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sábado, 29 de abril de 2023

Cosmovisão cristã sob a perspectiva do Reino de Deus

 

A cosmovisão cristã é a forma como você interpreta a realidade, fenômenos e acontecimentos a sua volta, tendo como premissa a Verdade do Evangelho. Como já declarado por Felipe Fontes, da Mackenzie:

"A cosmovisão cristã não é apenas um conjunto de ideias, mas é, antes de qualquer coisa, um conjunto de verdades com as quais estamos comprometidos. Por isso, é fácil vê-la na forma como vivemos e não só no que entendemos como verdade. Porque ela transcende a teoria."

Se a sua cosmovisão diz respeito a forma como você interpreta o mundo, ela não é meramente um ideal subjetivo, mas se reflete principalmente nas suas ações. Se reflete na forma como você se posiciona socialmente, politicamente, filosoficamente. Se reflete na forma como você interpreta um dogma  ou recebe uma informação. A sua cosmovisão vai definir em qual lado de um debate você vai estar posicionado, por quais pautas sociais você vai lutar, e mesmo a forma que você vai se comportar.

Quando falamos do conjunto de verdades que pautam a nossa cosmovisão, estamos falando das verdades bíblicas, as quais geralmente são sintetizadas em quatro pilares: criação, queda, redenção e consumação. Portanto:

  • Deus é o criador do universo e tudo que nele há (Gênesis 1:1);
  • Todos os homens são pecadores à semelhança de Adão (Romanos 3:23-26);
  • Cristo morreu e ressuscitou para reatar o relacionamento dos pecadores com Deus (Romanos 3:23-26);
  • Na consumação dos tempos Deus fará novos céus e terra para habitarmos com Ele (Isaías 65:17).
Os quatro pilares da cosmovisão cristã, na verdade, poderiam ser resumidas na cosmovisão do Reino de Deus. O cristão entende a realidade presente e as suas expectativas quanto ao futuro do ponto de vista de que Deus Reina sobre toda a criação. Há diversas passagens bíblicas que evidenciam o Reino de Deus não apenas como algo futuro, mas também como a realidade do povo cristão.

Essa visão do Reino de Deus como algo presente e agora nos torna responsáveis pelas coisas que acontecem a nossa volta. O Reino gera uma consciência transformadora e história, que nos revela a postura social, política e religiosa que precisamos viver. O próprio Cristo é quem declarou a contemporaneidade do Reino de Deus:

"Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo ali! pois o reino de Deus está entre vós."

Lucas 17:20-21 

Quando dizemos que o Reino de Deus é eterno, declaramos que Cristo não vai se tornar o Rei apenas no fim dos tempos, mas que desde sempre Ele reina sobre todas as coisas. Uma teologia que ensine o homem apenas a olhar para o futuro com esperança escatológica é uma teologia ruim. Viver a cosmovisão cristã nada mais é do que buscar a Cristo diariamente através da política, ciência, vida religiosa, família, trabalho, etc.

Portanto, a cosmovisão do Reino de Deus parte das seguintes premissas:

  • Cristo reina por toda a eternidade, englobando passado, presente e futuro;
  • O Reino de Deus é experimentado onde a igreja de Cristo está presente;
  • Como Rei, os decretos do Senhor são experimentados através do impacto da moral de Deus na elaboração das leis.
  • O cristão não deve se omitir diante do crescimento da maldade e depravação, sob o argumento de que o mundo jaz no maligno, e não pertencemos a ele.
  • O cristão deve ser o padrão moral e exemplo para os demais a sua volta.
  • A igreja deve ser influente para além do seu culto e atividades internas.

Pra quem não entender a razão da imagem: sua cosmovisão é a lente pela qual você enxerga o mundo hehehe



domingo, 8 de julho de 2018

Cosmovisão Cristã: Aborto



E, naqueles dias, levantando-se Maria, foi apressada às montanhas, a uma cidade de Judá,
E entrou em casa de Zacarias, e saudou a Isabel.
E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo.
E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.
Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre.
Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas.
Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor,
E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador;
Porque atentou na baixeza de sua serva; Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada,
Porque me fez grandes coisas o Poderoso; E santo é seu nome.
E a sua misericórdia é de geração em geração Sobre os que o temem.
Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações.
Depôs dos tronos os poderosos, E elevou os humildes.
Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos.
Auxiliou a Israel seu servo, Recordando-se da sua misericórdia;
Como falou a nossos pais, Para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.
E Maria ficou com ela quase três meses, e depois voltou para sua casa.

Lucas 1:39-56


A passagem acima narra a visita de Maria à sua prima Isabel após o anúncio de que daria a luz ao Senhor Jesus. O que podemos aprender com ela, e como esse aprendizado se aplica à nossa realidade e tempos? Vamos falar de aborto segundo a Palavra.

O presente estudo busca apresentar alguns fundamentos para a caracterização do aborto como pecado e postura não cristã, de forma que nenhum filho de Deus deve apoiar ou incentivar tanto a descriminalização quanto a prática. 

Escolhi o tema por sua relevância e atualidade. Recentemente houve muita repercussão da decisão da Argentina a qual liberou a prática  do aborto. Centenas (milhares?) de mulheres abraçavam-se comovidas e contentes, algumas carregavam nos olhos às lágrimas de alívio e felicidade. Assisti consternado a alegria de banalizar-se a vida. Pior de tudo foi ver cristãos atribuindo esta "vitória" ao Pai, agradecendo-o por mais essa "conquista"!

Fiquei preocupado com a repercussão do tema. Fui pesquisar e descobri que o tema está prestes a ser discutido pelo Supremo Tribunal Federal em Audiência Pública na ADPF 442 do Distrito Federal.

Em nosso país a discussão gira em torno da descriminalização do aborto realizado em até 12 semanas de gestação. O autor da proposta é o PSOL na ADPF 442, em oposição à criminalização do aborto voluntário prevista nos artigos 124 e 126 do Código Penal, alegando desrespeito à diversos princípios fundamentais.

Precisamos ter em mente que não se trata do eufemismo de legalizar o aborto no sentido de trazer tratamento jurídico ao tema, mas de tornar o aborto uma prática legal de forma voluntária, por decisão da mulher de querer levar a gestação a frente ou não. Isto porque o tema já possui tratamento legal.

1.   O aborto voluntário é considerado crime para a mulher (Art. 124 do CP) e para quem realiza (Art. 126 do CP).

A alegação de que se busca a legalização e descriminalização do aborto para amparar as mulheres vítimas de crimes sexuais ou em risco de vida é uma falácia, visto que já há previsão de não haver crime nestas hipóteses (Art. 128 do CP).  Nestes casos preserva-se tanto a mulher que nem é necessária investigação criminal, bastando a declaração de ter sido vítima para que um médico seja obrigado a realizar o procedimento (Portaria 1.508/2005 c/c  Julgamento do Proc 2007.51.01.017986-4 no TRF2).

De volta ao texto! Ao sexto mês da gestação de Isabel, Maria recebe o anúncio do anjo de que daria a luz ao Filho de Deus, Jesus Cristo. Após isto ela visita sua prima, esposa de Zacarias e mãe de João Batista, ao que procede:

  1. Manifestação de alegria de João Batista no ventre da mãe ao ouvir a saudação de Maria;
  2. Isabel é tomada pelo Espírito Santo e louva pela vida de Maria e do menino;
  3. A própria Maria louva ao Senhor.
No que diz respeito ao ensino que se pode tirar do ocorrido, podemos chegar a conclusão de que:

  1. A presença do Senhor deve causar alegria e louvor naqueles que O aguardam e amam. Isso fica evidente pela alegria do bebê e pelo louvor de Maria, que salmodia em adoração.
  2. É Deus quem convence o homem acerca da divindade de Jesus Cristo, como fica explícito pelo fato da declaração de Isabel ser fruto da ação do Espírito, assim como ocorre com Pedro em Mateus 16:16-17, a quem é revelado pelo Pai que Jesus é o Cristo.

