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domingo, 14 de agosto de 2022

Olhar para trás e dar um passo a frente - 167 anos de Congregacionalismo Brasileiro

Em 19 de agosto de 2022 comemoramos os 167 anos do Congregacionalismo Brasileiro, e como faço em todas as demais datas comemorativas, aproveito para fazer uma retrospectiva da história e avaliar tanto se tenho motivos para estar comemorando, quanto qual a lição que os meus irmãos deixaram para mim, que eu possa aplicar hoje.

Acredito que essa análise é extremamente necessária, e quando olhamos para trás, podemos claramente  vê-la na própria razão de ser congregacional. Foi a análise feita por parte de um grupo de puritanos inseridos na Igreja Anglicana sobre si e sobre a estrutura da Igreja, compelindo-os a lutar pelo direito de ter igrejas autônomas e independentes. No fim, ser congregacional sempre será a liberdade de olhar para sua igreja, associação ou União de Igrejas e tentar mudar a história ativamente através da sua voz e voto.

A data que comemoramos não é a do surgimento das primeiras igrejas evangélicas congregacionais no mundo, e sim o início do congregacionalismo no Brasil. Não é uma história que inicia com uma grande igreja e um templo chamativo: ela começa com um casal, uma pequena escola dominical e serviços de culto doméstico, oração e estudos bíblicos. A nossa história começa em 19 de agosto de 1855, com a fundação de uma escola dominical em Petrópolis, sob a direção de Robert Kalley e Sara Kalley.

Assim como foi no começo, precisa ser hoje. A sua história e contribuição para nossa denominação começa no seu pequeno grupo de influência, nas pessoas a sua volta que você consegue alcançar através do seu ensino, e principalmente do seu exemplo. Antes de formar uma igreja estruturada, o casal Kalley estruturou pessoas para fazerem parte do Corpo de Cristo, dando a elas o ensino da Palavra, e meios para acessá-la.

A primeira igreja congregacional só vai surgir quase três anos depois, em 11/07/1858, no Rio de Janeiro, chamada de Igreja Evangélica Fluminense, onde ocorreu o primeiro batismo de um brasileiro: Pedro Nolasco de Andrade. 

Não sei se você sabe, mas o nome "Congregacional" estava com a imagem um tanto manchada naquela época, razão pela qual tanto a Igreja Evangélica Fluminense, quanto a Igreja Evangélica Pernambucana, fundada em  19/10/1873 não receberam essa palavra no nome! Ainda assim, foram as duas primeiras igrejas congregacionais. Isto porque ser congregacional nunca foi sobre a palavra que aparece na placa da sua igreja, mas sobre a forma como nós vivemos como comunidade de fé. Ser congregacional é acreditar que Deus é soberano nas decisões locais e diárias de cada igreja, de maneira igual, não havendo hierarquia entre elas, mas uma abençoada relação de colaboração e comunhão.

Entretanto, não basta ter um modelo congregacional na organização da igreja. É preciso partilhar a mesma fé e doutrinas fundamentais do Cristianismo, que podem ser resumidas no documento oficial adotado pela nossa denominação: os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, lançados em 02/07/1876. Os artigos são realmente curtos, mas nem por isso são rasos no seu conteúdo. A base de uma vida cristã e conhecimento saudável sobre Deus e Sua igreja estão contidas ali.

O número de igrejas foi crescendo, crescendo e cresceu mais um pouco, tanto no Brasil quanto em Portugal, razão pela qual, em 06/07/1913, igrejas brasileiras e portuguesas formaram a Aliança das Igrejas Evangélicas Indenominacionais (até agora o nome continua sendo evitado). Aquelas igrejas compreenderam que ser autônomas e independentes não as tornavam o foco exclusivo de comunhão e adoração ao Senhor. Em um exercício de humildade, tais igrejas se uniram em uma união de igrejas que visava buscar uniformidade na sua prática da fé e colaboração mútua, afinal, adoravam ao mesmo Senhor! Elas entendiam que deveriam honrar e glorificar ao nome do Senhor juntas, colaborando umas com as outras em benefício do Reino de Deus! 

