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sábado, 31 de março de 2018

Inspector Akane Tsunemori - Vol.1

Fala galera, tudo bem? Um dos meus animes favoritos ganhou um mangá que está sendo vendido pela Panini Comics: Psycho-Pass! 

No mangá, o nome do anime aparece como uma espécie de sub-título.

Descobri que o volume 2 tem previsão de lançamento para a próxima quinta-feira, 5 de abril. Não descobri essa informação pelo site da Panini, e não encontrei o anime no catálogo num primeiro momento, o que eu estranhei, mas eis a razão! O MANGÁ NÃO RECEBEU O NOME DO ANIME, E SIM O DA INVESTIGADORA AKANE TSUNEMORI!!!! Eu estava procurando o mangá na letra "P" da ordem alfabética, quando na verdade deveria procurar na letra "I". E não, o cara da foto não é Akane Tsunemori, é o caçador Shinya Kougami. Essa confusão de capa e nome me lembra das pessoas que acham que Zelda é o loirinho de roupa verde, e neste ponto, acredito que se o nome do mangá é o da investigadora, ainda que não seja necessário que ela apareça em toda capa, que ao menos na primeira isso acontecesse.

Bem, pelo visto serão lançados 6 volumes do mangá, e, embora eu tenha assistido boa parte do anime, vou me ater ao que for revelado a cada volume! Começando pelo primeiro, que nos apresenta a Investigadora Akane Tsunemori e os Caçadores do Departamento de Investigação Criminal da Agência de Segurança Pública e Ministério da Saúde e Bem-Estar. Como estudante de Direito, é interessante ver uma história onde Segurança Pública e Saúde estão intimamente ligadas, levando em conta que no Brasil são analisadas separadamente.

Isto se dá porque a história gira em torno de uma sociedade, cujo crime é prevenido para não ser combatido. Segurança Pública é uma questão de saúde!!! Através do Sistema Sybil, analisa-se o estado mental das pessoas a fim de identificar criminosos latentes. Através de uma análise do seu Psycho-Pass, poder-se-ia apurar que, ainda que um indivíduo não cometesse um crime, viria a cometer no futuro, o que possibilita ao Departamento sua apreensão e tratamento psicológico a fim de restabelecer a saúde  mental.

A Investigadora Akane é apresentada como uma jovem recém saída do colégio, e única qualificada para o cargo de investigadora, em razão das notas e do seu Psycho-Pass. 

Sem dar spoilers (mas dando), me limito à duas informações importantes já reveladas no primeiro mangá: a primeira é que embora considere-se irreversível o quadro de um indivíduo, Akane conseguiu a  reduzir o stress psicológico de uma vítima que sofreu Psicho-Hazard elevado (o stress de um crime torna a vítima ou investigador um criminoso latente), a ponto de mudar o modo de operação do Dominator do tiro letal para paralisante.

Akane demonstra que o Psycho-Hazard pode ser temporário.
Se o nível do Psycho-Hazard é temporário, não necessariamente faz com que o sistema Sybil esteja errado, mas sim que o investigador tem a possibilidade de nem sempre executar a sentença do sistema. O alvo não deixa de ser um criminoso latente, mas talvez a execução não seja necessária, o que mostra uma falha de critérios no oráculo.

A outra, é o próprio conceito de Psycho-Hazard, ou Risco Psicótico, gerado pela insegurança e terror de um crime. A primeira vítima começou com níveis que impossibilitaram a Dominator de disparar em sua direção, e algumas páginas a frente a Dominator ativou o modo execução. É revelado que foi o Psycho-Hazard que fez com que um dos Investigadores se tornar-se um Caçador, e por esta razão Akane a todo momento é aconselhada (mesmo pelos caçadores) a não se envolver demais, e deixar o caso com eles. 



Os traços do desenho são muito bons, mas deixam a desejar em alguns momentos. Se eu não tivesse assistido o anime, algumas cenas seriam difíceis de compreender só pelo mangá. Por outro lado, o desenho não apela para sexualidade, e mesmo para uma riqueza de detalhes. Temos como exemplo, que a cena inicial do estupro da jovem não aparece de forma explícita no mangá, ficando subentendida. 

A história é inteligente! Apresentar e questionar um sistema criminológico que busca criminosos latentes, e a consequência desse sistema na vida das pessoas é genial! Tanto as vítimas quanto os criminosos latentes são pessoas apresentadas sob grande stress psicológico em estar dentro dos padrões regulares do sistema. Isso é apresentado pelas amigas de Akane, que questionam as qualificações dadas pelo Sybil para a vida profissional de cada uma (sim, as profissões são analisadas pelo perfil e Psycho-Pass) e os gastos financeiros para manter o medidor psicológico numa boa média.

Aguardo ansiosamente pelo próximo volume, e pelas novas descobertas!!! O primeiro volume termina com mais um questionamento quando ao Risco Psicótico, apresentando um possível homicida capaz de diminuir o seu Psycho-Pass após a prática do crime!

O que dizer sobre.... As Relações Perigosas

"Quem deixaria de estremecer pensando nas desgraças que pode causar uma só relação perigosa! E quantas mágoas se evitariam refletindo mais nisso! Que mulher não fugiria às primeiras palavras de um sedutor? Que mãe poderia, sem tremer, ver outra pessoa que não ela falar à sua filha? Mas estas reflexões tardias só nos ocorrem depois do acontecimento; e uma das mais importantes verdades, como também uma das mais geralmente reconhecidas, permanece abafada e sem utilidade no turbilhão de nossos costumes incoerentes."



Esse é o trecho da última carta escrita pela Sra. de Volanges no livro que trarei as impressões hoje: As Relações Perigosas, de Chordelos de Laclos.

Eu de fato pensei a mesma coisa lendo a obra do autor francês (que escreveu exatas uma obra), e começo recomendando que todas as jovens, se possível, leiam esse livro em sua mocidade. Os relatos das aventuras do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil são de causar indignação!

Alguns podem atribuir minha indignação à proposta inicial do Visconde de Valmont, em razão da minha cosmovisão cristã. Bem, isto não deixa de estar correto, o que me faz imaginar o efeito do livro na sociedade da época em que foi escrito! A moral que a mim é restrita somente à religião, no século XVII era o critério do homem médio, e regia toda a sociedade!!!