Porque o aborto é antibíblico?

No que diz respeito ao tema proposto, os versículos acima servem de base para afirmar de forma autoritativa que o cristão não pode se posicionar a favor do aborto, pelos seguintes argumentos:

Primeiro, Jesus é adorado já no ventre da mãe, sendo chamado Senhor por Isabel, como vemos no versículo 43. Maria havia acabado de receber a notícia da gestação, de forma que para nós a discussão acerca de tempo de gestação para praticar o aborto sequer deveria ocorrer. A vida no ventre é vida, tenha ela semanas ou meses de desenvolvimento intra-uterino!

Aliás, vida esta sente e se alegra na graça de Deus, como o próprio João Batista que pula de alegria no ventre da sua mãe, sendo ainda um bebê de seis meses!!! Não só é vida, mas assim como nós, vida que tem sede de Deus!

Outras passagens na Palavra nos trazem informações preciosas acerca do início da vida já no feto, como por exemplo:

No tocante a João Batista, é declarado no versículo 15 do mesmo capítulo que ele seria cheio do Espírito Santo desde o ventre da sua mãe. Ora, ser preenchido e habitado pelo Espírito é uma possibilidade dada apenas ao ser humano, alma vivente! Não é dito que ele seria apto a ser cheio do Espírito a partir da terceira semana, quarta ou sétima! Estamos falando não apenas de João ser considerado humano antes da sua concepção, como também da declaração de sua humanidade  antes mesmo do ato de amor conjugal no qual ele seria gerado! Como pode o homem medir a vida por semanas, se Deus determina como vida antes que venha a ser?

No mesmo sentido, no Salmo 51:5 Davi aborda ter como característica o pecado desde a sua concepção, o que significa declarar sua humanidade desde a mesma, marcada pela natureza pecaminosa antes mesmo da sua formação. Assim como a possibilidade de ser habitado pelo Espírito Santo, a natureza caída é inerente ao ser humano!

O salmista louva ao Senhor por sua onisciência, considerando maravilhoso o fato de ter sido inserido no ventre de sua mãe, e que sua formação era determinadas pelo Senhor antes mesmo da gestação começar (Salmo 139:13-16). Tendo o Senhor decretado vida antes de que vida houvesse, não há homem com prerrogativa pra dizer o contrário. 

Em Jeremias 1:4-5 o Senhor declara que conhecia o profeta antes que eles estivesse formado no ventre da mãe, e que o elegeu profeta desde antes do seu nascimento. Os filhos são considerados herança do Senhor, e o fruto do ventre é considerado galardão para o homem cuja a casa é edificada pelo Senhor (Salmos 127:3).

6.   O homem foi feito segundo a imagem de Deus, não havendo permissão para que ninguém tire a vida do outro (Gênesis 9:6), o que é expresso no sexto mandamento de não matar (Êxodo 20:13). O judeu sabia que para Deus matar um bebê no ventre ou um homem seria assassinato com a mesma relevância e punibilidade aos olhos do Senhor! A terminologia pouco importava! Êxodo 21:22-25 aborda a igualdade da punição, abordando a hipótese em que durante uma briga uma mulher grávida fosse ferida e abortasse. Tal aborto geraria a possibilidade de matar o responsável. Logo, ao se declarar que uma vida paga por outra vida, a bíblia reconhece que o feto é um ser vivo antes do nascimento, visto que tal passagem está inserida no contexto em que se fala da proporcionalidade da pena ao agravo.

Afirmo com toda segurança: Com base no conceito bíblico de vida, o aborto é um pecado.  O pecado de matar, tirar uma vida, cometer assassinato! O homem não tem direito de tirar uma vida, e prestará contas ao Senhor por aqueles aos quais derramar o sangue. Um cristão não tem qualquer direito de odiar Caim por matar seu irmão movido por inveja, se apoia ou realiza o aborto pela incapacidade de amar o próximo  (tão próximo que habita o ventre) ou por egoísmo. 

Para nós cristãos, Deus é o único com a prerrogativa para dar ou tirar a vida humana. NEle "vivemos, nos movemos e existimos", e quando o Senhor "lhes retira o fôlego, morrem e voltam ao pó".

Encerro com uma frase de Tertuliano (Apologia IX): “Em nosso caso, sendo o assassinato totalmente proibido, não podemos destruir nem mesmo o feto no ventre... Impedir um nascimento é tão somente um homicídio mais rápido; não há diferença entre tirar-se a vida do que é nascido ou do que virá a nascer. Já é homem, aquele que se tornará em um; na semente, já tendes o fruto”.

Soberania divina e dignidade humana

É preciso compreender que quando se trata do aborto, duas questões importantes precisam ser levadas em consideração, sendo elas a soberania divina e a dignidade humana. O cristão precisa compreender que o debate sobre o aborto diz respeito em primeiro lugar à soberania de Deus sobre a vida das pessoas, e, em segundo lugar, à dignidade humana como uma realidade a ser defendida desde o ventre, independentemente do grau de desenvolvimento do embrião no ventre de uma mulher.

No tocante à dignidade humana, esta é utilizada tanto como argumento pró quanto contra o aborto. Aqueles que o defendem, vão ressaltar a dignidade da mulher, como sujeita de direitos e detentora do poder de escolha sobre o seu próprio corpo e vida; aqueles que se opõem destacarão  os direitos do nascituro, entre eles o de ter a vida preservada, considerando a sua incapacidade de pleitear seus próprios direitos.

Entretanto, devemos considerar o aborto à luz do pressuposto de que a vida, planejada ou não, desejada ou não, é prerrogativa do Senhor. É Deus como soberano Senhor do Universo quem decreta a imoralidade do aborto, e a falta de amor ao próximo que ele evidencia. 

É necessário, no fim das contas, considerar o valor da vida humana tendo em consideração o próprio Deus cria cada pessoa, e a partir da sua concepção, cada indivíduo carrega em si a imagem e semelhança de Deus.

Fundamentação Bíblica 

  • Gênesis 9:6
  • Êxodo 20:13
  • Êxodo 21:22-25
  • Jó 1:21
  • Salmos 51:5
  • Salmos 104:29
  • Salmos 139
  • Jeremias 1:4-5
  • Atos 17:28-30
Busque mais conhecimento sobre o assunto
  • Juramento Hipocrático
  • Declaração de Genebra
  • Infant Life Act (1929)
  • Abortion Act (1967)
  • Roe versus Wade (1973)
  • Primeira Conferência Internacional sobre o Aborto (1967) - "Não conseguimos encontrar o ponto no tempo entre a união do espoermatozóide com o óvulo e o nascimento de uma criança no qual não possamos dizer que essa não é uma vida humana."
  • Ronald Dworkin - Domínio da Vida
  • Credo Apostólico - Acerca da vida de Jesus iniciando na concepção pelo Espírito Santo
  • Declaração dos Direitos da Criança (1959)


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Análise do livro: O Cálice do Evangelho

Heey, tudo bem? Hoje a análise de livro é sobre uma obra de me deixou realmente empolgado e admirado! O Cálice do Evangelho: Somos salvos da Ira de Deus, por meio de Deus, para a glória de Deus!

Um livro que não teria problema nenhum de ser julgado pela capa...


O livro, prefaciado pelo Reverendo Renato Vargens, já começa intrigante pelo título, embora quem conheça o autor, Rodrigo Caeté, sabe que este título não é dos mais assustadores, se compararmos com alguns artigos do seu blog (http://rodrigocaete.blogspot.com.br/) como "O homossexualismo não é apenas PECADO, mas também JUÍZO de Deus" e "VOCÊ É 'BURRO' OU CRISTÃO?". Títulos que são ótimos clickbaits, embora eu saiba que meu bom amigo não aufere renda por publicidade na sua página, o que não o impede de ser bem criativo na hora de criar os nomes para os seus artigos. E embora pareça desconexo dizer isso, acredito que o Rodrigo não poderia ter escolhido outra pessoa para escrever o seu prefácio, afinal ele e o Reverendo Renato Vargens tem o mesmo estilo de escrita, de forma que o prefácio é para o resto do livro como a esposa é para seu marido.

