segunda-feira, 30 de abril de 2018

Inspector Akane Tsunemori - Volume 02

Fala aí, você que está lendo! Beleza? Depois de passar semanas reclamando nas minhas redes sociais sobre a demora da Panini para abastecer as bancas, acabou que eu demorei pra escrever o artigo, mesmo tendo lido o mangá no dia que eu comprei! Antes tarde do que nunca né?

Não, não é a Akane haha


O primeiro volume terminou com os nossos investigadores dentro de uma fábrica de robôs, sem rede, o que impossibilitava o uso de comunicação e das próprias Dominators. Bem, conforme eu tenho visto no mangá, o sistema Sybil é mais falho do que nós esperávamos, pois, não bastasse a Akane demonstrar que é possível diminuir o stress psicológico a ponto de fazer uma Dominator alterar o eliminação para paralisante, descobrimos mais dois problemas.

O primeiro deles é que é possível diminuir o stress psicológico sendo violento. Isso fica claro na parte 02 de "Como criar animais". Aliás, já deveria ter atentado pra isso na parte 01, durante a cena do bullying coletivo; o que tem continuidade com a descoberta do funcionário que vinha cometendo os homicídios na fábrica, que era nada mais nada menos que o alvo das piadas e perseguição. 

Esse episódio em si já demonstra a fragilidade do Sistema Sybil! Se você já leu o mangá, gostaria que refletisse na postura do diretor da fábrica... CARA, ELE CONSEGUE BURLAR O SISTEMA!!! Ele mantém o Psycho-Pass dos funcionários em níveis regulares apenas permitindo que estes tenham episódios de violência coletiva, deslocando o alvo da violência para outro setor com a finalidade de diminuir o stress da vítima também! 

Perceba que o fato da violência do bullying ser comum para o grupo, isso não gera stress, pelo contrário, alivia as tensões que o próprio trabalho na fábrica causava! Então o Sybil trabalha com uma análise social para apurar seus resultados? Isso é uma possibilidade, se formos pensar no próprio conceito de crime: um fato previsto em lei como crime. Quem determina o que é crime é a sociedade que cria a lei. Então tudo que está fora da aceitação da sociedade é crime, de forma que não seria incorreto considerarmos que o sistema analisa de forma coletiva em busca da anomalia no padrão. Se a sociedade (no caso os funcionários da fábrica) considera aceitável o assédio à um funcionário, o Sybil não é capaz de identificar a anomalia!

E vamos analisar o criminoso! O diretor da fábrica achava que o Psycho-Pass do funcionário assediado normalizava por causa da transferência de setor, quando na verdade descobrimos que eram os homicídios que faziam isso! Então por mais este episódio vemos que a Akane estava correta em não atirar, porque o julgamento do sistema é precário, e pode ser alterado não só por tranquilizar o alvo, como também quando o próprio desejo de crime é satisfeito! Quantas pessoas passíveis de reabilitação morreram no julgamento? Fica a reflexão pra gente!



O segundo problema também ficou solto no comecinho do Volume 01, mas que agora veio como um tapa na cara do Departamento de Investigação Criminal da Agência de Segurança Pública e Ministério da Saúde e Bem-Estar, e é o fato do sistema não ser universal, e haver locais e rotas pelos quais é possível transitar sem ser detectado pelo scan da Sybil. Essa foi a forma pela qual o assassino de "A mascara que ninguém conhece" não foi detectado, mesmo sendo o tipo de  cara que esquartejava as vítimas com bisturis, em pedaços tão pequenos que eram descartados pelo ralo!

Não sei se vocês já perceberam, mas eu pouco falarei da história do mangá. Minha análise será sempre quanto a história pessoal dos personagens, o funcionamento do sistema e a reflexão sobre o crime que podemos tirar na obra.

A sociedade é aparentemente estável e bem sucedida, de forma que a ideia de uma pessoa desempregada ser abordada como algo anormal. Neste ponto o Sybil parece muito eficiente, ao fazer a logística de distribuição das funções e empregos de acordo com a valiação realizada após o período escolar, de forma que não há quase nenhum desempregado. A mesma avaliação que mostrou que Akane não só tinha qualificação para qualquer departamento, como também ser a única apta ao D.I.C.A.S.P.

Caraca, os únicos desempregados no mangá seriam os YouTubers e os Players, considerados como aqueles que vivem de patrocínio para ficar online nas redes sociais, como é o caso das vítimas dos crimes em "A mascara que ninguém conhece"! E detalhe: são considerados todos como criminosos em potencial, visto que num evento cheio deles, a Dominator dos investigadores e executores entrou em modo paralisante para todos os presentes, impedindo que o assassino fosse pego. Isso só reforça minha tese sobre os fatores de análise do Sistema Sybil, visto que as pessoas que ficam muito tempo em jogos onlines e redes têm poucas interassões sociais e dificuldade para socializar. Vemos uma sociedade de ferro que caminha sobre uma estrada de cristal. O estresse é uma preocupação tão intensa que as adolescentes são enviadas para colégios de meninas para serem protegidas do mundo numa fase da vida onde são consideradas suscetíveis.

A história do Kougami e do Ginoza também se desenvolve melhor, trabalhando duas hipóteses interessantes. A primeira está ligada à história do Executor Kougami, visto que Akane começou a ter dificuldades para lidar com o seu subordinado após o plano para descobrir o assassino da fábrica. Pela primeira vez Akane se sentiu insegura em estar próxima do seu cão de caça, ao perceber o seu olhar e expressões durante a caça. Ela então procura Kagari após uma conversa com Ginoza, em busca de informações, descobrindo que Kougami já foi um Investigador, como ela, e tornou-se um criminoso em potencial após o assassinato de um dos seus executores, episódio após o qual mergulhou na investigação criminal até desenvolver a mentalidade de um criminoso. Descobriu, ainda, ser o único crime que o departamento não solucionou e que Kougami continua investigando por conta própria.

Tendo isso em mente, fica fácil compreender as razões para Ginoza manter uma distância considerável dos executores, aos quais confia a tarefa de investigar o crime enquanto ele apenas os mantém sob controle. Aparentemente o tratamento rude direcionado a Kougami se dá pelo remorso de ver o amigo ter se tornado um criminoso potencial e ser rebaixado! Logo, o Psycho-Hazzard é um risco mais sério do que a jovem investigadora tem realmente considerado.

E já que falamos sobre Ginoza, o mangá deixa uma questão interessante no ar: O coeficiente criminal é um fator hereditário? É revelado que o pai de Ginoza é um criminoso, e por tal razão o mesmo está em constante observação, mesmo sendo ele um Investigador! Creio que a resposta para essa questão seja negativa, visto que até o presente momento podemos considerar que o coeficiente criminal é analisado levando em consideração a fatores sociais.

Ginoza tem ganhado um pouco mais de respeito da minha parte, mesmo agindo como um asno antissocial. Enquanto Akane tem feito um ótimo trabalho em ganhar o respeito dos executores, e tornar todos uma equipe de verdade, Ginoza tem amarrado as pontas soltas, descobrindo que tanto no crime da fábrica quanto no do roubo de avatares havia alguém por detrás, com inteligência e recursos suficientes para criar um protocolo capaz de hackear um robô do departamento, ou mesmo todos os avatares de uma rede social ao mesmo tempo.

E esse alguém tão inteligente finalmente deu as caras! Makishima aparece já na metade do mangá, como alguém que apoia o criminoso em sua empreitada, dando os recursos necessários para realização dos crimes. Estou extremamente ansioso para saber quais são os planos dele, visto que até o presente momento ele sempre agiu no anonimato, mas no final desse volume toma um passo um tanto arriscado: passa a apoiar uma nova assassina que tem amor pela arte, e passa a usar  corpos humanos para criar suas obras, usando um método de preenchimento do corpo com resina!

O verdadeiro vilão finalmente apareceu!

