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terça-feira, 23 de maio de 2023

Mandado Cultural - A relação do cristão com o mundo

Mandado Cultural

A relação do cristão com o mundo


Introdução

A bíblia nos ensina em Gênesis 1:26 que Deus fez o homem a sua imagem, conforme a Sua semelhança. Na prática a gente não pensa muito nisso, e a discussão sobre o que o Senhor quis dizer com isso acaba ficando muito restrita aos círculos de debate teológico, escolas dominicais e sermões expositivos. 

Ocorre que esse conceito é de extrema importância para nossa, e está longe de ser uma mera discussão e conceituação sem implicação prática. Compreender a imagem e semelhança de Deus vai nos ajudar a compreender o que é o mandado cultural, e nos tornar cristãos mais conscientes sobre nós mesmos e nossa relação com o mundo a nossa volta.

O homem à imagem e semelhança de Deus

Imagem (tselem) e semelhança (demût) são dois termos que aparecem na mesma frase, na qual o nosso Senhor informa o seu desígnio de criar uma nova criatura totalmente diferente de todas as demais. Esta nova criatura criada por Deus foi moldada pelo próprio Senhor, que soprou o fôlego de vida em suas narinas e lhe deu uma missão gloriosa. Essa nova criatura divergia das demais, porque ela carregava em si mesma a imagem de Deus. O homem, segundo essas palavras, é similar, porém não idêntico ao Deus que o criou, tendo recebido a tarefa de representá-lo no cuidado do Jardim do Éden.

Como bem se entende hoje, dizer que o homem carrega a imagem e semelhança de Deus significa que Ele foi criado com características do Senhor, para representá-lo em funções semelhantes às que o nosso Deus exerce dos altos céus. Com isso, carregar em si a imagem de Deus significa que o homem possui aspectos semelhantes ao do Senhor, tais quais:
  • Capacidade intelectual
  • Pureza moral (antes da Queda)
  • Natureza espiritual
  • Domínio sobre a terra
  • Criatividade
  • Capacidade de tomar decisões éticas
  • Imortalidade (antes da Queda)
  • Sociabilidade e comunhão
Mesmo a Queda foi incapaz de tirar do homem a imagem de Deus (Gn 9:6 c/c Tg 3:9), mas tirou dele a plena semelhança com o Senhor, tendo em vista que o caráter pecaminoso do homem é incompatível com a santidade de Deus. Assim, o homem carrega em si mesmo a imagem de Deus corrompida pelos seus próprios pecados. Moral, intelecto, vida espiritual; tudo se encontra corrompido pela Queda do homem.

O que são os mandados criacionais?

Embora a imagem de Deus em nós esteja distorcida pelo pecado, ainda representamos o Senhor naquilo que Ele determinou que caberia à humanidade efetuar.  Podemos dividir a forma como o homem representa Deus na sua relação com o cosmos utilizando os três mandados criacionais encontrados desde o início da história humana.
  1. Mandado cultural - o homem precisava cultivar e proteger o Jardim do Éden.
  2. Mandado social - o homem recebeu a ordem de crescer e multiplicar, constituindo família.
  3. Mandado espiritual - o homem precisava se relacionar com Deus.

O que é o mandado cultural?

A criação do homem à imagem de Deus tem como aplicação os mandados criacionais, sendo o primeiro deles o mandado cultural. Ele se realiza através do domínio e sujeição (Gn 1:28) e da guarda e cultivo (Gn 2:15). Basicamente homem e mulher deveriam governar, desenvolver e manter o cosmos através do seu trabalho, que não pode ser interpretado como castigo, mas como um privilégio e responsabilidade. Pelo mandado cultural, compete ao homem cuidar da criação e do seu próximo.

Recebemos do Senhor a missão de reger a criação, portanto, o homem deve se envolver em todas as áreas que impliquem necessariamente no seu dever original de cuidar da criação, tais quais:

  • Política
  • Comércio
  • Artes
  • Trabalho
  • Indústria
  • Tecnologia
  • Lazer
  • Ecologia

Como funciona na prática?

Levando em consideração tudo que já foi dito, fica claro que o mandado cultural está longe de ser um mero conceito. Nele consiste a base da relação do homem com tudo a sua volta.  Se o homem recebeu uma missão desde o Éden que compreendia cuidar do jardim do Senhor, isso mostra a nossa responsabilidade com tudo que ocorre à nossa volta.