Pra quem não conhece o Rodrigo, ele é formando no Seminário Teológico Congregacional de Niterói, membro da Igreja Evangélica Congregacional do Mutuá, licenciado em Letras com habilitação em Português, Redação e Literaturas brasileira e portuguesa (UFRJ); pós-graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ (Centro Presbiteriano Andrew Jumper/Universidade Mackenzie) e professor do seminário da Igreja Evangélica Congregacional de Andorinhas. E embora não conste no livro, ele faz parte do Papo Alternativo (um grupo que promove discussões sobre cosmovisão cristã com foco na mocidade) junto comigo e mais alguns amigos, sob a supervisão do Presbítero Fábio Macedo, da Igreja Evangélica Congregacional do Barradas.

Não minto quando eu digo que foi um dos livros que mais saboreei a leitura, a qual agregou bastante ao meu conhecimento particular do Evangelho, ao apresentar a tríade preposicional no tocante a salvação. É possível expandir a compreensão do Evangelho se analisarmos, ainda que sob o aspecto da condescendência divina, a finalidade, o meio e a motivação da obra redentora realizada por Cristo em nossas vidas. Conceitos como a união hipostática das naturezas de Cristo são apresentadas com uma linguagem simples e coerente; percebe-se a paixão do autor pelo tema em cada linha, e na escolha da base bibliográfica do seu trabalho. Aliás, o Rodrigo ganhou minha aprovação do texto simplesmente porque usou Jonathan Edwards para falar da Ira de Deus, o que pra mim é imprescindível, tanto quanto a escolha de usar John Piper para apresentar pontos chaves de um livro de soteriologia .

O livro é escrito de forma simples, e termos mais complexos quase não aparecem, e quando isso acontece, a conceituação do termo é impecavelmente simples e compreensível! Dá pra perceber a preocupação do autor com o entendimento do público. Não tem como reclamar de dificuldade para compreensão daquilo que o autor escreve, e o livro se torna muito mais atraente pela desnecessidade de leitura de nota de rodapé ou pesquisas em livros e Google Search para elucidar a dúvida de um termo que apareça! 

Eu realmente recomendo o livro, que poderia inclusive ser usado como material para um conteúdo programático para o estudo do tema nas Escolas Bíblicas Dominicais das nossas igrejas. Que o Senhor continue abençoando o Rodrigo Caeté para que possa escrever mais e mais, pois meu sonho é ver nós, congregacionais, produzindo teologia de boa qualidade! Minha recomendação para o leitor é que tenha o livro em uma mão e a bíblia na outra, embora para sua felicidade o Rodrigo transcreva os versículos base das suas posições para o livro (e como eu já disse no artigo anterior, eu amo essa facilidade para uma leitura corrida).

Quer saber por que o livro é tão bom? Então adquira o seu, porque spoiler é pecado haha! Vai valer a pena!!!

domingo, 6 de maio de 2018

Spoiler é pecado!

Esse artigo é pra você que passou a semana postando memes com informações chave da trama de "Vingadores: Guerra Infinita"! Você é um pecador!!!



Confesso que também serve mim, que não havia assistido o filme mas partilhava os memes! Por isso agradeço minha namorada pela repreensão recebida no dia, e é em cima dos argumentos dela que eu acabei tendo a ideia de me aprofundar um tanto mais no assunto para poder escrever esse texto. Portanto, eu afirmo: SPOILER É PECADO! Eis as provas:

Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros.
Não destruas por causa da comida a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo.
Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça.
Romanos 14:19-21 [grifo meu]

O texto de Paulo na carta para igreja de Roma aborda a questão das práticas individuais de alguns irmãos que tinham uma postura de abstenção de consumo de carne, ou mesmo a guarda sabática, enquanto outros irmãos não observavam tais posturas. Paulo mostra que o fazer ou não é uma questão pessoal daquele irmão, que toma sua decisão visando seguir e agradar o Senhor.

O apóstolo segue o texto dizendo que aquilo que os irmãos deveriam fazer, o fariam para a paz e edificação uns dos outros. E veja que a questão não fica restrita ao consumo de bebidas ou carne, e apresenta a possibilidade de causar tropeço ou escândalo através de outras coisas. 

Sejamos sinceros, ninguém edifica o outro com spoilers! Então quando você faz isso, está na melhor hipótese falando coisas sem utilidade nenhuma para as pessoas a sua volta! Dar um bom spoiler não vai edificar ninguém, e muito menos gerar paz!!! Vai é gerar conflitos, tretas, membros saindo dos grupos de whatsapp da família, fim de amizades e namoros! Spoiler não é de Deus, gente! Com toda a ressalva da hipérbole, podemos de fato apontar o pecado no spoiler, porque tudo que essa prática faz é irar as pessoas, e em alguns casos a levarem inclusive a proferir palavras torpes!

Não se esqueça que como cristão você não deve agir com a finalidade de irritar as pessoas. Não vamos ficar com essa ideia de "É infantilidade se irritar.... É só um filme.... Etc..."; vamos parar para pensar que os outros tem tanto direito de se surpreender assistindo o filme quanto você que já assistiu! É realmente frustrante saber uma informação importante e ao invés de ser impressionado por uma cena, passar o filme todo ansioso esperando por ela, e quando acontece, não ter a mesma emoção! Nós devemos buscar a paz com as outras pessoas a nossa volta! (Rm 12:18)

Bem, agora que você sabe que o spoiler é pecado porque é causa de tropeço na vida do outro, além de um desvio nos deveres de paz, comunhão e edificação, permito-me dar um último spoiler do que vai acontecer com você, treteiro de Facebook que não se arrepender:



terça-feira, 10 de abril de 2018

Posso/Devo beber? O cristão e o álcool.

E aí gente, beleza? Pra quem acompanhou meus dois artigos sobre os presbíteros, devem saber que deixei a questão do consumo de bebida alcoólica para um artigo individual. A razão disto é porque o assunto tem muita discussão, e, se por um lado não é uma questão fundamental do Cristianismo, por outro lado, não merece o tratamento leviano e as ponderações descuidadas e por vezes sem fundamentos com as quais o tema é abordado.



Correntes

Quando um cristão é questionado acerca do consumo de bebidas alcoólicas a resposta não é unânime. é bem capaz de encontrarmos numa roda de amigos da igreja ao menos um que defenda uma das três posições abaixo:

Proibitivo: um cristão de posicionamento proibitivo vai defender não apenas a abstenção do vinho, como também a proibição nas Escrituras.

Abstêmios: um cristão abstêmio (eu por exemplo) reconhece que não há um imperativo proibitivo para o consumo de bebida, mas desencoraja o consumo. Um abstêmio jamais afirmará que a bíblia proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, mas nem por isso ele irá beber, em consideração ao potencial negativo do consumo de bebidas.

Moderado: um cristão moderado é aquele que não só afirma que a Palavra não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, como também consome.

Logo, há três possíveis resposta no seio da igreja. Qual será a correta? Há uma correta?

Onde a bebida alcoólica aparece na bíblia?

A bebida alcoólica aparece na bíblia  em diversas passagens que informam o consumo do vinho. E, caso analisemos as palavras originais traduzidas para vinho (seguindo um estudo do tema proposto por John MacArthur), todas elas dizem respeito à bebidas fermentadas, de teor alcoólico.