Fico perplexo com o que ele possa ter em mente, visto que está usando o mesmo método utilizado no assassinato do amigo do Kougami, o que despertou a sua atenção imediata para o caso! Esquece aquela história do executor de poder ser novamente um policial! Vemos agora o verdadeiro executor farejando o criminoso pelo crime! A caça vai começar!!!

domingo, 22 de abril de 2018

Considerações sobre o livro "Contra a Idolatria do Estado"

Oi, tudo bem? O livro que tive o prazer de ler nos últimos dias para trazer uma análise neste blog foi o "Contra a Idolatria do Estado", escrito por Franklin Ferreira, e lançado pela Edições Vida Nova! Pra quem não conhece o autor da obra, ele é bacharel em Teologia pela Universidade Mackenzie e mestre em Teologia pelo Seminário Batista do Sul (RJ). Ele também é diretor do Seminário Martin Bucer e consultor acadêmico da Edições Vida Nova. O livro é realmente bom! Sério!



O livro aborda a questão da idolatria do Estado de forma fundamentada tanto na Palavra quanto nos dados científicos e sociais acerca da política e sociedade brasileira. É certo que a crítica do autor é visivelmente direcionada aos indivíduos que habitualmente denominamos "de esquerda". Para o autor, tais indivíduos idolatram o Estado, numa espécie de adoração ao dinheiro e poder estatal.

No tocante ao dinheiro, é interessante como o autor aborda o amor à riqueza dentro de um Estado, que, independente da inclinação política para o socialismo, é na verdade capitalista. Franklin Ferreira aborda o fato de que o socialismo vive de forma capitalista, com a diferença que ama e almeja a riqueza, desde que esta pertença ao Estado. Isso me lembrou muito uma postagem que eu vi, onde estava escrito que o capitalismo de verdade deixa a esquerda erguer sua voz, enquanto vende camisa do Che Guevara aos seus adeptos.

É interessante como o autor, antes de entrar no mérito da Idolatria do Estado já nos apresenta a postura correta a ser tomada por um cristão que atua na política, usando o livro de Ester como exemplo para as seguintes posturas que posso resumir: (1) compreender que a própria salvação e do povo depende de Deus, e não do Estado, mesmo quando a corrupção e o mal aparentam prevalecer; (2) o cristão deve lutar pela justiça segundo a Palavra, ainda que despojada da linguagem da fé; (3) incentivar os grupos nos quais esteja inserido a agir e dar suporte àqueles que atuam diretamente na política.

O ponto 2 me chamou muito a atenção, porque de fato o livro de Ester não tem aquela linguagem da fé, qual seja, alusão expressa à Palavra de Deus na fala e justificativa de posicionamentos e atitudes. Ester e seu tio vivem segundo a Palavra, mas diante do rei a fala não é teológica, embora totalmente centralizada naquilo que o Senhor ensina! 

É possível, portanto, ser um jurista ou qualquer outra função, propor e executar políticas públicas dentro da Lei de Deus, mas com fundamentos nos princípios e leis seculares. Exemplo: Ao invés de dizer que matar é crime em razão do mandamento do Senhor,  defender tal posição no direito fundamental a vida!

Isso é possível, em razão da lei moral inerente a todos os homens, cuja revelação natural aponta a irregularidade de tais condutas, mesmo sem a revelação especial. 

Como bem justificado pelo autor, tal posição permite de maneira eficaz a inserção do cristão no mundo, visto que podemos nos unir a movimentos e grupos em defesa daquilo que a Palavra ensina, ainda que não seja a motivação do referido grupo.

Após essa primeira reflexão o autor entra de fato no tema da idolatria do Estado, usando como base o primeiro capítulo da carta de Paulo aos Romanos, na qual ele apresenta a recusa da revelação geral em conjunto com a idolatria do Estado, na medida em que a troca do Deus incorruptível pela imagem de aves, quadrúpedes e répteis seria alusão aos estandartes dos exércitos romanos e a figura do imperador. Vendo desta forma, a mensagem de Paulo seria subversiva, direcionada ao povo que negava a revelação geral e depositava a sua fé no imperador e seu poder político.

Apresenta também os limites de obediência ao Estado, usando como base os textos de Romanos 13:1-7 e Atos 5: 14-36, a fim de provar que o cristão deve se submeter às autoridades legítimas, definidas como aquelas que punem o mal e recompensam o bem com serviço público e proteção. Quando houver colisão entre a lei o a Palavra, o cristão é livre para se opor à lei.

O autor separa um momento para trazer alguns conceitos como direita, esquerda e afins, alegando que o Brasil não possui partidos de direita, e que a maior parte dos partidos políticos atuais tem sua cartilha pautada nos ideias da esquerda e extrema esquerda. Acusa-os, portanto, de ludibriar a sociedade, ao taxar de direita os partidos de centro, de extrema direita os de direita, como se a cartilha da esquerda no Brasil fosse de centro, e a extrema esquerda fosse a esquerda.

Ele também critica a prática de alguns socialistas na defesa dos ideais da esquerda, por sempre compararem os ideais socialistas com o pior do capitalismo, a fim de apresentar este como um vilão; quando na verdade deveriam comparar a esquerda e direita como ocorrem na realidade, usando como exemplo Alemanha Oriental e Ocidental, ou Coréia do Sul e Norte, pois apresentaram os dois espectros políticos dentro da mesma sociedade ao mesmo tempo.

Embora ele faça esta crítica, que não deixa de ser instigante, acaba de certa forma dando uma bola fora, e faz a mesma coisa quando vai conceituar esquerda e direita, apresentando esta última como o espectro político que privilegia as liberdades pessoais e econômicas, garantias de direitos e afins; enquanto apresenta a esquerda como um modelo de pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica, e faz uso de termos como "domínio" do Estado sobre todas as esferas da sociedade. Quem está acostumado a ler e escrever sabe que a escolha de palavras é uma chave mestra pra conduzir opiniões. O autor apresenta um segundo conceito para cada um dos dois espectros, e faz a mesma coisa, quando apresenta a direita como igualdade e liberdade, e a esquerda como um sacrifício da liberdade em prol da igualdade de poder. Ora, tanto a esquerda quanto a direita trabalham com o sacrifício da liberdade, visto que ambas trabalham com o conceito de contrato social do Estado.

Após apresentar estes conceitos, o autor apresenta a visão reformada sobre a relação do cristão com o mundo, de forma que família, indivíduo, igreja, trabalho, artes e escola são esferas independentes do Estado, que coexistem e extraem sua autoridade somente de Deus. O Estado tem o papel mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito, ou para defender os fracos contra o abuso dos demais.

O cristão deve ter em mente que ética e governo sob a vontade de Deus não passam obrigatoriamente pela conversão de todas as pessoas, nem em colocar cristãos professos em cargos políticos (o que não é afirmar que um cristão não deve exercer um), mas sim em contribuir para que a lei de Deus seja reconhecida por todos. Cristãos e incrédulos podem se unir na luta contra males comuns aos dois grupos: o primeiro grupo o fará por amor ao Senhor, o segundo, pelo senso de moralidade.

O autor aponta a república como o melhor sistema político, pois somente Deus é capaz de concentrar em si todo o poder. A república é uma necessidade, em razão da inclinação do homem ao pecado e ao abuso; e é uma possibilidade, visto que a graça de Deus habilita os homens à justiça. Devemos considerar, por estas afirmações, que o Estado não é a solução para a sociedade, e o melhor que ele pode fazer é refrear a injustiça causada pelo pecado.