É preciso entender como o pecado afetou não somente a imagem de Deus em nós, como também a nossa capacidade de representá-Lo no cuidado do universo. Veja que nosso pecado não afeta somente o planeta terra, e um exemplo muito simples dessa afirmação é o fato de que atualmente nós somos capazes de produzir lixo espacial composto pelo resto de satélites e espaçonaves que lançamos para fora do planeta.

O homem que deveria dominar e sujeitar a natureza com amor e zelo, atualmente o faz de forma predatória, sem qualquer preocupação efetiva com guardar e cultivar aquilo que diariamente consome e destrói para fins de lucro, poder, acumulação de riquezas. Animais e plantas que deveriam ser preservados acabam sendo extintos, o solo que deveria ser cultivado é explorado até se tornar infértil e as árvores que deveriam prover sombra, alimento e recursos são desmatadas violentamente.

Na prática, compreender o mandado cultural é compreender que Deus te deu uma missão desde o início dos tempos. Você precisa representar Ele na forma como interage com o universo a sua volta! Precisa combater os impactos do pecado na natureza a sua volta! Como cristão, você precisa ser um agente de transformação e preservação. Deus não te criou pra destruir tudo a sua volta para satisfazer seus próprios desejos, afinal, você é apenas um servo cuidando da propriedade do seu Senhor. 

É a luta por políticas públicas de preservação e proteção da natureza, seres vivos e outros seres humanos; é o comércio que não explora o mercado de consumo; é a preocupação com a ecologia, com o impacto da indústria no meio ambiente, na forma que as tecnologias afetam nossa relação com o universo. 

Mandado cultural não é só um conceito. É a forma como você se relaciona com o mundo.





sábado, 29 de abril de 2023

Cosmovisão cristã sob a perspectiva do Reino de Deus

 

A cosmovisão cristã é a forma como você interpreta a realidade, fenômenos e acontecimentos a sua volta, tendo como premissa a Verdade do Evangelho. Como já declarado por Felipe Fontes, da Mackenzie:

"A cosmovisão cristã não é apenas um conjunto de ideias, mas é, antes de qualquer coisa, um conjunto de verdades com as quais estamos comprometidos. Por isso, é fácil vê-la na forma como vivemos e não só no que entendemos como verdade. Porque ela transcende a teoria."

Se a sua cosmovisão diz respeito a forma como você interpreta o mundo, ela não é meramente um ideal subjetivo, mas se reflete principalmente nas suas ações. Se reflete na forma como você se posiciona socialmente, politicamente, filosoficamente. Se reflete na forma como você interpreta um dogma  ou recebe uma informação. A sua cosmovisão vai definir em qual lado de um debate você vai estar posicionado, por quais pautas sociais você vai lutar, e mesmo a forma que você vai se comportar.

Quando falamos do conjunto de verdades que pautam a nossa cosmovisão, estamos falando das verdades bíblicas, as quais geralmente são sintetizadas em quatro pilares: criação, queda, redenção e consumação. Portanto:

  • Deus é o criador do universo e tudo que nele há (Gênesis 1:1);
  • Todos os homens são pecadores à semelhança de Adão (Romanos 3:23-26);
  • Cristo morreu e ressuscitou para reatar o relacionamento dos pecadores com Deus (Romanos 3:23-26);
  • Na consumação dos tempos Deus fará novos céus e terra para habitarmos com Ele (Isaías 65:17).
Os quatro pilares da cosmovisão cristã, na verdade, poderiam ser resumidas na cosmovisão do Reino de Deus. O cristão entende a realidade presente e as suas expectativas quanto ao futuro do ponto de vista de que Deus Reina sobre toda a criação. Há diversas passagens bíblicas que evidenciam o Reino de Deus não apenas como algo futuro, mas também como a realidade do povo cristão.

Essa visão do Reino de Deus como algo presente e agora nos torna responsáveis pelas coisas que acontecem a nossa volta. O Reino gera uma consciência transformadora e história, que nos revela a postura social, política e religiosa que precisamos viver. O próprio Cristo é quem declarou a contemporaneidade do Reino de Deus:

"Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo ali! pois o reino de Deus está entre vós."