No Antigo Testamento, temos a ocorrência do termo yayin, o qual não diferencia nem o vinho velho, nem o novo, nem o suco de uva. Ou seja, embora alguns aleguem tratar-se de tradução para suco ou extrato não fermentado de uva (como em Jeremias 48:33), isto não estará correto em todos os casos. Por exemplo, em Gênesis 9:21, Noé bebeu vinho a ponto de embriagar-se e ficar nu. 

Há também a ocorrência do termo shekar, que pode ser traduzido como "bebida forte", e é oriundo do verbo shakar, que significa "embebedar-se". Ora, se o vinho não possui teor alcoólico, por que a raiz da palavra é o termo referente ao consumo de bebida capaz de embriagar um homem? O que seria "bebida forte", senão a bebida com teor alcoólico?

Há também o uso da palavra tirôsh, referente a sucos doces e mostos, sendo associado ao suco de uva não fermentado. Ora, se há uma palavra no Antigo Testamento que especificamente aborda o suco de uva não fermentado, seria hipocrisia ou tolice afirmar que todas dizem respeito a suco de uva sem teor alcoólico.

A discussão sobre o consumo de bebida alcoólica no Antigo Testamento tem fim no uso de yayin e shekar no mesmo versículo, hipótese na qual referem-se à vinho totalmente fermentado, como em Isaías 28:7. Ora, até o presente momento eu nunca vi um homem cambalear tomando suco de uva!

Já no Novo Testamento, o termo original em grego seria oinos, que  não faz distinção entre o vinho no início da fermentação (Marcos 2:22 - o vinho recém produzido é posto nos odres), o vinho fermentando (Marcos 2:22 - o início da fermentação faz os odres se romperem) ou já fermentado (Lucas 1:15). 

Também há o termo sikera, que diz respeito a "bebida forte", correspondente ao hebraico shekar.

E o que podemos dizer sobre o vinho na Palavra?

Antes de mais nada, é importante dizer que mesmo o dito "vinho novo" pode ter teor alcoólico, visto que a fermentação é um processo quase que imediato. Ocorre que para os homens, o "vinho velho" era considerado bom, em razão da elevada fermentação (Lucas 5:39). Há quem diga, neste sentido, que o vinho que Jesus produziu em seu milagre nas bodas seria fermentado!  Seria costume dar o vinho mais fermentado no começo (o bom!) e quando todo mundo já estava embriagado, davam o vinho novo, pouco fermentado. É certo inclusive afirmar que o vinho que é muito diluído nem mesmo é elogiado, conforme podemos inferir em Isaías 1:22. 

Fica difícil para os que dizem que o vinho da bíblia não possui teor alcoólico sustentar essa posição quando nos deparamos com passagens como Salmos 104:15, que faz alusão ao efeito de contentamento do consumo de bebida alcoólica, ou Provérbios 31:6, que recomenda vinho aos amargurados de espírito.

O vinho é vinculado também à tratamentos médicos (1 Timóteo 5:23), como antisséptico ou lenitivo para dores estomacais.

E, para os que dizem que o vinho é algo proibido, abordando a bebida como uma espécie de coisa impura e do diabo, tal posição carece de fundamento quando vemos a bebida ser oferecida nas ofertas ao Senhor, como em Êxodo 29:40 e Números 15:5.

E qual o erro dos proibidores?

Das três posições, eu consideraria a dos Proibidores a única incorreta. Afirmar que a Palavra proíbe o consumo de bebidas, diante de todas as informações acima é ir além do que a Palavra nos ensina. A Palavra de Deus é: inerrante, autoritativa e condena expressamente o abuso do álcool.

Se a Palavra de Deus não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, ao afirmar o contrário, o cristão coloca em xeque a inerrância das Escrituras, visto que dispensa tratamento diverso ao assunto, como se Deus houvesse errado ou se omitido ao não proibir o consumo. Também afronta a autoridade das Escrituras, ao impor a própria autoridade sobre a de Deus, impondo uma regra de fé e prática que a Palavra não exige, em semelhança aos líderes judeus que impunham a tradição.

Em passagem alguma vemos uma ordem para que o cristão em nenhuma hipótese beba vinho! A Palavra não condena o uso, e sim o abuso do consumo de bebidas. 

Como argumento, peguemos os versículos de I Timóteo 3 e Tito 1, que traz como requisito que o candidato "não seja dado ao vinho". Essa expressão vem da palavra paroinos, que pode ser traduzida como "colocar-se ao lado", ou seja, dizia respeito ao homem que sentava-se junto ao odre pra beber, de forma que seu copo estava sempre cheio e sua tendência era embriagar-se. 

O abuso do álcool usurpa a consciência e discernimento do homem, que precisa estar no controle de suas faculdades. Um bêbado se entrega às paixões e não discerne sequer a própria vontade! Quem dirá a de Cristo então? Falta-lhe lucidez e domínio próprio! Por esses e outros motivos, a embriaguez é condenada por Deus!

Ah, Pedro, mas o vinho era misturado com água!

De fato era! Pisado no lagar e desidratado até virar uma pasta, que era diluída em água para o consumo! Isso é verdade! Mas quem disse que isso tira o teor alcoólico de uma bebida?

A verdade é que TODA BEBIDA É MISTURADA COM ÁGUA! Toda bebida alcoólica leva água na composição, o que muda é a concentração de álcool!

A Escala Gay Lussac é responsável por determinar o teor alcoólico de uma bebida, medindo-se a razão de mililitros de álcool por 100ml da composição.

Só a título de exemplo, a cada 100ml de água na cerveja, há entre 5% a 9% de álcool! A aguardente tem entre 38% a 54%; a cachaça tem 38% a 48%, e por aí vai!

Mas e o vinho? O vinho tem entre 11% a 14% de álcool! Sobre a alegação da pasta ser diluída em água, cumpre ressaltar que dependendo do grau de diluição, as vezes o vinho não chegava nem a 3% de teor alcoólico! Mas mesmo assim, não dá pra dizer que não tinha álcool! Daí se entende a expressão "dado ao vinho" com mais clareza! Pro cara se embriagar com um vinho bem diluído, ele tinha que beber muito, ou seja, sentava-se junto ao vinho!

Caso semelhante no nosso tempo, quando a Ambev foi multada por dizer que sua cerveja Kronenbier era sem álcool, só por estar abaixo do percentual adotado para considerar uma bebida como alcoólica, mas havia uma porcentagem de álcool ainda menor que a deste vinho muito diluído!

E qual o dilema dos Moderados?

Eu não posso afirmar que os moderados erram, mas posso afirmar que eles vivem em grande dilema, de forma que ainda creio que a abstenção é o melhor caminho. Primeiro pela facilidade de se embriagar que nós temos hoje em dia, pois, como vimos acima, a bebida alcoólica que a Palavra apresenta é bem diferente da que temos hoje em dia! São bebidas com até o triplo do teor alcoólico dos vinhos e licores. A lógica é que bebidas mais fortes embriagam mais rápido!

Fica muito difícil apurar o momento em que a embriaguez torna-se um problema, visto que não há um parâmetro objetivo para dizer "Eu estou embriagado", bem como haver fatores externos que dificultam o impulso de parar, como por exemplo, o sabor da bebida; e fatores que facilitam a embriaguez, como consumir a bebida em jejum; e fatores biológicos como sexo (as mulheres ficam bêbadas mais rápido), idade ou ser obeso ou estar acima do peso.

Ainda tem o dilema jurídico! Quando a embriaguez é pecado, se, juridicamente falando, os efeitos do álcool como contentamento e relaxamento citados alguns parágrafos acima podem pressupor o primeiro estágio da embriaguez?  Nas aulas de Direito Penal, a fim de trabalhar a embriaguez como excludente de culpabilidade, minha querida professora me apresentou uma comparação antiga, onde três estágios da embriaguez são representados por três animais!