Sendo bem sucinto, a trama gira em torno de seis personagens principais, e é baseada na correspondência dos mesmos, todas em posse da família Resemonde. As cartas teriam chegado até o autor, que as organizou e compilou aquelas aptas a moldar a trama. Choderlos tem como obra este único livro, e, embora não tenha me aprofundado, discute-se a autenticidade das cartas. Ao tempo em que o autor lançou o livro, este foi mal recebido pela sociedade francesa, que recusava-se a crer que tal imoralidade seria possível.

O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil são dois amantes devassos, que desafiam-se a ter relações perigosas, ou seja, relações sensuais e sexuais fora dos padrões sociais e das relações conjugais, sem serem descobertos, ou com objetivo de corromper pessoas a fim de expô-las a sociedade, a fim de a máscara de moralidade seja rompida.

Gostei particularmente da ideia de um livro escrito através de uma compilação de correspondências. É incrível como conseguimos construir um verdadeiro filme (e de fato há um filme!) através da leitura de cartas. Verdadeiras ou não, as cartas interligadas constroem uma trama extremamente atraente!

Desta forma, analisarei cada um dos sete personagens principais, a fim de construir as minhas considerações de acordo com as peculiaridades da trama individual de cada um, começando pelos menos influentes, até aqueles que seriam as grandes mentes das relações.

Sra. de Rosemonde

Não há muito a se falar dela, que em toda a trama teve o papel de confessora da Presidenta de Tourvel, o qual encontrava-se hospedada em sua residência no campo, e na qual as relações perigosas desenvolveram-se. A senhora de Rosemonde é aquela com a qual todas as cartas ficaram no final das tramas pessoais de cada personagem.

É em razão deste fato, que merece destaque que as consequências quanto aos destinos do Cavaleiro Dánceny e de Cécile Volanges não tiveram pior destino. Antes de mais nada, embora a Sra. de Rosemonde houvesse percebido que a Presidenta de Tourvel fora embora de sua casa por sua paixão por Valmont, no que diz respeito a este personagem, os laços familiares impediam que a mesma encontra-se nele as culpas que já eram conhecidas por toda sociedade.

É em razão disto que, apos o duelo entre Dánceny e Valmont, com o óbito deste último, a Sra. de Rosemonde pretendeu levar o caso à justiça e denunciar Dánceny pela morte de seu sobrinho. A recusa de seu preposto em realizar a ordem e dar mais publicidade ao caso, de forma que compromete-se a própria imagem de Valmont deu tempo para Dánceny entregar as correspondências que estavam em sua posse, para que julgasse se deveria dar continuidade ao caso. Desta forma a Sra. de Rosemonde foi responsável pela integridade de Dánceny tanto socialmente, ao não dar publicidade à sua relação com a Marquesa de Merteuil, bem como suas condutas consideradas impróprias em relação a Cécile.

Quanto ao seu papel no destino de Cécile foi bastante discreto! A Sra. de Volanges em determinado momento solicita conselhos acerca das razões de Cécile para ingressar no convento, bem como se deveria intervir em tal decisão. A Sra. de Volanges, que já sabia as razões de tal decisão, aconselhou sua amiga a não questionar os motivos, nem intervir na decisão da filha. Ao fazer isso, preservou não apenas a alegria da amiga, como também o destino da filha que, caso não ingressasse no convento, deveria casar-se com Gecourt, que logo que descobrisse que sua esposa não havia preservado-se e a notícia fosse espalhada, iniciaria um escândalo que condenaria a pequena ao martírio público. .

Sra. Volanges

O papel da Sra. Volanges  mais agravou as intenções dos dois devassos do que teve influência positiva sobre a vida da sua filha. A Sra. Volanges era amiga pessoal da Presidenta de Tourvel, e por diversas vezes alertou a mesma acerca da fama do Visconde Valmont. Seu papel limitou-se a esta tentativa, bem como a dar notícias à Sra. de Rosemonde acerca das últimas notícias sobre a Marquesa de Mertueil.

A Sra. Volanges era amiga da Marquesa, de forma que fora enganada por ela, a fim de que os planos de corromper Cécile fosse frustrados. Ao ver a tristeza da filha, que julgou ser em razão do impedimento de casar-se com Dánceny e do afastamento para a casa da Sra. de Rosemonde a fim de que a filha o esquecesse, a mãe questiona a Marquesa acerca da possibilidade de casar Cécile com Dánceny, abrindo mão da conveniência do casamento pela escolha do coração da filha. A Marquesa de Mertueil levou-a a crer tratar-se de um capricho da menina, e que a mãe não deveria ignorar seu senso sobre o que seria melhor para a filha.

Valmont descobriu que era a Sra. de Valmont que estava interferindo nas suas investidas sobre a Presidenta de Tourvel, e em razão disto decide atirar-se sobre a filha, como vingança pessoal pelas dificuldades que a mãe estava gerando na conquista de seu objetivo.

Deixa de ter influência junto a Presidenta de Tourvel, que somente restabelece as correspondências após cair nos laços de Valmont. Podemos inferir, portanto, que esta personagem está intimamente ligada às decisões e pensamentos racionais da Presidenta, que cessou as correspondências exatamente por não querer receber oposição ao que havia se tornado objeto do seu interesse. Creio que a Presidenta não cessou os contatos por não crer na veracidade do que a amiga dizia, mas simplesmente para ignorar o que era fato e ter razões para não se aproximar do amante.

Cavaleiro Dánceny

Dánceny é um jovem rapaz que visitava a casa da Sra. Volanges, apaixonando-se por sua filha Cécile. É jovem e apaixonado, tendo como característica primaz a ingenuidade. Tamanha ingenuidade que beira a má-fé, visto que, se por um lado acatou a decisão da Sra. de Volanges de afastar-se de sua filha, logo encontrou meios de manter as correspondências com a mesma.

De fato o amor não quer ver distâncias, e para este não há obstáculo que não possa ser transporto com um tanto de empenho. Entretanto, a marginalidade da relação dá a Dánceny contornos de malícia, visto que começou a exigir de Cécile um encontro, e, se hoje é de senso comum que a distância aumenta o desejo de estar junto, e o desejo diminui a prudência, seria inocência não do personagem, mas do leitor, pressupor que as intenções de Dánceny eram meramente o poder declarar-se pessoalmente para sua amada.

