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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A Integridade da Pregação - John Knox

Bem... 

Recentemente precisei fazer uma resenha sobre o texto "A Integridade da Pregação", do autor John Knox, e confesso que foi um dos textos que menos me agradou. Não digo com isso que a obra é ruim, mas apenas um tanto enfadonha.

Não tive a oportunidade de ler outros textos do mesmo autor, mas a despeito da qualidade teológica das informações acerca da pregação bíblica, a leitura foi extremamente custosa. O texto em si possuía 33 páginas, mas levei um tempo considerável para conseguir terminar a leitura, simplesmente por não sentir vontade de continuar.

Por vezes me sentia andando em círculos durante a leitura, e embora os argumentos e parágrafos fossem longos, tudo que Knox queria apresentar poderia ser escrito  em poucas linhas. Pior ainda, por algumas vezes senti que estava diante de um emaranhado de palavras que no final sequer traziam uma definição satisfatória da ideia do capítulo.

Entretanto, confesso que minhas impressões pessoais da obra podem ser consequência direta da pouca apreciação que senti pela escrita do autor... Ou pelo menos da forma como o texto foi traduzido.

Feitas as considerações pessoais, o texto não deixa de trazer informações importantes e interessantes acerca da pregação! Destaco, neste sentido, a pregação ser considerada como uma oferta a Deus. E coloco abaixo a resenha que apresentei no seminário, tendo o referido texto como base!

Espero que possa ajudar vocês!


RESENHA:

Título do original THE INTEGRITY OF PREACHING. Abingdon Press, New York, 1.a edição, 1957. Edição em língua portuguesa, com colaboração do Fundo de Educação Teológica, pela Associação de Seminários Teológicos Evangélicos. São Paulo, 1964.

 

Nesta obra, o autor busca apresentar a importância da integridade na pregação, salientando, inicialmente o desvio que a pregação bíblica estava sofrendo. Havia, em seu contexto social e histórico, uma ênfase na cultura, experiências pessoais e opiniões dos pregadores, ao passo que a Palavra de Deus era posta de lado nas pregações.

Portanto, o autor inicia pontuando que a pregação bíblica não diz respeito ao modo da exposição, e sim quanto ao seu conteúdo. Neste sentido, é uma armadilha para qualquer pregador perder-se do sentido do texto, ao fazer uso das diversas ferramentas de hermenêutica e homilética. Com isto, não devemos negligenciar o uso de tais instrumentos, visto que dados por Deus. Entretanto, é necessário que o pregador não se distancie da Palavra, e nem analise-a de forma fria e descomprometida.

Tal conteúdo é nada mais nada menos do que a própria literatura de Deus, que nos transmite Sua presença e ação poderosa, de forma que é objetivo da pregação bíblica transmitir a mesma presença e ação poderosa do Senhor aos homens que estão ouvindo. Portanto, a bíblia não é apenas útil na pregação, conforme Knox, mas absolutamente indispensável.

O autor define a pregação bíblica por quatro pontos: (1) mantém proximidade com as ideias bíblicas essenciais; (2) se preocupa com o evento principal das Escrituras. Jesus Cristo; (3) dá respostas e nutre a vida essencial da Igreja; (4) a mensagem pregada é recorrente, e se repete na vida dos ouvintes e pregador.

Em seguida, o autor aborda a relevância da pregação bíblica, que deve ser aquela não apenas comprometida com o contexto do texto bíblico, mas também com o contexto presente, interrelacionando autenticidade histórica e relevância. Neste ponto, John Knox apresenta a importância de haver equilíbrio, para que o pregador não se torne nem desconexo com a sua realidade, e nem descontextualizado ao período bíblico.