Segundo a comparação, o primeiro estágio é a euforia, representada pelo macaco, em razão de ser um animal saltitante e hiperativo, que representa o homem no início da embriaguez, quando fica eufórico, alegre e brincalhão! Neste estado, ele ainda conserva a sua consciência, mas já está sob os efeitos do álcool! Nossa tendência é considerar a embriaguez apenas a partir do segundo estágio, representado pelo leão, para retratar as mudanças temperamentais geradas pela bebida, por ser a fase, por exemplo, onde, já não tendo domínio de suas faculdades, o homem torna-se agressivo e suscetível. O terceiro estágio então nem se fala! Representado pelo porco, o homem já está na lama! Diz respeito ao ápice da embriaguez, caracterizada pela inconsciência e perda total das faculdades!

Ora, se para medicina legal e para o Direito os efeitos do álcool na primeira fase da embriaguez e antes dela são os mesmos, como posso saber se já não estou embriagado, ainda que consciente?

Outro dilema seria o escândalo, hipótese na qual Paulo apresenta o princípio da abstenção para não contaminar a consciência de irmãos considerados mais fracos. Ao abordar o consumo de carne sacrificada a ídolos, Paulo informa para os irmãos que têm consciência de que comer ou não não fará diferença, mas, se um irmão fraco ver o consciente comendo e isso lhe for razão de escândalo, isso se torna um pecado contra Cristo (I Coríntios 8). Assim como a carne, se a bebida escandalizar meu irmão, o correto é que eu não beba mais.

Uma forma apresentada pelos moderados de evitar essa abstenção é o consumo de bebidas em casa, sozinho ou com outros irmãos também moderados, para não haver o risco de um irmão fraco passar e ver!



O que seria a potencialidade negativa para um Abstêmio?

Como um abstêmio, além da questão do escândalo, eu, Pedro Silva Drumond, peco contra minha consciência se consumo álcool, pois, embora saiba que não é proibido, não me sinto bem, por ligar a bebida ao meu velho homem. Logo, se não peco contra a consciência de outrem, peco contra a minha.

Além disso, o consumo alcoólico é potencialmente lesivo, se considerarmos o risco de alcoolismo, e do ponto de vista médico legal, o aumento das possibilidades de cometer-se um ilícito penal sob efeito da bebida.

Outrossim, fica muito complicado você mostrar para um homem que a vida toda foi alcoólico, e que quer lutar por amor a Cristo e renovação de vida, que o consumo de álcool é lícito. É como colocar um hipocondríaco perto de uma bula de remédio e pedir para ele não ler! Esse homem precisa encontrar na igreja o que não encontrou no mundo, e não o contrário!

E por incrível que pareça, ainda temos que lidar com a ideia de falsa aceitação e tolerância ao mundo que o consumo de álcool propõe, quando na verdade este mundo e seus ideais não tem conformidade com os nossos! Só como exemplo, minha maravilhosa e incomparável mãe (os elogios são porque sei que ela vai ler e depois reclamar que falei dela) que, ao receber uma garrafa de cerveja artesanal que comprei para ela experimentar, pois sabia que ela gostava, quis logo postar nas redes sociais da seguinte forma: "Presente do meu filho crente", no sentido de que as pessoas me vissem como um cara tolerante, mas que também poderia ser mal interpretado como um cara anuente! Para mim foi uma lição de que eu não sou apenas filho, ou estudante, ou homem simplesmente; eu sou cristão! Filho cristão, estudante cristão, trabalhador cristão, homem cristão. Tudo que eu fizer, por mais inocente que seja aos meus olhos, vai refletir na forma como o mundo verá o cristianismo!

Além disso, eu também vejo um padrão no qual homens separados para Deus deveriam se abster do vinho, ainda que em caráter temporário! É o caso dos nazireus (Nm 6:2-6), sacerdotes em exercício (Lv 10:8-11), reis (Pv 31:4-5) e mesmo o caso de João Batista (Lc 1:15), Estes homens não deveriam consumir bebida alcoólica, e eu, como embaixador de Cristo, separado para Deus, missionário em tempo integral (tudo fora da igreja é um campo missionário), tenho essa regra para mim não como um peso da lei, mas como uma decisão de amor à Deus e ao meu próximo.

Conclusão

O consumo de bebidas alcoólicas não tem proibição na bíblia, recomendando-se moderação caso opte por beber. Há, ainda, recomendações para não consumir, se isso for escandalizar seu irmão e ser causa de tropeço para ele! Considerando todos os contras do consumo de bebidas, opto pela postura de abstenção.

Observação:

Consumir bebidas alcoólicas aumenta as chances de ouvir Pablo, Maiara e Maraísa ou Wesley Safadão, e, por mais esta razão, não recomendo o consumo de bebida alcoólica!

Eeeeeeh sofrência!!!


quarta-feira, 21 de março de 2018

Quais são as qualificações dos presbíteros?

No artigo anterior eu havia falado para vocês acerca dos presbíteros e suas funções. Mas de qual forma tais homens são selecionados (ou ao menos deveriam ser) para o exercício do governo da igreja? A escolha de um presbítero não se dá levando em consideração critérios humanos como influência social, eloquência, posição hierárquica no trabalho ou o valor do dízimo devolvido ao Senhor.

Assim como a vida de cada cristão deve refletir a santidade de Deus, o governo da igreja também deve fazê-lo, de forma que os critérios para eleição dos líderes da igreja levam em conta os atributos comunicáveis do Senhor e a evidência dos frutos do Espírito na vida do candidato à presbítero. Tais características são apresentadas nos texto de I Timóteo 3:1-11 e Tito 1:6-16, transcritos abaixo para consulta do leitor: 

Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.
Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar;

Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento;
Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia
(Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus? );
Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo.
Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo.
Da mesma sorte os diáconos sejam honestos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância;
Guardando o mistério da fé numa consciência pura.
E também estes sejam primeiro provados, depois sirvam, se forem irrepreensíveis.
Da mesma sorte as esposas sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo.
(I Timóteo 3:1-11)

Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.
Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância;
Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante;
Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.
Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão,
Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.
Um deles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos.
Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé.
Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade.
Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados.
Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra.
(Tito 1:6-16)

Os textos acima apresentam um rol de qualidades a serem observadas nos candidatos ao episcopado, e, tomando como referência a listagem apresentada no livro "Eu sou chamado?", de Dave Harvey, elenquei 11 características, que são:

  1. Não ser neófito (I Timóteo 3:6)
  2. Ser santo e irrepreensível (I Timóteo 3:2 e Tito 1:6-7)
  3. Ser esposo de uma só mulher (I Timóteo 3:2 e Tito 1:6)
  4. Ser temperante e sóbrio (I Timóteo 3:2 e Tito 1:6)
  5. Ser respeitável e ter bom testemunho dos de fora (I Timóteo 3:2,7)
  6. Ser hospitaleiro (I Timóteo 3:2 e Tito 1:8)
  7. Ser apto a ensinar e fiel à Palavra (I Timóteo 3:3,8 e Tito 1:7)
  8. Não ser intolerante ou arrogante (Tito 1:7) 
  9. Não ser amante do dinheiro e nem cobiçoso de ganho desonesto (I Timóteo 3:3,8 e Tito 1:7)
  10. Governar bem a sua casa, tendo filhos obedientes que são crentes e não abertos à acusação de dissolução ou de insubordinação (I Timóteo 3:4-5 e Tito 1:6)
  11. Não ser dado vinho (I Timóteo 3:8 e Tito 1:7)

Cumpre ressaltar que ter tais requisitos não necessariamente significa que um homem deve ser presbítero, nem que a ausência de alguns deles evidencie que um homem não tem tal chamado. Aliás, essa é a palavra a se observar: Chamado.

As características acima são parâmetros com os quais podemos identificar um homem chamado ao presbitério e ao pastorado, e não possuir todas elas não significa que um homem não tem o chamado de Deus, e sim que precisa desenvolver as demais qualidades durante a sua caminhada com Cristo. Aliás, visto que refletem a perfeição de Deus, tais qualidades devem ser buscadas por todo e qualquer cristão no curso da sua vida.

