deuses, como o governador do mundo. Quanto às expectativas messiânicas, o autor aborda exemplos em todo o Antigo Testamento de ações e personagens que prefiguraram a obra que Cristo haveria de realizar.
Quando o autor declara que as expectativas do Reino de Deus cumprem-se na Pessoa de Jesus, do Seu ensino, sinas e prodígios, deixa claro que o reino messiânico vai além do Reino eterno que aguardamos no fim dos tempos. Isso porque o Reino de Deus apontado nos evangelhos, conforme comprovado pelo autor, demonstra não apenas uma realidade escatológica, como também uma realidade presente.
Há diversas passagens que evidenciam um reino futuro, e outras tantas que o apresentam como parte da realidade do povo cristão. O autor esclarece de forma brilhante que, quando declaramos que o reino de Deus está em nós/entre nós, declaramos que Cristo Reina em nossas vidas. Reinando entre sua igreja perseverante, o reino de Deus não deixa de existir de forma invisível e intangível; mas também não deixa de mudar a realidade visível e se manifestar em coisas tangíveis. Para ressaltar que o Reino de Deus é tanto uma realidade quanto uma expectativa, o autor nos lembra que o conceito de eternidade não apenas como algo que não tem fim, mas também como uma realidade sem começo, sempre existente.
Portanto, quando dizemos que o Reino de Deus é eterno, declaramos que Cristo não se tornará o Rei apenas no fim dos tempos, mas que Ele reina sobre todas as coisas no tempo presente. Não apenas sobre a vida de todos que nEle crêem, como também daqueles que negam-lhe a fé, por ter recebido o nome sobre todo nome. Entretanto, sendo a realização da vontade de Deus, o Reino não está perfeitamente realizado nesta era, visto que parte da vontade de Deus está reservada para o fim dos tempos.
É certo que no curso da história essa visão de Reino foi desconsiderada. A teologia do século XIX, com o seu Jesus histórico, tornou irrelevantes quaisquer referências a um Reino futuro. A idéia do evangelho social era estabelecer o reino presente, que consiste em fazer a vontade de Deus na terra.
O autor também destaca a forma como a visão do Reino de Deus afeta a missão da igreja. Trazer o Reino de Deus como uma perspectiva presente e futura nos incita a praticar o bem e a justiça social, mas também nos dá esperança e forças para seguir a caminhada. A autoridade do Rei se manifesta para a igreja, seu poder transforma a realidade humana, a igreja revela e aponta para o Rei, realizando a sua missão. Um ponto de destaque se dá pelo esclarecimento do autor de que a vida eterna não é outra vida, mas a vida presente, ressurreta na vida de Cristo. A vida eterna é a nossa vida projetada para a eternidade, sem descontinuidade desta existência para a que está por vir.
Assim, o terceiro capítulo da obra é dedicado a demonstrar como o Reino de Deus transforma a sociedade. O Reino gera uma consciência transformadora e histórica, que nas palavras do autor “revela uma práxis que afeta diretamente nossa postura social, política e religiosa” sem deixar de ser uma realidade transcendente e eterna. Vemos esta visão refletir na Teologia da Libertação e suas influências na América-latina, na qual a realidade do Reino está diretamente ligada à transformação social, com respostas práticas à questões concretas como fome, justiça, racismo e outros temas.
As reflexões acerca da transformação social culminaram na Teologia da Missão Integral, pela qual o evangelho deve ser levado a todos os homens, e ao homem todo. Com isto, define-se que tanto os aspectos físicos quanto os espirituais do homem devem ser levados em consideração. O homem passa a ser considerado em sua integralidade, de forma que o autor defende a necessidade de se fazer teologia que leve em consideração a população Latino-Americana e suas demandas. Também ratifica a necessidade de compreender nossa cultura para realizar a missão de forma mais eficaz.
Isso é fato! É falta de senso só orar pelo que tem fome, se você tem comida para oferecer! Não to falando de dar o que vai lhe faltar, mas de ter condições de atender a demanda do outro e não fazer! Não adianta só pregar que o homem deve deixar seus vícios, se ao menos não tentarmos ensiná-lo como fazer isso! No mínimo encaminhar as pessoas em direção a quem possa efetivamente ajudar!
O autor conclui a obra abordando a relação da Igreja com o Reino de Deus, ressaltando que no Novo Testamento a igreja é compreendida como comunidade do Reino, sem, entretanto, ser confundida com o mesmo. Ela é agente e testemunha do Reino celestial.
Desejo tudo de bom ao Reverendo Fábio Macedo! Se a igreja dele aplicar tudo que o livro ensina, poderei descansar que há uma igreja séria cuidando das pessoas!


