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sábado, 29 de julho de 2023

Jesus e a mulher samaritana - Parte 03 (João 4:27-38)

E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela?

Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens:

Vinde, vide um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?

Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele.

E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come.

Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.

Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?

Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.

Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.

Lucas 4:27-38




Os discípulos que haviam saído para comprar comida retornaram do mercado e se surpreenderam de encontrar Jesus conversando com uma mulher. A razão pela qual os discípulos ficaram surpresos já foi apresentada nos sermões anteriores, podendo se considerar não apenas o fato de Jesus estar falando publicamente com uma mulher, mas também pelo fato de sendo ele um mestre judeu, estava conversando com uma samaritana. Entretanto, nenhum deles se dispõe à questionar o mestre sobre o que falava com ela ou qualquer coisa do tipo.

Precisamos compreender que os discípulos também eram judeus, sendo razoável compreender que suas relações com os samaritanos também não fossem além das relações comerciais e estritamente necessárias. Por outro lado, ver Cristo dialogando publicamente com uma mulher samaritana ia muito além do que poderia ser considerado normal.

Entretanto, naquele momento nenhum dos discípulos se arrisca a fazer qualquer questionamento, mesmo que as ações de Jesus levantassem curiosidade. Pode ser que naquele momento os discípulos tenham se dado conta que o Senhor sentar-se para conversar com uma mulher samaritana era tão inesperado quanto que ele escolhesse para seus discípulos um pescador e um cobrador de impostos. Tão inusitado quanto confiar o tesouro do evangelho para homens pobres e incultos, ao invés de trazer para seu lado fariseus e doutores da Lei.

Já de início temos a primeira lição: Muitas vezes ao caminhar com Cristo nos deparamos com questões e situações que não somos capazes de compreender. 

Nestas oportunidades, devemos agir da mesma forma que os discípulos, e com extrema humildade aguardar até que o Senhor decida nos revelar a Sua sabedoria e nos iluminar com o entendimento vindo do Espírito Santo. 

Há mesmo na própria Palavra passagens e trechos que num primeiro momento podemos ser incapazes de compreender, ou até mesmo ficar chocados com relatos como o de filhas que embebedaram seu pai para terem filhos, povos inteiros sendo dizimados, profetas sumonando ursas para atacar jovens ou coisas do tipo. 

Neste momento, a barbaridade dos relatos bíblicos, a extensão de fé que é esperada do cristão diante de situações complexas ou mesmo situações que nos expõem à risco de morte podem nos causar indignação. Entretanto, conforme pedimos orientação ao Espírito Santo e maturidade e humildade para nos submetermos à Palavra, percebemos que aquele primeiro choque decorre, na verdade, da nossa própria incapacidade de pensar à luz da Palavra e pela falta de experiência na vida cristã.

Ao mesmo tempo em que os discípulos estão retornando, a mulher sai imediatamente em direção à cidade da qual eles haviam acabado de chegar. A resposta da mulher à afirmação de Jesus de que Ele era o Messias foi a imediata fé, da qual não decorreu qualquer resposta ou pronunciamento apaixonado. A maior demonstração de uma fé genuína foi a vontade imediata de partilhar as boas novas que havia acabado de receber.

Eis a segunda lição: devemos ter o mesmo zelo evangelístico que a mulher samaritana. 

Importante ressaltar que a única coisa que aquela mulher ouviu da parte de Jesus é que Ele era o Messias. Jesus não havia ensinado nada como fizera no sermão da montanha, não explicou para aquela mulher o Pentateuco que ela possuía, não abordou as grandes profecias do Antigo Testamento acerca da Sua vinda. Ele havia apenas declarado para aquela mulher quem Ele era, e para ela, que havia acabado de testemunhar o Seu poder, foi o suficiente.

Aquela mulher então parte em direção à cidade, e convida aos demais a testemunhar da presença santa de Jesus Cristo. Ela não se presta a tentar convencer qualquer homem acerca de quem Cristo era, e os convida para desfrutar da presença do Mestre e desenvolver um relacionamento pessoal com Ele, dando o testemunho de tudo que Jesus havia revelado sobre a vida dela, demonstrando Seu próprio poder. 

Aquela mulher não tinha qualquer instrução para dar, e para piorar, era detentora de um passado sórdido, e provavelmente conhecido por toda a cidade. Não era só mulher, o que por si só já descredenciaria a sua palavra; mas também era adúltera, o que fazia dela uma pessoa socialmente reprovável, e até mesmo passível de apedrejamento.

As nossas limitações podem nos impedir de entrar em debates teológicos e nos fazer perceber que somos incapazes de convencer alguém acerca da existência de Deus e da divindade de Jesus Cristo. E de fato, nós somos incapazes. As pessoas podem zombar de nós por nosso passado e história, e até mesmo tripudiar tudo aquilo que nós falamos simplesmente por ter sido dito por nós mesmos. Da mesma forma que a mulher samaritana poderia ser desconsiderada por ser uma mulher adúltera, podemos ser desconsiderados por sermos ex-traficantes, ex-adúlteros, devassos, maliciosos ou criminosos. Nem por isso podemos nos acovardar e deixar de pregar a Palavra. Se nossa própria regeneração não é suficiente para apontar Jesus para uma pessoa, façamos como a mulher samaritana, e convidemos as pessoas a elas mesmas terem contato com Jesus.

Aquelas pessoas então vão em direção à Jesus, diante do anúncio da mulher samaritana de que Ele era o Messias esperado. Neste meio tempo, os discípulos solicitam a Jesus que pare o que estava fazendo para se alimentar. Até aquele momento Jesus não havia se alimentado, e possivelmente não havia matado a Sua sede, tendo em vista que a mulher samaritana deixou seu cântaro e correu para cidade. 

A resposta de Jesus foi que Ele tinha comida para se alimentar naquele momento, mas os discípulos não conheciam. E de fato os discípulos não compreendiam o que Jesus falavam, tendo em vista que ficaram se questionando se alguém havia levado comida para eles enquanto estiveram fora, e por isso não era mais necessário comer. Nesse momento, Jesus os responde que a comida dele era fazer a vontade do Pai e realizar a obra à qual seu ministério estava proposta.

Jesus está  nos dando a terceira lição: Fazer a vontade de Deus é uma necessidade maior do que as nossas próprias necessidades pessoais. 

Jesus não está impondo aos seus discípulos que fizessem rigorosos jejuns de comida ou bebida, nem estava estabelecendo que deveriam ficar sem comer. Jesus está mostrando para seus discípulos que a necessidade dos samaritanos era espiritual e urgente, enquanto as dele eram secundárias. Como humano, Jesus poderia ficar dias sem comer ou beber, como outrora fizera no deserto enquanto fora tentado por Satanás, sem com isso morrer. Os samaritanos, por outro lado, estavam mortos em delitos e pecados, e precisavam urgentemente nascer de novo. Os discípulos queriam que Jesus deixasse aquelas pessoas esperando enquanto ele comia, mas para Jesus, alimentar espiritualmente as  pessoas era mais importante. 

Precisamos ter esse senso de urgência que coloca a missão do cristão acima das suas volições e anseios. Na prática muitas vezes vemos o chamado cristão para o evangelismo e pregação ser colocado de lado em decorrência de necessidades aparentemente mais urgentes como trabalhar, concluir uma carreira acadêmica, gerir nossos relacionamentos pessoais, ter momentos de lazer, etc.