Não ser neófito

O presbítero não pode ser um novo convertido. Tal disposiçao pode ser analisada pelos seguintes pontos: (1) Pouco conhecimento da Palavra; (2) Falta de maturidade cristã.

Não há um critério temporal para ser considerado neófito, e por esta razão os pontos acima são extremamente necessários. 

Devemos considerar, ainda, a parábola do semeador, e ponderar que há possibilidade de agir sem cautela e eleger um cristão sem raízes como presbítero (Mateus 13:5-6,20-21). Isso acontece caso consideremos alguém para presbítero em razão do impacto inicial da Palavra no homem que a recebe com alegria, o qual, vindo as tribulações e aflições, esmorece na caminhada.

Outrossim, o conhecimento da Palavra por si só não basta para não ser considerado neófito, visto que tal conhecimento sem ação do Espírito Santo poderá ser instrumento do diabo para ensoberbecer o homem. Neste caso, é mais seguro analisar o conhecimento de tal homem acerca da sua própria salvação. Um homem que compreende a Teologia da Cruz é aquele a quem podemos considerar um cristão maduro, e tal compreensão poderá levar, em alguns casos, dois anos; em outros, dez.

Logo, observamos se um homem é neófito não por seu tempo na igreja, e sim por sua compreensão da Palavra e o que ela ensina acerca de Cristo. Podemos também, considerando a maturidade cristã, observar os frutos do Espírito que evidenciem que tal homem é filho de Deus.

Ser santo e irrepreensível

É necessário que o presbítero seja santo, ou seja, separado para Deus, separado do poder do pecado. Neste mesmo sentido, o presbítero tem que ser um homem irrepreensível, no sentido de ser um homem sem culpa.

Ser santo e irrepreensível é não ser escravo do pecado, e nem ter pecados não confessos que não foram apresentados diante de Deus em uma atitude de arrependimento. Logo, não pode ser um homem "culpado".

Um presbítero tem sobre si os olhos dos demais cristãos da igreja, que o imitarão em busca do reflexo de Cristo naquele líder (I Corintios 11:1). Logo, a necessidade de santidade e ausência de culpa se analisa no exemplo a ser dado perante a igreja e os de fora.

Não esqueçamos também que as ações da liderança com culpa são pedra de tropeço e razão de escândalo para o mundo e para os demais. A necessidade também se fundamenta na qualidade do testemunho.

Ser esposo de uma só mulher

Neste ponto, há quem defenda que o presbítero deve ser o homem que casou apenas uma vez. Assim, viúvos e homens que se divorciaram, ainda que na hipótese biblicamente permitida, não estão habilitados para ser presbíteros.

Tal posição não merece prosperar, visto que o que Paulo aponta é a necessidade de ter apenas uma esposa. Paulo estava vetando homens que viviam em poligamia (comum na época da igreja Primitiva). Há de se considerar também que, ao analisarmos as características do presbítero, todas elas são apresentadas no tempo presente, ou seja, qualidades que o mesmo possui ao tempo da eleição, e não que já possuiu ou virá a possuir (como se a ordenação revestisse o homem com tais atributos). Podemos considerar também que, se a intenção fosse falar de um único casamento, Paulo poderia ter reestruturado a frase de outra forma, como "casado só uma vez".

Ser temperante e sóbrio

O presbítero deve ser um homem moderado, equilibrado. Um homem impulsivo pode comprometer a igreja agindo por paixão (entendida como excesso de sentimento, seja ele qual for), da mesma forma que um líder apático e omisso poderá comprometer a igreja por não posicionar-se perante a sociedade ou mesmo perante a própria igreja para sustentar as decisões tomadas e lidar com a oposição.

É necessário que haja equilíbrio para ouvir a voz de Deus e fazer aquilo que o Senhor exigir.

Ser respeitável e ter bom testemunho com os de fora

Outro aspecto a se observar em um candidato ao presbitério ou pastorado é o testemunho não apenas dentro da igreja, mas também do lado de fora dela, de forma que haja coerência entre o que se vive e o que se prega.

O igreja deve procurar saber se o candidato é coerente com o Evangelho em sua vida familiar, acadêmica ou profissional, e perante a sociedade como um todo, da mesma forma que é na igreja em suas atividades eclesiásticas.

Cabe ressaltar que bom testemunho e respeito não significam aceitação e agrado, e sim coerência de vida testemunhável ainda que por pessoas que não concordem, visto que a nossa tendência é andar na contramão do mundo,  e não em conformidade com ele (Romanos 12:2). Um bom exemplo de respeitabilidade sem conformidade seria o do pregador John Knox e a Rainha da Inglaterra, Maria a Sanguinária, que chegou a declarar:

"eu temo mais as orações de John Knox do que os exércitos de dez mil homens contra nós"

Hospitaleiro 

A hospitalidade sempre foi um traço da comunidade judaica e da igreja Primitiva. Podemos ressaltar que não se trata meramente do presbítero abrir as portas da sua cada aos demais a todo momento, e sim guardar as condutas inerentes a ser hospitaleiro, como ser atencioso, generoso e acolhedor com os seus visitantes e hóspedes.

A hospitalidade, portanto, pode ser atestada na realização de cultos domésticos, nas visitas ou no acolhimento de um irmão no lar, e não simplesmente em hospedar aos demais.

Apto para ensinar e fiel à Palavra

Conforme podemos concluir pela leitura da carta de Paulo para Tito, o presbítero deve ser um homem apto a ensinar a Palavra: (1) visto que este será responsável por admoestar os membros da igreja de suas incorreções (2), para ser capaz de defender as Escrituras daqueles que se opõem (3) e combater falsos mestres e doutrinas.

Uma igreja saudável necessita de conhecimento da Palavra, cabendo as presbíteros precipuamente o ensino da mesma. Há de se deixar claro que o Senhor, ao dispensar os dons à igreja, capacitará alguns com o dom do ensino, o que não necessariamente significa que tal cristão tenha um chamado para ser presbítero da igreja. Dom de ensino e aptidão para ensinar tem extensões diferentes: o dom é a excelência dada por Deus para edificação da igreja, a aptidão para o ensino é a capacidade de ensinar de maneira correta; todo homem com o dom de ensino é apto para ensinar, mas nem todo homem apto para ensinar tem o dom do Espírito para isso.

Logo, nem todo presbítero terá o dom do ensino, mas todo presbítero tem que ser capaz de ensinar a Palavra corretamente. Todo presbítero tem necessidade de ser teólogo e conhecer a Palavra, a fim de não ensinar incorretamente. Tal disposição encontra fundamento na própria prerrogativa do presbítero de repreender os membros da igreja em seus pecados, o que demonstra no mínimo o conhecimento de que a conduta de tal membro é pecaminosa.

Não apenas apto para admoestar a igreja, o próprio presbítero deve ser fiel àquilo que ensina. Sendo constante e zeloso no seu proceder de acordo com a Palavra de Deus.

Visto que principados e potestades desejam causar o maior dano possível à igreja e seus membros, numa tentativa maligna de embaraçar a proclamação do Evangelho, surgem no seio da igreja falsos mestres e doutrinas, devendo o presbítero ser conhecedor da Palavra, a fim de combatê-los, como Paulo recomendou que fizessem os presbíteros que seriam eleitos na igreja de Creta.

Não ser intolerante ou arrogante

A intolerância é uma evidência da dificuldade de amar ao próximo (que é o segundo grande mandamento), sendo incabível cogitar um presbítero incapaz de compreender o próximo e que haja com repulsa diante daquilo que lhe seja contrário. O líder da igreja encontrará sempre pessoas com valores e ideias que divergem das próprias, devendo ter o coração aberto para ouvir, julgar e reter aquilo que for de acordo com a Palavra, ainda que isso signifique quebrar seus próprios conceitos.