Nos últimos tópicos o autor faz uma afirmação com a qual tive que discordar, e justifico minhas razões. Ele afirma que o Estado não se preocupa com a segurança pública, porque está muito ocupado na busca por privilégios para os que cometeram crimes. Ora, tal afirmação é um tanto descuidada, pelos seguintes motivos:

  1. Primeiro que a afirmação fica confusa, dentro de um estado com tripartição de poderes. Quem executa as medidas penais é o Poder Judiciário, dentro do Princípio da Legalidade, ou seja, mediante a aplicação daquilo que a lei (Código Penal, Código Processual Penal...) determina. Logo, o Estado, na figura da Espada, faz aquilo que a lei já prevê;
  2. Essa afirmação entra em conflito com informações trazidas pelo próprio autor, como a superlotação dos presídios e principalmente o dever do Estado de garantir a dignidade da pessoa humana. A preocupação do Estado com a política penitenciária não é "dar privilégios aos presos", mas sim de garantir que estes cumpram suas penas dentro de parâmetros que assegurem a sua dignidade, como salubridade e exercício do poder de família.
Também aborda a luta da igreja alemã no período da Segunda Guerra Mundial, e encerra o livro com algumas dicas para os cristãos elegerem seus políticos com mais consciência e segurança. 

Recomendo muito mesmo a leitura do livro que, salvo as pequenas ponderações já faladas, foi capaz de satisfazer as minhas expectativas. Peço a maturidade do leitor durante a leitura, visto que se tratam das minhas ponderações sobre o livro, e sei que há aqueles que discordarão, e também aqueles que farão a leitura com a mão na espada, numa típica postura de idolatria ao teólogo. Sério, isso acontece mesmo no meio reformado! São as minhas considerações do livro, julgue-as e retenha o que for bom!

Melhor Jair começando a leitura hein...


Até a próxima postagem!!!

OBS: A FOTO DO CANDIDATO ACIMA NÃO CARACTERIZA APOIO POLÍTICO, E FOI USADA APENAS PELO TROCADILHO COM O NOME E POR SER O ÚNICO QUE EU VI COM A OBRA EM MÃOS! PARA SER JUSTO, COLOCAREI UMA FOTO DE OUTRO CANDIDATO REALIZANDO UMA LEITURA:

Paulo Coelho? Dá pra ler até de cabeça pra baixo!

EU ME RECUSO A DIZER EM QUEM VOTAREI. PODE NÃO SER EM NENHUM DOS DOIS! O VOTO É SECRETO!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Paradoxo da minha insônia

Como te explicar essa vontade de amar você pra vida toda, todo dia;
Todo o dia, diariamente?
E dessa forma, te amar infinitamente;
Te amar infinitamente, até o fim;
fim da vida, do dia ou do amor.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Posso/Devo beber? O cristão e o álcool.

E aí gente, beleza? Pra quem acompanhou meus dois artigos sobre os presbíteros, devem saber que deixei a questão do consumo de bebida alcoólica para um artigo individual. A razão disto é porque o assunto tem muita discussão, e, se por um lado não é uma questão fundamental do Cristianismo, por outro lado, não merece o tratamento leviano e as ponderações descuidadas e por vezes sem fundamentos com as quais o tema é abordado.



Correntes

Quando um cristão é questionado acerca do consumo de bebidas alcoólicas a resposta não é unânime. é bem capaz de encontrarmos numa roda de amigos da igreja ao menos um que defenda uma das três posições abaixo:

Proibitivo: um cristão de posicionamento proibitivo vai defender não apenas a abstenção do vinho, como também a proibição nas Escrituras.

Abstêmios: um cristão abstêmio (eu por exemplo) reconhece que não há um imperativo proibitivo para o consumo de bebida, mas desencoraja o consumo. Um abstêmio jamais afirmará que a bíblia proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, mas nem por isso ele irá beber, em consideração ao potencial negativo do consumo de bebidas.

Moderado: um cristão moderado é aquele que não só afirma que a Palavra não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, como também consome.

Logo, há três possíveis resposta no seio da igreja. Qual será a correta? Há uma correta?

Onde a bebida alcoólica aparece na bíblia?

A bebida alcoólica aparece na bíblia  em diversas passagens que informam o consumo do vinho. E, caso analisemos as palavras originais traduzidas para vinho (seguindo um estudo do tema proposto por John MacArthur), todas elas dizem respeito à bebidas fermentadas, de teor alcoólico.

No Antigo Testamento, temos a ocorrência do termo yayin, o qual não diferencia nem o vinho velho, nem o novo, nem o suco de uva. Ou seja, embora alguns aleguem tratar-se de tradução para suco ou extrato não fermentado de uva (como em Jeremias 48:33), isto não estará correto em todos os casos. Por exemplo, em Gênesis 9:21, Noé bebeu vinho a ponto de embriagar-se e ficar nu. 

Há também a ocorrência do termo shekar, que pode ser traduzido como "bebida forte", e é oriundo do verbo shakar, que significa "embebedar-se". Ora, se o vinho não possui teor alcoólico, por que a raiz da palavra é o termo referente ao consumo de bebida capaz de embriagar um homem? O que seria "bebida forte", senão a bebida com teor alcoólico?

Há também o uso da palavra tirôsh, referente a sucos doces e mostos, sendo associado ao suco de uva não fermentado. Ora, se há uma palavra no Antigo Testamento que especificamente aborda o suco de uva não fermentado, seria hipocrisia ou tolice afirmar que todas dizem respeito a suco de uva sem teor alcoólico.

A discussão sobre o consumo de bebida alcoólica no Antigo Testamento tem fim no uso de yayin e shekar no mesmo versículo, hipótese na qual referem-se à vinho totalmente fermentado, como em Isaías 28:7. Ora, até o presente momento eu nunca vi um homem cambalear tomando suco de uva!

Já no Novo Testamento, o termo original em grego seria oinos, que  não faz distinção entre o vinho no início da fermentação (Marcos 2:22 - o vinho recém produzido é posto nos odres), o vinho fermentando (Marcos 2:22 - o início da fermentação faz os odres se romperem) ou já fermentado (Lucas 1:15). 

Também há o termo sikera, que diz respeito a "bebida forte", correspondente ao hebraico shekar.

E o que podemos dizer sobre o vinho na Palavra?

Antes de mais nada, é importante dizer que mesmo o dito "vinho novo" pode ter teor alcoólico, visto que a fermentação é um processo quase que imediato. Ocorre que para os homens, o "vinho velho" era considerado bom, em razão da elevada fermentação (Lucas 5:39). Há quem diga, neste sentido, que o vinho que Jesus produziu em seu milagre nas bodas seria fermentado!  Seria costume dar o vinho mais fermentado no começo (o bom!) e quando todo mundo já estava embriagado, davam o vinho novo, pouco fermentado. É certo inclusive afirmar que o vinho que é muito diluído nem mesmo é elogiado, conforme podemos inferir em Isaías 1:22. 

Fica difícil para os que dizem que o vinho da bíblia não possui teor alcoólico sustentar essa posição quando nos deparamos com passagens como Salmos 104:15, que faz alusão ao efeito de contentamento do consumo de bebida alcoólica, ou Provérbios 31:6, que recomenda vinho aos amargurados de espírito.

O vinho é vinculado também à tratamentos médicos (1 Timóteo 5:23), como antisséptico ou lenitivo para dores estomacais.

E, para os que dizem que o vinho é algo proibido, abordando a bebida como uma espécie de coisa impura e do diabo, tal posição carece de fundamento quando vemos a bebida ser oferecida nas ofertas ao Senhor, como em Êxodo 29:40 e Números 15:5.

E qual o erro dos proibidores?

Das três posições, eu consideraria a dos Proibidores a única incorreta. Afirmar que a Palavra proíbe o consumo de bebidas, diante de todas as informações acima é ir além do que a Palavra nos ensina. A Palavra de Deus é: inerrante, autoritativa e condena expressamente o abuso do álcool.

Se a Palavra de Deus não proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, ao afirmar o contrário, o cristão coloca em xeque a inerrância das Escrituras, visto que dispensa tratamento diverso ao assunto, como se Deus houvesse errado ou se omitido ao não proibir o consumo. Também afronta a autoridade das Escrituras, ao impor a própria autoridade sobre a de Deus, impondo uma regra de fé e prática que a Palavra não exige, em semelhança aos líderes judeus que impunham a tradição.

Em passagem alguma vemos uma ordem para que o cristão em nenhuma hipótese beba vinho! A Palavra não condena o uso, e sim o abuso do consumo de bebidas. 