É para nos fazer refletir o que é mais importante quando estamos a caminho de um passeio no fim de semana e recebemos uma ligação de uma pessoa precisando da nossa companhia; para refletir quando separamos dinheiro para pedir uma pizza e tomamos conhecimento das necessidades de um missionário; ou aquele momento em que estamos atrasados ou apressados para qualquer coisa e uma pessoa em situação de rua pede nossa atenção. Você para, olha a pessoa nos olhos enquanto ela fala, mesmo sabendo que muitas vezes ela só quer pedir dinheiro? Ou então você a interrompe com rispidez ou joga dinheiro imediatamente em suas mãos, como se fosse essa a única necessidade daquela pessoa?

Certa vez presenciei durante um culto a entrada de um morador de rua na igreja, e durante a ministração do louvor um dos cantores que estava no púlpito pediu para demonstrarmos nossa alegria e comunhão através de cumprimentos e abraços. Entristeci-me ao constatar que mesmo as pessoas na mesma fileira de cadeiras daquele senhor não se dispuseram sequer a apertar a mão daquele homem. 

Via-se que não era "só mais um bêbado", pois o homem estava lúcido, não cheirava a álcool, mas apresentava mal cheiro intenso, e percebia-se não só pelo odor como aspecto que ele de fato habitava nas ruas. Ele estava na última fileira da igreja, eu na terceira, e me desloquei até ele, apertei sua mão, olhei nos seus olhos e perguntei seu nome. Ele, com extrema alegria me disse seu nome... Gustavo. Então ele agradeceu por eu ter perguntado o nome dele, sorriu, e o culto seguiu normalmente.

E se minhas roupas tivessem sujado? - Em casa eu as poderia lavar.

Ele estava sujo, poderia me contaminar com alguma bactéria ou vírus. - Eu poderia discretamente lavar as mãos em algum momento, sem levá-las à boca ou olhos.

Eu poderia ficar fedendo? -  Dificilmente, mas caso ocorresse, seria por muito pouco tempo comparado àquele homem.

Mas aquele culto poderia ser a última oportunidade daquele homem experimentar o calor da comunhão do corpo de Cristo. Poderia ser a oportunidade dele sair dali quebrantado pela Palavra e pelo acolhimento, ao invés de sair decepcionado, nos acusando de tratá-lo como se fosse menos humano que qualquer um. A necessidade daquele homem era maior do que qualquer coisa que nós pudéssemos alegar para nos mantermos afastados dele naquele momento.

Isso se confirma pela afirmação de Jesus, ao comparar o que estava ocorrendo com a ceifa que estava para acontecer. O tempo de ceifar as colheitas estava previsto para ocorrer daqui há quatro meses, e Jesus se aproveita disso para chamar a atenção dos seus discípulos.

Neste momento ele nos traz o quarto ensinamento: O tempo da colheita é agora.

Enquanto eles esperavam quatro meses pela colheita, ela já estava pronta para ser realizada. Jesus estava dizendo que a sua fome era de realizar a vontade do Pai, a semente que havia sido lançada no coração daqueles samaritanos já estava pronta para ser colhida naquele momento. Aquela era a hora de pregar o Reino de Deus e promover os batismos. 

A mensagem da mulher samaritana não demandaria meses para surtir efeitos, através do ensino da Palavra programático, de enviar um discípulo para passar meses com os samaritanos... O momento era aquele. Aliás, a semente em si já fora plantada desde o Pentateuco que os samaritanos consideravam como texto bíblico. A chegada de Jesus em Sicar era o momento da colheita dos frutos decorrente da Lei que previa a vinda do Messias. Quando Jesus declara que Ele era o Messias, estava realizando a colheita decorrente da semente plantada na Palavra. 

E o que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem.

Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa.

Eu vou enviei a ceifar onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.

Por fim, Jesus nos dá o quinto ensinamento: a função dos seus discípulos deve ser pregar o Reino, vejam o resultado ou não.

Quando Cristo declara que seus discípulos ceifam o que não plantaram, Ele está declarando a verdade do Evangelho pela qual compete a cada cristão pregar Jesus Cristo, e ter isso como sua única preocupação. Os discípulos estavam colhendo os frutos da pregação da Lei e dos profetas, e nós, hoje, colhemos os frutos que muitas vezes não fomos os responsáveis por plantar. Eles continuaram o trabalho que não haviam começado, e nós também fazemos isso.

Jesus também está falando sobre galardão que é ajuntado para vida eterna, deixando claro que tanto aquele que semeia quanto aquele que colhe se regozijam  nos frutos para vida eterna. O galardão portanto é apresentado como um benefício dado por Deus aos homens por sua graciosa vontade de ser abençoador e galardoador daqueles a quem ama. Não há uma distinção entre quem planta e quem  colhe, e no fim das contas, todos devemos administrar nossos talentos com dedicação e alegria.





sábado, 20 de maio de 2023

A humanidade de Cristo (João 1:14)

 "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."

João 1:14


O Evangelho de João inicia com a declaração de que no princípio era o Verbo, apresentando para nós a divindade de Jesus Cristo, como o Criador e Mantenedor de todas as coisas. Os versículos 1 a 13 tem por objetivo afirmar a divindade de Cristo, o nosso Deus. Já o versículo 14 é uma adição às informações anteriores. Jesus não apenas era o Verbo, Deus da Eternidade, como também se fez homem e habitou entre nós. É portanto uma afirmação da humanidade de Cristo.

Jesus não era um receptáculo que foi possuído pelo Espírito de Deus para realizar uma obra na terra, pois assim fosse, a ação de salvar teria sido realizada pelo Espírito Santo, e não pelo Filho. Também não era uma espécie de holograma espiritual que as pessoas poderiam ver, porém não poderiam tocar, caso assim fosse, a mulher com fluxo de sangue não teria tocado as Suas vestes e sido curada. Jesus também não era dotado de dupla personalidade, como se em seu corpo houvesse um homem chamado Jesus e o Filho de Deus como duas personalidades diferentes que se alternavam conforme o momento. Todos esses exemplos acima dizem respeito à heresias que já foram combatidas na história da Igreja.

O que João está nos ensinando, e que diversos outros textos corroboram, é que Jesus Cristo era plenamente Deus (1-13) e plenamente homem (14). Não havia divisão entre sua humanidade e divindade, e nem uma porção maior em detrimento da outra. A humanidade e divindade de Jesus Cristo eram plenas, e para isso, João nos apresenta algumas informações.

Em primeiro lugar, o Verbo se fez carne. A humanidade de Jesus era necessária para cumprir o plano da salvação. O homem pecou contra Deus, e era incapaz de pagar o preço do próprio pecado. Desde Adão e Eva nunca houve um homem capaz de expiar o preço dos próprios pecados de maneira permanente, de forma que o homem jamais poderia se apresentar diante de Deus santo. A mancha do pecado nos torna incapazes de nos apresentar diante de Deus. Seria como o culpado de um assassinato se apresentar diante do seu próprio juiz segurando a arma do crime, com as roupas ainda sujas do sangue da sua vítima.

A pena de um crime é proporcional ao dano causado, para que haja efetiva justiça e reparação do bem jurídico em questão, e, no caso do pecado, o bem jurídico a ser considerado é a glória do próprio Deus, que é Eterno e Perfeito. Portanto, como seríamos capazes de reparar um crime cuja vítima e glória são eternos e perfeitos? Sendo nós imperfeitos e finitos, a nossa vida como um todo seria incapaz de pagar a dívida que temos com Deus, assim como vemos na parábola do súdito incapaz de perdoar o seu servo (Mateus 18:21-35), cuja dívida não poderia ser paga nem com a totalidade dos seus dias e dos seus filhos. 

Por outro lado, não haveria justiça se um anjo pagasse o preço do pecado dos homens, sendo certo que fora a humanidade quem pecou, e não qualquer das legiões celestiais, as quais ainda conseguem estar próximas do Senhor, mesmo que cubram a própria face com suas asas.  Ninguém pode ser condenado pelo pecado dos outros, de forma que se o homem pecou, o homem deveria pagar o preço do seu próprio pecado.