Tal opinião encontra amparo no fato de que esse tipo de declaração não ocorrera enquanto estavam próximos em qualquer momento, e as cartas foram sempre a forma de declarações do casal. Outro fato a ser considerado, é que bastaria a prudência para reaproximar-se de Cécile, de forma que o casal dissimulasse o fim do amor pela constância da amizade.

Ocorre que Dánceny a este momento já era amante da Marquesa de Mertueil, de forma que já vivia uma relação perigosa com a mesma, estando disposto, assim como Cécile, a começar outra, independentemente do casamento desta com Gercout. Isso fica evidente, visto que, em carta alguma, embora Dánceny fale de amor, jamais fala de casamento.

E é nesta enganosa auto-imagem de um homem perspicaz que na verdade ele é enganado por Valmont, que levava e recebia as correspondências dos amantes. Valmont o faz declarar a necessidade de incitar Cécile a dar a chave de seu quarto para que este pudesse levar as cartas para ela a noite, enquanto todos dormiam. Em razão do aval do amado, Cécile é estuprada por Valmont, e passa a viver uma relação perigosa com ele.

Dánceny também é enganado pela Marquesa de Mertueil, a fim de alimentar seu ego. É em razão disto, que, após a loucura da Presidenta de Tourvel, estando Cécile sem a vigilância da mãe, em momento algum Dánceny pretendeu o encontro que até então era tão esperado. A Marquesa conseguiu mostrar que a amante era mais desejada que a amada, na medida em que, envolto nos favores sexuais e mimos por parte da amiga e amante, ele ignorava o seio da mulher amada. Dánceny só atentou para a realidade que passara a ignorar a amada quando alertado por Valmont, que longe de ser filantropo e usar da amizade, queria apenas vingar-se da Marquesa, vendo-a ser colocada como a segunda opção de um homem.

Dánceny é o reflexo da visão machista da sociedade, visto que, ao tomar conhecimento da relação de Cécile e Valmont (a forma da Marquesa vingar-se do encontro frustrado), este o desafia para um duelo, mata o rival e depois de um período afastado da sociedade, para não sofrer as consequências do ato, vai embora. Onde está o machismo? Dánceny entrega toda a correspondência de Cécile e a que Valmont o entregou antes de morrer para a Sra. de Rosemonde, e diz não poder aceitar a traição de Cécile, casando-se com ela (o que a Sra. de Volanges pretendeu novamente como opção para não ver a filha no convento). Ora, o mesmo Dánceny que vivia uma relação perigosa com a Marquesa!

Ao menos uma boa consideração pode ser feita sobre o personagem, é que este é responsável pelo desagravo de Prévan, ao entregar para a sociedade francesa a carta na qual a Marquesa narrava a cilada feita para o mesmo, o que possibilitou a sua reabilitação no regimento militar e na sociedade. Após isto, partiu para Malta.

Cécile Volanges

A pequena Cécile é apresentada como uma jovem recém saída do convento, que apaixona-se pelo Cavaleiro, sendo informada posteriormente sobre seu casamento com Gecourt.A inocência de Cécile não é uma questão inerente ao seu espírito, e sim a falta de experiência. Visto que o diabo só nos tenta naquilo que já há em nós, fica claro que a tentação de Cécile revela sua predisposição para a devassidão.

Cécile é enganada pela Marquesa, que pouco a pouco ensina-a sobre as relações perigosas que poderia compor. Vemos isto acontecer de forma gradual, o que revela que os grandes pecados são resultados das pequenas conveniências; que as ardentes paixões ardem mediante pequenas permissões. Primeiro ela se permite confessar amor a Dánceny, o que não era conveniente para uma mulher. Depois ela se permite corresponder em segredo em nome do amor. Para receber as correspondências ela se permite dar a chave do quarto para Valmont; para não ser descoberta, ela tem sua primeira relação com Valmont; com a primeira relação, ela se permite viver os prazeres de uma relação perigosa com Valmont, estando convicta que o casamento com Gecourt não impediria os encontros de Dánceny.

A primeira relação de Cécile e Valmont mudam por completo a pequena Volanges, o que é percebido por sua mãe, que atribui a tristeza da filha ao amor impedido. Na verdade, o sofrimento era em decorrência de que Cécile havia sido estuprada na noite anterior, e, a fim de que não resistisse, foi ameaçada de que seria desonrada, visto que ela mesmo havia entregue a chave, o que demonstraria que ela convidou o Visconde para entrar. É neste contexto que vemos Cécile experimentar, junto a dor de ser violada, lapsos de desejo pela violação, os quais narrou para a Marquesa. Portanto, fica evidente que Cécile não era dotada da inocência atribuída, visto que, seu pesar não foi a violação, mas a vergonha gerada por ela, que cessou logo que a Marquesa a declarou ser um privilégio sentir prazer sexual, ainda que fora do casamento, e sem ser com o homem amado.

Em pouco tempo, para Cécile, prazer sexual e amor tornam-se duas coisas diferentes e desvinculadas. Comprazia-se no prazer sexual com Valmont, sem que para ela o amor de Dánceny fosse menor. Passou a permitir-se o sexo sem amor, visto que o amor lhe era negado. Isto fica evidente no fato de que Cécile pretendia ficar com seu Cavaleiro, mas em momento algum pretendeu não casar com Gecourt.

Cécile no curso da história engravida de Valmont, em razão dos encontros noturnos, vindo a abortar após um acidente gerado por um descuido durante uma das relações com Valmont, que gerou estresse e fortes dores. Um médico em segredo visita-a durante a madrugada e informa sobre a gravidez e perda do bebê, que são recebidas com indiferença pela personagem. Isso só deixa claro a que grau de devassidão a personagem estava entregue, que, recebendo a notícia da maternidade, não sentira amor; ao receber a notícia do aborto, não sentira a tristeza.

A história de Cécile termina com o convento. Após a morte de Valmont e desonra da Marquesa, a pequena foge para um convento, e o livro termina com sua ordenação à freira. Podemos pressupor que tomou conhecimento dos planos da Marquesa. Há de se pensar também que a morte do amante pelas mãos do amado tenha sido a razão do ingresso na vida religiosa.