Nós também precisamos viver essa comunhão que extrapola os limites geográficos da igreja local, e buscar estar juntos em nossas associações de igrejas e na UIECB. Falando diretamente a você que é jovem, tem UMEC, FEMEC e COMEC, em nível local, regional e nacional, respectivamente! Queremos seu envolvimento conosco na UICEB, junto com outros milhares de jovens que partilham a sua fé! Você não está sozinho, e você pode edificar e ser edificado por outros irmãos espalhados por todo o país! Você pode (e deve hein!) fazer a diferença na vida dos seus irmãos em Cristo, dentro da sua denominação! 

E não se deixe enganar por palavras e relatos pessimistas de que não há conformidade entre as igrejas na UIECB, que há muita discordância e brigas nas nossas assembleias deliberativas, e que por vezes pastores se afastam de colegas de ministério em decorrência desses problemas. Afinal, se você olhar para história da nossa denominação vai perceber que ser congregacional não é pensar igual em tudo, mas permanecer unido, apesar das diferenças, mesmo que por um breve período de tempo a relação com seu irmão pareça rompida. É entender que somos todos parte do mesmo Reino, e um Reino no qual não há divisão.

É por isso nossa história e composta de uniões, separações e reaproximações. Em 1942, por exemplo, nós nos unimos com a Igreja Cristã Evangélica do Brasil e formamos a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil (UIECCB). Por discordância nas práticas de batismo, questões acerca da segurança da salvação e modo de governo, um grupo de 51 igrejas se separou 1960 e formou a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). Mas calma, que essa ainda não é a nossa!

Em 1968 as igrejas que permaneceram na UIECCB desfizeram a união de igrejas e ficaram sendo representadas pela Igreja Evangélica Congregacional do Brasil. No fim de tudo, os dois grupos se uniram novamente, em 1969 e formaram a nossa UIECB!

E esse é um breve resumo da nossa história! Uma história de altos e baixos, onde pessoas foram perseguidas por sua fé, direitos precisaram ser conquistados e igrejas se uniram e separam. Por outro lado, o nome do Senhor foi pregado com amor e zelo, e mais e mais igrejas continuaram a surgir. Essa não é apenas a história da nossa denominação. É a história da sua igreja, e também a sua história.

Rogo ao meu Senhor Jesus Cristo que você possa desenvolver a atitude e coragem necessária para viver a sua história conosco, exercendo os dons e talentos que o Senhor te deu, em benefício da sua igreja, em primeiro lugar, mas também da sua Associação Regional e União de Igrejas.

Que Deus nos abençoe em mais um ano!



segunda-feira, 7 de junho de 2021

Você morreria por uma oração?

Daniel, pois, quando soube que o edito estava assinado, entrou em sua casa (ora havia no seu quarto janelas abertas do lado de Jerusalém), e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus, como também antes costumava fazer.

Daniel 6:10





Se o Presidente assinasse um Decreto hoje determinando que qualquer pessoa que fosse pega orando deveria ser morta, você pararia de orar? Parece uma medida muito extrema, mas é real, e não são poucas as igrejas perseguidas para confirmar isso! 

Você continuaria orando?

Daniel foi lançado aos leões por causa do hábito de orar! Não estamos falando de orações públicas ou proclamação aberta do evangelho: Ele simplesmente entrava no quarto diariamente para orar sozinho, e sem a intenção de ser visto! Era o suficiente!

Talvez você caia na tentação de criticar Daniel, afinal, ele só precisava segurar a onda dele por 30 dias! Era só não orar! Mas o que havia por detrás dessas orações? Simples: Orar é a única forma que nós temos de falar com Deus.

Daniel não estava disposto a passar 30 dias sem falar com o Senhor da vida dele! Seria como dias sem comida ou água! Seria como viver num ambiente de ar rarefeito, com o peito pesado e a sensação de desmaio! Eu tento imaginar o sofrimento do profeta de precisar viver numa sociedade que a todo momento é hostil com o povo de Deus; cercado do paganismo e idolatria dos palácios do império medo-persa! Daniel, vivendo esse contexto, entendia a necessidade de cultivar tempo de qualidade diante do Pai!

Sim, Daniel colocou a cabeça dele a prêmio para poder orar, como ele sempre fez!

E você? Morreria por uma oração? Caso sua resposta tenha sido positiva, eu te desafio a testar a sua afirmação!