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

STCN - Resenha do artigo "Espiritualidade: Cristã ou Líquida?"

Mais um trabalho entregue no seminário! Dentro da grade curricular, a Capelania se tornou disciplina obrigatória, visto que durante os próximos três anos há possibilidade de eu ficar afastado da minha igreja local aumenta consideravelmente, pois em breve estarei fazendo estágio em outra igreja (se bem que os meus pastores são professores no seminário). Caberá ao Deão, na medida do possível, acompanhar a mim e os demais seminaristas durante os próximos semestres, o que torna crucial nossa participação nas atividades (e a tendência de todo estudante é só querer fazer o que for obrigatório).


A UIECB deu um grande passo em prol do crescimento teológico das igrejas e seminários da denominação: em agosto de 2018 o Departamento de Educação Teológica da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil lançou a primeira edição da Revista Teológica, com 7 artigos produzidos por pastores da nossa denominação.

Cada aluno do seminário recebeu uma revista, e foi incumbido de escolher dois artigos sobre os quais deveria produzir resenhas. Escolhi os artigos 2 e 7 da revista. O primeiro traz o tema "Espiritualidade: Cristã ou Líquida?", escrito pelo Reverendo Márcio Leal, o qual, após a leitura, produzi a resenha abaixo:



ESPIRITUALIDADE: CRISTÃ OU LÍQUIDA

Leal, Márcio de Carvalho. Revista Teológica: Departamento de Educação Teológica da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. UIECB-DET. 1. Ed. Rio de Janeiro: Contextualizar, 2018.

O artigo escrito pelo Reverendo Márcio Leal aborda a espiritualidade do ser humano, fazendo um paralelo entre princípios bíblicos e o conceito de espiritualidade líquida, demonstrando, portanto, os efeitos da modernidade na vida do cristão. Cumpre salientar que o conceito de modernidade é espelhado em Zygmunt Bauman, para referir-se à pós-modernidade, portanto, o artigo aborda a espiritualidade do homem no período pós-moderno.

O autor inicia analisando o conceito de espiritualidade no curso da história da igreja, tanto do ponto de vista católico quanto o protestante, bem como a decomposição do termo, que deixa de caracterizar uma atividade proveniente da graça do Espírito Santo para caracterizar aquilo que não é material, dando origem a um dualismo através do qual infere-se que para viver espiritualmente é necessário distanciar-se do mundo.

Neste ponto, o autor afirma que segundo o Novo Testamento, o ser humano espiritual “é animado, transformado e potencializado pelo Espírito de Deus através de uma comunicação caritativa e oblativa”, o que altera o paradigma vital da vida do cristão, dando origem à uma nova prática a partir dos ensinos do Senhor Jesus Cristo. Ao falar da comunicação caritativa e oblativa, o autor refere-se ao exemplo de Cristo de caridade com todos os homens e entrega própria ao Pai, como oferta agradável.

A fim de trazer uma definição de espiritualidade cristã, o autor analisa o que é considerado um ser humano “espiritual”, usando o termo grego pneumatikós, que está presente em 1 Coríntios 3:1 e diz respeito à pertencer, ser motivado ou controlado pelo Espírito Santo. Essa operação do Espírito no homem, de acordo com o autor, se dá mediante a lei do Espírito, que dá a vida em Jesus Cristo, nos termos de Romanos 8:2. Essa mudança da lei do pecado para a lei de Deus no homem acarreta uma transformação integral, através da qual a essência do homem é mudada, e desta forma, a sua existência material também. A definição dada pelo autor é a de que “podemos definir a espiritualidade cristã como aquela que se refere à busca por uma experiência cristã autêntica e satisfatória, baseada na fé, nos valores e princípios cristãos” com impulso inicial dado pelo Espírito Santo e tendo como paradigma o Senhor Jesus Cristo.

Partindo desta premissa, o padrão de espiritualidade a ser vivido pelo cristão é a busca incessante de ser um imitador de Cristo. Desta forma, o autor constrói sua tese de que a espiritualidade cristã deve tomar forma concreta na história, e não ser apenas uma experiência interior ou de mera reflexão, trazendo transformações não apenas morais, como também sociais. Logo, a espiritualidade nestes termos diz respeito a mudança do ser pelo Espírito, para um agente de mudanças e transformações no mundo a sua volta. A doutrina encontra amparo em Bonhoeffer, que, de acordo com o autor, afirma que a espiritualidade ensinada por Cristo englobava não apenas a vida de oração constante, mas também a assistência social aos famintos, a cura dos enfermos e expulsão de demônios. A vida de Cristo é o exemplo perfeito de amor ao próximo.

