Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de abril de 2018

Considerações sobre o livro "Contra a Idolatria do Estado"

Oi, tudo bem? O livro que tive o prazer de ler nos últimos dias para trazer uma análise neste blog foi o "Contra a Idolatria do Estado", escrito por Franklin Ferreira, e lançado pela Edições Vida Nova! Pra quem não conhece o autor da obra, ele é bacharel em Teologia pela Universidade Mackenzie e mestre em Teologia pelo Seminário Batista do Sul (RJ). Ele também é diretor do Seminário Martin Bucer e consultor acadêmico da Edições Vida Nova. O livro é realmente bom! Sério!



O livro aborda a questão da idolatria do Estado de forma fundamentada tanto na Palavra quanto nos dados científicos e sociais acerca da política e sociedade brasileira. É certo que a crítica do autor é visivelmente direcionada aos indivíduos que habitualmente denominamos "de esquerda". Para o autor, tais indivíduos idolatram o Estado, numa espécie de adoração ao dinheiro e poder estatal.

No tocante ao dinheiro, é interessante como o autor aborda o amor à riqueza dentro de um Estado, que, independente da inclinação política para o socialismo, é na verdade capitalista. Franklin Ferreira aborda o fato de que o socialismo vive de forma capitalista, com a diferença que ama e almeja a riqueza, desde que esta pertença ao Estado. Isso me lembrou muito uma postagem que eu vi, onde estava escrito que o capitalismo de verdade deixa a esquerda erguer sua voz, enquanto vende camisa do Che Guevara aos seus adeptos.

É interessante como o autor, antes de entrar no mérito da Idolatria do Estado já nos apresenta a postura correta a ser tomada por um cristão que atua na política, usando o livro de Ester como exemplo para as seguintes posturas que posso resumir: (1) compreender que a própria salvação e do povo depende de Deus, e não do Estado, mesmo quando a corrupção e o mal aparentam prevalecer; (2) o cristão deve lutar pela justiça segundo a Palavra, ainda que despojada da linguagem da fé; (3) incentivar os grupos nos quais esteja inserido a agir e dar suporte àqueles que atuam diretamente na política.

O ponto 2 me chamou muito a atenção, porque de fato o livro de Ester não tem aquela linguagem da fé, qual seja, alusão expressa à Palavra de Deus na fala e justificativa de posicionamentos e atitudes. Ester e seu tio vivem segundo a Palavra, mas diante do rei a fala não é teológica, embora totalmente centralizada naquilo que o Senhor ensina! 

É possível, portanto, ser um jurista ou qualquer outra função, propor e executar políticas públicas dentro da Lei de Deus, mas com fundamentos nos princípios e leis seculares. Exemplo: Ao invés de dizer que matar é crime em razão do mandamento do Senhor,  defender tal posição no direito fundamental a vida!

Isso é possível, em razão da lei moral inerente a todos os homens, cuja revelação natural aponta a irregularidade de tais condutas, mesmo sem a revelação especial. 

Como bem justificado pelo autor, tal posição permite de maneira eficaz a inserção do cristão no mundo, visto que podemos nos unir a movimentos e grupos em defesa daquilo que a Palavra ensina, ainda que não seja a motivação do referido grupo.

Após essa primeira reflexão o autor entra de fato no tema da idolatria do Estado, usando como base o primeiro capítulo da carta de Paulo aos Romanos, na qual ele apresenta a recusa da revelação geral em conjunto com a idolatria do Estado, na medida em que a troca do Deus incorruptível pela imagem de aves, quadrúpedes e répteis seria alusão aos estandartes dos exércitos romanos e a figura do imperador. Vendo desta forma, a mensagem de Paulo seria subversiva, direcionada ao povo que negava a revelação geral e depositava a sua fé no imperador e seu poder político.

Apresenta também os limites de obediência ao Estado, usando como base os textos de Romanos 13:1-7 e Atos 5: 14-36, a fim de provar que o cristão deve se submeter às autoridades legítimas, definidas como aquelas que punem o mal e recompensam o bem com serviço público e proteção. Quando houver colisão entre a lei o a Palavra, o cristão é livre para se opor à lei.

O autor separa um momento para trazer alguns conceitos como direita, esquerda e afins, alegando que o Brasil não possui partidos de direita, e que a maior parte dos partidos políticos atuais tem sua cartilha pautada nos ideias da esquerda e extrema esquerda. Acusa-os, portanto, de ludibriar a sociedade, ao taxar de direita os partidos de centro, de extrema direita os de direita, como se a cartilha da esquerda no Brasil fosse de centro, e a extrema esquerda fosse a esquerda.