Já a arrogância é um evidência da falta de humildade, de um orgulho agudo, sendo certo que tal característica não pode ser encontrada em um presbítero (ou qualquer cristão), visto que o Senhor rejeita os soberbos (Tiago 4:6). Um homem que tem dificuldade de ser humilde e sujeitar-se ao senhorio de Cristo dificilmente conduzirá a igreja para que assim o faça.

Não ser amante do dinheiro e nem cobiçoso do ganho desonesto

A preocupação com o amor às riquezas terrenas foi motivo de advertências do próprio Senhor Jesus (Mateus 6:19-21 e 24; 19:16-30), razão pela qual o candidato a presbítero não pode mostrar-se demasiadamente preocupado com as riquezas materiais. Podemos considerar a possibilidade de tal tipo de homem não dispensar todos os recursos financeiros necessários à obra pelo desejo maior de guardar dinheiro, ainda que sem razão para fazê-lo. O amor ao dinheiro é idolatria, violação ao primeiro grande mandamento.

Quanto a cobiça de ganho desonesto, podemos considerar o desejo de ganhar injustamente, de tirar vantagem excessiva na prática de serviços e na gestão de seus bens, ainda que isso pressuponha aproveitar-se da boa-fé e inocência alheia. Os homens que tais coisas praticam não devem ser eleitos ao presbitério, visto que desconsideram o agir de forma justa e a dignidade do salário do seu trabalho e dos demais. Vemos o possível exemplo de um homem que praticou e buscou correção de tal postura em Zaqueu, o publicano (Lucas 19:2-10).

Governar bem a sua casa, tendo filhos obedientes que são crentes e não abertos à acusação de dissolução ou insubordinação

Tal disposição tem sua razão de ser visto que, na ordem da criação, ao homem foi dada a responsabilidade de cuidar de sua família antes mesmo da aliança. Um homem que não governa sua casa bem, ou seja, biblicamente, não terá tal capacidade com a sua igreja (I Timóteo 5:8).

Quanto aos filhos, considerando o fato de que a salvação é individual e o chamado de Deus independe da vontade humana, não podemos considerar que um homem esteja desqualificado para exercer o presbitério se um de seus filhos não for cristão. A inteligência do versículo nos leva a ponderar que, quanto aos filhos que são crentes, estes não podem ser abertos à acusação de dissolução ou insubordinação, o que nada mais é que o reflexo da criação recebida de um pai santo e irrepreensível. E, ainda que possua filhos que não são cristãos, estes devem ser subordinados à autoridade do candidato, que, ainda que não tenha poder para converter seus filhos, tem o dever se guiar sua família nos valores morais cristãos.

Fortalecendo o posicionamento acima, consideremos também a hipótese de um candidato solteiro: este regerá bem a sua vida familiar, ainda que não seja o cabeça de sua casa ainda, agindo como o filho obediente, subordinado à autoridade dos pais, honrando-os, da forma que Deus espera dos Seus (Efésios 6:1-3). Não possuir filhos ou esposa não o desqualifica para o exercício do cargo de presbítero, pois, conforme já refletimos, tais recomendações podem não ser totalmente encontradas nos candidatos.

Não ser dado ao vinho

Bem... Esse requisito será abordado em apartado, visto que pretendo me estender um tanto mais no tema!

Concluindo...

Devemos buscar líderes para nossas igrejas dentro daquilo que a bíblia considera importante. Os versículos acima nos apresentaram evidências do chamado de um homem para liderar sua igreja. Não esqueça que somos imperfeitos, e que talvez boa parte das características acima levem uma vida inteira para ser desenvolvidas!


quarta-feira, 14 de março de 2018

Quem são os Presbíteros?


Uma vez que defendo a necessidade do governo eclesiástico, ratifico o que declarei no artigo anterior: Se de fato necessitamos de governo, que seja amparado pela Palavra de Deus. Poder-se-ia, com o avanço da igreja, abordar os líderes com previsão na Palavra de Deus, e aqueles que a igreja inseriu no curso da sua história, como consequência lógica do seu avanço e mudanças sociais.

            Começando pelos oficiais previstos na Palavra de Deus, o primeiro que abordarei nos próximos artigos será o Presbítero. Os presbíteros são aqueles que tem como função dirigir, surpervisionar e cuidar da igreja por amor à Deus e ao próximo, nos termos de I Timóteo 5:17 c/c I Timóteo 3:4-5, que transcrevo abaixo:

“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.” [grifo próprio]
(I Timóteo 5:17)

“... e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?);” [grifo próprio]
(I Timóteo 3:4-5)

            É certo que a palavra “presbítero” é sinônima de outras duas: bispo/superintendente (episkopos) e pastor (poimen). Temos um exemplo do uso do termo bispo no texto de I Timóteo 3:2, quando se declara que é necessário que “o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar”. Já o termo pastor ocorre apenas uma vez no Novo Testamento, em Efésios 4:11:

“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”

            Há na passagem acima uma discussão acerca dos termos pastores e mestres, quanto a hipótese de tratar-se de pastores-mestres. A discussão seria em torno da possibilidade de “poimenas kai didaskalous” não trazer a ideia de um chamado diferente (um para pastor e um para mestre), mas de um aspecto do chamado do pastor. Neste último caso, o pastor seria o responsável pela condução e ensino do rebanho, sendo certo que, ao analisarmos a construção da sentença do versículo 11, fica evidente que se fosse intenção de Paulo abordar dois chamados diferentes, bastaria manter o uso de “outros para”, ainda que alguns possam argumentar a supressão da expressão. Não arrisco a explorar mais a questão, pois está além dos meus conhecimentos.

            Não se tratam de ofícios diversos, visto que as atribuições dos bispos, pastores e presbíteros são as mesmas, havendo, ainda, a ordem de Pedro para que os presbíteros pastoreiem o rebanho de Deus que havia entre eles (1 Pedro 5:2). São, portanto, sinônimos, cujo uso de um ou outro termo ressalta uma característica mais evidente do mesmo.

            Outro argumento favorável está ligado ao uso do termo pastores-mestres abordado anteriormente. Se o pastor tem o dever de ensinar ao seu rebanho, podemos corroborar tratar-se de outra nomenclatura para presbítero, visto que entre as características deste está a aptidão para o ensino (I Timóteo 3:3,8 e Tito 1:7).

            Ainda sobre o governo da igreja por parte dos presbíteros, basta uma análise na Palavra de Deus para se chegar a conclusão de que o modelo de governo bíblico é aquele que possui vários presbíteros liderando a igreja que os elegeu (Atos 14:23 c/c Atos 20:17 c/c Tito 1:5). Veja que no texto de Tito 1:5, a razão de Paulo deixar Tito em Creta é, entre outras, para que este estabelecesse os presbíteros de cidade em cidade! Colocando em termos atuais, de igreja local em igreja local. As vantagens da pluralidade de presbíteros são, entre outras:

1 - Exercício do Sacerdócio Universal de Todos os Santos

            Uma equipe de presbíteros é uma forma eficaz de exercer o sacerdócio universal em favor da edificação da igreja, visto que homens com virtudes e peculiaridades exerçam os dons diversos (ou mesmo iguais) que receberam do Senhor, contribuindo para melhor decisão para coletividade.

2 - Unidade de Pensamento

            Uma equipe de presbíteros pode evidenciar aquilo que o Espírito Santo tem a dizer para a comunidade, visto que nosso Pai não é Deus de confusão, e naquilo que dois ou três presbíteros vierem a concordar, a chance de haver erro de direção é menor. Evita-se, ainda, que haja uma liderança déspota e antibíblica.