Assim, Jesus assume a forma de homem, nascendo da virgem Maria e pagando o preço do nosso pecado. Por ser plenamente homem, Ele poderia oferecer a Si mesmo como o Réu pelo crime cometido contra Deus, pois em nada era diferente de Adão, sendo inclusive chamado de segundo Adão, pelo qual veio a justificação. Ao mesmo tempo, sendo plenamente Deus, Ele tinha a totalidade da glória e majestade necessária para perdoar o pecado cometido contra o Rei Glorioso e Eterno.

Em segundo lugar, Jesus habitou entre nós. Ele não apenas assumiu a forma de homem como também viveu como um. Ele sentiu na própria pele tudo aquilo que nós sentimos. Ele teve momentos de alegria e comunhão com seus discípulos, tinha uma rotina e vida de oração, ia para as sinagogas ensinar o verdadeiro significado da Palavra de Deus. Ele teve fome e sede, ele sentiu compaixão, e até mesmo precisou aprender a andar e falar, como qualquer um de nós precisou um dia.

Por outro lado, ele também experimentou a dor, sofrimento e angústia. Ele chorou durante o luto de Lázaro, Seu amigo. O Senhor foi alvo de injustiça e em tudo foi tentado, assim como cada um de nós. Ele não foi homem apenas na sua biologia, como também em toda a experiência de ter uma vida social, sentimental e religiosa. O nosso Senhor Jesus não passou pela terra alheio a tudo que estava acontecendo, pelo contrário, ele se importou com as necessidades das pessoas a Sua volta, alimentando os que tinham fome, curando os que estavam doentes e libertando os que estavam cativos de demônios. 

Em terceiro lugar, a humanidade pode finalmente contemplar a glória do Filho de Deus, o Unigênito do Pai. Mesmo sendo um homem como todos os demais, a glória de Deus finalmente pode ser contemplada pelos homens através da figura do próprio Filho. Havia mais na Sua presença e Suas palavras, pois todas as suas ações e pronunciamentos demonstravam a todos os homens a Sua autoridade divina. João nos afirma a superioridade de Jesus Cristo, incomparável a qualquer criatura nos céus e na terra. Isso porque Jesus é a exata expressão do Ser de Deus, mesmo tendo se esvaziado para viver como todos nós.

Sua glória se manifestava quando o Senhor falava, e Suas palavras paravam tempestades e expulsavam demônios de pessoas cativas. Quando Ele manifestava Sua vontade dizendo "Quero que seja curado", e de fato a pessoa era curada. Quando Ele proferia parábolas que faziam as escamas dos olhos das pessoas caírem e elas finalmente poderem contemplar a vontade verdadeira de Deus para vida delas. Seus sermões e ensinos eram gloriosos, e levavam as pessoas ao arrependimento e conversão genuína, tirando-as das trevas da iniquidade e dos ensinos de homens.

Sua glória se manifestou na vida de perfeita conformidade com a vontade do Pai. Desde a eternidade todos os aspectos da vida de Jesus Cristo foram proféticos, pois foram profetizados na Palavra de Deus do Antigo Testamento. Desde a profecia de que a salvação dos homens nasceria de uma virgem (Isaías 7:14), até mesmo as suas últimas palavras na cruz (Salmos 22:1) foram para cumprir integralmente a Palavra de Deus. Sabemos que nosso Senhor Jesus em tudo foi tentado, mas diferente de nós, Ele nunca pecou. Cristo foi o homem perfeito, o único que existiu, o único capaz de pagar o preço dos nossos pecados, pois era o único que poderia se apresentar diante de Deus sem qualquer pecado. Ele foi obediente até a morte de cruz para ser o Cordeiro sem manchas que aplacaria a ira do Senhor. Jesus foi o sacrifício perfeito.

Em quarto lugar, Jesus foi cheio de graça e verdade. A Palavra de Deus registra diversos milagres e demonstrações do poder de Jesus como Deus, e ainda assim, o que João destaca são suas expressões de misericórdia e verdade. Isso porque a vontade de Deus é que sejamos a imagem e semelhança do nosso Senhor, agindo na nossa vida da forma que o próprio Jesus agiu.

Cristo enquanto homem é gracioso, e todas as suas ações enquanto caminhou conosco foram expressões da Sua misericórdia. Ele jamais curou um enfermo ou libertou um endemoninhado com vistas a ganhar fama, tendo até mesmo em alguns casos se ocultado no meio da multidão ou se afastado de milhares de seguidores de barco, para que as pessoas não o pudessem seguir. Jesus repreendeu aqueles que acreditavam que Ele  havia se manifestado para combater o império romano com seu poder divino e seguidores.

Enquanto esteve na terra Jesus se preocupou em levar misericórdia para todos os homens, por mais odiáveis que eles pudessem ser. Ele cuidou de judeus, samaritanos, publicanos, soldados, mulheres marginalizadas, deficientes, pobres e viúvas. Ele foi cheio de graça, pois não escolhia a quem agir com misericórdia, mas vendo todos os homens como pecadores e ignorantes acerca da vontade de Deus. O nosso Senhor Jesus foi tão misericordioso que no momento da sua morte olhou para todos os homens furiosos que o haviam crucificado e escarneciam deles e pediu ao Pai que tivesse misericórdia, pois não sabiam o que estavam fazendo (Lucas 23:34)!

Cristo também foi extremamente verdadeiro, afinal, Ele é o caminho, a verdade e a própria vida. Jesus tratou a todos com verdade e sinceridade, e não proferiu qualquer mentira, mesmo quando sob risco de morte. A Sua verdade não diz respeito apenas ao fato de que nunca mentiu, mas também por ter ensinado para as pessoas a verdadeira vontade de Deus. Quando Ele ensinava e dizia "em verdade vos digo", Ele estava dizendo às pessoas o que de fato as palavras da Lei de Deus significavam. Ele não destruiu a Lei com um novo ensino, Ele apenas ensinou o que de fato a Lei ensinava. Não era a nova Palavra de Deus, mas sim a Palavra de Deus que estava ocultada pelo pecado e ignorância de líderes religiosos que só se importavam consigo mesmos e achavam que a justiça da sua vida dependia deles mesmos.

Isso nos ensina que:

Você não precisa fazer mais nada, pois o próprio Filho de Deus já fez tudo por você. A vida, ministério,  morte e ressurreição de Jesus cumpriram todos os requisitos para perdoar todos os seus pecados e garantir a sua salvação. Hoje você pode orar para o próprio Deus e falar diretamente com Ele, sabendo que Ele pode (e vai) te escutar. Tudo que você precisa para se apresentar diante de Deus é acreditar no que Jesus fez por você.

Jesus compreende e intercede por você junto ao Pai. Por ter vivido como cada um de nós, Jesus sabe de todas as suas limitações e tentações, e sabe muito bem que você é incapaz de não cometer mais pecados sem a ação do Espírito Santo. Quando você ora, Ele pode consolar o seu coração ferido e angustiado, porque um dia Ele também experimentou dor e angústia. Não há nada que você possa sentir ou sofrer que o próprio Jesus já não tenha sentido ou sofrido. Até mesmo o peso do pecado Ele sentiu, no momento em que carregou os seus na cruz do calvário, mesmo não tendo Ele pecado algum.

Precisamos ser verdadeiros e misericordiosos, assim como nosso próprio Senhor Jesus foi durante toda a Sua vida. O cristão precisa ser imitador do Senhor, guardando o bom testemunho da verdade, misericórdia e santidade em sua vida. Não podemos pregar o que não vivemos, do contrário seremos mentirosos e hipócritas. Não podemos mentir ou agir com dolo, com vistas a ter algum benefício. Pelo contrário, em todas as coisas devemos glorificar ao Senhor.