Você pode afirmar que morreria sim, mas eu gostaria de saber... Você deixaria de orar no seu ambiente de trabalho porque os seus colegas e superiores consideram inadequado para um ambiente plural? 

Estudante, você negaria verdades da fé cristã no TCC ou Monografia só para não perder pontos com a banca examinadora?

Pense em todas as oportunidades nas quais você deixou de orar, seja por constrangimento, vergonha, ou outro motivo qualquer! Todas as vezes que você abre mão de orar, você está demonstrando que seu trabalho, estudos ou círculo de relacionamentos é mais importante que cultivar tempo de qualidade com Deus.

É bem provável que você não possa afirmar que morreria por uma oração.

Esse simples versículo tem muito a nos ensinar, mas por hora vamos parar e refletir! Nos próximos artigos a gente conversa um pouco mais sobre esse versículo!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Resenha do Livro: Igrejas que Transformam o Brasil




A obra dos autores Ed Stetzer e Sérgio Queiroz busca analisar diversos fatores e características das igrejas consideradas saudáveis, e que trazem mudanças não apenas para os seus próprios membros, como para toda a sociedade dentro de sua área de atuação. Para isto, os autores salientam a necessidade de haver equilíbrio de doutrina e proclamação do amor de Deus.

O objetivo dos autores é desenvolver um conceito de igreja que vai além das quatro paredes de seus próprios templos, mediante a análise de diversas igrejas locais por todo o Brasil, sem acepção de denominação. Essa abordagem não apenas apresenta todas as igrejas locais como integrantes de uma única igreja, como também deixa evidente que há determinadas características das comunidades de fé que podem apontar realidades globais. Outro grande ponto positivo desta abordagem é que analisa o tema na perspectiva brasileira. No geral importamos material estrangeiro acerca do assunto, que por vezes destoam da nossa realidade social.

Logo no primeiro capítulo um conceito base nos é apresentado: A igreja como o instrumento de Deus para os propósitos do Reino. Isto faz de cada cristão um instrumento de Deus para edificação da igreja e pregação para o mundo. Fica evidente que para os autores esta visão acerca do papel da igreja e do cristão é o marco inicial para as igrejas brasileiras comecem a causar impacto na sociedade. Em sentido contrário, o fato da igreja brasileira ter esquecido do seu papel de querigma e limitado-se, em sua grande maioria, a promover as reuniões para aqueles que já integram o seu quadro de membros e a razão pela qual a atual  contribuição cristã evangélica para o Brasil é quase nula.

Assim, os autores desenvolvem o conceito de igreja transformacional, definida como “aquela que se concentra tenazmente na capacidade do evangelho de mudar a vida das pessoas” (página 32); o que é definido e exaustivamente abordado por Mark Dever como igreja intencional. Essa diferença terminológica justifica-se pela vinculação da intencionalidade não à igreja, mas aos relacionamentos. Os relacionamentos intencionais são um meio para que a igreja se torne transformacional, operando o primeiro conceito no rol de objetivos, enquanto este último encontra-se na eficácia. Mudanças externas só ocorrerão quando a igreja retomar seus objetivos.

Os autores levam em consideração que a eficácia de uma igreja tem sido medida por um velho padrão americano que considera o número de pessoas que frequentam as atividades da igreja (cabeças), o orçamento e capital da igreja (conta bancária), e o tamanho da estrutura física da igreja (construções).

O problema se dá pois a importação de modelos avaliativos estrangeiros esbarra na realidade brasileira, o que novamente é apontado pelos autores. Em seguida, apresentam um novo modelo de medida da eficácia da igreja, que considera não a quantidade, mas a qualidade de determinados aspectos da igreja. Não basta igrejas repletas de pessoas que não podem ser consideradas discípulas de Cristo. Assim, o novo modelo leva em consideração o quão bem-sucedidas as igrejas tem sido em fazer discípulos.

Não apenas os números, como também a capacidade da igreja oferecer oportunidades dos membros desenvolverem relacionamentos de longa duração, práticas espirituais baseadas na Palavra e o uso das mesmas para produzir transformação. Isto é denominado pelos autores como Ciclo Transformacional, o qual considera: (1) o discernimento da igreja, mediante uma mentalidade missionária; (2) a capacidade da igreja abraçar, caracterizada pela liderança apaixonada, relacionamentos estáveis e principalmente na ênfase em oração; (3) o envolvimento na adoração, vida comunitária e missão da igreja.