Como argumento, peguemos os versículos de I Timóteo 3 e Tito 1, que traz como requisito que o candidato "não seja dado ao vinho". Essa expressão vem da palavra paroinos, que pode ser traduzida como "colocar-se ao lado", ou seja, dizia respeito ao homem que sentava-se junto ao odre pra beber, de forma que seu copo estava sempre cheio e sua tendência era embriagar-se. 

O abuso do álcool usurpa a consciência e discernimento do homem, que precisa estar no controle de suas faculdades. Um bêbado se entrega às paixões e não discerne sequer a própria vontade! Quem dirá a de Cristo então? Falta-lhe lucidez e domínio próprio! Por esses e outros motivos, a embriaguez é condenada por Deus!

Ah, Pedro, mas o vinho era misturado com água!

De fato era! Pisado no lagar e desidratado até virar uma pasta, que era diluída em água para o consumo! Isso é verdade! Mas quem disse que isso tira o teor alcoólico de uma bebida?

A verdade é que TODA BEBIDA É MISTURADA COM ÁGUA! Toda bebida alcoólica leva água na composição, o que muda é a concentração de álcool!

A Escala Gay Lussac é responsável por determinar o teor alcoólico de uma bebida, medindo-se a razão de mililitros de álcool por 100ml da composição.

Só a título de exemplo, a cada 100ml de água na cerveja, há entre 5% a 9% de álcool! A aguardente tem entre 38% a 54%; a cachaça tem 38% a 48%, e por aí vai!

Mas e o vinho? O vinho tem entre 11% a 14% de álcool! Sobre a alegação da pasta ser diluída em água, cumpre ressaltar que dependendo do grau de diluição, as vezes o vinho não chegava nem a 3% de teor alcoólico! Mas mesmo assim, não dá pra dizer que não tinha álcool! Daí se entende a expressão "dado ao vinho" com mais clareza! Pro cara se embriagar com um vinho bem diluído, ele tinha que beber muito, ou seja, sentava-se junto ao vinho!

Caso semelhante no nosso tempo, quando a Ambev foi multada por dizer que sua cerveja Kronenbier era sem álcool, só por estar abaixo do percentual adotado para considerar uma bebida como alcoólica, mas havia uma porcentagem de álcool ainda menor que a deste vinho muito diluído!

E qual o dilema dos Moderados?

Eu não posso afirmar que os moderados erram, mas posso afirmar que eles vivem em grande dilema, de forma que ainda creio que a abstenção é o melhor caminho. Primeiro pela facilidade de se embriagar que nós temos hoje em dia, pois, como vimos acima, a bebida alcoólica que a Palavra apresenta é bem diferente da que temos hoje em dia! São bebidas com até o triplo do teor alcoólico dos vinhos e licores. A lógica é que bebidas mais fortes embriagam mais rápido!

Fica muito difícil apurar o momento em que a embriaguez torna-se um problema, visto que não há um parâmetro objetivo para dizer "Eu estou embriagado", bem como haver fatores externos que dificultam o impulso de parar, como por exemplo, o sabor da bebida; e fatores que facilitam a embriaguez, como consumir a bebida em jejum; e fatores biológicos como sexo (as mulheres ficam bêbadas mais rápido), idade ou ser obeso ou estar acima do peso.

Ainda tem o dilema jurídico! Quando a embriaguez é pecado, se, juridicamente falando, os efeitos do álcool como contentamento e relaxamento citados alguns parágrafos acima podem pressupor o primeiro estágio da embriaguez?  Nas aulas de Direito Penal, a fim de trabalhar a embriaguez como excludente de culpabilidade, minha querida professora me apresentou uma comparação antiga, onde três estágios da embriaguez são representados por três animais!

Segundo a comparação, o primeiro estágio é a euforia, representada pelo macaco, em razão de ser um animal saltitante e hiperativo, que representa o homem no início da embriaguez, quando fica eufórico, alegre e brincalhão! Neste estado, ele ainda conserva a sua consciência, mas já está sob os efeitos do álcool! Nossa tendência é considerar a embriaguez apenas a partir do segundo estágio, representado pelo leão, para retratar as mudanças temperamentais geradas pela bebida, por ser a fase, por exemplo, onde, já não tendo domínio de suas faculdades, o homem torna-se agressivo e suscetível. O terceiro estágio então nem se fala! Representado pelo porco, o homem já está na lama! Diz respeito ao ápice da embriaguez, caracterizada pela inconsciência e perda total das faculdades!

Ora, se para medicina legal e para o Direito os efeitos do álcool na primeira fase da embriaguez e antes dela são os mesmos, como posso saber se já não estou embriagado, ainda que consciente?

Outro dilema seria o escândalo, hipótese na qual Paulo apresenta o princípio da abstenção para não contaminar a consciência de irmãos considerados mais fracos. Ao abordar o consumo de carne sacrificada a ídolos, Paulo informa para os irmãos que têm consciência de que comer ou não não fará diferença, mas, se um irmão fraco ver o consciente comendo e isso lhe for razão de escândalo, isso se torna um pecado contra Cristo (I Coríntios 8). Assim como a carne, se a bebida escandalizar meu irmão, o correto é que eu não beba mais.

Uma forma apresentada pelos moderados de evitar essa abstenção é o consumo de bebidas em casa, sozinho ou com outros irmãos também moderados, para não haver o risco de um irmão fraco passar e ver!



O que seria a potencialidade negativa para um Abstêmio?

Como um abstêmio, além da questão do escândalo, eu, Pedro Silva Drumond, peco contra minha consciência se consumo álcool, pois, embora saiba que não é proibido, não me sinto bem, por ligar a bebida ao meu velho homem. Logo, se não peco contra a consciência de outrem, peco contra a minha.

Além disso, o consumo alcoólico é potencialmente lesivo, se considerarmos o risco de alcoolismo, e do ponto de vista médico legal, o aumento das possibilidades de cometer-se um ilícito penal sob efeito da bebida.

Outrossim, fica muito complicado você mostrar para um homem que a vida toda foi alcoólico, e que quer lutar por amor a Cristo e renovação de vida, que o consumo de álcool é lícito. É como colocar um hipocondríaco perto de uma bula de remédio e pedir para ele não ler! Esse homem precisa encontrar na igreja o que não encontrou no mundo, e não o contrário!

E por incrível que pareça, ainda temos que lidar com a ideia de falsa aceitação e tolerância ao mundo que o consumo de álcool propõe, quando na verdade este mundo e seus ideais não tem conformidade com os nossos! Só como exemplo, minha maravilhosa e incomparável mãe (os elogios são porque sei que ela vai ler e depois reclamar que falei dela) que, ao receber uma garrafa de cerveja artesanal que comprei para ela experimentar, pois sabia que ela gostava, quis logo postar nas redes sociais da seguinte forma: "Presente do meu filho crente", no sentido de que as pessoas me vissem como um cara tolerante, mas que também poderia ser mal interpretado como um cara anuente! Para mim foi uma lição de que eu não sou apenas filho, ou estudante, ou homem simplesmente; eu sou cristão! Filho cristão, estudante cristão, trabalhador cristão, homem cristão. Tudo que eu fizer, por mais inocente que seja aos meus olhos, vai refletir na forma como o mundo verá o cristianismo!

Além disso, eu também vejo um padrão no qual homens separados para Deus deveriam se abster do vinho, ainda que em caráter temporário! É o caso dos nazireus (Nm 6:2-6), sacerdotes em exercício (Lv 10:8-11), reis (Pv 31:4-5) e mesmo o caso de João Batista (Lc 1:15), Estes homens não deveriam consumir bebida alcoólica, e eu, como embaixador de Cristo, separado para Deus, missionário em tempo integral (tudo fora da igreja é um campo missionário), tenho essa regra para mim não como um peso da lei, mas como uma decisão de amor à Deus e ao meu próximo.

Conclusão

O consumo de bebidas alcoólicas não tem proibição na bíblia, recomendando-se moderação caso opte por beber. Há, ainda, recomendações para não consumir, se isso for escandalizar seu irmão e ser causa de tropeço para ele! Considerando todos os contras do consumo de bebidas, opto pela postura de abstenção.