Por fim, é muito importante compreender que Jesus é totalmente Deus e totalmente homem, porque apenas dessa forma seria capaz de pagar o preço pelos nossos pecados. Negar a humanidade total e divindade total de Deus é colocar em dúvida a sua própria salvação e proclamar uma heresia que foi combatida por centenas de anos. Cristo foi totalmente homem para assumir a nossa culpa, e totalmente Deus para pagar a nossa dívida eterna.

Que Deus abençoe a sua vida!




sábado, 20 de março de 2021

Jesus - O Cordeiro Pascal

A Páscoa no Antigo Testamento é o memorial da libertação dos hebreus do Egito, representando a primeira reunião com o povo da aliança.




E falou o Senhor a Moisés e a Arão na terra do Egito, dizendo:
Este mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano.
Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês tome cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada família.
Mas se a família for pequena para um cordeiro, então tome um só com seu vizinho perto de sua casa, conforme o número das almas; cada um conforme ao seu comer, fareis a conta conforme ao cordeiro.
O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras.
E o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o sacrificará à tarde.
E tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras, e na verga da porta, nas casas em que o comerem.
E naquela noite comerão a carne assada no fogo, com pães ázimos; com ervas amargosas a comerão.
Não comereis dele cru, nem cozido em água, senão assado no fogo, a sua cabeça com os seus pés e com a sua fressura.
E nada dele deixareis até amanhã; mas o que dele ficar até amanhã, queimareis no fogo.
Assim pois o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do Senhor.
E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o Senhor.
E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito.
E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo.


Quais são os pontos chaves da instrução?


1 - Cada homem deveria selecionar um cordeiro sem mancha ou defeito para sua família. Depois da escolha desse animal no décimo dia do mês, ele deveria ser observado durante cinco dias para certificar que não havia nada de errado com ele.

2 - Era necessário levar o cordeiro até a própria porta de casa e matá-lo. Recolhia-se o sangue numa bacia e depois o aspergia em ambos os lados do umbral e acimado umbral. Toda a entrada da casa fica coberta pelo sangue do cordeiro.

3 - O cordeiro inteiro deveria ser assado e consumido. Nada poderia sobrar para o dia seguinte. Ao preparar a refeição, nenhum osso deveria ser quebrado e o cordeiro deveria ser transpassado por espetos para que o corpo ficasse aberto.

4 - Enquanto comiam, Deus permitiu que o anjo da morte passasse pela terra. Ao passar de porta em porta, ele procurava entrar em cada casa. Se a entrada estivesse coberta pelo sangue, o anjo da morte não conseguia entrar Do contrário, o juízo viria sobre aquela família.

5 - Nenhum incircunciso deveria participar da refeição da Páscoa ou celebrar a festa (Êxodo 12:48). A circuncisão era o sinal externo de que o homem havia aceitado Deus como verdadeiro, e feito uma aliança de sangue com Ele.

A assim foi estabelecida a Páscoa do Senhor. O sangue do cordeiro  era a cobertura e proteção para o povo de Deus. 

Mas por que o sangue nos umbrais das portas apenas? Já que a ideia é evitar a entrada do anjo da morte, ele poderia entrar pela janela também!

Há um contexto histórico para o sangue ser aspergido nos umbrais das portas. O mais antigo altar primitivo à Deus e mesmo aos deuses falsos eram a soleira ou a entrada das casas. As pessoas sacrificavam aos deuses no altar da soleira, como forma de pedir proteção e convidar essa suposta divindade para entrar na casa. Era comum matar um animal na soleira para dar boas vindas à divindade da família, em seguida atravessar a soleira e entrar em casa.

O entendimento bíblico, portanto, ganha muito mais riqueza! Não se trata apenas de uma barreira de proteção feita com sangue; era um convite para Deus entrar na casa e proteger a família do anjo da morte! Deus entrava no lar com vida, enquanto o anjo trazia morte para os impiedosos!

Com base nisto, porque Jesus é o Cordeiro Pascal? Por que não há mais sacrifícios?

Sabemos muito bem que a Lei de Deus não foi revogada, mas que Cristo a cumpriu por nós, a fim de que pudéssemos nos apresentar justificados diante do Pai (Mateus 5:17-18). Milhares de cordeiros eram sacrificados e consumidos anualmente em Jerusalém, a fim de que a Páscoa fosse comemorada! Jesus, por outro lado, ofereceu um único sacrifício definitivo entregando a Si mesmo como o Cordeiro Pascal.

Sabemos que todo o sistema religioso e sacrificial do Antigo Testamento aponta para a obra redentora de Jesus Cristo. Se o único caminho para Deus é o próprio Senhor Jesus, o que fica muito claro para nós é que qualquer forma de justificação ou salvação provém dEle e aponta para Ele. Os símbolos do Antigo Testamento apontam para o que Jesus ainda faria no seu ministério terreno, e todos  que morreram antes disso foram justificados pela fé no Messias redentor (Hebreus 11).

Vamos voltar aos três primeiros pontos chaves da Páscoa Judaica?

1 - Cada homem deveria selecionar um cordeiro sem mancha ou defeito para sua família. Depois da escolha desse animal no décimo dia do mês, ele deveria ser observado durante cinco dias para certificar que não havia nada de errado com ele.

Jesus  foi separado para ser interrogado e sacrificado no exato mês, dia e hora que os judeus vinham tratando os cordeiros para a festa da Páscoa. O cordeiro precisava ser separado no décimo dia do mês, e Jesus entrou em Jerusalém  no décimo dia, a fim de iniciar os preparativos do seu próprio sacrifício. 

Jesus foi para Betânia no nono dia (João 12:1), e entrou em Jerusalém no dia seguinte, o décimo dia de Nissam (João 12:12-13).

O cordeiro era separado com antecedência para garantir que não tivesse mancha ou defeito, e por tal razão  ficava sob observação por 5 dias. Jesus, após sua chegada em Jerusalém, foi observado e posto a prova por 5 dias pelos líderes religiosos, os quais questionaram sua autoridade e interrogaram-lhe para que desse alguma resposta errada com a qual pudessem acusá-lo (Mateus 21:23-37/ Mateus 23).

Por fim, Jesus foi levado diante do governador de Roma, já que segundo a Lei nada puderam acusar. Após ser torturado e interrogado, Pilatos declarou sua inocência (João 19:4). Tudo isso ocorreu entre o décimo e o décimo quarto dia.

2 - Era necessário levar o cordeiro até a própria porta de casa e matá-lo. Recolhia-se o sangue numa bacia e depois o aspergia em ambos os lados do umbral e acimado umbral. Toda a entrada da casa fica coberta pelo sangue do cordeiro.

Era necessário que os judeus preparassem o sacrifício às nove horas da manhã do décimo quarto dia, e o cordeiro fosse morto às três horas da tarde para a Páscoa ser concluída antes das seis horas, quando um novo dia iniciaria. Na hora exata em que os judeus estavam preparando os cordeiros da Páscoa, Cristo foi crucificado por nós (Marcos 15:25).

Cristo é o Cordeiro Pascal, que foi ferido e moído por nós. O Cordeiro que levou sobre si a iniquidade e nossas dores, embora não tenha aberto sua boca, como um cordeiro levado ao matadouro (Isaías 53:4-7 c/c Atos 8:34-35).

O que nós entendemos como três horas da tarde, o judeu compreendia como hora nona. O que exatamente ocorreu na hora nona? Lembrei! Cristo morreu! Na hora nona, Jesus clamou, bradou, e entregou o Seu espírito, conforme (Marcos 15:34-37).