Conceitos como uma liderança dinâmica, que independe de cargo eclesiástico ou título, bem como a percepção do evangelismo como um estilo de vida, e não um programa ou mera atividade são conceitos destacáveis nestes pontos.

A partir do terceiro capítulo da obra os autores se dedicam a trabalhar cada um dos tópicos do ciclo transformacional, iniciando pela mentalidade missionária. Para eles um grande problema tem sido um foco excessivo das igrejas em si mesmas, fazendo com que as mesmas sejam irrelevantes para o local onde estão inseridas. Para que uma igreja seja transformacional ela deve compreender que se foi inserida em uma determinada comunidade, e para transformá-la. É comum ver igrejas e congregações totalmente destoantes e mesmo alienadas em relação ao seu contexto geográfico, como se estivessem se escondendo ou evitando as pessoas a sua volta.

Alguns relatos de igrejas consideradas transformacionais trazem exemplos de como agir em prol e de acordo com as pessoas que circunvizinham a igreja, como por exemplo, a regionalização dos ritmos, consulta às autoridades locais acerca da igreja e sua atuação, entre outras medidas.

É importante ressaltar, assim como apontado pelos autores, que esta dimensão mais pessoal da igreja não exclui seu dever de enviar missionários em caráter global. A igreja deve cuidar de si, da comunidade a sua volta, mas também de pessoas e grupos espalhados por todo o planeta.

Em seguida, os autores trabalham o conceito de liderança vibrante, caracterizada pela valorização dos dons e talentos daqueles que são liderados. Ensinam que um verdadeiro líder não concentra em si o foco e atividades da igreja. Liderar é conduzir o outro na descoberta do seu lugar no Corpo, preparando-o para preparar aqueles que virão depois dele. Líderes transformacionais investem na formação de outros líderes e desejam que cada vez mais pessoas se engajem na obra, sempre salientando o sacerdócio universal de todos os crentes dentro e fora das atividades da igreja. Neste tópico, o capítulo é encerrado com exemplos de liderança transformacional pelo próprio Senhor Jesus Cristo, que deve ser o modelo a ser seguido por todo cristão.

Já no quinto capítulo o conceito de intencionalidade vem a ser trabalhado na esfera das construções de relacionamento. Uma igreja que transforma o Brasil é apresentada como aquela na qual as pessoas investem em relacionamentos, e fazem isso de forma planejada. Há intenção de amar e valorizar as pessoas em sua caminhada com Cristo. Ser relacional e intencional são coisas diferentes, pois o cristão relacional investe em construir relações, enquanto o intencional constrói relações para glória de Deus, visando a edificação do outro. Fica claro que a iniciativa de aproximar-se não deve ser daquele que está chegando, mas daquele que já está dentro.

Concordo com os Autores acerca da necessidade dos pequenos grupos, pois são eficazes mecanismos nas construções de relacionamentos, o que acabou sendo posto de lado em território brasileiro pelo trauma das experiências com G12, M12 e afins.

Também apontam a necessidade da igreja dar ênfase a oração, visto ser o que constrói uma relação estreita entre Deus e o homem. Assim, igrejas transformacionais são aquelas que investem seu tempo e incentivam seus membros a orarem. Não o fazem de forma meramente litúrgica, mas de forma espontânea, por diversas vezes, em busca de compreensão e afeição por parte do Senhor. Líderes de uma igreja transformacional precisam ter uma vida de oração, a fim de dar o exemplo aos demais. Os autores são claros: “Onde as pessoas oram, Deus opera. Onde Deus opera, a transformação acontece.”

A adoração também é apontada como uma marca de uma igreja transformacional. Uma igreja disposta a transformar o Brasil deve render-se e adorar ao Senhor diante da revelação de Cristo e poder do Espírito Santo. A adoração conecta as pessoas com Cristo, equipando-as para o ministério. Não se confunde com o estilo do louvor ou meramente a liturgia, mas engloba a resposta da congregação à obra de Cristo na cruz. Aliás, o estilo e planejamento do culto não devem levar em consideração as preferências pessoais do pastor, e sim a comunidade, de forma contextualizada. Os autores são exaustivos na tentativa de diferenciar adoração de louvor, dedicando muito tempo a abordagem sobre o tema. Ao final do capítulo adoração é trabalhada exclusivamente na figura do louvor, com diversos conselhos para escolha dos mesmos de forma contextualizada, porém adequada a Palavra de Deus.