Ele também critica a prática de alguns socialistas na defesa dos ideais da esquerda, por sempre compararem os ideais socialistas com o pior do capitalismo, a fim de apresentar este como um vilão; quando na verdade deveriam comparar a esquerda e direita como ocorrem na realidade, usando como exemplo Alemanha Oriental e Ocidental, ou Coréia do Sul e Norte, pois apresentaram os dois espectros políticos dentro da mesma sociedade ao mesmo tempo.

Embora ele faça esta crítica, que não deixa de ser instigante, acaba de certa forma dando uma bola fora, e faz a mesma coisa quando vai conceituar esquerda e direita, apresentando esta última como o espectro político que privilegia as liberdades pessoais e econômicas, garantias de direitos e afins; enquanto apresenta a esquerda como um modelo de pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica, e faz uso de termos como "domínio" do Estado sobre todas as esferas da sociedade. Quem está acostumado a ler e escrever sabe que a escolha de palavras é uma chave mestra pra conduzir opiniões. O autor apresenta um segundo conceito para cada um dos dois espectros, e faz a mesma coisa, quando apresenta a direita como igualdade e liberdade, e a esquerda como um sacrifício da liberdade em prol da igualdade de poder. Ora, tanto a esquerda quanto a direita trabalham com o sacrifício da liberdade, visto que ambas trabalham com o conceito de contrato social do Estado.

Após apresentar estes conceitos, o autor apresenta a visão reformada sobre a relação do cristão com o mundo, de forma que família, indivíduo, igreja, trabalho, artes e escola são esferas independentes do Estado, que coexistem e extraem sua autoridade somente de Deus. O Estado tem o papel mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito, ou para defender os fracos contra o abuso dos demais.

O cristão deve ter em mente que ética e governo sob a vontade de Deus não passam obrigatoriamente pela conversão de todas as pessoas, nem em colocar cristãos professos em cargos políticos (o que não é afirmar que um cristão não deve exercer um), mas sim em contribuir para que a lei de Deus seja reconhecida por todos. Cristãos e incrédulos podem se unir na luta contra males comuns aos dois grupos: o primeiro grupo o fará por amor ao Senhor, o segundo, pelo senso de moralidade.

O autor aponta a república como o melhor sistema político, pois somente Deus é capaz de concentrar em si todo o poder. A república é uma necessidade, em razão da inclinação do homem ao pecado e ao abuso; e é uma possibilidade, visto que a graça de Deus habilita os homens à justiça. Devemos considerar, por estas afirmações, que o Estado não é a solução para a sociedade, e o melhor que ele pode fazer é refrear a injustiça causada pelo pecado.

Nos últimos tópicos o autor faz uma afirmação com a qual tive que discordar, e justifico minhas razões. Ele afirma que o Estado não se preocupa com a segurança pública, porque está muito ocupado na busca por privilégios para os que cometeram crimes. Ora, tal afirmação é um tanto descuidada, pelos seguintes motivos:

  1. Primeiro que a afirmação fica confusa, dentro de um estado com tripartição de poderes. Quem executa as medidas penais é o Poder Judiciário, dentro do Princípio da Legalidade, ou seja, mediante a aplicação daquilo que a lei (Código Penal, Código Processual Penal...) determina. Logo, o Estado, na figura da Espada, faz aquilo que a lei já prevê;
  2. Essa afirmação entra em conflito com informações trazidas pelo próprio autor, como a superlotação dos presídios e principalmente o dever do Estado de garantir a dignidade da pessoa humana. A preocupação do Estado com a política penitenciária não é "dar privilégios aos presos", mas sim de garantir que estes cumpram suas penas dentro de parâmetros que assegurem a sua dignidade, como salubridade e exercício do poder de família.
Também aborda a luta da igreja alemã no período da Segunda Guerra Mundial, e encerra o livro com algumas dicas para os cristãos elegerem seus políticos com mais consciência e segurança. 

Recomendo muito mesmo a leitura do livro que, salvo as pequenas ponderações já faladas, foi capaz de satisfazer as minhas expectativas. Peço a maturidade do leitor durante a leitura, visto que se tratam das minhas ponderações sobre o livro, e sei que há aqueles que discordarão, e também aqueles que farão a leitura com a mão na espada, numa típica postura de idolatria ao teólogo. Sério, isso acontece mesmo no meio reformado! São as minhas considerações do livro, julgue-as e retenha o que for bom!

Melhor Jair começando a leitura hein...


Até a próxima postagem!!!