Observação:

Consumir bebidas alcoólicas aumenta as chances de ouvir Pablo, Maiara e Maraísa ou Wesley Safadão, e, por mais esta razão, não recomendo o consumo de bebida alcoólica!

Eeeeeeh sofrência!!!


sábado, 7 de abril de 2018

Algumas considerações em João 1

Lendo João -  capítulo 1 é possível identificar três questões centrais:

1 - Jesus Cristo (Jo 1:1-5 e 32-34):

O Evangelho começa falando de Jesus, não só como aquele que inicia a vida cristã do homem, mas como aquele que é o princípio de todas as coisas, e sem o qual nada teria sido feito!

O Evangelho de João centraliza sua mensagem em Cristo, e não só no ministério de João, trazendo o foco inicial para a realidade de que Jesus é o Verbo.

Neste caminho, João busca esclarecer não apenas que Jesus estava presente no princípio, como também era Deus.

Informa que Jesus é aquele que dá vida ao homem, vida eterna. E essa vida eterna é a nossa luz, e sobre ela as trevas não prevalecerão.

Portanto, o Evangelho é pregar sobre Jesus! Ele tem que ser o centro da nossa mensagem pregada a vivida! O centro de tudo é Jesus Cristo!

2 - O testemunho de João Batista (Jo 1:6-34):

João dá seu testemunho sobre Cristo quatro vezes só no primeiro capítulo, abordando Jesus como o Verbo que se fez carne.

Apresenta Jesus como aquele a quem o mundo não conheceu, ainda que tivesse sido criado por Ele. Como o unigênito do Pai, que dá ao homem que crer o poder de ser filho de Deus. Como aquele que dispensa graça aos homens!

João testifica que batiza com água para o arrependimento, mas que o Cristo viria após ele, e que diante de Jesus ele era indigno de desamarrar suas sandálias.

Testifica também que Jesus é aquele que tira o pecado do mundo! Apresentando-o como o Cordeiro de Deus, anuncia a expiação do pecado na carne de Cristo.

João não se ensoberbece, e nem perde o foco. Ele não toma para si a figura de importância. Embora tivesse um grande ministério de preparar o caminho pra vinda de Cristo, não fez disso razão de exaltação própria. Pelo contrário, se coloca como pior que o mais baixo dos homens, que na época, eram os servos cuja função era tirar as sandálias dos seus senhores. Era a função mais humilhante existente.

João portanto não não eleva sua imagem aos céus, mas reduz a si mesmo como um servo que sequer seria digno de estar curvado diante do Filho, junto ao pó, tirando-lhe as sandálias! Assim como ele, não devemos nos encher de amor próprio por aquilo que fazemos, e sim reconhecer que nosso melhor ainda assim não é nada diante de Deus! Nada que o homem possa fazer tira-o da humilhação natural de ser eternamente dependente de Deus!

3 - O Chamado pra Deus

Cristo nos chama de formas diferentes. André pela pregação de João; a Felipe ordenou que o seguisse; para Natanael demonstrou seu poder. Cristo chamará aos seus, não importa a forma que usará. 

Isso nos alivia, pois sabemos que nossas falhas jamais serão razão para que um filho de Deus não encontre seu Pai (o que não significa dizer que não podemos causar embaraço na caminhada de alguém, muito menos que não prestaremos contas disso)! A eficácia do Evangelho não vem de nossa capacidade de pregação, da nossa logística, carisma e afins. Depende unicamente do chamado de Jesus, que abre olhos e ouvidos que são feitos para o ouvir!


sábado, 31 de março de 2018

Inspector Akane Tsunemori - Vol.1

Fala galera, tudo bem? Um dos meus animes favoritos ganhou um mangá que está sendo vendido pela Panini Comics: Psycho-Pass! 

No mangá, o nome do anime aparece como uma espécie de sub-título.

Descobri que o volume 2 tem previsão de lançamento para a próxima quinta-feira, 5 de abril. Não descobri essa informação pelo site da Panini, e não encontrei o anime no catálogo num primeiro momento, o que eu estranhei, mas eis a razão! O MANGÁ NÃO RECEBEU O NOME DO ANIME, E SIM O DA INVESTIGADORA AKANE TSUNEMORI!!!! Eu estava procurando o mangá na letra "P" da ordem alfabética, quando na verdade deveria procurar na letra "I". E não, o cara da foto não é Akane Tsunemori, é o caçador Shinya Kougami. Essa confusão de capa e nome me lembra das pessoas que acham que Zelda é o loirinho de roupa verde, e neste ponto, acredito que se o nome do mangá é o da investigadora, ainda que não seja necessário que ela apareça em toda capa, que ao menos na primeira isso acontecesse.

Bem, pelo visto serão lançados 6 volumes do mangá, e, embora eu tenha assistido boa parte do anime, vou me ater ao que for revelado a cada volume! Começando pelo primeiro, que nos apresenta a Investigadora Akane Tsunemori e os Caçadores do Departamento de Investigação Criminal da Agência de Segurança Pública e Ministério da Saúde e Bem-Estar. Como estudante de Direito, é interessante ver uma história onde Segurança Pública e Saúde estão intimamente ligadas, levando em conta que no Brasil são analisadas separadamente.

Isto se dá porque a história gira em torno de uma sociedade, cujo crime é prevenido para não ser combatido. Segurança Pública é uma questão de saúde!!! Através do Sistema Sybil, analisa-se o estado mental das pessoas a fim de identificar criminosos latentes. Através de uma análise do seu Psycho-Pass, poder-se-ia apurar que, ainda que um indivíduo não cometesse um crime, viria a cometer no futuro, o que possibilita ao Departamento sua apreensão e tratamento psicológico a fim de restabelecer a saúde  mental.

A Investigadora Akane é apresentada como uma jovem recém saída do colégio, e única qualificada para o cargo de investigadora, em razão das notas e do seu Psycho-Pass. 

Sem dar spoilers (mas dando), me limito à duas informações importantes já reveladas no primeiro mangá: a primeira é que embora considere-se irreversível o quadro de um indivíduo, Akane conseguiu a  reduzir o stress psicológico de uma vítima que sofreu Psicho-Hazard elevado (o stress de um crime torna a vítima ou investigador um criminoso latente), a ponto de mudar o modo de operação do Dominator do tiro letal para paralisante.

Akane demonstra que o Psycho-Hazard pode ser temporário.
Se o nível do Psycho-Hazard é temporário, não necessariamente faz com que o sistema Sybil esteja errado, mas sim que o investigador tem a possibilidade de nem sempre executar a sentença do sistema. O alvo não deixa de ser um criminoso latente, mas talvez a execução não seja necessária, o que mostra uma falha de critérios no oráculo.

A outra, é o próprio conceito de Psycho-Hazard, ou Risco Psicótico, gerado pela insegurança e terror de um crime. A primeira vítima começou com níveis que impossibilitaram a Dominator de disparar em sua direção, e algumas páginas a frente a Dominator ativou o modo execução. É revelado que foi o Psycho-Hazard que fez com que um dos Investigadores se tornar-se um Caçador, e por esta razão Akane a todo momento é aconselhada (mesmo pelos caçadores) a não se envolver demais, e deixar o caso com eles. 



Os traços do desenho são muito bons, mas deixam a desejar em alguns momentos. Se eu não tivesse assistido o anime, algumas cenas seriam difíceis de compreender só pelo mangá. Por outro lado, o desenho não apela para sexualidade, e mesmo para uma riqueza de detalhes. Temos como exemplo, que a cena inicial do estupro da jovem não aparece de forma explícita no mangá, ficando subentendida. 

A história é inteligente! Apresentar e questionar um sistema criminológico que busca criminosos latentes, e a consequência desse sistema na vida das pessoas é genial! Tanto as vítimas quanto os criminosos latentes são pessoas apresentadas sob grande stress psicológico em estar dentro dos padrões regulares do sistema. Isso é apresentado pelas amigas de Akane, que questionam as qualificações dadas pelo Sybil para a vida profissional de cada uma (sim, as profissões são analisadas pelo perfil e Psycho-Pass) e os gastos financeiros para manter o medidor psicológico numa boa média.