Com isto o véu do templo se rasgou de cima a baixo, simbolizando que a separação entre o homem e Deus não mais existia! A partir daquele momento Deus olha para seus filhos e não vê as transgressões! Ele vê o sangue de Jesus aspergido sobre nós, nos livrando da morte eterna e nos tornando justos diante de Deus! A comunhão é reestabelecida, e Deus entra em nossas vidas e nossos lares trazendo vida aos que estavam mortos em seus delitos e pecados!

3 - O cordeiro inteiro deveria ser assado e consumido. Nada poderia sobrar para o dia seguinte. Ao preparar a refeição, nenhum osso deveria ser quebrado e o cordeiro deveria ser transpassado por espetos para que o corpo ficasse aberto.

Cristo foi totalmente consumido no julgamento de Deus por nossos pecados. Não há um aspecto da vida de Jesus no qual Ele não tenha se entregue por cada um de nós. Cada palavra proferida, cada decisão tomada, cada milagre realizado! Em todo momento Ele estava sendo obediente até a morte, e morte de cruz!

Nada deveria ser deixado para o dia seguinte, e Jesus foi retirado da cruz antes das seis horas (João 19:31). Cristo não foi deixado na cruz até o dia seguinte. Seus ossos, como o do cordeiro sacrificado, não foram quebrados! Era costume quebrar as pernas dos crucificados, para que morressem asfixiados mais rápido, pois tal pena poderia durar dias! Jesus morreu em poucas horas, e após quebrarem as pernas dos ladrões, os guardas não precisaram quebrar as de Cristo (João 19:30-37).

Com base nessas informações, vemos que Jesus é o Cordeiro Pascal que foi sacrificado por nós (1 Coríntios 5:7), sem manchas ou defeitos, revelado em favor de nós, e ressuscitado pelo Pai dentre os mortos para nos trazer fé e esperança (1 Pedro 1:18-21). Ele foi crucificado, com seus braços abertos e esticados, como um cordeiro transpassado por espetos!




No próximo artigo abordaremos a ressurreição de Jesus! 

sábado, 19 de dezembro de 2020

João 20:18 - A loucura da fé

Cristo ressuscitou, mas os discípulos ainda não sabiam disso. Maria Madalena havia visitado o sepulcro pela madrugada, encontrando-o aberto. Rapidamente ela sai em busca Pedro e João com uma péssima notícia: levaram o corpo do Senhor Jesus.

Os discípulos rapidamente correm para o sepulcro, encontrando-o vazio. Os lençóis que cobriam o corpo estavam no chão, os que cobriam o rosto estavam dobrados no canto. Vendo o sepulcro vazio, os discípulos creram na notícia de Maria, de que o corpo havia sido levado, e foram embora para suas casas.


Maria, por outro lado, permaneceu junto ao sepulcro. Ela chorava pelo corpo desaparecido do seu Senhor, quando de repente foi abordada por ele. No começo, ela não havia percebido, e acreditava até mesmo na possibilidade de ser o homem que havia levado o corpo embora. Até que Jesus chama a sua atenção.


Então, ele dá a ela uma tarefa: ir até  os discípulos e avisar que ele havia ressuscitado, e que estaria com o Pai. Então ela declara:


Eu vi o Senhor!


Em seguida, narra o encontro e as coisas que Ele havia lhe dito.


Na reflexão de hoje nós falaremos um pouco sobre a loucura da graça. Há momentos em que percebemos que a graça de Deus desafia as nossas expectativas e preconceitos. Cristo havia morrido, e a primeira pessoa para a qual se revelou foi Maria Madalena.


Eis o primeiro preconceito a se considerar: ela era uma mulher. A primeira testemunha da ressurreição de Cristo, que ficou responsável por proclamar que Ele estava vivo era uma mulher! Num período onde mulheres não tinham, participação no diálogo público ou político. Mulheres era submissas aos seus pais ou maridos, e quando eles morriam, tornavam-se extremamente vulneráveis, e dependiam da assistência da comunidade, sob o risco de ingressarem até mesmo na prostituição.


E esse é o segundo preconceito: Maria Madalena não era apenas uma mulher, como também aquela pega em adultério, que quase foi apedrejada em praça pública, momentos antes da sua conversão. Maria Madalena não era bem quista  pelo  povo, e se dependesse dele, já estaria morta há tempos pelo flagrante adultério. Ela não gozava, portanto, nem da  credibilidade dos homens, quanto das mulheres, com exceção daquelas que conheciam seu histórico de conversão e caminhada com Cristo.


Quando eu olho para essa passagem, fico imaginando a incredulidade daqueles que a ouviram dizer que havia visto o Senhor!  Até porque há alguns momentos antes ela havia declarado que seu corpo foi levado! Neste momento, eu começo a pensar sobre a loucura que é a graça de Deus.


Maria Madalena não é o primeiro exemplo da graça abundante e incompreensível do Senhor com a humanidade. Raabe foi uma prostituta que deu abrigo aos espias israelitas em Jericó que recebeu misericórdia da parte do Senhor, e teve sua vida preservada na invasão da cidade, passando a viver com o povo de Deus por toda a sua vida. Ela entrou para o rol da fé em Hebreus 11. Mais ainda! Tornou-se parte da própria genealogia de Jesus, como mãe de Boaz e descendente direta do rei Davi.


Este último também é um exemplo da graça. Homem que empunhava a espada, desobediente em diversos momentos, fez o censo do povo que havia sido proibido. Mais grave ainda, Davi foi adúltero e tomou a esposa do seu soldado para si, inclusive mandando-o para guerra para que morresse e pudesse encobrir seu pecado tomando Bateseba como esposa! Mas dele foi dito que era um homem segundo o coração de Deus. Salomão, seu filho, seria responsável por construir o templo ao Senhor, que até então era adorado no tabernáculo.


Salomão era sábio, e com seu governo Israel teve paz. Mas ele também é um exemplo  da graça. Entregou-se à poligamia e amou mais a suas esposas do que a Deus. Suas mulheres eram idólatras de diversas nações, e seu coração acabou sendo corrompido pela idolatria, e ele passou a seguir Astarote. Ainda assim o arrependimento o alcança, e seu livro de Eclesiastes é a prova das experiências de vida adquiridas.


O ladrão na cruz morreu cristão. O discípulo que negou Jesus foi o primeiro  a pregar após o derramamento do Espírito Santo. Estes e outros exemplos servem para nos mostrar aspectos maravilhosos da graça de Deus e sua aplicação em nossas vidas.


Em primeiro lugar, olhar para a graça na vida do pecador reforça a mensagem da fé:


Para o homem sem Cristo é comum esperar que qualquer boa nova venha de um homem ou mulher virtuosos e bem sucedidos. É comum esperar que eles tenham a vida impecável e idealizada de bons cidadãos e bons familiares. O que vemos na prática é que muitas vezes a mensagem é apresentada por alguém cuja multidão dos pecados exalta a infinitude da misericórdia de Deus.


Nessa hora o Espírito Santo exercita no perdido, ou mesmo em nós, a fé. É preciso ter fé para ouvir uma prostituta dizer que viu o Senhor, ainda mais depois de cidadãos “de respeito” o terem  visto morrer na cruz! É preciso ter fé para crer que um rei adúltero foi um homem segundo o coração de Deus, pois se derramava em busca da sua misericórdia. É preciso ter fé quando vemos alguém cujos pecados nos são conhecidos pregar sobre o amor de Deus e não fechar de cara o seu coração, julgando haver hipocrisia ou algum interesse escuso.