Lucas 17:20-21 

Quando dizemos que o Reino de Deus é eterno, declaramos que Cristo não vai se tornar o Rei apenas no fim dos tempos, mas que desde sempre Ele reina sobre todas as coisas. Uma teologia que ensine o homem apenas a olhar para o futuro com esperança escatológica é uma teologia ruim. Viver a cosmovisão cristã nada mais é do que buscar a Cristo diariamente através da política, ciência, vida religiosa, família, trabalho, etc.

Portanto, a cosmovisão do Reino de Deus parte das seguintes premissas:

  • Cristo reina por toda a eternidade, englobando passado, presente e futuro;
  • O Reino de Deus é experimentado onde a igreja de Cristo está presente;
  • Como Rei, os decretos do Senhor são experimentados através do impacto da moral de Deus na elaboração das leis.
  • O cristão não deve se omitir diante do crescimento da maldade e depravação, sob o argumento de que o mundo jaz no maligno, e não pertencemos a ele.
  • O cristão deve ser o padrão moral e exemplo para os demais a sua volta.
  • A igreja deve ser influente para além do seu culto e atividades internas.

Pra quem não entender a razão da imagem: sua cosmovisão é a lente pela qual você enxerga o mundo hehehe



quinta-feira, 8 de abril de 2021

Considerações sobre "João Calvino - 500 anos"

O livro escrito por Hermisten Maia aborda a vida e teologia do reformador de Genebra, João Calvino. A obra se divide em duas partes, sendo certo que a primeira consiste no apanhado histórico, trazendo o pano de fundo da Reforma Protestante. Tal divisão é extremamente necessária para compreender tanto a história da Reforma, quanto algumas das formulações teológicas e filosóficas da época.

Inicialmente, destaca-se a Reforma como um movimento teológico e religioso, com raízes no Humanismo e Renascimento, os quais facilitaram a expansão das ideias e pensamentos de reforma dentro da igreja e sociedade. Tais movimentos por si só não era suficientes, de forma que a origem da Reforma Protestante encontra-se também na ênfase nas Escrituras dadas pelo Senhor. Havia grande comoção pelo retorno à Palavra Deus, em detrimento da tradição católica.

Ao abordar a história da vida de João Calvino, a obra trata dos pressupostos do reformador, sua vida, formação e experiência de conversão. Aliás, há poucas informações de caráter pessoal da experiência do reformador com Cristo, que se limita a citá-la poucas vezes e sem muitos detalhes. Um paralelo entre o Humanismo e a visão de Calvino nos é apresentada: para o humanista de seu tempo, a ênfase era na exaltação e capacidade do ser humano; Calvino, por outro lado, apresenta um humanismo caracterizado pela exaltação do homem como criatura portadora da imagem e semelhança de Deus, ressaltando a sua incapacidade. Portanto, o diferencial das duas visões é que a primeira coloca o homem no pedestal, e a segunda torna-o valoroso, na medida em que se valoriza Deus em primeiro lugar.

Nos termos acima, Calvino nos é apresentado como um humanista, pois detinha o conhecimento do movimento, e correspondia-se com amigos humanistas ao seu tempo. O pressuposto da valorização do homem está presente na sua obra e teologia, mesmo sem transformar o ser humano em objeto de adoração.

A segunda parte do livro aborda a teologia e prática de João Calvino. A pauta inicial diz respeito às Escrituras e o debate da sua suficiência como regra de fé e prática para a igreja e o indivíduo. A Palavra, embora não seja exaustiva em todos os assuntos, traz informações suficientes acerca da vida cristã e salvação do homem através de Jesus Cristo. Ela é autoritativa, pois não se propõe a explicar Deus e sua soberania, mas sim afirma-la e defendê-la como pressuposto.

Na medida em que a Palavra não é exaustiva, porém é autoritativa, dois pressupostos são defendidos na teologia de Calvino: (1) assim como defendia a Reforma Protestante, as Escrituras deveriam ser a regra de fé  e prática da igreja, orientando o culto  e a vida pessoal dos indivíduos. É a Palavra que deve justificar as ações, crenças e fé das pessoas, e não a tradição ou autoridade de líderes religiosos; (2) Por outro lado, a tradição tem o seu devido lugar tanto na história quanto na vida prática da igreja. A tradição pode trazer parâmetros para vida cristã, desde que não avoque para si a inspiração e infalibilidade das Escrituras.