Presidenta de Tourvel

Hospedada na casa da Sra. de Rosemonde em razão de uma viagem de negócios de seu marido, a Presidenta passa a ser objeto de desejo do Visconde de Valmont. A Presidenta de Tourvel representa a moralidade e religião em seu estado mais intenso e puro, o que se torna o desafio maior do Visconde. Para Valmont, tratava-se de mostrar aos demais concorrentes e mulheres, que era tão bom amante e sedutor, que seria capaz de corromper a mulher mais devota e moral.

A trama de Valmont era tornar-se seu novo deus, sua razão de existir. E, após a conquista, abandonaria a mulher. A Marquesa por diversas vezes duvidara de Valmont, visto que para esta, os valores da fé eram de grande intensidade para a Presidenta que, se por amor a Deus não resistisse ao conquistador, o faria pelo temor ao diabo. Valmont, em contrapartida, queria provar que poderia tornar a seu amor mais forte que a sua culpa.

Confesso que, ao ver a resistência e resoluções finais da Presidenta de Tourvel, tive esperanças de que a mesma não cederia aos encantos do Visconde. Entretanto, posso afirmar que a queda da Presidenta, assim como a de Cécile, começou com pequenas concessões.

A primeira delas, a concessão do ego. A Presidenta julgou-se dona de si e portadora do controle que o Visconde dava a mesma, de forma que sua queda começou na medida em que negociava uma amizade com Valmont. E por julgar-se tão dona de si, entrou no jogo do Visconde, confiando na sua própria resistência.

Conforme a Presidenta foi atraindo-se por Valmont, entrava em uma floresta cada vez mais densa. Bastava parar a caminhada, mas a Presidenta era orgulhosa demais para isso. De repente ela cessa as correspondências com a sua melhor amiga, que lhe apresentava a realidade sobre Valmont. Depois passa a permitir que Valmont lhe envie correspondências, e por fim lhe permite uma visita em sua casa quando não havia ninguém. Neste momento, é possível dizer que a Presidenta já desejava o desfecho da história, não tratando-se de mero fortuito. Afinal, uma mulher casada não deve receber um homem que ela sabe apaixonado por ela, e que ela encontra-se igualmente apaixonada, em casa e sozinha.

A Presidenta de Tourvel perde a sanidade, adoece e morre hospedada também em um convento. Após descobrir a verdade sobre Valmont, a dor lhe é grande, e foge para o convento a fim de se esconder do amante e de seus pecados. Vemos, portanto, que busca na devoção e fé reestabelecer sua sanidade e esquecer o amante. Não contava em receber uma carta de Valmont, que agravou seus nervos, e, após tomar conhecimento da morte do mesmo no duelo com Dánceny, morreu também.

Visconde de Valmont

Valmont é o segundo em importância das tramas que se desenrolam, e a minha maior razão para recomendar este livro a qualquer pessoa. Não por sentir prazer ao ler suas façanhas, mas por ele ser capaz de demonstrar que as piores intenções podem ser escondidas nas melhores condutas. Cada decisão e atitude de Valmont esconde um objetivo.

O objetivo inicial de Valmont era conquistar a Presidenta de Tourvel, e, logo após, dispensá-la e desonrá-la publicamente, a fim de concluir mais um êxito. É um homem que sabe jogar com as palavras e pessoas, o que se demonstra na estima que possui junto a sua tia e no seu carisma. Valmont não poupou esforços no seu empreendimento, valendo-se de suborno, fraudes, filantropia e mesmo uma falsa intenção de converter-se ao Evangelho. Com esta última, através do padre confessor da Presidenta, este a convenceu que um encontro para pedir perdão era necessário para iniciar a vida de devoção de Valmont. Em sentido contrário, já sabendo que a Presidenta o amava, este finge a despedida, após a qual ela lança-se em seus braços, consumando os planos de Valmont. Prova, ao final, que não só estava certo que conquistaria seu alvo, quanto que substituiria sua devoção pela total submissão "da sua pudica". Embora a Presidenta sofresse moralmente, a ideia de que fazia Valmont feliz sobrepunha o sentimento de culpa e, em pouco tempo, a relação perigosa inicia.

No desenrolar desta história, Valmont usa um de seus servos para extraviar a correspondência da Presidenta antes que esta fosse entregue aos destinatários originais, e desta forma descobre os alertas da Sra. de Volanges. Movido por vingança pessoal, aceita um pedido inicial da Marquesa, de começar uma relação perigosa com a pequena Cécile Volanges, a fim de reduzir a mãe à vergonha pública. Valmont engana Dánceny e Cécile, fazendo-se de amigo para facilitar sua investida, e, após atacar Cécile em seu quarto, inicia com ela uma relação. É certo que em determinado momento Valmont informa a Marquesa de que a vergonha do futuro marido de Cécile seria maior, visto que estava certo de sua gravidez, o que se confirmou com o aborto informado algumas cartas depois.

A tragédia final de todos os personagens tem base em dois fatos sobre Valmont. Primeiro, que este se apaixonara pela Presidenta, de forma que, longe de a difamar, começou a ter uma relação estável com ela, mesmo negando esse amor a todo momento. E o segundo motivo, a guerra declarada contra a Marquesa. Sob as provocações dela, dispensou a companhia da Presidenta em uma noite, a fim de provar que não a amava, o que não contava era que esta, por uma trama do destino emparelharia sua carroça com a dele na cidade, descobrindo-o com outra mulher. Por esta razão a Presidenta enlouqueceu no convento. Quanto a declarar guerra com a Marquesa, ao humilhá-la na trama de Dánceny, esta o expôs ao jovem, que o matou em um duelo.

Creio que Valmont só tenha sido nobre em sua morte, entregando para o Cavalheiro todas as correspondências que trocou com a Marquesa, aptas a desagravá-lo junto a sociedade caso acusado do seu assassinato, bem como demonstrar que a amiga e amante do jovem era a autora de toda uma trama para o prejudicar. Com isto, Valmont acaba dando as provas da inocência de Prévan do crime imputado ao mesmo.

Marquesa de Mertueil

Esta é a grande imoral de toda a história, mais ainda do que Valmont! Este ainda tinha nela uma ilusão de igualdade e parceria, enquanto a Marquesa também o manipulava, pelo desejo que o Visconde tinha de deitar-se novamente com ela. Valmont era apaixonado por sua amiga, o que acabou sendo uma motivação a mais para tentar conquistar a Presidenta, visto que a Marquesa prometera uma noite com ele caso obtivesse êxito. A Marquesa escondia-se sob a estima das mulheres mais recatadas da sociedade, com uma imagem de prudência e castidade.