Knox informa a necessidade de que para um texto seja utilizado, o pregador tenha conhecimento acerca do seu sentido original, pois o sentido básico do texto bíblico é o seu significado histórico. E, ainda que de fato possamos afirmar que as palavras dos autores bíblicos são mais fecundas do que o próprio conhecimento deles, Knox afirma que o principal autor dotado desta característica é o próprio Jesus Cristo. O problema é que não há como alegar que as palavras de Jesus são mais fecundas do que o seu próprio conhecimento, uma vez que Cristo é a própria revelação, e por diversas vezes demonstrou saber extraordinário e autoridade.

Ato contínuo, o autor informa que pregação é ensino, e que todos os apóstolos eram professores. Faz, entretanto, uma distinção entre profetas e professores, ao definir que nem todos os professores eram profetas, embora todos os profetas fossem professores.

Knox acerta ao defender que nem todos os assuntos, por mais edificantes que sejam, devem ser conteúdo de sermões. Os sermões precisam ter como característica a pessoalidade, consubstanciado pelos conhecimentos, preparo, personalidade e devoção daquele que ministra o conteúdo. Portanto, o sermão pode ser definido como expressão humana.

Essa ênfase na pessoalidade acaba se direcionando para o caráter de culto da pregação. Há uma ligação íntima e necessária entre pregação e culto, uma vez que o sermão é uma oferta a Deus, desde o preparo disciplinado até a exposição diante da congregação com temor e tremor. Conforme bem apontado pelo autor, é  no momento da pregação que o cristão sente de forma mais aguda a sua fraqueza, vazio e pecado.

Por fim, o autor encerra o seu texto definindo a pregação como um sacramento, tomando como base o fato dela também se caracterizar como uma oferta a Deus.

Assim sendo, com base no Novo Testamento, pode-se inferir que a pregação é também ação do Espírito Santo e dom espiritual. Segundo John Knox, à semelhança da Eucaristia, quando o pregador está proclamando o sermão, não há apenas palavras sendo ditas, como toda a ação descrita está sendo novamente efetuada para os ouvintes. Isso entra em concordância com o ensino de Knox ao declarar que a mensagem do evangelho é recorrente.

Conclui-se, portanto, que a pregação bíblica é aquela que mantém a integridade dos seus aspectos. É dotada de vida, poder, e ação direta do Espírito Santo, através de servos que vivem a própria mensagem pregada.




segunda-feira, 15 de outubro de 2018

STCN - Resenha do artigo "Espiritualidade: Cristã ou Líquida?"

Mais um trabalho entregue no seminário! Dentro da grade curricular, a Capelania se tornou disciplina obrigatória, visto que durante os próximos três anos há possibilidade de eu ficar afastado da minha igreja local aumenta consideravelmente, pois em breve estarei fazendo estágio em outra igreja (se bem que os meus pastores são professores no seminário). Caberá ao Deão, na medida do possível, acompanhar a mim e os demais seminaristas durante os próximos semestres, o que torna crucial nossa participação nas atividades (e a tendência de todo estudante é só querer fazer o que for obrigatório).


A UIECB deu um grande passo em prol do crescimento teológico das igrejas e seminários da denominação: em agosto de 2018 o Departamento de Educação Teológica da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil lançou a primeira edição da Revista Teológica, com 7 artigos produzidos por pastores da nossa denominação.

Cada aluno do seminário recebeu uma revista, e foi incumbido de escolher dois artigos sobre os quais deveria produzir resenhas. Escolhi os artigos 2 e 7 da revista. O primeiro traz o tema "Espiritualidade: Cristã ou Líquida?", escrito pelo Reverendo Márcio Leal, o qual, após a leitura, produzi a resenha abaixo:



ESPIRITUALIDADE: CRISTÃ OU LÍQUIDA

Leal, Márcio de Carvalho. Revista Teológica: Departamento de Educação Teológica da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. UIECB-DET. 1. Ed. Rio de Janeiro: Contextualizar, 2018.