Aguardo ansiosamente pelo próximo volume, e pelas novas descobertas!!! O primeiro volume termina com mais um questionamento quando ao Risco Psicótico, apresentando um possível homicida capaz de diminuir o seu Psycho-Pass após a prática do crime!

O que dizer sobre.... As Relações Perigosas

"Quem deixaria de estremecer pensando nas desgraças que pode causar uma só relação perigosa! E quantas mágoas se evitariam refletindo mais nisso! Que mulher não fugiria às primeiras palavras de um sedutor? Que mãe poderia, sem tremer, ver outra pessoa que não ela falar à sua filha? Mas estas reflexões tardias só nos ocorrem depois do acontecimento; e uma das mais importantes verdades, como também uma das mais geralmente reconhecidas, permanece abafada e sem utilidade no turbilhão de nossos costumes incoerentes."



Esse é o trecho da última carta escrita pela Sra. de Volanges no livro que trarei as impressões hoje: As Relações Perigosas, de Chordelos de Laclos.

Eu de fato pensei a mesma coisa lendo a obra do autor francês (que escreveu exatas uma obra), e começo recomendando que todas as jovens, se possível, leiam esse livro em sua mocidade. Os relatos das aventuras do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil são de causar indignação!

Alguns podem atribuir minha indignação à proposta inicial do Visconde de Valmont, em razão da minha cosmovisão cristã. Bem, isto não deixa de estar correto, o que me faz imaginar o efeito do livro na sociedade da época em que foi escrito! A moral que a mim é restrita somente à religião, no século XVII era o critério do homem médio, e regia toda a sociedade!!!

Sendo bem sucinto, a trama gira em torno de seis personagens principais, e é baseada na correspondência dos mesmos, todas em posse da família Resemonde. As cartas teriam chegado até o autor, que as organizou e compilou aquelas aptas a moldar a trama. Choderlos tem como obra este único livro, e, embora não tenha me aprofundado, discute-se a autenticidade das cartas. Ao tempo em que o autor lançou o livro, este foi mal recebido pela sociedade francesa, que recusava-se a crer que tal imoralidade seria possível.

O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil são dois amantes devassos, que desafiam-se a ter relações perigosas, ou seja, relações sensuais e sexuais fora dos padrões sociais e das relações conjugais, sem serem descobertos, ou com objetivo de corromper pessoas a fim de expô-las a sociedade, a fim de a máscara de moralidade seja rompida.

Gostei particularmente da ideia de um livro escrito através de uma compilação de correspondências. É incrível como conseguimos construir um verdadeiro filme (e de fato há um filme!) através da leitura de cartas. Verdadeiras ou não, as cartas interligadas constroem uma trama extremamente atraente!

Desta forma, analisarei cada um dos sete personagens principais, a fim de construir as minhas considerações de acordo com as peculiaridades da trama individual de cada um, começando pelos menos influentes, até aqueles que seriam as grandes mentes das relações.

Sra. de Rosemonde

Não há muito a se falar dela, que em toda a trama teve o papel de confessora da Presidenta de Tourvel, o qual encontrava-se hospedada em sua residência no campo, e na qual as relações perigosas desenvolveram-se. A senhora de Rosemonde é aquela com a qual todas as cartas ficaram no final das tramas pessoais de cada personagem.

É em razão deste fato, que merece destaque que as consequências quanto aos destinos do Cavaleiro Dánceny e de Cécile Volanges não tiveram pior destino. Antes de mais nada, embora a Sra. de Rosemonde houvesse percebido que a Presidenta de Tourvel fora embora de sua casa por sua paixão por Valmont, no que diz respeito a este personagem, os laços familiares impediam que a mesma encontra-se nele as culpas que já eram conhecidas por toda sociedade.

É em razão disto que, apos o duelo entre Dánceny e Valmont, com o óbito deste último, a Sra. de Rosemonde pretendeu levar o caso à justiça e denunciar Dánceny pela morte de seu sobrinho. A recusa de seu preposto em realizar a ordem e dar mais publicidade ao caso, de forma que compromete-se a própria imagem de Valmont deu tempo para Dánceny entregar as correspondências que estavam em sua posse, para que julgasse se deveria dar continuidade ao caso. Desta forma a Sra. de Rosemonde foi responsável pela integridade de Dánceny tanto socialmente, ao não dar publicidade à sua relação com a Marquesa de Merteuil, bem como suas condutas consideradas impróprias em relação a Cécile.

Quanto ao seu papel no destino de Cécile foi bastante discreto! A Sra. de Volanges em determinado momento solicita conselhos acerca das razões de Cécile para ingressar no convento, bem como se deveria intervir em tal decisão. A Sra. de Volanges, que já sabia as razões de tal decisão, aconselhou sua amiga a não questionar os motivos, nem intervir na decisão da filha. Ao fazer isso, preservou não apenas a alegria da amiga, como também o destino da filha que, caso não ingressasse no convento, deveria casar-se com Gecourt, que logo que descobrisse que sua esposa não havia preservado-se e a notícia fosse espalhada, iniciaria um escândalo que condenaria a pequena ao martírio público. .

Sra. Volanges

O papel da Sra. Volanges  mais agravou as intenções dos dois devassos do que teve influência positiva sobre a vida da sua filha. A Sra. Volanges era amiga pessoal da Presidenta de Tourvel, e por diversas vezes alertou a mesma acerca da fama do Visconde Valmont. Seu papel limitou-se a esta tentativa, bem como a dar notícias à Sra. de Rosemonde acerca das últimas notícias sobre a Marquesa de Mertueil.

A Sra. Volanges era amiga da Marquesa, de forma que fora enganada por ela, a fim de que os planos de corromper Cécile fosse frustrados. Ao ver a tristeza da filha, que julgou ser em razão do impedimento de casar-se com Dánceny e do afastamento para a casa da Sra. de Rosemonde a fim de que a filha o esquecesse, a mãe questiona a Marquesa acerca da possibilidade de casar Cécile com Dánceny, abrindo mão da conveniência do casamento pela escolha do coração da filha. A Marquesa de Mertueil levou-a a crer tratar-se de um capricho da menina, e que a mãe não deveria ignorar seu senso sobre o que seria melhor para a filha.

Valmont descobriu que era a Sra. de Valmont que estava interferindo nas suas investidas sobre a Presidenta de Tourvel, e em razão disto decide atirar-se sobre a filha, como vingança pessoal pelas dificuldades que a mãe estava gerando na conquista de seu objetivo.

Deixa de ter influência junto a Presidenta de Tourvel, que somente restabelece as correspondências após cair nos laços de Valmont. Podemos inferir, portanto, que esta personagem está intimamente ligada às decisões e pensamentos racionais da Presidenta, que cessou as correspondências exatamente por não querer receber oposição ao que havia se tornado objeto do seu interesse. Creio que a Presidenta não cessou os contatos por não crer na veracidade do que a amiga dizia, mas simplesmente para ignorar o que era fato e ter razões para não se aproximar do amante.

Cavaleiro Dánceny

Dánceny é um jovem rapaz que visitava a casa da Sra. Volanges, apaixonando-se por sua filha Cécile. É jovem e apaixonado, tendo como característica primaz a ingenuidade. Tamanha ingenuidade que beira a má-fé, visto que, se por um lado acatou a decisão da Sra. de Volanges de afastar-se de sua filha, logo encontrou meios de manter as correspondências com a mesma.

De fato o amor não quer ver distâncias, e para este não há obstáculo que não possa ser transporto com um tanto de empenho. Entretanto, a marginalidade da relação dá a Dánceny contornos de malícia, visto que começou a exigir de Cécile um encontro, e, se hoje é de senso comum que a distância aumenta o desejo de estar junto, e o desejo diminui a prudência, seria inocência não do personagem, mas do leitor, pressupor que as intenções de Dánceny eram meramente o poder declarar-se pessoalmente para sua amada.