Isto porque o responsável  pelas Escrituras e sua preservação é o próprio Espírito Santo, o qual guiou os autores humanos na redação das palavras de Deus, no processo de inspiração. Quando Moisés, Lucas, Paulo ou qualquer outro autor bíblico escreveram, era o Espírito conduzindo-os na produção das Escrituras. Este mesmo Espírito preservou o texto bíblico pelos séculos seguintes, a fim de que a igreja tivesse acesso ao conhecimento de Deus. Por fim, o mesmo Espírito ilumina a igreja para reconhecer as Escrituras como Palavra de Deus. Com base nesta informação o Espírito Santo e a Palavra de Deus são inseparáveis.

Nas Escrituras o homem tem toda a informação necessária acerca de Deus, o relacionamento com a humanidade, queda, salvação e santificação. Ao tomar conhecimento de Deus, Seu poder e atributos, e de quem é o homem diante dEle de fato conhecer a si mesmo. Conforme já citado anteriormente, o conhecimento e valorização do homem só é possível na medida em que ele conhece e valoriza ao Deus cuja imagem e semelhança ele é dotado. Conhecer a Deus se torna um privilégio responsabilizador, pois apresenta ao homem a necessidade de busca diária da conformidade ao Deus Santo que o criou.

O livro também aborda a responsabilidade pastoral, os quais são vocacionados e capacitados pelo próprio Senhor a fim de serem usados para o ensino e cuidado das igrejas temporais. O pastor deve ser reverente e submisso ao Senhor, preparando-se piedosamente na Palavra, a fim de ensinar e disciplinar a igreja, sendo porta-vozes da mensagem do evangelho. O pastor não deve apenas possuir conhecimento teológico e domínio bíblico, mas principalmente desenvolver vida e prática de oração, visto que o relacionamento do seu ministério com a igreja está abaixo do seu relacionamento  com o próprio Deus.

Em seguida, a obra aborda a eleição divina, e seu uso gramatical no Antigo Testamento e Novo Testamento. Deus elege os homens sem qualquer pressuposto inicial que não seja a Sua própria vontade soberana e graciosa. A eleição divina tem como pressupostos: (1) a depravação total do homem, tornando-o totalmente culpado e carente de méritos diante do Senhor, com os quais poderia justificar a sua escolha para salvação; (2) diferente do homem, Deus é totalmente livre e soberano, de forma que a Sua decisão de salvar ou não qualquer indivíduo não depende de qualquer critério alheio, Deus não consulta ninguém no processo da salvação, muito menos aquele que será salvo; (3) desde a fundação do mundo o plano da salvação já estava estabelecido, de forma que as ações e decisões do homem que foram posteriores ao decreto divino não tem qualquer poder de alterá-lo.

Portanto, na teologia de Calvino o Senhor é apresentado como o autor da salvação e eleição dos homens, de acordo com a sua livre e soberana vontade, que é eterna e imutável, baseada na justiça de Cristo, derramada de forma graciosa e incondicional sobre os eleitos de forma individual e irresistível. A eleição divina é justa, pois considera a necessidade de pagamento do pecado, a incapacidade do homem de quitá-lo e a benevolência do Senhor. 

Assim, segundo João Calvino, a eleição tem como objetivo abençoar os homens, salvando-os, para que Deus seja glorificado pelas suas obras de amor e misericórdia. Cientes de que fomos eleitos, não há nada que o homem possa oferecer a Deus, a não ser depositar a sua fé em Jesus Cristo e na verdade. Ao homem cabe o serviço a Deus e ao próximo como forma de amor, desenvolvendo uma vida de humildade e santidade como atos amorosos. 

Viver de acordo com a vontade de Deus não se torna um meio para obter a salvação, e sim uma consequência direta de ser salvo. Para Calvino, a partir do momento em que somos eleitos por Deus, que não considerou nossos pecados, devemos louvar e adorar Jesus como autor e consumador da nossa fé, proclamando a salvação com certeza da nossa vitória conquistada no Senhor, a fim de promover a glória de Deus entre as nações.