Cristãos são acusados diariamente de hipocrisia, pois pecam, pecam, pecam e depois encontram Jesus. Como se a intenção fosse saborear o máximo os prazeres do mundo antes de pensar em Deus e não poder fazer mais nada. Quem se converte dentro do presídio é acusado de fazer isso pra receber redução de pena e acesso à ala de presídio separada de facção. Homens que eram fraudulentos são acusados de se converter para conseguir vantagens das ovelhas inocentes.


O que as pessoas que fazem essas acusações não entendem, é que quando elas se deparam com o testemunho e a conversão de um pecador conhecido, Deus está convocando-as e desafiando-as a ter fé! A olhar além das expectativas e acreditar! Olhar além do homem e ver Jesus operando na vida dele!


Também pode ser um exercício para a fé de alguns de nós. Há muitos lobos entre nós, e por vezes podemos cair na armadilha de não crer na mudança e conversão das pessoas! Estamos prontos para confiar no arrependimento daqueles que nos feriram? Somos capazes de perdoar aqueles que nos enganaram? Será que não temos fé suficiente para crer que Deus reergue um irmão que caiu? Que ele pode restaurar um casamento ou um cônjuge que nos feriu? Será que nossa fé é tão pequena que não conseguimos ver além das ofensas?


Quando Deus usa homens e mulheres tão escandalosos, trazendo-os para si, Ele está primeiramente lançando um desafio de fé.


Em segundo lugar, tais pecadores evidenciam a misericórdia de Cristo:


Quando testificamos a conversão de homens cuja multidão de pecados causam asco e desprezo, Deus nos dá uma breve demonstração do tamanho da Sua misericórdia. Quando olhamos para Raabe, Maria Madalena, Davi e Salomão vemos homens  com pecados tão absurdos quanto os nossos,  mas que no final receberam bençãos incomparáveis!


Nesse rol, especificamente, todos que foram citados eram descendentes diretos do Senhor Jesus. Maria Madalena, por sua vez, recebeu a importante tarefa de pregar a ressurreição aos homens antes mesmo dos apóstolos! Veja o tamanho das bênçãos e bondade do Senhor, a despeito do tamanho da miséria e passado de cada um!


Tais pecadores convidam você a conhecer a misericórdia de Deus. Veja que o Senhor trata com amor homens e mulheres com pecados  iguais e piores que os seus! Não há qualquer pecado que você tenha cometido e que o Senhor não possa perdoar! Tenha fé em Jesus! O homem que olhava para o publicano  e via mais que um ladrão de impostos; que olhava para adúltera com amor; pra prostituta com carinho. O Jesus que declara em Sua Palavra que pode e tem o poder de te fazer filho de Deus. Receba-o com fé!


Não há pecado tão grande que não possa ser perdoado quando você se coloca aos pés de Jesus. Se Deus pode perdoar estas pessoas que eu falei, Ele com certeza pode te perdoar também!


Por último, como Maria Madalena somos desafiados a declarar todos os dias… Eu vi o Senhor!


O mundo precisa saber quem causou  a mudança  da sua vida! Maria Madalena recebeu a missão de testemunhar as palavras que Jesus lhe disse. Nós, semelhantemente, somos desafiados a proclamar o mesmo evangelho diariamente.


Muitas vezes poderão olhar para nós da mesma forma que possivelmente olharam para ela: com descrença e desprezo. Mas podemos ser consolados na experiência de ter vivido um encontro pessoal e real com o próprio Senhor Jesus. 


Ele nos deu apenas uma missão: ir e pregar o evangelho, fazendo discípulos por todo o mundo. Na sua casa, no seu bairro, na sua cidade e por todo lugar onde a sua voz consiga alcançar pessoas. Corra em direção às ovelhas perdidas e pregue que Cristo morreu e ressuscitou por elas! Pregue com a sua boca, com a sua vida e testifique a misericórdia do Senhor em relação ao pecador.


1º Ouça com fé!

2º Creia em Jesus!

3º Proclame!



Imagem extraída de:


https://blogdorogerinho.wordpress.com/2016/03/11/porque-jesus-apareceu-primeiro-para-madalena/


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Como assim o Filho estava presente no Antigo Testamento?




Algumas pessoas recaem no erro de acreditar que Jesus Cristo, o Filho, só nos é apresentado no Novo Testamento. Lembro-me de um texto do Gregório Duduvier que reflete exatamente esse desconhecimento, chamado “Querido pastor”.

A carta fictícia de Jesus para um pastor afirmava “Caso queira me conhecer mais, saiu uma biografia bem bacana a meu respeito. Chama-se Bíblia. Já está à venda nas melhores casas do ramo. Sei que você não gosta muito de ler, então pode pular todo o Velho Testamento. Só apareço na segunda temporada”.

Não espero muito do referido autor, pois não se trata de um teólogo com base bíblico-teológica cristã. Mas ele reflete bem o meu ponto: restringimos a ação de Jesus ao Novo Testamento, mais especificamente à obra da salvação.

Entretanto, a teologia nos ensina a Triunidade de Deus, de forma que não há como desassociar o Filho do Pai e do Espírito Santo, como se em algum momento Ele não tivesse existido, ou que seu papel se resumisse à morte e ressurreição. O próprio Novo Testamento nos ensina que Jesus estava presente na Criação. Todas as coisas foram feitas por Jesus, o Verbo, e sem Ele nada do que foi feito se fez (João 1:1-4).

Avançando um pouco na criação, vemos então a Queda do homem. O casal no Éden toma do fruto proibido pelo Senhor, recaindo sobre eles e toda a criação a maldição do pecado, da morte física e espiritual. Também é apresentada a esperança: seria posta a inimizade entre a semente da mulher e a semente da serpente. Esta morderia o calcanhar, enquanto  aquela lhe feriria a cabeça (Gênesis 3:15). É o protoevangelho apresentando o Filho como aquele que restauraria a comunhão do homem em razão da Queda.

Sem entrar em detalhes, também podemos citar as diversas teofanias, nas quais o Anjo do Senhor aparece para homens na história do Antigo Testamento. Esse termo, na verdade, não diz respeito a um anjo comum, mas ao próprio Jesus Cristo! Deus, quando se apresentava visivelmente, o fazia através da imagem do Filho!

Mas... Sim! É importante falarmos do plano da salvação que nos é apresentado no Novo Testamento! Paulo sintetiza a obra salvífica do Filho em Romanos 3:23-24, nos apresentando o Seu plano de Redenção. Na medida em que todos pecaram e não podem justificar a si mesmos diante de Deus, Jesus graciosamente nos redimiu, tornando-se maldição em nosso lugar (Gálatas 3:13) e levando sobre Si nossas dores e maldições (Isaías 53:4-6). Jesus Cristo pagou o preço por nossos pecados.

Portanto, nossa relação com Deus está restaurada. O véu que separava o homem de Deus foi rasgado, no Seu sangue Jesus efetuou a eterna redenção! (Hebreus 9:11). Quando cremos em Cristo somos feitos nova criação, sem a escravidão do pecado, restaurados à comunhão com Deus, mediante a fé em Cristo (II Coríntios 5:17). Que possamos descansar a cada dia na realidade de sermos portadores de uma liberdade, paz e vida que jamais mereceremos!

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Devocional - Salmo 1:3


“Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido.”
Salmo 1:3



Quando lemos os dois versículos anteriores, vemos o salmista fazer um paralelo entre ímpios e justos, no tocante a forma pela qual eles veem e vivem no mundo. Seguindo o versículo, Davi compara o justo a uma árvore plantada junto a uma corrente de águas, a qual recebe nutriente e água constantemente, o solo em seu entorno é fértil e favorável a vida.

Assim como essa árvore, o homem que medita na Palavra de Deus é alimentado e nutrido diariamente por ela, e o Senhor dá o crescimento da Sua vontade no coração a que Se revela. Podemos ficar tentados a aplicar o texto com olhos no que se pode obter da parte de Deus, e não no que de fato se pode ser junto a Ele. Precisamos entender que:

1º O texto não fala de prosperidade material, e sim de santidade e justiça.