3 - Uma igreja sempre pronta

            Podemos falar, ainda, de uma liderança com uma agenda flexível, que garanta que haja sempre a possibilidade de atender as demandas da comunidade local, bem como que os presbíteros apoiem-se uns aos outros nas tentações e dificuldades da vida e ministério.

4 - A igreja cresce com as gerações

            Ressalto também a possibilidade de que haja observância da perspectiva de diversas gerações diferentes, podendo haver no corpo de presbíteros a voz do presbítero mais moço, com aquele que poderia ser considerado um ancião na comunidade. Isso é positivo para que a igreja não fique estagnada, e acompanhe as mudanças que o tempo carrega em seu bojo.

domingo, 11 de março de 2018

Governo da Igreja (Introdução)

Sendo certo que a igreja local existe de forma visível, lida com diversas demandas internas e externas. Levando em conta que nossas igrejas tem funções biblicamente estabelecidas, como edificação mútua daqueles que a compõem, instrução dos novos irmãos, pregação e ensino da Palavra, podemos ao menos compreender que há necessidade de organização, a fim de que as funções da igreja sejam realizadas com proveito e esmero.

Não podemos esquecer, ainda, que há necessidade de disciplina eclesiástica (o que foi abordado no artigo sobre a excomunhão dos membros das igrejas locais), o que demanda uma organização apta para pô-la em prática. Logo, é necessário que tenhamos em mente que, diferentemente do que alegam algumas pessoas, a organização de um governo eclesiástico não é uma invenção humana a fim de impor hierarquias e criar relações de poder que não deveriam existir. A liderança em uma igreja é inevitável, e, mesmo no momento da liturgia de um culto, alguém tomará a dianteira para conduzir a adoração ou ministração da Palavra. Portanto, longe de ser contra a existência de Governos Eclesiásticos, defendo a necessidade da existência do mesmo, com fundamentos nas Escrituras.

A fim de que o resumo não tome ares de achismo, fundamentarei as minhas considerações no artigo 22 da síntese doutrinária das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo), que diz:

"Todos os crentes sinceros são sacerdotes para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo, que é o Mestre, Pontífice, e único cabeça da sua Igreja; mas como Governador da sua Casa, estabeleceu nela diversos cargos como de Pastor, Presbítero, Diácono e Evangelista; para eles escolhe e habilita, com talentos próprios, aos que Ele quer para cumprirem os deveres destes ofícios, e quando existem devem ser reconhecidos pela Igreja como preparados e dados por Deus." [grifo próprio]

Vejam que, conforme o artigo acima, a existência da igreja local pressupõe a existência de uma organização composta por oficiais escolhidos por Cristo, e que devem ser reconhecidos pela igreja. O fato de basear a presente posição em um artigo de fé não vai de encontro ao princípio de agir de acordo somente com as Escrituras. Tal artigo é uma proposição baseada na Palavra de Deus, não tratando-se de dar autoridade a texto diverso da Bíblia, mas reconhecer a autoridade do texto bíblico por detrás da declaração.

No caso, os textos bíblicos que fundamentam a existência de um governo eclesiástico composto por oficiais estabelecidos (quanto a função) e escolhidos (quanto a pessoa) por Deus se dá em Efésios 4:10-14 e I Pedro 5:1-2, transcritos abaixo:

"Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas. 

E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres,
com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado,
até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.
O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro." (Efésios 4:10-14)

"Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar:
Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto;
Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho." (I Pedro 5:1-3)

Já a necessidade do reconhecimento dos mesmos pela igreja encontra-se nos textos de I Tessalonicenses 5:12-13 e Filipenses 2:29, transcritos abaixo:

"E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam;
E que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós." (I Tessalonicences 5:12-13)

"Recebei-o, pois, no Senhor com todo o gozo, e tende-o em honra;" (Felipenses 2:29)

Portanto, há necessidade que a igreja reconheça e honre o trabalho daqueles a quem o Senhor levantou para a realização da Sua obra, como no caso de Epafrodito, enviado pela igreja de Filipos para auxiliar Paulo.

Com bases no artigo 22 e nos versículos apontados, podemos fazer algumas considerações:

1º O Governo da Igreja não impede o Sacerdócio Universal de Todos os Crentes

É certo que a Palavra nos ensina que somos todos sacerdotes para oferecer sacrifícios espirituais, através de Cristo. Não há, portanto, necessidade de qualquer intermediário entre nós e o nosso Pai, visto que Cristo ofereceu a Si mesmo como sacrifício necessário e plenamente eficaz, de forma que temos agora não apenas o privilégio, mas também a responsabilidade de nos apresentarmos diante de Deus, bem como aos nossos irmãos (I Pedro 2:5-9 c/c Hebreus 10/12).

É necessário apontar, portanto, que o sacerdócio universal não é incompatível com o governo da igreja, visto que o primeiro diz respeito a relação do cristão com Deus, e o segundo diz respeito à organização e atuação da igreja com seus indivíduos e o mundo a sua volta. O fato de existir irmãos levantados por Deus para gerir uma determinada igreja local não impede (ao menos não deveria impedir) ou interfere no acesso do cristão ao Senhor, visto que em Cristo o sacrifício final já foi realizado. 

Qualquer oposição nesse sentido pode estar ligada à liturgia da igreja, sob o fundamento de que o governo litúrgico (não deixa de ser uma esfera do governo da igreja) atrapalha a ação do Espírito Santo. Entretanto, tal alegação deve ser muito bem analisada dentro da igreja local. O governo da igreja não é um fator impeditivo do sacerdócio universal, e sim um desdobramento do mesmo, pela necessidade de edificação dos membros uns pelos outros. 

Neste sentido, haverão homens chamados a orar incessantemente pelos demais, e outros chamados a exercer o diaconato na igreja. Alguns chamados a servir na cantina, outros no corpo de presbíteros. O que parece gerar uma certa repulsa é a ideia de que o governo da igreja cria hierarquia e acepção de pessoas, o que não é verdade.

2º O Governo da Igreja é estabelecido por Cristo para edificação dos santos

Em Efésios 4:10-14 fica claro que o governo da igreja é estabelecido por Jesus Cristo com o propósito de edificar os santos, capacitando-os para obra, ensinando-os para não serem conduzidos por doutrinas hereges e disciplinando-os, se necessário. 

Portanto, o governo da igreja não vai de encontro ao governo de Cristo, o qual não deixa de ser o Cabeça da igreja (Mateus 23:8-10). Um governo estabelecido por Jesus será aquele que tem a Palavra como regra de fé e prática. Aprouve ao Senhor levantar homens com funções específicas para cuidar dos Seus filhos até que Ele venha, mantendo em ordem a representante visível do Reino Invisível. Esse cuidado é reflexo do grande amor de Deus por nós, e nos leva a compreender os oficiais de nossas igrejas como homens chamados para servir. Portanto, o governo da igreja pelos oficiais não é um poder, e sim um serviço prestado aos demais membros da congregação.

3º Logo, a existência de um governo antibíblico de igreja não tira a legitimidade de todos os outros 

O fato de haver igrejas com governantes carnais e antibíblicos não pressupõe que todos os governos eclesiásticos devem ser eliminados, como alegam algumas pessoas. Nos versículos acima, vimos que a existência de um governo eclesiástico não é só legítima, como também estabelecida por Jesus Cristo.

O governo eclesiástico é exercido por oficiais da igreja (como presbíteros e diáconos) que possuem não apenas previsão na Palavra, como também critérios de seleção dos irmãos que deverão cumprir tais funções (I Timóteo 3 c/c Tito 1:5-9). Logo, antes de ser uma invenção humana com a finalidade de legitimar a criação de uma hierarquia, trata-se do desdobramento do dever de servir.

Os que se opõem a existência do governo da igreja podem ser exatamente aqueles homens que se opõem à disciplina eclesiástica e autoridade, ou mesmo os que temem receber responsabilidades e ficarem sob os olhares dos demais.


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