O artigo escrito pelo Reverendo Márcio Leal aborda a espiritualidade do ser humano, fazendo um paralelo entre princípios bíblicos e o conceito de espiritualidade líquida, demonstrando, portanto, os efeitos da modernidade na vida do cristão. Cumpre salientar que o conceito de modernidade é espelhado em Zygmunt Bauman, para referir-se à pós-modernidade, portanto, o artigo aborda a espiritualidade do homem no período pós-moderno.

O autor inicia analisando o conceito de espiritualidade no curso da história da igreja, tanto do ponto de vista católico quanto o protestante, bem como a decomposição do termo, que deixa de caracterizar uma atividade proveniente da graça do Espírito Santo para caracterizar aquilo que não é material, dando origem a um dualismo através do qual infere-se que para viver espiritualmente é necessário distanciar-se do mundo.

Neste ponto, o autor afirma que segundo o Novo Testamento, o ser humano espiritual “é animado, transformado e potencializado pelo Espírito de Deus através de uma comunicação caritativa e oblativa”, o que altera o paradigma vital da vida do cristão, dando origem à uma nova prática a partir dos ensinos do Senhor Jesus Cristo. Ao falar da comunicação caritativa e oblativa, o autor refere-se ao exemplo de Cristo de caridade com todos os homens e entrega própria ao Pai, como oferta agradável.

A fim de trazer uma definição de espiritualidade cristã, o autor analisa o que é considerado um ser humano “espiritual”, usando o termo grego pneumatikós, que está presente em 1 Coríntios 3:1 e diz respeito à pertencer, ser motivado ou controlado pelo Espírito Santo. Essa operação do Espírito no homem, de acordo com o autor, se dá mediante a lei do Espírito, que dá a vida em Jesus Cristo, nos termos de Romanos 8:2. Essa mudança da lei do pecado para a lei de Deus no homem acarreta uma transformação integral, através da qual a essência do homem é mudada, e desta forma, a sua existência material também. A definição dada pelo autor é a de que “podemos definir a espiritualidade cristã como aquela que se refere à busca por uma experiência cristã autêntica e satisfatória, baseada na fé, nos valores e princípios cristãos” com impulso inicial dado pelo Espírito Santo e tendo como paradigma o Senhor Jesus Cristo.

Partindo desta premissa, o padrão de espiritualidade a ser vivido pelo cristão é a busca incessante de ser um imitador de Cristo. Desta forma, o autor constrói sua tese de que a espiritualidade cristã deve tomar forma concreta na história, e não ser apenas uma experiência interior ou de mera reflexão, trazendo transformações não apenas morais, como também sociais. Logo, a espiritualidade nestes termos diz respeito a mudança do ser pelo Espírito, para um agente de mudanças e transformações no mundo a sua volta. A doutrina encontra amparo em Bonhoeffer, que, de acordo com o autor, afirma que a espiritualidade ensinada por Cristo englobava não apenas a vida de oração constante, mas também a assistência social aos famintos, a cura dos enfermos e expulsão de demônios. A vida de Cristo é o exemplo perfeito de amor ao próximo.

Cabe uma ressalva à escolha do texto bíblico utilizado para afirmar que devemos assumir uma vida de seguimento a Cristo para ter uma espiritualidade genuinamente cristã. O versículo escolhido pelo autor foi Gálatas 2:19, e diz respeito à fala de Paulo acerca da justificação pela fé em Cristo, em um momento de oposição à postura possivelmente judaizante do apóstolo Pedro perante aqueles que vieram de Tiago, ao levantar-se da mesa dos gentios, abrindo margem para a interpretação dos demais de que a justificação implicava na observância da Lei. Paulo, portanto, afirma que a Lei aponta para Cristo, o qual fora crucificado; e que tendo seus pecados levados na cruz sobre Cristo, está morto para a prática da Lei, visto que não mais imputa a sua justiça por ela, mas reveste-se da graça e justiça de Cristo na cruz.