Tal opinião encontra amparo no fato de que esse tipo de declaração não ocorrera enquanto estavam próximos em qualquer momento, e as cartas foram sempre a forma de declarações do casal. Outro fato a ser considerado, é que bastaria a prudência para reaproximar-se de Cécile, de forma que o casal dissimulasse o fim do amor pela constância da amizade.

Ocorre que Dánceny a este momento já era amante da Marquesa de Mertueil, de forma que já vivia uma relação perigosa com a mesma, estando disposto, assim como Cécile, a começar outra, independentemente do casamento desta com Gercout. Isso fica evidente, visto que, em carta alguma, embora Dánceny fale de amor, jamais fala de casamento.

E é nesta enganosa auto-imagem de um homem perspicaz que na verdade ele é enganado por Valmont, que levava e recebia as correspondências dos amantes. Valmont o faz declarar a necessidade de incitar Cécile a dar a chave de seu quarto para que este pudesse levar as cartas para ela a noite, enquanto todos dormiam. Em razão do aval do amado, Cécile é estuprada por Valmont, e passa a viver uma relação perigosa com ele.

Dánceny também é enganado pela Marquesa de Mertueil, a fim de alimentar seu ego. É em razão disto, que, após a loucura da Presidenta de Tourvel, estando Cécile sem a vigilância da mãe, em momento algum Dánceny pretendeu o encontro que até então era tão esperado. A Marquesa conseguiu mostrar que a amante era mais desejada que a amada, na medida em que, envolto nos favores sexuais e mimos por parte da amiga e amante, ele ignorava o seio da mulher amada. Dánceny só atentou para a realidade que passara a ignorar a amada quando alertado por Valmont, que longe de ser filantropo e usar da amizade, queria apenas vingar-se da Marquesa, vendo-a ser colocada como a segunda opção de um homem.

Dánceny é o reflexo da visão machista da sociedade, visto que, ao tomar conhecimento da relação de Cécile e Valmont (a forma da Marquesa vingar-se do encontro frustrado), este o desafia para um duelo, mata o rival e depois de um período afastado da sociedade, para não sofrer as consequências do ato, vai embora. Onde está o machismo? Dánceny entrega toda a correspondência de Cécile e a que Valmont o entregou antes de morrer para a Sra. de Rosemonde, e diz não poder aceitar a traição de Cécile, casando-se com ela (o que a Sra. de Volanges pretendeu novamente como opção para não ver a filha no convento). Ora, o mesmo Dánceny que vivia uma relação perigosa com a Marquesa!

Ao menos uma boa consideração pode ser feita sobre o personagem, é que este é responsável pelo desagravo de Prévan, ao entregar para a sociedade francesa a carta na qual a Marquesa narrava a cilada feita para o mesmo, o que possibilitou a sua reabilitação no regimento militar e na sociedade. Após isto, partiu para Malta.

Cécile Volanges

A pequena Cécile é apresentada como uma jovem recém saída do convento, que apaixona-se pelo Cavaleiro, sendo informada posteriormente sobre seu casamento com Gecourt.A inocência de Cécile não é uma questão inerente ao seu espírito, e sim a falta de experiência. Visto que o diabo só nos tenta naquilo que já há em nós, fica claro que a tentação de Cécile revela sua predisposição para a devassidão.

Cécile é enganada pela Marquesa, que pouco a pouco ensina-a sobre as relações perigosas que poderia compor. Vemos isto acontecer de forma gradual, o que revela que os grandes pecados são resultados das pequenas conveniências; que as ardentes paixões ardem mediante pequenas permissões. Primeiro ela se permite confessar amor a Dánceny, o que não era conveniente para uma mulher. Depois ela se permite corresponder em segredo em nome do amor. Para receber as correspondências ela se permite dar a chave do quarto para Valmont; para não ser descoberta, ela tem sua primeira relação com Valmont; com a primeira relação, ela se permite viver os prazeres de uma relação perigosa com Valmont, estando convicta que o casamento com Gecourt não impediria os encontros de Dánceny.

A primeira relação de Cécile e Valmont mudam por completo a pequena Volanges, o que é percebido por sua mãe, que atribui a tristeza da filha ao amor impedido. Na verdade, o sofrimento era em decorrência de que Cécile havia sido estuprada na noite anterior, e, a fim de que não resistisse, foi ameaçada de que seria desonrada, visto que ela mesmo havia entregue a chave, o que demonstraria que ela convidou o Visconde para entrar. É neste contexto que vemos Cécile experimentar, junto a dor de ser violada, lapsos de desejo pela violação, os quais narrou para a Marquesa. Portanto, fica evidente que Cécile não era dotada da inocência atribuída, visto que, seu pesar não foi a violação, mas a vergonha gerada por ela, que cessou logo que a Marquesa a declarou ser um privilégio sentir prazer sexual, ainda que fora do casamento, e sem ser com o homem amado.

Em pouco tempo, para Cécile, prazer sexual e amor tornam-se duas coisas diferentes e desvinculadas. Comprazia-se no prazer sexual com Valmont, sem que para ela o amor de Dánceny fosse menor. Passou a permitir-se o sexo sem amor, visto que o amor lhe era negado. Isto fica evidente no fato de que Cécile pretendia ficar com seu Cavaleiro, mas em momento algum pretendeu não casar com Gecourt.

Cécile no curso da história engravida de Valmont, em razão dos encontros noturnos, vindo a abortar após um acidente gerado por um descuido durante uma das relações com Valmont, que gerou estresse e fortes dores. Um médico em segredo visita-a durante a madrugada e informa sobre a gravidez e perda do bebê, que são recebidas com indiferença pela personagem. Isso só deixa claro a que grau de devassidão a personagem estava entregue, que, recebendo a notícia da maternidade, não sentira amor; ao receber a notícia do aborto, não sentira a tristeza.

A história de Cécile termina com o convento. Após a morte de Valmont e desonra da Marquesa, a pequena foge para um convento, e o livro termina com sua ordenação à freira. Podemos pressupor que tomou conhecimento dos planos da Marquesa. Há de se pensar também que a morte do amante pelas mãos do amado tenha sido a razão do ingresso na vida religiosa.

Presidenta de Tourvel

Hospedada na casa da Sra. de Rosemonde em razão de uma viagem de negócios de seu marido, a Presidenta passa a ser objeto de desejo do Visconde de Valmont. A Presidenta de Tourvel representa a moralidade e religião em seu estado mais intenso e puro, o que se torna o desafio maior do Visconde. Para Valmont, tratava-se de mostrar aos demais concorrentes e mulheres, que era tão bom amante e sedutor, que seria capaz de corromper a mulher mais devota e moral.

A trama de Valmont era tornar-se seu novo deus, sua razão de existir. E, após a conquista, abandonaria a mulher. A Marquesa por diversas vezes duvidara de Valmont, visto que para esta, os valores da fé eram de grande intensidade para a Presidenta que, se por amor a Deus não resistisse ao conquistador, o faria pelo temor ao diabo. Valmont, em contrapartida, queria provar que poderia tornar a seu amor mais forte que a sua culpa.

Confesso que, ao ver a resistência e resoluções finais da Presidenta de Tourvel, tive esperanças de que a mesma não cederia aos encantos do Visconde. Entretanto, posso afirmar que a queda da Presidenta, assim como a de Cécile, começou com pequenas concessões.

A primeira delas, a concessão do ego. A Presidenta julgou-se dona de si e portadora do controle que o Visconde dava a mesma, de forma que sua queda começou na medida em que negociava uma amizade com Valmont. E por julgar-se tão dona de si, entrou no jogo do Visconde, confiando na sua própria resistência.