Já o conceito de vida comunitária trazido pelos autores de certa forma trabalha pontos já abordados nos relacionamentos intencionais, inclusive no que diz respeito ao incentivo à pequenos grupos, que na verdade acabou sendo o foco do capítulo, pela ênfase na máxima participação de todos os membros.

O último tópico do livro encerra o Ciclo Transformacional. A missão é definida como a razão de existência da igreja e o evangelismo como parte natural da vida. Não se fala de momentos de missão da igreja, mas de missão a todo o momento, por ser parte crucial da igreja. A missão deve estar comprometida em levar a igreja para a cidade, mesmo que a cidade não procure a igreja. Neste sentido, podemos entender que a igreja não apenas prega o Reino, mas insere o Reino invisível na realidade visível das pessoas, através da justiça social e envolvimento com a sua comunidade e contexto.

A igreja deve definir um objetivo, preparar-se para o evangelismo, e obviamente para a oposição. O líder deve liderar a igreja, ao mesmo tempo que lidera as pessoas mediante discipulado e acompanhamento pessoal.

Podemos concluir que o livro traz uma boa proposta, com informações baseadas em uma pesquisa de mais de cinco anos. Entretanto, cabe a ressalva ao método utilizado pelos autores, uma vez que, ainda que a pesquisa seja plural no tocante as igrejas, as respostas foram dadas pelos próprios pastores e membros das igrejas entrevistas.

Há de se considerar a possibilidade de que parte destes irmãos possam ter superestimado a sua igreja. É comum que tenhamos dificuldades de nos posicionarmos de maneira contrária ou negativa às nossas próprias comunidades de fé. Não há como os autores apurarem a veracidade das informações coletadas, tornando a pesquisa, de certa forma, uma questão de confiança. Desta forma, torna-se arriscado atribuir às igrejas entrevistadas o título de transformacionais, uma vez que a despeito das respostas dadas pelos membros, poder-se-ia descobrir sérios problemas na igreja que chamariam a atenção e gerariam escândalos.

Por fim, a obra funciona como um manual prático para as igrejas, com diversos conselhos, exemplos e casos concretos. O livro é pragmático, no melhor dos sentidos, sem abrir mão da fundamentação bíblica, de forma que concilia teoria e prática de uma forma extremamente natural. A igreja transformacional precisa estar atenta à todos os aspectos do Ciclo Transformacional, sempre buscando se lapidar naqueles em que estiver em falta.

Memento Mori



Há algumas semanas eu abri o contato do Whatsapp do nosso irmão Nicolas Viana e dei de cara com o sua frase de status que dizia "Memento mori". Fiquei curioso, e após alguns minutos de pesquisa descobri o significado:

"Lembre-se, você irá morrer!"

O mais interessante foi descobrir que essa frase era proferida durante o Triunfo Romano de um herói de guerra! Na última vez que preguei na minha igreja, ponderei sobre três aspectos da Paixão de Cristo que ressaltam sua majestade: a coroa, a espada e o triunfo.

Neste último ponto, deixei claro que o sofrimento de Cristo no caminho até a Gólgota poderia ser comparado à cerimônia do Triunfo Romano. Cristo naquele momento era o herói de guerra que venceu a morte, e desfilou por Jerusalém vestido do escarlate do seu sangue, levando na cabeça uma coroa de espinhos.

Quando eu preparei o sermão não tinha conhecimento de um outro aspecto do Triunfo Romano! O herói de guerra desfilava acompanhado por alguém que, em meio às comemorações e homenagens, sussurrava constantemente ao seu ouvido "Memento mori"... Lembre-se, você vai morrer!

Assim, o general não perderia de vista que a sua glória era passageira. Talvez durasse algumas gerações, mas ainda assim, a morte teria posto fim ao grande herói! Cedo ou tarde seu brilhantismo ou a força dos seus músculos não existiriam! Aquele homem, como todos os demais, iria morrer!