A obra também aborda a espiritualidade de João Calvino, e sua abordagem  sobre a oração, o qual deve estar firmada nas promessas do Senhor. Interessante que na visão de Calvino, a oração que não possui firmeza e convicção em seu cumprimento não é mais do que o ato de tentar ao Senhor. Devemos glorificar ao Senhor e dirigir a ele nossas súplicas convicto de que ele nos ouve e nos concede tudo aquilo do que precisamos. Devemos buscar refúgio nos momentos de oração e interceder uns pelos outros, conforme mandamento e exemplo do próprio Senhor Jesus.

O livro encerra com a ética social de Calvino, sua visão sobre a educação e o seu pensamento no tocante à ciência. Merece destaque a sua visão acerca da graça comum como fator de influência na cultura.

O livro, portanto, nos apresenta a pertinência do calvinismo para os tempos atuais. A obra serve para apresentar o que verdadeiramente foi defendido por João Calvino, e a extensão da sua contribuição para sociedade e igreja. Sua teologia sempre foi muito mais do que debate soteriológico, e a sua teologia nunca foi meramente especulativa, e sim dotada de um caráter de grande aplicabilidade pessoal e litúrgica.


segunda-feira, 29 de março de 2021

Resumo do livro "Congregacionalismo Brasileiro"

Editado pelo Departamento de Educação Religiosa e Publicações – DERP da União de Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.



Os congregacionais foram chamados originalmente de “independentes”, por volta do final do século XVI e início do século XVII, durante a Reforma Inglesa. Trata-se de um modelo de comunidades autônomas que surge de movimentos históricos como o de Wycliffe, os lolardos, menonitas e anabatistas.

É certo que quando falamos de modelos de estruturação eclesiástica, podemos nos deparar com três regimes gerais: (1) Episcopal; (2) Congregacionalista; (3) Presbiteriano.

No tocante ao Congregacionalismo, trata-se do modelo onde cada comunidade local é uma igreja completa e autônoma, não sujeita a qualquer entidade além da própria assembleia de membros. Assim, as igrejas se unem para cooperação e consulta, e não por hierarquia e submissão de algumas igrejas a outras. Na forma, adota uma democracia, porém na prática é uma teocracia, pois é Cristo o Cabeça da igreja.

Trata-se de um tipo de organização político-administrativa resultante da prática dos princípios teológicos fundamentais descobertos pela Reforma Protestante. Suas primeiras manifestações históricas ocorreram em Londres, com a prisão e condenação de grupos em 1567 e 1568. É certo que em 1561 já havia aparecido na cidade de Londres uma declaração de fé.

O congregacionalismo brasileiro se dá através de Robert Reid Kalley, que era de origem presbiteriana, mas ao criar a primeira Igreja Evangélica do Brasil se distanciou da tradição presbiteriana na matéria eclesiástica e introduziu uma constituição do tipo Congregacionalista na igreja.

Kalley também evitou adotar a nomenclatura “Congregacional”, que não tinha boa reputação por causa do liberalismo das igrejas americanas no final do século XIX. Por essa razão adotou unicamente a nomenclatura “Evagélica” na fundação das duas primeiras igrejas: a Igreja Evangélica Fluminense (Rio de Janeiro - 1858) e a Igreja Evangélica Pernambucana (Recife – 1873). Quando 13 igrejas brasileiras se uniram às 5 igrejas de Portugal formaram uma entidade denominacional chamada Aliança das Igrejas Evangélicas Indenominacionais.

Se por um lado Kalley não queria ser ligado às demais denominações existentes, também se recusava a atribuir “Congregacional” à sua nomenclatura, diante do erro teológico das comunidades que traziam o nome. O pastor não queria que as igrejas fossem consideradas como parte do grupo de liberais da época. É certo que a designação de “Congregacionais” foi adotada definitivamente em 1916.

Quando falamos de Congregacionalismo as seguintes obras devem ser consideradas: Os Axiomas da Religião (Dr. E. Y. Mullins); A Manual of Congregational Principles (Dr. R. W. Dale); Nossos Princípios: Um Manual da Igreja Congregacionalista (Rev. G. B. Johnson); Creeds and Plataforms of Congregationalism (W. Walker); Evangelical & Congregational (The Evangelical Fellowship of Congregational Churches - EFCC).