Cabe uma ressalva à escolha do texto bíblico utilizado para afirmar que devemos assumir uma vida de seguimento a Cristo para ter uma espiritualidade genuinamente cristã. O versículo escolhido pelo autor foi Gálatas 2:19, e diz respeito à fala de Paulo acerca da justificação pela fé em Cristo, em um momento de oposição à postura possivelmente judaizante do apóstolo Pedro perante aqueles que vieram de Tiago, ao levantar-se da mesa dos gentios, abrindo margem para a interpretação dos demais de que a justificação implicava na observância da Lei. Paulo, portanto, afirma que a Lei aponta para Cristo, o qual fora crucificado; e que tendo seus pecados levados na cruz sobre Cristo, está morto para a prática da Lei, visto que não mais imputa a sua justiça por ela, mas reveste-se da graça e justiça de Cristo na cruz.

Também merece ressalva a tradução transcrita para o versículo que, conforme nota de rodapé da página 21, diz respeito à Bíblia em Linguagem Contemporânea. Enquanto o mesmo versículo na tradução de João Ferreira de Almeida traz a ideia de ter morrido na cruz com Cristo, ou seja, a morte do velho homem com o nascimento do novo homem, a tradução contemporânea traz a ideia de identificação total, o que não exatamente infere um novo nascimento, e pode dizer respeito simplesmente a identificar-se ideologicamente, por exemplo. Poder-se-ia criar um paralelo entre “estar crucificado com Cristo” e “identificar-se totalmente com Ele” semelhante ao encontrado em João 21:15-23 (agapao/phileo). A primeira parte do versículo também merece cuidado, visto que a tradução apresentada traz uma afirmação de Paulo quanto a não obter êxito em ter tentado agradar a Deus pela observância da lei quando não é possível inferir tal informação do versículo, visto que o objetivo do apóstolo é afirmar que morreu para a lei por descobrir a justificação em Cristo.

Após formular o conceito de espiritualidade cristã que norteia todo o artigo, o autor passa a abordar o conceito de espiritualidade líquida inerente à sociedade contemporânea observada por Zygmunt Bauman. Tal espiritualidade tem como marca o antropocentrismo, hedonismo, relativismo e relações com um deus chamado consumo.

Trata-se de uma análise brilhante acerca do quadro de boa parte das igrejas em funcionamento, com destaque àquelas de doutrina neopentecostal. Igrejas contaminadas pelo mundo, onde a cruz se tornou um mero acessório para um misticismo cujo único objetivo é satisfazer o desejo do homem de uma experiência estática e/ou sensitiva. Igrejas que reforçam a vontade do homem de sentir-se especial e diferente.

O autor aponta que esta espiritualidade líquida faz o homem perder o foco de que o Espírito Santo nos comunica Cristo, Sua relação trinitária e Sua doação e comunhão. Embora haja controvérsias em afirmar que somos a mão de Deus na história, sendo mais correto afirmar que Deus age apesar de nós; o autor é contumaz ao demonstrar que assim como o nosso Deus ama e vive em comunhão, nós somos chamados a amar ao próximo e viver em comunhão uns com os outros, cuidar do pobre, da viúva e do estrangeiro, ser sal e luz do mundo. Neste ponto, não basta não ser violento. O autor defende a necessidade de solidarizar-se com o outro a ponto de buscar meios para que os demais também não sejam.

Portanto, o autor vincula espiritualidade à busca por justiça social. Esta é de fato uma marca da obra de Deus no homem, visto que desde a Velha Aliança o cuidado aos necessitados fazia parte da lei de Deus, fosse pelo mandamento de amar ao próximo como a si mesmo, ou nas prescrições de cuidados com as viúvas, órfãos e estrangeiros, os hipossuficientes e excluídos da sociedade.

Conclui-se que a espiritualidade cristã traz consigo o amor ao próximo e a transformação de vida que leva o homem a tirar o foco de si e colocá-lo em Deus. Ao fazê-lo, o amor de Cristo nos constrange e nos estimula a amar ao próximo, transformando-se em agente transformador do mundo a nossa volta. Portanto, espiritualidade caminha junto com justiça social, pois desperta no filho de Deus a piedade e compaixão. Embora a crítica do autor à espiritualidade líquida seja focada no comprometimento do amor ao próximo, esta é antes de qualquer coisa um comprometimento da relação do cristão com Deus, visto que mesmo que por ignorância o homem passa a adorar a si mesmo.

Pedro Silva Drumond é acadêmico do primeiro período do Curso de Teologia do Seminário Teológico Congregacional de Niterói.

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