Também merece ressalva a tradução transcrita para o versículo que, conforme nota de rodapé da página 21, diz respeito à Bíblia em Linguagem Contemporânea. Enquanto o mesmo versículo na tradução de João Ferreira de Almeida traz a ideia de ter morrido na cruz com Cristo, ou seja, a morte do velho homem com o nascimento do novo homem, a tradução contemporânea traz a ideia de identificação total, o que não exatamente infere um novo nascimento, e pode dizer respeito simplesmente a identificar-se ideologicamente, por exemplo. Poder-se-ia criar um paralelo entre “estar crucificado com Cristo” e “identificar-se totalmente com Ele” semelhante ao encontrado em João 21:15-23 (agapao/phileo). A primeira parte do versículo também merece cuidado, visto que a tradução apresentada traz uma afirmação de Paulo quanto a não obter êxito em ter tentado agradar a Deus pela observância da lei quando não é possível inferir tal informação do versículo, visto que o objetivo do apóstolo é afirmar que morreu para a lei por descobrir a justificação em Cristo.

Após formular o conceito de espiritualidade cristã que norteia todo o artigo, o autor passa a abordar o conceito de espiritualidade líquida inerente à sociedade contemporânea observada por Zygmunt Bauman. Tal espiritualidade tem como marca o antropocentrismo, hedonismo, relativismo e relações com um deus chamado consumo.

Trata-se de uma análise brilhante acerca do quadro de boa parte das igrejas em funcionamento, com destaque àquelas de doutrina neopentecostal. Igrejas contaminadas pelo mundo, onde a cruz se tornou um mero acessório para um misticismo cujo único objetivo é satisfazer o desejo do homem de uma experiência estática e/ou sensitiva. Igrejas que reforçam a vontade do homem de sentir-se especial e diferente.

O autor aponta que esta espiritualidade líquida faz o homem perder o foco de que o Espírito Santo nos comunica Cristo, Sua relação trinitária e Sua doação e comunhão. Embora haja controvérsias em afirmar que somos a mão de Deus na história, sendo mais correto afirmar que Deus age apesar de nós; o autor é contumaz ao demonstrar que assim como o nosso Deus ama e vive em comunhão, nós somos chamados a amar ao próximo e viver em comunhão uns com os outros, cuidar do pobre, da viúva e do estrangeiro, ser sal e luz do mundo. Neste ponto, não basta não ser violento. O autor defende a necessidade de solidarizar-se com o outro a ponto de buscar meios para que os demais também não sejam.

Portanto, o autor vincula espiritualidade à busca por justiça social. Esta é de fato uma marca da obra de Deus no homem, visto que desde a Velha Aliança o cuidado aos necessitados fazia parte da lei de Deus, fosse pelo mandamento de amar ao próximo como a si mesmo, ou nas prescrições de cuidados com as viúvas, órfãos e estrangeiros, os hipossuficientes e excluídos da sociedade.

Conclui-se que a espiritualidade cristã traz consigo o amor ao próximo e a transformação de vida que leva o homem a tirar o foco de si e colocá-lo em Deus. Ao fazê-lo, o amor de Cristo nos constrange e nos estimula a amar ao próximo, transformando-se em agente transformador do mundo a nossa volta. Portanto, espiritualidade caminha junto com justiça social, pois desperta no filho de Deus a piedade e compaixão. Embora a crítica do autor à espiritualidade líquida seja focada no comprometimento do amor ao próximo, esta é antes de qualquer coisa um comprometimento da relação do cristão com Deus, visto que mesmo que por ignorância o homem passa a adorar a si mesmo.

Pedro Silva Drumond é acadêmico do primeiro período do Curso de Teologia do Seminário Teológico Congregacional de Niterói.

sábado, 6 de outubro de 2018

STCN - Resenha do livro: Recomendações aos jovens teólogos e pastores

Thielicke, Helmut. Recomendações aos Jovens Teólogos e Pastores. Vida Nova. 2014.