O salmo compara justos e ímpios no que diz respeito a forma como vivem: o primeiro de acordo com a vontade de Deus declarada em Sua Lei; o segundo tendo ideias e posturas pautadas na pecadores e blasfemos. Se o terceiro versículo é uma continuação das informações do segundo, e fala do justo, podemos concluir que Davi não fala da prosperidade que o justo conquistará durante a vida, e sim na santidade que poderá desenvolver.

Os frutos a serem produzidos pelo justo são os frutos do Espírito, uma vida de santidade, na qual é possível se manter fora do caminho dos ímpios. Meditar constantemente na Palavra nos aproxima de Deus e, revestidos do Espírito Santo, somos capazes de identificar o pecado em nossa trajetória, bem como as formas de agradar e glorificar ao Senhor. Fruto não é patrimônio, é fazer aquilo que agrada a Deus e evitar o pecado.

2º Perseverança: Nem antes, nem depois... No tempo certo.

 Se o fruto a ser produzido é uma vida de santidade diante de Deus, devemos perseverar. Veja que a árvore junto às águas produz o seu fruto no tempo certo. Ela começa caindo no solo, brota e começa a erguer-se em busca da luz do sol. Suas raízes penetram a terra milímetro por milímetro, dia após dia. Ela balança diante de tempestades, é dobrada pela força dos ventos, entretanto, seus galhos são flexíveis e por mais que pareçam prestes a romper, isso não acontece. A árvore cresce, seus galhos ficam cada vez mais robustos, suas raízes mais fundas, sua folhagem verde e bela. Quando chega o momento certo, ela começa a produzir seus frutos!

Captou a ideia? A semente da Palavra é lançada em nosso coração, o Senhor dá o crescimento e erguemos nossos braços em busca dEle. A cada dia buscamos firmar nossas bases na vontade de Deus, um versículo por vez, aprendendo sempre um pouco mais.

Mas somos pecadores... E por vezes a vontade da carne prevalece, e dobramos perante ela. Mas ainda assim, não conseguimos mais ceder totalmente. Deixamos de ter prazer no pecado, e por mais que aconteçam as tentações e provações, sempre voltamos os olhos para Cristo. Às vezes parece que Deus está em silêncio, mas nossa fé por alguma razão não arrebenta!

Com o tempo aquele pecado infeliz começa a se tornar menos frequente, e um dia se tornará uma vaga lembrança. Esporadicamente ele volta, mas não tem a mesma força de persuasão. Você aprende a identificá-lo e prevenir a queda firmando as bases na Palavra. Eis o fruto!

A santificação é um processo contínuo até o fim da vida. Então não ser capaz de resistir a algum pecado hoje não é um sinal de que você deva desistir ou que não é cristão: você precisa perseverar. Talvez seja questão de tempo até você desenvolver a capacidade de resistir ao pecado. Você pode até dobrar envergonhado em razão do seu pecado, mas o fato é que bebendo da Água da Vida você está sendo nutrido para viver a vida eterna, e jamais será arrancado da presença de Deus!

3º Somos bem sucedidos. A fonte do nosso viver é Cristo!

 Já que o foco é uma vida de santificação, ser bem sucedido é conseguir glorificar a Deus com ela. Cristo é a fonte que nutre o nosso viver e realiza essa obra de santificação!  Tudo aponta para Ele! Veja, fica mais fácil entender que no tempo certo você será capaz de vencer o pecado que te aflige, se você compreender que no tempo certo Cristo morreu pelos pecadores!

A humanidade foi condenada em Adão, e milhares de anos passaram até que o Messias que reestabeleceria o vínculo entre Deus e os homens viesse a terra. Ainda assim, ele nasceu, e levou aproximadamente trinta anos para iniciar a proclamação do Reino de Deus. No tempo certo... Tetelestai... Estava consumada na cruz a expiação dos pecados e nossa redenção!

Ora, se o próprio Deus Filho compreendia que havia um tempo certo para todas as coisas, por qual razão entregaremos o jogo diante de um momento de fraqueza? Olhe para Cristo e busque nEle a fonte de vida que diariamente te livrará do poder do pecado!

domingo, 8 de julho de 2018

Cosmovisão Cristã: Aborto



E, naqueles dias, levantando-se Maria, foi apressada às montanhas, a uma cidade de Judá,
E entrou em casa de Zacarias, e saudou a Isabel.
E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo.
E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.
Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre.
Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas.
Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor,
E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador;
Porque atentou na baixeza de sua serva; Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada,
Porque me fez grandes coisas o Poderoso; E santo é seu nome.
E a sua misericórdia é de geração em geração Sobre os que o temem.
Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações.
Depôs dos tronos os poderosos, E elevou os humildes.
Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos.
Auxiliou a Israel seu servo, Recordando-se da sua misericórdia;
Como falou a nossos pais, Para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.
E Maria ficou com ela quase três meses, e depois voltou para sua casa.

Lucas 1:39-56


A passagem acima narra a visita de Maria à sua prima Isabel após o anúncio de que daria a luz ao Senhor Jesus. O que podemos aprender com ela, e como esse aprendizado se aplica à nossa realidade e tempos? Vamos falar de aborto segundo a Palavra.

O presente estudo busca apresentar alguns fundamentos para a caracterização do aborto como pecado e postura não cristã, de forma que nenhum filho de Deus deve apoiar ou incentivar tanto a descriminalização quanto a prática. 

Escolhi o tema por sua relevância e atualidade. Recentemente houve muita repercussão da decisão da Argentina a qual liberou a prática  do aborto. Centenas (milhares?) de mulheres abraçavam-se comovidas e contentes, algumas carregavam nos olhos às lágrimas de alívio e felicidade. Assisti consternado a alegria de banalizar-se a vida. Pior de tudo foi ver cristãos atribuindo esta "vitória" ao Pai, agradecendo-o por mais essa "conquista"!

Fiquei preocupado com a repercussão do tema. Fui pesquisar e descobri que o tema está prestes a ser discutido pelo Supremo Tribunal Federal em Audiência Pública na ADPF 442 do Distrito Federal.

Em nosso país a discussão gira em torno da descriminalização do aborto realizado em até 12 semanas de gestação. O autor da proposta é o PSOL na ADPF 442, em oposição à criminalização do aborto voluntário prevista nos artigos 124 e 126 do Código Penal, alegando desrespeito à diversos princípios fundamentais.

Precisamos ter em mente que não se trata do eufemismo de legalizar o aborto no sentido de trazer tratamento jurídico ao tema, mas de tornar o aborto uma prática legal de forma voluntária, por decisão da mulher de querer levar a gestação a frente ou não. Isto porque o tema já possui tratamento legal.

1.   O aborto voluntário é considerado crime para a mulher (Art. 124 do CP) e para quem realiza (Art. 126 do CP).

A alegação de que se busca a legalização e descriminalização do aborto para amparar as mulheres vítimas de crimes sexuais ou em risco de vida é uma falácia, visto que já há previsão de não haver crime nestas hipóteses (Art. 128 do CP).  Nestes casos preserva-se tanto a mulher que nem é necessária investigação criminal, bastando a declaração de ter sido vítima para que um médico seja obrigado a realizar o procedimento (Portaria 1.508/2005 c/c  Julgamento do Proc 2007.51.01.017986-4 no TRF2).