Conforme a Presidenta foi atraindo-se por Valmont, entrava em uma floresta cada vez mais densa. Bastava parar a caminhada, mas a Presidenta era orgulhosa demais para isso. De repente ela cessa as correspondências com a sua melhor amiga, que lhe apresentava a realidade sobre Valmont. Depois passa a permitir que Valmont lhe envie correspondências, e por fim lhe permite uma visita em sua casa quando não havia ninguém. Neste momento, é possível dizer que a Presidenta já desejava o desfecho da história, não tratando-se de mero fortuito. Afinal, uma mulher casada não deve receber um homem que ela sabe apaixonado por ela, e que ela encontra-se igualmente apaixonada, em casa e sozinha.

A Presidenta de Tourvel perde a sanidade, adoece e morre hospedada também em um convento. Após descobrir a verdade sobre Valmont, a dor lhe é grande, e foge para o convento a fim de se esconder do amante e de seus pecados. Vemos, portanto, que busca na devoção e fé reestabelecer sua sanidade e esquecer o amante. Não contava em receber uma carta de Valmont, que agravou seus nervos, e, após tomar conhecimento da morte do mesmo no duelo com Dánceny, morreu também.

Visconde de Valmont

Valmont é o segundo em importância das tramas que se desenrolam, e a minha maior razão para recomendar este livro a qualquer pessoa. Não por sentir prazer ao ler suas façanhas, mas por ele ser capaz de demonstrar que as piores intenções podem ser escondidas nas melhores condutas. Cada decisão e atitude de Valmont esconde um objetivo.

O objetivo inicial de Valmont era conquistar a Presidenta de Tourvel, e, logo após, dispensá-la e desonrá-la publicamente, a fim de concluir mais um êxito. É um homem que sabe jogar com as palavras e pessoas, o que se demonstra na estima que possui junto a sua tia e no seu carisma. Valmont não poupou esforços no seu empreendimento, valendo-se de suborno, fraudes, filantropia e mesmo uma falsa intenção de converter-se ao Evangelho. Com esta última, através do padre confessor da Presidenta, este a convenceu que um encontro para pedir perdão era necessário para iniciar a vida de devoção de Valmont. Em sentido contrário, já sabendo que a Presidenta o amava, este finge a despedida, após a qual ela lança-se em seus braços, consumando os planos de Valmont. Prova, ao final, que não só estava certo que conquistaria seu alvo, quanto que substituiria sua devoção pela total submissão "da sua pudica". Embora a Presidenta sofresse moralmente, a ideia de que fazia Valmont feliz sobrepunha o sentimento de culpa e, em pouco tempo, a relação perigosa inicia.

No desenrolar desta história, Valmont usa um de seus servos para extraviar a correspondência da Presidenta antes que esta fosse entregue aos destinatários originais, e desta forma descobre os alertas da Sra. de Volanges. Movido por vingança pessoal, aceita um pedido inicial da Marquesa, de começar uma relação perigosa com a pequena Cécile Volanges, a fim de reduzir a mãe à vergonha pública. Valmont engana Dánceny e Cécile, fazendo-se de amigo para facilitar sua investida, e, após atacar Cécile em seu quarto, inicia com ela uma relação. É certo que em determinado momento Valmont informa a Marquesa de que a vergonha do futuro marido de Cécile seria maior, visto que estava certo de sua gravidez, o que se confirmou com o aborto informado algumas cartas depois.

A tragédia final de todos os personagens tem base em dois fatos sobre Valmont. Primeiro, que este se apaixonara pela Presidenta, de forma que, longe de a difamar, começou a ter uma relação estável com ela, mesmo negando esse amor a todo momento. E o segundo motivo, a guerra declarada contra a Marquesa. Sob as provocações dela, dispensou a companhia da Presidenta em uma noite, a fim de provar que não a amava, o que não contava era que esta, por uma trama do destino emparelharia sua carroça com a dele na cidade, descobrindo-o com outra mulher. Por esta razão a Presidenta enlouqueceu no convento. Quanto a declarar guerra com a Marquesa, ao humilhá-la na trama de Dánceny, esta o expôs ao jovem, que o matou em um duelo.

Creio que Valmont só tenha sido nobre em sua morte, entregando para o Cavalheiro todas as correspondências que trocou com a Marquesa, aptas a desagravá-lo junto a sociedade caso acusado do seu assassinato, bem como demonstrar que a amiga e amante do jovem era a autora de toda uma trama para o prejudicar. Com isto, Valmont acaba dando as provas da inocência de Prévan do crime imputado ao mesmo.

Marquesa de Mertueil

Esta é a grande imoral de toda a história, mais ainda do que Valmont! Este ainda tinha nela uma ilusão de igualdade e parceria, enquanto a Marquesa também o manipulava, pelo desejo que o Visconde tinha de deitar-se novamente com ela. Valmont era apaixonado por sua amiga, o que acabou sendo uma motivação a mais para tentar conquistar a Presidenta, visto que a Marquesa prometera uma noite com ele caso obtivesse êxito. A Marquesa escondia-se sob a estima das mulheres mais recatadas da sociedade, com uma imagem de prudência e castidade.

Esta personagem é tão calculista, que, caso uma relação perigosa lhe fosse imputada, seria impossível provar, e, não haveriam pessoas de renome que duvidassem de sua inocência. Fica claro em uma das cartas que, embora fosse amante de Valmont, quando a sociedade francesa tomou conhecimento disto, Valmont ficou com a fama do insucesso, sendo considerada a mulher que resistiu a suas investidas. Isto mostra que tanto Valmont quanto a Marquesa eram bons em esconder seus aliados.

Diferentemente de Valmont, que teve Cécile apenas como uma trama secundária, a Marquesa tinha a pequena como seu plano principal. O objetivo era fazer da pequena Volanges sua discípula, ensinando tudo que sabia sobre manipulação e dissimulação. Para tal objetivo, far-se-ia de amiga da menina e conselheira, a fim de ajudar na relação com o Cavalheiro.

É ela quem incita a pequena a declarar seu amor, a cogitar uma relação perigosa com o Cavalheiro mesmo não casando com ele, e que, após o estupro de Cécile, convence-a de ser uma dádiva a possibilidade de manter a relação com o Visconde. Fazia-se de amiga da mãe, enquanto corrompia a filha. Quanto ao jovem casal, era a amiga da moça, e amante do rapaz.

Tamanho era o prazer da Marquesa em dissimular e enganar, que, para provar sua superioridade, tramou um encontro com um famoso conquistador da época, rival de Valmont, dando acesso ao seu quarto. Quando este lá ingressara, simulou que fora uma invasão e tentativa de estupro, que teve como consequência a expulsão de Prévan da sociedade e sua prisão militar, sem que qualquer dúvida tenha recaído sobre ela. Por mero prazer, enviou um homem para prisão.

A Marquesa é extremamente orgulhosa e narcisista, e por essa razão passa a manipular Valmont, que passara a mostrar mais interesse pela Presidenta do que por ela, ainda que implorasse por uma noite ao lado dela. Fazendo-o pensar que teria uma noite com ela, e escarnecendo da suposta submissão do galã à alguém que não deveria ser importante, e sim uma mera conquista, foi responsável por induzir Valmont a distratar a Presidenta. E, com orgulho ferido por Cécile ter tido a preferência do Cavaleiro, a quem passara a desejar muito como amante, expôs para este a relação perigosa que Cécile vivia com o que então era seu melhor amigo.

Ao final, quando Dánceny expõe as cartas que a Marquesa trocava com Valmont, a sociedade passa a repudiá-la (com direito a vaias e humilhação pública em um baile), ela perde um processo que leva-a à falência e foge de seus credores completamente desfigurada. Ocorre que a Marquesa foi acometida por varíola, ficando desfigurada e perdendo um olho durante a recuperação da doença.

O livro termina, portanto, com dois mortos, uma foragida e uma freira. Não sabemos os acontecimentos que sucedem a história, ficando em reticências o destino final de Cécile e Dánceny. Quanto a este último, é certo que deixara de amar Cécile quando tomou conhecimento da relação com Valmont; quanto a Cécile, há razões para eu crer que já não amava o Cavaleiro, mas sim o seu amante falecido. 

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