Esta personagem é tão calculista, que, caso uma relação perigosa lhe fosse imputada, seria impossível provar, e, não haveriam pessoas de renome que duvidassem de sua inocência. Fica claro em uma das cartas que, embora fosse amante de Valmont, quando a sociedade francesa tomou conhecimento disto, Valmont ficou com a fama do insucesso, sendo considerada a mulher que resistiu a suas investidas. Isto mostra que tanto Valmont quanto a Marquesa eram bons em esconder seus aliados.

Diferentemente de Valmont, que teve Cécile apenas como uma trama secundária, a Marquesa tinha a pequena como seu plano principal. O objetivo era fazer da pequena Volanges sua discípula, ensinando tudo que sabia sobre manipulação e dissimulação. Para tal objetivo, far-se-ia de amiga da menina e conselheira, a fim de ajudar na relação com o Cavalheiro.

É ela quem incita a pequena a declarar seu amor, a cogitar uma relação perigosa com o Cavalheiro mesmo não casando com ele, e que, após o estupro de Cécile, convence-a de ser uma dádiva a possibilidade de manter a relação com o Visconde. Fazia-se de amiga da mãe, enquanto corrompia a filha. Quanto ao jovem casal, era a amiga da moça, e amante do rapaz.

Tamanho era o prazer da Marquesa em dissimular e enganar, que, para provar sua superioridade, tramou um encontro com um famoso conquistador da época, rival de Valmont, dando acesso ao seu quarto. Quando este lá ingressara, simulou que fora uma invasão e tentativa de estupro, que teve como consequência a expulsão de Prévan da sociedade e sua prisão militar, sem que qualquer dúvida tenha recaído sobre ela. Por mero prazer, enviou um homem para prisão.

A Marquesa é extremamente orgulhosa e narcisista, e por essa razão passa a manipular Valmont, que passara a mostrar mais interesse pela Presidenta do que por ela, ainda que implorasse por uma noite ao lado dela. Fazendo-o pensar que teria uma noite com ela, e escarnecendo da suposta submissão do galã à alguém que não deveria ser importante, e sim uma mera conquista, foi responsável por induzir Valmont a distratar a Presidenta. E, com orgulho ferido por Cécile ter tido a preferência do Cavaleiro, a quem passara a desejar muito como amante, expôs para este a relação perigosa que Cécile vivia com o que então era seu melhor amigo.

Ao final, quando Dánceny expõe as cartas que a Marquesa trocava com Valmont, a sociedade passa a repudiá-la (com direito a vaias e humilhação pública em um baile), ela perde um processo que leva-a à falência e foge de seus credores completamente desfigurada. Ocorre que a Marquesa foi acometida por varíola, ficando desfigurada e perdendo um olho durante a recuperação da doença.

O livro termina, portanto, com dois mortos, uma foragida e uma freira. Não sabemos os acontecimentos que sucedem a história, ficando em reticências o destino final de Cécile e Dánceny. Quanto a este último, é certo que deixara de amar Cécile quando tomou conhecimento da relação com Valmont; quanto a Cécile, há razões para eu crer que já não amava o Cavaleiro, mas sim o seu amante falecido. 

quinta-feira, 8 de março de 2018

O que dizer sobre... Inteligência Humilhada

Essa semana eu vou falar um pouquinho do livro Inteligência Humilhada, escrito por Jonas Madureira, pastor da Igreja Batista da Palavra, em São Paulo. O autor é bacharel em Teologia, e Mestre e Doutor em Filosofia. Eu tive a oportunidade de assisti-lo expor o tema semanas antes do lançamento do livro, no Seminário Teológico Congregacional de Niterói, e fiquei encantado!



Desde já deixo consignado que, se porventura discordem dos apontamentos que farei aqui, trata-se da minha análise do livro, logo, sujeita as minhas limitações teológicas e filosóficas. Aos que admiram o trabalho do Pr. Jonas (sou um destes), peço que embainhem a espada antes de começar a leitura.

Desejei muito ter o livro, e me aprofundar um tanto mais no tema, aprendendo sobre a humilhação inerente ao ser humano. Para minha felicidade, o meu pastor, Reverendo Idauro de Oliveira Campos Júnior, Reitor do Seminário, deu-me de presente na ocasião da minha saída da função de secretário do seminário, que ocorreu por motivos acadêmicos.



Só consegui parar para ler nas últimas semanas, e fiquei extremamente satisfeito. O Pr. Jonas não nos enganou quando escreveu que ora teríamos diante de nós um pastor em gabinete, ora um professor na sala de aula. De fato o livro tem essas sutis mudanças, adotando em parte um tom pastoral na exegese dos textos e aplicação, e por outro lado, um tom acadêmico, caracterizado por uma abordagem mais filosófica e apologética.

O livro aborda o conceito de inteligência humilhada. Serei sucinto, por dois  motivos: primeiro, para te incentivar a ler a obra do Jonas; segundo, para evitar a possibilidade de desonestidade intelectual, na hipótese de alguém precisar ler em algum seminário, e buscar aqui um resumo da obra já pronto.

O Rev. Jonas inspirou-se para escrever sobre o tema a partir da leitura do livro X das Confissões de Agostinho de Hipona, e aborda questões cruciais para compreensão da inteligência humilhada, tais como o conflito entre fideísmo e racionalismo, bem como a adoção de uma teologia sinergista ou monergista como fator de influência no entendimento acerca do conhecimento de Deus e das demais coisas, além da necessidade da revelação especial.

Poder-se-ia dizer que o tema é exaustivamente abordado nos dois primeiros capítulos, nos quais apresenta-se a humilhação de nossa inteligência não como um estado oriundo da queda (embora a queda tenha sim seus efeitos noéticos), mas uma característica inerente ao homem (esteja ele consciente disso ou não), que precisa que Deus revele a Si, a verdade sobre nós mesmos e a verdade sobre o mundo. O conhecimento do homem é melhor desenvolvido quando colocado diante de Deus, em postura de reconhecimento de que dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas. A inconsciência do homem quanto a sua dependência de Deus não muda o fato de que o conhecimento adquirido depende dEle, seja na revelação, seja  na obra do Espírito Santo nos dando entendimento. Portanto, teologia é estudar a Palavra diante de Deus,com oração e humildade.