Mas com o Senhor Jesus foi diferente! A morte não era o fim da sua glória e poder. Diferente do herói de guerra humano, com Cristo não se ressalta "Você irá morrer!", mas sim "Ressuscitou! Ele vive!"

Enquanto o homem é lembrado que sua vida e conquistas são passageiras, Cristo verá o fruto do Seu penoso trabalho e se alegrará eternamente! Ele reina triunfante pela eternidade! E por esta razão somos lembrados diariamente que Ele voltará para buscar aos seus!

Memento quod et revertetur

Resenha do livro: História das Doutrinas Cristãs - Louis Berkhof

Um cara com um nome difícil, e uma pegada teológica bem pesada: Louis Berkhof! Não sei se é apenas o meu ponto de vista, mas sempre considerei que esse autor escreve pressupondo que você tem uma série de conhecimentos prévios. Não me recordo o nome do livro, mas tive contato com uma obra dele na qual ele abordava formação do cânon pressupondo que você conhecia uma série de temas sobre cultura judaica! Mas enfim...


A obra aborda a História das Doutrinas do Cristianismo, que, embora o autor aponte a diferença dos termos “doutrina” e “dogma”, acaba por usar o primeiro como sinônimo do segundo. Assim, nas palavras do autor, a doutrina é a expressão direta de uma verdade religiosa; ao passo que o dogma é uma realidade religiosa baseada sobre autoridade, oficialmente formulada por qualquer assembléia eclesiástica. Quando diz que um dogma “pode ser definido como uma doutrina, derivada da Bíblia, oficialmente definida pela Igreja e declarada firmada sobre a autoridade divina” o autor está unindo os elementos definidores da doutrina, do dogma, bem como adicionando a ação de Deus na condução da formulação.
Cabe ressaltar que nos primeiros capítulos a obra adota um tom mais doutrinário, no qual o autor estabelece os fundamentos para compreensão do tema, mediante a definição de termos e sua construção história. Após, o livro aborda as doutrinas cristãs em sete blocos temáticos, onde cada capítulo aborda o tema em determinado período histórico. Também precisa ser destacado que, ainda que o autor aborde as controvérsias com base na sua cronologia, o método adotado na literatura leva em consideração os temas até a exaustão de sua discussão. Podemos citar como exemplos as discussões cristológicas, que são abordadas nos Concílios do Período da Patrística e retornam nos séculos XVIII e XIX com as definições do Jesus Histórico.
O leitor precisa considerar tais informações, pois, se por um lado exaure o debate sem a interrupção para discorrer outros temas; por outro lado o autor não se preocupa em definir quais controvérsias foram concomitantes. Cite-se como exemplo que as controvérsias da doutrina do pecado, da graça e da expiação ocorreram no Oriente durante ao mesmo período, assim como o fato das mesmas serem concomitantes aos debates cristológicos no Oriente.
O livro, semelhante à obra do autor Roger Olson, demonstra que toda a construção dogmática da igreja é sustentada pela vida dos seus construtores, mantendo certa continuidade lógica e histórica. Não se tratavam de meras especulações ou amor ao debate, mas da própria construção da base da igreja, que durante certo período não teve o cânon completo. Os debates cristológicos foram conseqüência dos debates trinitários que os antecedeu, que por sua vez acompanham todos os debates filosóficos, perversões judaicas e acusações de politeísmo do seu período histórico.
Todo o desenvolvimento doutrinário iniciou com as perversões do evangelho, tanto da parte do judaísmo quanto dos gentios, devendo-se destacar o gnosticismo como o maior inimigo da igreja primitiva. Assim, coube aos Pais da Igreja defender o ensino dos apóstolos quanto a pessoa de Cristo, a autoridade dos escritos apostólicos e a salvação. Destaque-se as controvérsias acerca da caracterização de Jesus como o Logos, conceito vinculado à filosofia grega; a natureza da obra salvífica, que os gnósticos vinculavam à recepção de um conhecimento especial e superior ao dos apóstolos; e a relação entre o Pai e o Filho debatida pelo monarquismo.
Essas controvérsias foram o pano de fundo para que a controvérsia trinitariana eclodisse com o conflito de Ário e Atanásio, resolvido em parte pelo Concílio de Niceia. Entretanto, como a definição nicena não satisfez nem os seguidores de Ário e nem os de Atanásio, razão pela qual os o Concílio da Constantinopla foi instaurado para reformular o credo, inclusive considerando os debates dos Pais Capadócios acerca do Espírito Santo. As discussões trinitárias receberam novo ânimo com o retorno do sabelianismo e subordinacionismo no período da Reforma e após.