A obra escrita por Helmut Thielicke aborda, em suma, os perigos para a alma do jovem estudante de Teologia. Tais perigos não se restringem aos riscos externos, e por vezes tem sua gênese no próprio coração e mente do aluno. A obra objeto de estudo possui grande valor não apenas para aqueles que estão iniciando seus estudos, a fim de que estejam cientes dos riscos aos quais serão expostos, de forma que possam trabalhar medidas para impedi-los ou remediá-los; como também para os pastores responsáveis por esses jovens, a fim de que estejam prontos para tomar medidas em prol da saúde espiritual do jovem teólogo.

O primeiro problema a ser encarado pelo autor é apresentado como a ansiedade do cristão comum quanto ao estudo da Teologia, de forma que diversos jovens que despertam o seu interesse pelo estudo teológico são alertados pelos membros da igreja acerca da possibilidade de corromper-se. Tal cetismo em relação ao estudo acadêmico da Teologia tem como fundamento a preocupação com a saúde espiritual do aluno. O autor aponta dois fundamentos basilares desse cetismo em relação a Teologia: Experiência e Princípios. Ambos os argumentos são trabalhados de forma clara e concisa no decorrer do livro.

No que diz respeito as experiências o autor aborda o retorno do jovem teólogo para igreja, que no decorrer dos seus estudos começa a perder a piedade e vigor espiritual em detrimento de conceitos e ideias abstratas. Neste ponto o autor é extremamente eficaz em demonstrar que os desvios por parte do estudante por vezes são tão indistinguíveis e traiçoeiros quanto o pecado pode ser. Tomando a forma da devoção apaixonada pelo pensamento teológico que muda o pensar e falar do estudante, o esfriamento espiritual encontra espaço na lacuna entre todo o conhecimento adquirido na cadeira da academia e a efetiva experiência de vida do jovem teólogo. Conceitos teológicos que moldam o pensamento hoje são frutos não apenas do pensamento, como também do esforço e experiência espiritual daqueles que os desenvolveram. Thielicke denomina este problema de “Experiência Conceitual”, que nada mais é do que o conhecimento desprovido da experiência de vida que o fundamenta, originando os problemas de conduta e intelectualidade exacerbada. A solução apontada pelo autor é silenciar o jovem estudante, impedindo-o de lecionar ou pregar, até que intelecto e experiência estejam caminhando juntos.

A lacuna intelecto/experiência é apresentada na figura de uma espécie de “puberdade teológica”, comparando a fase inicial dos estudos teológicos com a fase de mudança hormonal e fisiológica do corpo humano. Outro ponto interessante abordado pelo autor é que esse fervor por intelectualidade, quando desprovido da experiência de vida piedosa tem como um desdobramento o crescimento da vaidade por conceitos teológicos que leva o estudante a afastar-se dos demais cristãos considerados leigos. Esse orgulho intelectual tem como principal motivo a natureza pecaminosa do homem, pela qual amor e verdade tendem a caminhar separados. De um lado o conhecimento seduz através do sentimento de posse e poder pelo saber, levando o jovem estudante ao sentimento de superioridades, o que é chamado de Psicologia do Possuidor; por outro, o amor é apresentado como o oposto do conhecimento, na medida em que o conhecimento é individual e tende à vanglória, enquanto o amor é altruísta e humilha a si em favor do outro.

No que diz respeito aos princípios, o autor apresenta os pressupostos do cristão comum como outro ponto de cetismo em relação à Teologia. O foco é dado à herança teológica da Reforma Protestante, na figura do “Sola Fide” e “Sola Scriptura”, uma vez que a igreja no geral questiona a necessidade de conhecimentos adicionais para sustentar a fé, diante da exclusividade da mesma para salvação e da autoridade das Escrituras como regra de fé e prática. É evidente que o âmago da discussão diz respeito à fé salvífica, de forma que o autor salienta que é incondicional, desvinculada do resultado de pesquisas históricas, afirmando que não é o esforço teológico que chancela a fé do teólogo. Longe da motivação, o esforço teológico é um ato de fé, pressupõe que a mesma já exista e motiva o pensar e agir do estudante. Desta forma, o estudo teológico está inserido no conceito de “Soli Deo Gloria”, como ato de fé para o teólogo glorificar ao Senhor com todo o seu entendimento.