 PRINCÍPIOS CONGREGACIONAIS 

A) Igreja:

 

A comunidade de crentes de todos os tempos que Cristo irá apresentar ao Pai. Historicamente e no tempo, é a comunidade dos que professam a fé em Cristo, segundo a Palavra. O termo também pode ser adotado para designar um grupo de igrejas locais, em semelhança com Atos 9:31. O modelo bíblico é a da comunidade local, onde cada igreja é autônoma, completa e independente, ligadas umas as outras pela fé e amor.


B) Autonomia e Soberania das igrejas locais:

As igrejas são autônomas, pois podem se administrar por suas próprias leis, sendo administrativamente independentes. Também são soberanas, pois não estão subordinadas a qualquer poder coercitivo fora de si mesmas. A assembleia de membros é o poder supremo de direção da igreja, e nenhuma autoridade denominacional pode exercer sobre a igreja qualquer parcela de comando ou poder legislativo.

No congregacionalismo, independência não significa isolamento, e sim autonomia, liberdade de consciência e de governo. Como Cristo está presente em cada igreja integralmente, dirigindo-as pelo Espírito, entende-se pela capacidade de tomar decisões de acordo com a vontade do próprio Senhor Jesus, sem excluir a possibilidade de erro quando a igreja se encontra fraca ou afastada do Senhor.

 

C) Comunidades de igrejas locais: 

O que caracteriza uma comunidade como igreja local é ser dirigida por Deus e ser obediente a Ele. Seguindo esta lógica, a união das igrejas com Cristo cria necessariamente a união das igrejas entre si, no sentido simples de companheirismo e ajuntamento. Assim: (1) cada igreja respeita o caráter e atos das demais; (2) cada igreja deve promover o bem estar das demais; (3) cada igreja deve buscar fortalecimento junto às outras nas tarefas comuns ao Evangelho.

Torna-se natural e conveniente a constituição de federações e associações pelas quais expressem tal comunhão e companheirismo.  Essas entidades não tem caráter eclesiástico, ou qualquer poder legislativo sobre as igrejas. Uma União, Associação, Federação, Confederação, Concílio ou Convenção de Igrejas não é uma igreja em si mesma, de forma que não batiza, não recebe, não disciplina, não exclui membros de igrejas, não dirige assembléias das igrejas locais e nem administra os seus bens.

Essas comunidades de igrejas locais também não ordenam ministros por seu próprio poder, mas a pedido das igrejas. Esse ministro pode ser pastor, ainda que não assuma a direção de uma igreja, ou nunca venha a exercer.

 

D) Oficiais Eclesiásticos: 

Os oficiais são denominados pastores, presbíteros e diáconos. O pastor exerce as funções de presidente da igreja, sendo responsável pela doutrina; os presbíteros e diáconos são oficiais de função restrita à igreja que os elegeu  e ordenou. As igrejas locais possuem prerrogativa para consagrar obreiros para atividades específicas do seu ministério, além dos oficiais acima, sempre que julgar conveniente e útil.


E) Recepção e Disciplina de Membros de uma Comunidade Local: 

Membros de uma igreja local são recebidos por batismo, transferência ou por jurisdição (caso em que não é possível conseguir a Carta de Transferência da igreja anterior). A fim de evitar proselitismo e zelar pelo respeito entre igrejas, não é  recomendado receber uma pessoa sob disciplina em outra igreja, a menos que haja reconciliação.

As igrejas locais devem disciplinar seus membros de forma amorosa, com o objetivo de restaurar o disciplinado.

O autor defende que disciplina, transferência ou reconciliação de membros é de competência da assembleia eclesiástica. Entretanto, o que vemos na prática é a aplicação da disciplina sem a submissão à assembleia da igreja, a fim de preservar ao  máximo o disciplinado. A maior parte das disciplinas atualmente são aplicadas em gabinete pelo pastor da igreja, ou mediante decisão colegiada do corpo  de oficiais.

 

F) Ordenações Eclesiásticas:

As igrejas congregacionais não são sacramentalistas, e consideram Eucaristia e Batismo como símbolos da continuidade da comunhão dos crentes com Deus e a igreja. Tais ordenanças não conferem qualquer graça especial que já não tenha sido derramada sobre o cristão. Isso não anula a possibilidade de que  tais ocasiões se tornem motivo de bênçãos pessoais e coletivas  para igreja.