Considero os capítulos 3 e 4 não como essenciais para abordagem do tema, e sim como a apresentação de questões que norteiam o conceito já explicado nos dois primeiros capítulos. Já o capítulo 5 apresenta a traição dos teólogos, não analisando se cabe razão ao teólogo que valoriza mais a doutrina do que ao que valoriza mais as questões sociais, e sim apontando os dois grupos como desvio da cosmovisão cristã.

O livro é muito bom! Diversos conceitos são apresentados para explicar o tema, mas não se preocupem, o autor não teve qualquer ressalva de explicar cada um deles. Entretanto, duas considerações podem ser feitas. A primeira se dá ao fato de que, ao vir apresentar o tema no Seminário Teológico Congregacional de Niterói, o autor informou ter realizado a busca do conceito em diversos autores na história da igreja, como Agostinho e Pascal. De fato tais autores são citados no curso dos capítulos, entretanto, ansiava ao menos por um capítulo no qual o conceito seria explicado através da visão de cada teólogo, de forma que a obra pudesse ser utilizada para consultas posteriores.

Outro ponto que deixou-me com a impressão de estar faltando alguma coisa foi a apresentação da Teodiceia ao abordar a bondade e soberania de Deus em contraste com a existência do mal no mundo. Embora o tema tenha sido discorrido por diversas páginas, senti falta de um fechamento para o mesmo, quase como se a resposta tivesse ficado em aberto (uma resposta que eu sinceramente gostaria de ler por parte do autor). Deixo claro que neste ponto, talvez eu não tenha sido capaz de compreender corretamente, em função do pouco conhecimento que tenho acerca do tema.

Feitas as duas ressalvas, não poderia deixar de elogiar o método do autor, que faz pouco uso de citações e paráfrases, esforçando-se por apresentar o tema em suas próprias palavras. Esse tipo de escrita me agrada muito, e reflete o esforço do reverendo em ponderar talvez dezenas de obras lidas e extremamente necessárias para formulação daquela única frase onde um conceito é apresentado! As citações são usadas para reforçar conceitos que o próprio autor apresentou com suas palavras.

Recomendo a leitura da obra para aprofundamento nas áreas de Antropologia Bíblica, Cristologia e Teologia Propriamente Dita, com uma boa aplicação em estudos sobre Cosmovisão Cristã (principalmente no capítulo 5) e Revelação Especial. Agradeço ao Reverendo Idauro Campos por presentear-me com a obra, bem como ao Reverendo Jonas Madureira por debruçar-se em horas de estudo para escrever uma obra tão bem fundamentada. Agradeço-o por fazer teologia diante de Deus!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O que dizer sobre... Crime e Castigo

Finalmente concluí a leitura do livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski!!! Tentei ler a primeira vez aos 17 anos de idade, e parei porque os passeios em meio aos delírios e loucura do protagonista logo nos primeiros capítulos quase me levaram a loucura também. Respirei algum tempo (mais exatamente 6 anos) e recomecei a leitura.

Uma cena digna do filme "Abraham Lincoln - O Caçador de Vampiros".

Li uma tradução da Editora Martin Claret que havia aqui em casa, independentemente das discussões envolvendo a editora, e até onde eu sei esta obra não está elencada entre as obras citadas nas ações judiciais e discussões. É uma versão de bolso (embora eu questione bastante qual bolso eles usaram como critério, pois nada no meu armário comporta o livro) com uma capa bem desenhada, que por algum motivo me fez lembrar do poster de Homem de Ferro 3.

Há semelhanças sim!

O livro aborda o crime cometido por Raskolnikóv (segundo a Nota do Tradutor, um nome em cuja etimologia encontra-se a palavra raskol, cisão, simbolizando o caráter cindido e atormentado do personagem). E aqui começa uma questão muito interessante, que seria qualificar o crime cometido.

Quando lemos o crime cometido com olhos da lei, estamos diante da prática de um latrocínio (Art. 157, §3º do Código Penal). Dostoiévski nos apresenta um assassinato de uma velha usurária, por um estudante, com o objetivo de roubar os objetos empenhados e o dinheiro da mesma. Entretanto, mais a frente descobrimos que este não foi o real motivo do crime, e o homicida queria apenas comprovar uma tese formulada por ele em um artigo que escrevera na universidade (discutiremos isso mais tarde).

Os verdadeiros crimes de Raskolnikóv foram um Homicício Duplamente Qualificado (por traição e motivo fútil) com Causa de Aumento de Pena por tratar-se de pessoa idosa, referente à velha usurária; e um Homicídio Qualificado por assegurar a impunidade do homicídio anterior, no que diz respeito à Lasivieta. Muda alguma coisa ser latrocínio ou homicídio? Sim!!! É a diferença entre ter um ladrão disposto a qualquer coisa e um assassino: um tem objetivo de roubar a qualquer custo, o outro só quer matar mesmo. Sinceramente não conheço a legislação penal aplicável em São Petersburgo ao tempo do livro, mas foi bastante interessante analisar com as lentes da legislação penal brasileira (o que inclusive ajuda a compreender o personagem um tanto mais).

Os cenários são bem descritos (do jeitinho que só Dostoiévski faz), de forma que você consegue se sentir abafado pelos ares de uma São Petersburgo suja e quente, e até mesmo sentir-se enlouquecer de claustrofobia no pequeno apartamento de Raskolnikóv. As narrativas do atropelamento de Marmeladov e da loucura de Ekaterina por pouco fizeram-me chorar.

As capas da Martin Claret trabalham com a desnecessária possibilidade de você não compreender a narrativa do autor.
A riqueza da narrativa de Dostoiévski não se restringe à descrição dos cenários, pois não perde qualidade quando diz respeito à construção dos fatos e personagens. Por exemplo, é absurdo como é possível sentir os calafrios de Arkádi pelo vento frio da tempestade, ou mesmo o seu terror no pesadelo da menina promíscua ou no dos ratos que subiam em seu corpo.Não tem jeito de não acabar imerso nos delírios e no ego de Raskolnikóv e gozá-los como se fossem seus, o que se torna contraditório, na medida em que é possível saudar o brilhantismo de Porfíri em cada investida realizada contra o homicida. Os crimes no começo do livro passam como um filme na cabeça do leitor!