Segundo o autor, uma vez que a Dogmática é comparável à uma arte difícil e elevada, em razão de ter como objeto de estudo a revelação de Deus ao homem, é necessário ter cuidado com a metodologia de estudo. Teologia deve ser feita na segunda pessoa, colocando a revelação como forma relacional do homem com o Senhor. A mudança de foco ocorre geralmente quando o jovem teólogo troca a leitura devocional pelo labor exegético do texto. É necessário, portanto, que a teologia seja feita em oração, reconhecendo que mais do que registro histórico, a Palavra é Deus dirigindo-se a quem estuda. Nesse ponto, pode-se afirmar que o objeto de estudo da Dogmática não pode ser considerado apenas do ponto de vista acadêmico e científico, uma vez que não possui todos os seus pressupostos interpretativos e pedagógicos. Um bom exemplo está no conceito de Morte do Autor, de Barthes. A necessidade da Teologia em oração está diretamente ligada ao fato de que o Autor da Revelação não está morto para quem lê. Ele conversa com o teólogo enquanto este o exalta com todo seu coração e entendimento, na análise diligente do que o Senhor tem a dizer. Teologia é um diálogo, e seu resultado não é um pluralismo de interpretações, e sim a palavra autoritativa daquele que Se revela.

Por último, ressalta a Teologia como atividade humana, o esforço do homem em compreender seu Criador. Como atividade humana, sujeita a todos os atributos daquele que a exerce, entre eles a natureza pecaminosa. Desta forma, a teologia pode ser sagrada ou diabólica, de acordo com o coração de quem a estuda, razão pela qual o jovem teólogo deve ter o cuidado de viver uma vida piedosa, a qual não pode ser sufocada pelo seu esforço em analisar cientificamente a Palavra. Em termos práticos, um cientista que tiver diante de si um pedaço de pão e o utilizar apenas para estudo científico morrerá de inanição; o teólogo que vê em Cristo e na revelação apenas o objeto de estudo corre o mesmo risco da fome tendo diante de si o Pão da Vida.

Conclui-se, portanto, a necessidade de viver aquilo que se estuda. Teologia é apresentada como mais do que o esforço da mente em compreender o criador: é o filho relacionando-se com o seu Pai. Para que a Palavra que santifica não seja utilizada como meio de pecado, o jovem teólogo deverá ter como base do estudo os dois primeiros mandamentos, a humildade, consciência de humilhação inerente ao homem, piedade e devoção. A preocupação da igreja com a saúde do estudante não deve ser ignorada pelo mesmo; este deve buscar nos seus irmãos um critério de avaliação do resultado de seus estudos e do seu fervor espiritual diante de todo intelecto adquirido, desde que a Palavra chancele as conclusões de ambos.

Pedro Silva Drumond é acadêmico do primeiro período do Curso de Teologia do Seminário Teológico Congregacional de Niterói.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

STCN - Resenha do Livro: A Igreja Discipuladora


A IGREJA DISCIPULADORA



Marra, Cláudio. A Igreja Discipuladora: Orientações da Bíblia e da História para cumprimento de nossa missão. Editora Cultura Cristã.

O livro aborda a educação cristã através de fundamentos bíblicos e históricos. O autor inicia a obra através de uma analise da educação cristã no curso da história da igreja, desde o tempo do Antigo Testamento, passando pelo apostolado de Jesus, e a igreja até o Século XVIII, ressaltando o fato de que o ensino teológico e formação de professores sempre foi um problema, independentemente da denominação a ser analisada.