Quanto à doutrina de Cristo, as discussões tiveram início com as controvérsias oriundas dos debates trinitarianos, com grupos ebionitas, alogi e monarquianos dinâmicos que negavam a deidade de Jesus; ao mesmo tempo que docéticos, gnósticos e modalistas rejeitavam a humanidade. É certo que o Concílio de Calcedônia não foi suficiente para por fim a questão, cujo debate retornou com os monofisistas e outros grupos. Esse debate não ocupou a base das discussões durante a Idade Média. Destaca-se a ação de Tomás de Aquino, que aderia à doutrina da união hipostática. Durante o período da Reforma a cristologia luterana reflete na forma como se entende a Eucaristia. Para Lutero, as duas naturezas se permeiam, e a humanidade de Cristo participa dos atributos da divindade.
A abordagem da história da cristologia realizada por Berkhof é sem dúvidas a mais elaborada. Visto que aborda desde o período dos Pais Apostólicos até as discussões no século XIX acerca da abordagem de Cristo, que na concepção dos teólogos modernos deveria partir do Jesus Histórico, e não dos atributos divinos e revelação especial acerca de Cristo. Ademais, Jesus é despido de parte da sua obra, sendo abordado como um mártir ou exemplo de autruísmo.
Em seguida o autor aborda a doutrina do pecado e da graça, com destaque à Agostinho e Pelágio, cujo embate permeou toda a discussão subseqüente, que hoje é melhor conhecida nas posições de Armínio e João Calvino acerca da depravação, livre-arbítrio e soberania de Deus. Também destaca o arminianismo wesleyano (que diverge do clássico em alguns pontos como a graça para ter fé e arrependimento) e as posições pós-reformas, que contemplam o pecado até mesmo como um mal metafísico, e não ético; ou, como no caso de Schleiermacher, considerá-lo como produto da natureza sensual do homem.
A doutrina da expiação é abordada inicialmente com a teologia dos Pais gregos até o período pós-reforma. Destaque-se a Teoria da Recapitulação apresentada por Irineu, pela qual Cristo teria recapitulado em si todas as etapas e experiências da vida humana, revertendo a obra de Adão e transmitindo aos homens a sua imortalidade. Já Anselmo fez a primeira tentativa de expor a doutrina da expiação de forma harmoniosa e coerente, criticando as teorias da recapitulação e do resgate, justificando a obra redentora como necessária em razão da honra de Deus, a qual o homem deveria ter se sujeitado. Visões sincretistas que fundamentam a expiação também são abordadas, como a tese de Pedro Lombardo. Tomás de Aquino abordava que a expiação não era totalmente necessária, visto que Deus poderia ter permitido que a humanidade perecesse; bem como Deus poder redimir toda a humanidade sem exigir qualquer satisfação adequada. Para os Reformadores, a expiação mediante os sofrimentos e morte de Jesus estão em plena harmonia com a sabedoria divina. No período após a Reforma, diversas teorias foram formuladas, tais quais a de Schleiermacher, Ritschl e Bushnell.
Consequentemente, com a doutrina da expiação desenvolve-se a doutrina da aplicação da graça divina. Se num primeiro momento a igreja entendeu a soteriologia através dos conceitos de arrependimento e fé, no período da reforma os luteranos passam a abordá-la em torno da fé e da justificação, tratando o arrependimento e regeneração como passos preparatórios para conduzir o pecador a Cristo. Quanto aos arminianos, ensinaram que Deus outorgou ao homem uma graça universal e suficiente para capacitar os pecadores a crer no evangelho e ser obediente.
A obra encerra com a doutrina das últimas coisas, que segundo o autor, não teve grandes modificações no curso da história, e nem foi o centro da atenção, de forma que os Pais Apostólicos sequer refletiram sobre o estado intermediário, pois tinham a idéia de glória ou punição imediata após a morte. Essa visão evoluiu com os Pais posteriores, que ensinavam que os mortos descem ao Hades até o momento do juízo final, evoluindo para formulação da figura do purgatório, a qual encontrou oposição perto do fim da Idade Média, através de John Huss e John Wycliffe.
Quanto à volta de Cristo, a visão do retorno milenar imediato foi sendo ultrapassada gradualmente no curso da história. A doutrina do milênio foi rejeitada pelas igrejas protestantes, ressurgindo com nova roupagem no século XVII na forma de um reino mais espiritual do que material. Entretanto, por mais que tenha ganhado certa força, a doutrina do milênio ainda não foi incorporada em qualquer confissão de fé, de forma que, nas definições do termo, não pode ser considerada um dogma da Igreja, mas apenas uma doutrina de grande repercussão.
Por fim, acho que não poderia deixar de elogiar as perguntas que ele faz ao final de cada capítulo! A verdade é que o autor te incentiva a reforçar tudo que aprendeu, e de certa forma, é um bom mecanismo para usar o livro para preparar uma aula pra EBD, pois coloca o teor do capítulo nas suas próprias palavras. Assim, é possível montar o seu próprio resumo.