De volta ao texto! Ao sexto mês da gestação de Isabel, Maria recebe o anúncio do anjo de que daria a luz ao Filho de Deus, Jesus Cristo. Após isto ela visita sua prima, esposa de Zacarias e mãe de João Batista, ao que procede:

  1. Manifestação de alegria de João Batista no ventre da mãe ao ouvir a saudação de Maria;
  2. Isabel é tomada pelo Espírito Santo e louva pela vida de Maria e do menino;
  3. A própria Maria louva ao Senhor.
No que diz respeito ao ensino que se pode tirar do ocorrido, podemos chegar a conclusão de que:

  1. A presença do Senhor deve causar alegria e louvor naqueles que O aguardam e amam. Isso fica evidente pela alegria do bebê e pelo louvor de Maria, que salmodia em adoração.
  2. É Deus quem convence o homem acerca da divindade de Jesus Cristo, como fica explícito pelo fato da declaração de Isabel ser fruto da ação do Espírito, assim como ocorre com Pedro em Mateus 16:16-17, a quem é revelado pelo Pai que Jesus é o Cristo.

Porque o aborto é antibíblico?

No que diz respeito ao tema proposto, os versículos acima servem de base para afirmar de forma autoritativa que o cristão não pode se posicionar a favor do aborto, pelos seguintes argumentos:

Primeiro, Jesus é adorado já no ventre da mãe, sendo chamado Senhor por Isabel, como vemos no versículo 43. Maria havia acabado de receber a notícia da gestação, de forma que para nós a discussão acerca de tempo de gestação para praticar o aborto sequer deveria ocorrer. A vida no ventre é vida, tenha ela semanas ou meses de desenvolvimento intra-uterino!

Aliás, vida esta sente e se alegra na graça de Deus, como o próprio João Batista que pula de alegria no ventre da sua mãe, sendo ainda um bebê de seis meses!!! Não só é vida, mas assim como nós, vida que tem sede de Deus!

Outras passagens na Palavra nos trazem informações preciosas acerca do início da vida já no feto, como por exemplo:

No tocante a João Batista, é declarado no versículo 15 do mesmo capítulo que ele seria cheio do Espírito Santo desde o ventre da sua mãe. Ora, ser preenchido e habitado pelo Espírito é uma possibilidade dada apenas ao ser humano, alma vivente! Não é dito que ele seria apto a ser cheio do Espírito a partir da terceira semana, quarta ou sétima! Estamos falando não apenas de João ser considerado humano antes da sua concepção, como também da declaração de sua humanidade  antes mesmo do ato de amor conjugal no qual ele seria gerado! Como pode o homem medir a vida por semanas, se Deus determina como vida antes que venha a ser?

No mesmo sentido, no Salmo 51:5 Davi aborda ter como característica o pecado desde a sua concepção, o que significa declarar sua humanidade desde a mesma, marcada pela natureza pecaminosa antes mesmo da sua formação. Assim como a possibilidade de ser habitado pelo Espírito Santo, a natureza caída é inerente ao ser humano!

O salmista louva ao Senhor por sua onisciência, considerando maravilhoso o fato de ter sido inserido no ventre de sua mãe, e que sua formação era determinadas pelo Senhor antes mesmo da gestação começar (Salmo 139:13-16). Tendo o Senhor decretado vida antes de que vida houvesse, não há homem com prerrogativa pra dizer o contrário. 

Em Jeremias 1:4-5 o Senhor declara que conhecia o profeta antes que eles estivesse formado no ventre da mãe, e que o elegeu profeta desde antes do seu nascimento. Os filhos são considerados herança do Senhor, e o fruto do ventre é considerado galardão para o homem cuja a casa é edificada pelo Senhor (Salmos 127:3).

6.   O homem foi feito segundo a imagem de Deus, não havendo permissão para que ninguém tire a vida do outro (Gênesis 9:6), o que é expresso no sexto mandamento de não matar (Êxodo 20:13). O judeu sabia que para Deus matar um bebê no ventre ou um homem seria assassinato com a mesma relevância e punibilidade aos olhos do Senhor! A terminologia pouco importava! Êxodo 21:22-25 aborda a igualdade da punição, abordando a hipótese em que durante uma briga uma mulher grávida fosse ferida e abortasse. Tal aborto geraria a possibilidade de matar o responsável. Logo, ao se declarar que uma vida paga por outra vida, a bíblia reconhece que o feto é um ser vivo antes do nascimento, visto que tal passagem está inserida no contexto em que se fala da proporcionalidade da pena ao agravo.

Afirmo com toda segurança: Com base no conceito bíblico de vida, o aborto é um pecado.  O pecado de matar, tirar uma vida, cometer assassinato! O homem não tem direito de tirar uma vida, e prestará contas ao Senhor por aqueles aos quais derramar o sangue. Um cristão não tem qualquer direito de odiar Caim por matar seu irmão movido por inveja, se apoia ou realiza o aborto pela incapacidade de amar o próximo  (tão próximo que habita o ventre) ou por egoísmo. 

Para nós cristãos, Deus é o único com a prerrogativa para dar ou tirar a vida humana. NEle "vivemos, nos movemos e existimos", e quando o Senhor "lhes retira o fôlego, morrem e voltam ao pó".

Encerro com uma frase de Tertuliano (Apologia IX): “Em nosso caso, sendo o assassinato totalmente proibido, não podemos destruir nem mesmo o feto no ventre... Impedir um nascimento é tão somente um homicídio mais rápido; não há diferença entre tirar-se a vida do que é nascido ou do que virá a nascer. Já é homem, aquele que se tornará em um; na semente, já tendes o fruto”.

Soberania divina e dignidade humana

É preciso compreender que quando se trata do aborto, duas questões importantes precisam ser levadas em consideração, sendo elas a soberania divina e a dignidade humana. O cristão precisa compreender que o debate sobre o aborto diz respeito em primeiro lugar à soberania de Deus sobre a vida das pessoas, e, em segundo lugar, à dignidade humana como uma realidade a ser defendida desde o ventre, independentemente do grau de desenvolvimento do embrião no ventre de uma mulher.

No tocante à dignidade humana, esta é utilizada tanto como argumento pró quanto contra o aborto. Aqueles que o defendem, vão ressaltar a dignidade da mulher, como sujeita de direitos e detentora do poder de escolha sobre o seu próprio corpo e vida; aqueles que se opõem destacarão  os direitos do nascituro, entre eles o de ter a vida preservada, considerando a sua incapacidade de pleitear seus próprios direitos.

Entretanto, devemos considerar o aborto à luz do pressuposto de que a vida, planejada ou não, desejada ou não, é prerrogativa do Senhor. É Deus como soberano Senhor do Universo quem decreta a imoralidade do aborto, e a falta de amor ao próximo que ele evidencia. 

É necessário, no fim das contas, considerar o valor da vida humana tendo em consideração o próprio Deus cria cada pessoa, e a partir da sua concepção, cada indivíduo carrega em si a imagem e semelhança de Deus.

Fundamentação Bíblica 

  • Gênesis 9:6
  • Êxodo 20:13
  • Êxodo 21:22-25
  • Jó 1:21
  • Salmos 51:5
  • Salmos 104:29
  • Salmos 139
  • Jeremias 1:4-5
  • Atos 17:28-30
Busque mais conhecimento sobre o assunto
  • Juramento Hipocrático
  • Declaração de Genebra
  • Infant Life Act (1929)
  • Abortion Act (1967)
  • Roe versus Wade (1973)
  • Primeira Conferência Internacional sobre o Aborto (1967) - "Não conseguimos encontrar o ponto no tempo entre a união do espoermatozóide com o óvulo e o nascimento de uma criança no qual não possamos dizer que essa não é uma vida humana."
  • Ronald Dworkin - Domínio da Vida
  • Credo Apostólico - Acerca da vida de Jesus iniciando na concepção pelo Espírito Santo
  • Declaração dos Direitos da Criança (1959)


Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

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