Quanto ao batismo, as igrejas congregacionais reconhecem a validade do batismo por imersão ou afusão, entretanto, praticam exclusivamente o batismo por aspersão. Como o batismo é um sinal de fé adulta e consciente, as igrejas congregacionais não praticam o pedobatismo.

 

A HISTÓRIA CONGREGACIONAL DO BRASIL

 

A) Primeiro Período – Maio de 1855 a Julho de 1876: período correspondente à estada do casal Kalley no Brasil, com a implantação do trabalho. Funda-se a Escola Dominical em Petrópolis (19/05/1855). Em 08 de novembro de 1857 é fundada a Igreja Evangélica Fluminense, e efetuado o batismo do primeiro brasileiro: Pedro Nolasco de Andrade. Período de grande perseguição, no qual Kalley conseguiu o reconhecimento da liberdade de culto, casamento de não católicos, registro civil, óbitos e possibilidade de sepultamento em cemitérios públicos. Em 10 de julho de 1876 o casal  parte definitivamente para Escócia, oito dias após a aceitação do texto dos 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo.

B) Segundo Período – 1876 a 1913: período do desenvolvimento eclesiástico e instalação da Convenção das Igrejas do Brasil e Portugal. Fundação da Sociedade de Evangelização e do O Cristão.

C) Terceiro Período – 1913 a 1942: período da expansão nacional e da união da Primeira Convenção das Igrejas do Brasil e Portugal com a Igreja Cristã Evangélica. Período de instalação do Seminário Evangélico Congregacional, em 03 de março de 1914. O Cristão  se torna o órgão oficial da Denominação.

D) Quarto Período – 1942 a 1969: a União das Igrejas Evangélicas do Brasil e a Igreja Cristã Evangélica do Brasil se fundiram como União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil, na 13ª Convenção (1942). Fundação do Instituto Bíblico da Pedra em 1944, onde passou a funcionar o internato do Seminário Congregacional. A União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil surge como um grupo dissidente da União de 1942, em discordância à pratica de dois modos de batismo, diversidade no modo de governo e discordância no tocante à segurança da salvação. Em 1969 os dois grupos congregacionais se unem novamente como a UIECB.

 E) Quinto Período – 1969 aos dias atuais: período de consolidação nacional com a aprovação da Constituição de 1969 e instituição da atual União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

 

OS 28 ARTIGOS DA BREVE EXPOSIÇÃO DAS DOUTRINAS FUNDAMENTAIS DO CRISTIANISMO

 Trata-se de 28 artigos, com embasamento bíblico, nos quais a síntese da teologia cristã pode ser apresentada para qualquer cristão, os quais abordam:

 

1º.  Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus;

2º.  Do Testemunho da Revelação a Respeito de Deus e do Homem;

3º.  Da Natureza dessa Revelação;

4º.  Da Natureza de Deus;

5º.  Da Trindade na Unidade;

6º.  Da  Criação do Homem;

7º.  Da Queda do Homem;

8º.  Da Consequência da Queda;

9º.  Da Imortalidade da Alma;

10º.  Da Consciência e do Juízo Final;

11º.  Da Perversidade do Homem e do Amor de Deus;

12º.  Da Origem da Salvação;

13º.  Do Autor da Salvação;

14º.  Da Obra do Espírito Santo no Pecador;

15º.  Do Impenitente;

16º.  Da Única Esperança de Salvação;

17º.  Da Obra do Espírito Santo no Crente;

18º.  Da União do Crente com Cristo e do Poder para o Seu Serviço;

19º.  Da União do Corpo de Cristo;

20º.  Dos Deveres dos Crentes;

21º.  Da Obediência dos Crentes;

22º.  Do Sacerdócio dos Crentes e dos Dons do Espírito;

23º.  Da Relação de Deus para com o Seu Povo;

24º.  Da Lei Cerimonial e dos Ritos Cristãos;

25º.  Do Batismo com Água;

26º.  Da Ceia do Senhor;

27º.  Da Segunda Vinda do Senhor;

28º.  Da Ressurreição para Vida ou para a Condenação.

Kalley entendeu a necessidade de elaborar uma súmula das doutrinas fundamentais para instrução dos neófitos e para os membros da Igreja Evangélica Fluminense. Por tal razão, em 02/10/1874, apresentou a necessidade de artigos de fé que resumissem as doutrinas fundamentais do Cristianismo.

 


Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...