sábado, 6 de outubro de 2018

Salmos 1:4 - O homem de palha

"Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha."
(Salmo 1:4)



Após comparar os justos a uma árvore junto a corrente de águas, o salmista volta a referir-se ao ímpio, comparando-o com a palha que é lançada para longe. O que esta sentença tem a nos ensinar?


A palha no período do salmista era o cúmulo da inutilidade e falta de aproveitamento. Não tinha raiz, peso ou utilidade. Quando era joeirada, o vento lançava-a para longe, e apenas os grãos ficavam.

É isso: o ímpio é inútil. 

Qual é a utilidade do homem que não crê em Deus no fim das contas? Qual a razão da sua existência? Não havendo Deus, somos um grande acidente cósmico, fruto da aleatoriedade. Nascemos e morremos sem objetivos, e na tentativa vã de não enlouquecer em nossa insignificância buscamos formas de nos dar um sentido. Em um universo com bilhões de anos de existência, buscamos deixar nossa assinatura na eternidade. 

Como a palha, o ímpio é levado não apenas por ventos de doutrinas, ele é simplesmente levado. Vaga pelo mundo sem um objetivo definitivo, buscando sentido, uma forma de ser mais do que nada, para não morrer da mesma forma que nasceu: sem qualquer utilidade. Busca dar peso a sua existência através das suas obras, busca perpetuar-se por suas ideias e exemplos. O homem não aceita a insustentável leveza de ser tão breve e incompleto sem Deus; busca viver, ainda que como ideia. Shakespeare dedicou diversos sonetos a falar da beleza da mulher amada, lamentando que ela envelheceria com as estações. Cria, portanto, o Soneto XVIII com o objetivo de eternizá-la. O tempo levaria beleza e vida, mas em sua concepção, ela seria eterna, pois transporia as gerações junto com o soneto.

A verdade é que a vida do homem só faz sentido a partir do momento de que ele reconhece a existência de Deus. Ele deixa de uma criatura natimorta e passa a ser filho de Deus. Ele descobre que sua existência, antes sem sentido, na verdade tem como fundamento a glória de Deus e seu incomparável amor, visto que diante da ofensa do pecado, manifestou a Sua misericórdia! Descobre que nasceu para servir ao Senhor, cuidando pessoalmente da criação, governando sobre todas as criaturas.

Deus é o fundamento da existência, e, não O encontrando, o ímpio ergue a si mesmo ou ídolos na busca de completar o seu vazio existencial; sua falta de Jesus. Ele faz de si o seu próprio Deus; de suas obras mandamentos. Ele busca em homens a sua própria salvação. Busca ídolos segundo seu coração, que é repleto de misticismo, ao invés de espiritualidade. Ele procura auxílio de coachs para suas aflições e falta de fé, como se tentasse suturar uma ferida com band-aids; quando na verdade ele só precisaria olhar pra Jesus Cristo!

Só o homem com Cristo alcança o que o ímpio apenas deseja: gozar a vida, e ao fazê-lo, ter um sentido para viver e existir. 


Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...