Raskolnikóv foi muito bem construído, de forma que eu tentei ler um TCC de psicologia que abordava a temática do livro pra tentar compreendê-lo (não entendi nada do texto e desisti).Um personagem que oscila entre uma grande culpa (que nem ele mesmo sabe explicar) e um exacerbado amor próprio, e que delira a todo momento. Há de se considerar, ainda, a doença nervosa que praticamente colocou sobre si as suspeitas da autoria do crime. Não obstante todo o cuidado para não ser visto, e desconsiderando o amadorismo no crime, foi um desmaio dentro do comissariado de polícia que chamou a atenção para si.

O personagem é afligido no livro por momentos de extrema lucidez alternados por delírios, nos quais ele sequer se recorda de como chegou à determinados lugares. A expectativa de ser descoberto a qualquer momento leva Raskolnikóv à perambular pela cidade escondendo os vestígios do crime, tomado por um vigor violento, mas, logo que exposto ao ambiente externo do seu apartamento, sua energia se esvai com tamanha intensidade que chega mesmo a dormir na relva.

A escolha do título assenta muito bem com o dilema vivido pelo assassino, visto que, ainda que faltassem provas da autoria do crime, Raskolnikóv expõem-se de tal maneira, que em pouco tempo Porfíri já não duvidava dele. Situações como confessar o crime à um policial dentro de uma casa de chá, os embates do Porfíri, visitar o local do crime após uma informação dada pelo próprio comissário de polícia, e lá questionar acerca do sangue no chão (o stress o levou a tal delírio). Nestes momentos, Raskolnikóv goza pela ausência de indícios de autoria que o vinculem ao crime praticado, e até mesmo desafia os comissários a pegá-lo. Raskolnikóv triunfa sua capacidade de dissimular culpa, inocência, doença e até mesmo loucura.

Em contrapartida, há momentos no qual o personagem se torna taciturno e sente o peso de uma culpa que ele mesmo não consegue explicar. Ainda que alegue que seu grande descontentamento é ter hesitado na prática do crime, de forma que não poderia ser considerado um homem extraordinário, Raskolnikóv evidencia uma culpa que, não assumida pela sua razão (amante de si mesma) é carregada por um senso de moralidade contra o qual luta a todo instante. Podemos usar como exemplo que, após socorrer Marmeladov e ter o sangue deste na sua roupa e ser informado disto, toma um ar mais sério e declara que realmente ele está todo coberto de sangue, o que é uma clara reflexão sobre os assassinatos. Ou quando declara que não foi a velha que ele matou, e sim a si mesmo.

Raskolnikóv inconscientemente sente necessidade de ser remido pelo seu crime (visto que conscientemente ele considera que não pode ser considerado criminoso por ser extraordinário), e, em momentos como estes, dá todo o dinheiro que tem à uma viúva ou tenta impedir uma mulher embriagada de ser molestada por um homem que a seguia. Raskolnikóv tenta, a todo momento provar que não estava errado, ao tentar fazer do mundo um lugar melhor.

Agora o crime!!! Não, Raskolnikóv não sentiu fome e roubou para comer! Ele matou porque se considerava superior! Como assim? Na universidade Raskolnikóv escreveu um artigo no qual apresentava uma tese na qual afirmava que há homens ordinários e extraordinários, e que estes últimos estão acima da lei, reformulando-as ou ignorando-as para mudar o mundo. Usa como um dos exemplos Napoleão e todas as mortes vinculadas ao mesmo, que, ao invés de lançar sobre ele o estigma de assassino, são celebradas junto com suas vitórias civis.

Ocorre que Raskolnikóv considera-se um desses homens, e a fim de comprovar sua tese, planeja assassinar a velha usurária e usar o seu dinheiro para custear a sua ascensão, não por necessidade financeira, mas por recusar-se ser considerado um dos homens comuns, aos quais todas as leis são imputadas. Raskolnikóv mesmo admite isto, comparando-se com Razumikhim, um exemplo de esforço e juízo (menos quando está bêbado). A própria situação financeira de Raskolnikóv é questionável, visto que o mesmo poderia dar aulas para custear seus estudos, optando, em sentido contrário por ficar deitado em seu divã durante dias, apenas pensando e sem vontade alguma de trabalhar. Somos apresentados à um Raskolnikóv ainda mais doentio: diferente de um homem que matou por dinheiro, um homem que matou por matar. Não há como negar este fato, na medida em que durante toda a narrativa não há um momento no qual o assassino pense em usar o fruto do roubo (não por medo ser pego, ele simplesmente não pensa no que roubou), não tendo sequer abrido as bolsas para saber o que tinha dentro.

Raskolnikóv sendo um dos homens extraordinários do mundo.
Os personagens secundários e suas histórias não deixam a desejar. Em alguns momentos, os dramas secundários chegam a ser mais intensos que o principal! Histórias bem construídas e vinculadas. Personagens com os mais variados perfis. Meu destaque vai para Porfíri, com jogos psicológicos e artimanhas dignas do "L" e Kira de Death Note! Aliás, acredito que Tsugumi Ohba tenha realmente lido Crime e Castigo... É muita coincidência mais alguém criar um estudante homicida e genial (sim, não nego que Raskolnikóv é de certa forma um gênio) e um policial igualmente genial, que já tem o assassino antes da evidência.

Porfíri e Raskolnikóv.


No fim, o personagem só encontra a paz de espírito que tanto ansiava no amor de Sônia, filha de Marmeladov, que o seguiu até a Sibéria, local no qual cumpria a pena pelo crime. Aliás, foi por esta mulher que ele se entregara à polícia, visto, não obstante Porfíri descobri-lo, houve um terceiro que por motivos de autopenitência confessou o crime no momento em que Raskolnikóv seria preso (após uma maravilhosa tortura psicológica). De fato, é compreensível que a única coisa forte o suficiente para transpor o amor próprio (que no caso de Raskolnikóv é o que impede sua reabilitação e superação da culpa) é o amor a outra pessoa. Ir para a Sibéria punir seu corpo pelo crime cometido não surtiu nenhum efeito até o amor por Sônia rasgar sua alma, momento no qual ele encontra redenção.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Por que "Ironias do Amor" é o meu filme favorito!