A segunda parte do livro aborda o tratamento bíblico ao tema. Uma analise inicial do tema apresenta a educação cristã como uma responsabilidade dos pais, que deveriam ensinar a Lei e obra do Senhor. É importante ressaltar que não há qualquer prescrição de forma de ensino, e sim o incentivo de que todo momento fosse uma oportunidade de ensinar, seja pela leitura da lei, demonstração dos memoriais (como as colunas e altares) ou pelas cerimônias, recursos pedagógicos para que as gerações futuras fossem capazes de conhecer ao Senhor.  

O exemplo do Senhor Jesus Cristo e do apóstolo Paulo são apresentados no tocante ao caráter discipulador da igreja. Os apóstolos e Timóteo, mais do que ensinados teologicamente, foram discipulados e incitados a ensinar também. Cristo tinha o cuidado de ensinar as multidões, mas principalmente de caminhar com seus discípulos, preparando-os para dar continuidade à pregação. Mais do que o querigma, Cristo apresenta a necessidade de fazer discípulo ao caminhar junto, conhecendo e dando-se a conhecer. Mais do que o ensino, era permitido aos discípulos a pratica daquilo que o Senhor dava a conhecer. O tratamento dispensado a Timóteo por Paulo não apresenta qualquer diferença, uma vez que caminhando com Paulo, por vezes o discípulo era enviado para as igrejas com a finalidade de ensinar.

Fica evidente que, embora parte do ensino fosse realizado pelos mestres, assim como Jesus o foi, o ensino pelos pais ainda deveria existir, de forma que Timóteo é um dos judeus cuja família possivelmente preservou esta pratica, sendo ensinado acerca das Escrituras por sua mãe e sua avó.

O autor ressalta o erro da igreja de colocar o discipulado como tarefa de segundo plano, focando no imperativo “Ide”, sem atentar, entretanto, que o verbo principal é o discipular, ir fazer discípulos, os quais seriam batizados e ensinados. Outro erro da igreja, baseado nos ensinos bíblicos apresentados, seria separar evangelização, missões e educação cristã, cabendo ao pastor definir sua preferência pastoral.

A terceira parte do livro aborda o ministério de Richard Baxter, a fim de trazer princípios e praticas salutares que a igreja deveria seguir. Uma vez que o discipulado é a prioridade da grande comissão, Baxter apresenta um modelo de praxe pastoral que valoriza a pregação pessoal e individual, com a finalidade de fazer discípulos. Da mesma forma, seu ministério valorizou a atuação pastoral na formação de novos professores que dariam continuidade a tarefa de ensino. O seu sistema de visitação dos lares permitia a pregação consonante ao nível de conhecimento e maturidade espiritual dos membros de cada família, através do estudo dos catecismos ou sermões pregados no domingo anterior.

Também é ressaltada a necessidade do pastor estar atento aos possíveis discipuladores no meio do rebanho, indicando parâmetros para sua seleção, entre eles conhecimento e amor pela Palavra bem como uma vida de piedade. Cumpre ressaltar a critica que o autor faz ao modelo de liderança eclesiástico caracterizado pela existência de um pastor-mestre para uma congregação inteira, ressaltando que a igreja deve possuir um sistema de pluralidade de pastores, tantos quanto necessários para assegurar que todo o rebanho será auxiliado e discipulado.

Conclui-se que os princípios bíblicos nas Escrituras, os quais foram aplicados no ministério de Richard Baxter traz a tona a necessidade de, mais do que pregar ou meramente ensinar dominicalmente, fazer discípulos, aptos a ensinar e discipular. Tal prática traz benefícios para a congregação, entre eles a possibilidade de acompanhar a vida espiritual do rebanho,sendo apontado pelo autor inclusive a possibilidade de avaliar a possibilidade do membro participar da eucaristia. A educação cristã deve ser uma prioridade dos pais, e o ensino da família uma prioridade da igreja.

Pedro Silva Drumond é acadêmico do primeiro período do Curso de Teologia do Seminário Teológico Congregacional de Niterói.

Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...