Eu tenho dois filmes favoritos: "Ironias do Amor" e "Scott Pilgrim vs. O mundo"! O segundo não tem muitas razões para a escolha, a não ser o fato de que eu ainda tenho algumas raízes nerds que englobam todos os elementos do filme, desde a música ao formato gamer da história! Já o primeiro filme, eu o assisti em 2012 pela primeira vez, e tenho minhas razões para considerar este o melhor filme de comédia romântica que existe! 



Talvez vocês procurem uma sinopse do filme aí no Google, mas eu evitei fazê-lo, pois talvez parte do diferencial do filme pra mim seja a minha forma de interpretar a história. Portanto, farei a minha própria sinopse!

O filme conta a história de amor de Charlie Bellow, um estudante de administração cujo o único objetivo aparente de vida é trabalhar na empresa na qual o seu pai trabalhou a vida inteira. Charlie é um típico gentleman inglês (com direito a carregar lencinho), um daqueles caras que a gente olha e pensa: "Nasceu no século errado". Eu acabei por me identificar muito com o personagem na época que assisti o filme, em razão da simplicidade excessiva das suas posições, e uma inocência que beira a lerdeza, que podemos considerar uma falta de conhecimento próprio.

O que eu mais aprecio no personagem é a importância que ele dá à questões que atualmente são relativizadas, o que percebe-se nos primeiros diálogos do filme com seu melhor amigo Léo, no qual este questiona seu amigo sobre a importância que ele dá ao envolvimento emocional, desafiando Charlie a encontrar, no parque onde estavam, uma mulher com a qual ele dormiria sem precisar conhecer. Charlie conserva o relacionamento como algo que vai além da satisfação sexual e sentimental, de forma que não cede, ainda que constrangido por seu amigo a sentir-se um idiota por ser tão "antiquado".


E no contexto desse desafio, ele vê pela primeira vez Jordan Roark: uma bela mulher visivelmente embriagada vociferando com outro homem. Naquele mesmo dia, Charlie salva a sua vida na estação de metrô, episódio no qual ela desmaia e é "sequestrada" pelo personagem. É a partir deste momento que começa uma linda história de amor, com direito a concussões, ferimentos, destruição de uma carreira estável, um quase afogamento e outras tantas desventuras, as quais não entrarei em detalhes.






Jordan foge de qualquer clichê de personagem de filme romântico. Passa boa parte do filme embriagada, discutindo com homens e crianças, e principalmente sabotando a vida de Charlie, agredindo-o e fazendo-o passar por toda forma de constrangimento, o que inclui comentários sobre a inatividade sexual do casal na grande entrevista de emprego de Charlie. No curso do filme é normal até mesmo torcer para que os dois não fiquem juntos, por compaixão do protagonista, que em conversa com seu Léo coloca sobre a mesa o pró e contras de estar com Jordan:


"Motivos para parar de ver ela:

1 - Perigo físico eminente;
2 - Boas chances de ela partir meu coração;
3 - Ela sabota a minha carreira;
4 - Ela com certeza é louca;
5 - Parece que ela gosta de me ver sofrendo;
6 - Ela tem uma bagagem emocional que assusta qualquer um;
7 - Eu não dei nenhum beijo nela, pelo amor de Deus!
8 - Ela está arruinando a minha vida;

E os motivos para continuar vendo ela?

1 - Eu to apaixonado por ela."

Pois é gente.... Quando o amor chega não tem jeito! Essa é a beleza do filme pra mim!!!

Ele mostra que o amor não tem uma fórmula ou pressupostos. Acontece! Mostra também que as pessoas amam como sabem amar, com suas peculiaridades. Alguns gostam de ouvir música no mesmo fone, Charlie e Jordan gostam de trocar tapas na estação de metrô e dançar em lugares aleatórios. E no amor, Charlie descobre o homem que ele realmente queria ser, e não o homem que esperavam que ele fosse!

Isso fica mais evidente em Jordan, que vai além da insensibilidade provocada pelo álcool, e, embora bruta e impulsiva, o objetivo dela não é bem ferir (na verdade é sim) ou sabotar Charlie. É a forma dela de amar, ao menos no período da vida dela que está passando, o que torna tudo bonito pra mim. 


Como bom cristão protestante de pressupostos reformados eu também acho bastante legal a forma como o casal tenta entregar o seu futuro à casualidade, ao destino, tentando usar seus desencontros como um evidências de que não nasceram para ficar juntos!

Então, sem entrar em detalhes (tem que ver o filme!), apenas no final do filme é revelado como eles estavam enganados, e como cada acontecimento no filme foi para que ficassem juntos no final! Como eu disse, é uma análise pessoal, e o que eles chamam de destino, eu chamo de... Destino! Mas um destino decretado por um Deus que reina soberano sobre todas as coisas, e não por uma força natural de probabilidades.

Pra mim a relação de Jordan e Charlie mostram de maneira bastante simples como o destino é uma realidade, mas que embora predeterminado, precisava da ação dos dois. Não quero dizer que a decisão final era deles, pois não creio nisso, mas que a ação deles era necessária e consciente. É uma forma romântica pra mim de tentar ponderar os decretos de Deus e a Livre Agência do homem. Como o próprio Charlie declara, é necessário sair de casa para encontrar o seu amor!

Quando se declara no filme que destino é a ponte que se constrói até a pessoa amada, se declara nada mais nada menos que o destino é real, mas o agir é necessário para trazer aquilo que já era um decreto à realidade.

O final do filme é um divisor de águas, e também me marcou por mostrar que as pessoas são mais do que aparentam ou declaram, e dá vontade de assistir o filme todo de novo, observando cada cena com os olhos abertos pelo que é revelado pelo casal nas cartas que escrevem um para o outro!  Jordan é mais do aparenta, e Charlie só foi capaz de conhecer a mulher que ela é, porque a amou, ainda que não tivesse motivos. E eu só fui capaz de descobrir quem era Jordan porque tive a paciência de não tacar o controle na televisão com raiva dela por todo desgosto que fez Charlie suportar!

Seis anos depois, segue sendo o meu filme favorito, por mostrar que o amor é peculiar, é coisa do casal, que tem sua forma de amar, e que tudo sofre - e como sofreu! - tudo crê, tudo espera e tudo suporta (1 Coríntios 13:7). É meu filme favorito por mostrar que o amor nos vira do avesso, e as vezes põe por terra tudo aquilo que tínhamos como certeza!

Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...