OBS: A FOTO DO CANDIDATO ACIMA NÃO CARACTERIZA APOIO POLÍTICO, E FOI USADA APENAS PELO TROCADILHO COM O NOME E POR SER O ÚNICO QUE EU VI COM A OBRA EM MÃOS! PARA SER JUSTO, COLOCAREI UMA FOTO DE OUTRO CANDIDATO REALIZANDO UMA LEITURA:

Paulo Coelho? Dá pra ler até de cabeça pra baixo!

EU ME RECUSO A DIZER EM QUEM VOTAREI. PODE NÃO SER EM NENHUM DOS DOIS! O VOTO É SECRETO!

quinta-feira, 8 de março de 2018

O que dizer sobre... Inteligência Humilhada

Essa semana eu vou falar um pouquinho do livro Inteligência Humilhada, escrito por Jonas Madureira, pastor da Igreja Batista da Palavra, em São Paulo. O autor é bacharel em Teologia, e Mestre e Doutor em Filosofia. Eu tive a oportunidade de assisti-lo expor o tema semanas antes do lançamento do livro, no Seminário Teológico Congregacional de Niterói, e fiquei encantado!



Desde já deixo consignado que, se porventura discordem dos apontamentos que farei aqui, trata-se da minha análise do livro, logo, sujeita as minhas limitações teológicas e filosóficas. Aos que admiram o trabalho do Pr. Jonas (sou um destes), peço que embainhem a espada antes de começar a leitura.

Desejei muito ter o livro, e me aprofundar um tanto mais no tema, aprendendo sobre a humilhação inerente ao ser humano. Para minha felicidade, o meu pastor, Reverendo Idauro de Oliveira Campos Júnior, Reitor do Seminário, deu-me de presente na ocasião da minha saída da função de secretário do seminário, que ocorreu por motivos acadêmicos.



Só consegui parar para ler nas últimas semanas, e fiquei extremamente satisfeito. O Pr. Jonas não nos enganou quando escreveu que ora teríamos diante de nós um pastor em gabinete, ora um professor na sala de aula. De fato o livro tem essas sutis mudanças, adotando em parte um tom pastoral na exegese dos textos e aplicação, e por outro lado, um tom acadêmico, caracterizado por uma abordagem mais filosófica e apologética.

O livro aborda o conceito de inteligência humilhada. Serei sucinto, por dois  motivos: primeiro, para te incentivar a ler a obra do Jonas; segundo, para evitar a possibilidade de desonestidade intelectual, na hipótese de alguém precisar ler em algum seminário, e buscar aqui um resumo da obra já pronto.

O Rev. Jonas inspirou-se para escrever sobre o tema a partir da leitura do livro X das Confissões de Agostinho de Hipona, e aborda questões cruciais para compreensão da inteligência humilhada, tais como o conflito entre fideísmo e racionalismo, bem como a adoção de uma teologia sinergista ou monergista como fator de influência no entendimento acerca do conhecimento de Deus e das demais coisas, além da necessidade da revelação especial.

Poder-se-ia dizer que o tema é exaustivamente abordado nos dois primeiros capítulos, nos quais apresenta-se a humilhação de nossa inteligência não como um estado oriundo da queda (embora a queda tenha sim seus efeitos noéticos), mas uma característica inerente ao homem (esteja ele consciente disso ou não), que precisa que Deus revele a Si, a verdade sobre nós mesmos e a verdade sobre o mundo. O conhecimento do homem é melhor desenvolvido quando colocado diante de Deus, em postura de reconhecimento de que dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas. A inconsciência do homem quanto a sua dependência de Deus não muda o fato de que o conhecimento adquirido depende dEle, seja na revelação, seja  na obra do Espírito Santo nos dando entendimento. Portanto, teologia é estudar a Palavra diante de Deus,com oração e humildade.

Considero os capítulos 3 e 4 não como essenciais para abordagem do tema, e sim como a apresentação de questões que norteiam o conceito já explicado nos dois primeiros capítulos. Já o capítulo 5 apresenta a traição dos teólogos, não analisando se cabe razão ao teólogo que valoriza mais a doutrina do que ao que valoriza mais as questões sociais, e sim apontando os dois grupos como desvio da cosmovisão cristã.

O livro é muito bom! Diversos conceitos são apresentados para explicar o tema, mas não se preocupem, o autor não teve qualquer ressalva de explicar cada um deles. Entretanto, duas considerações podem ser feitas. A primeira se dá ao fato de que, ao vir apresentar o tema no Seminário Teológico Congregacional de Niterói, o autor informou ter realizado a busca do conceito em diversos autores na história da igreja, como Agostinho e Pascal. De fato tais autores são citados no curso dos capítulos, entretanto, ansiava ao menos por um capítulo no qual o conceito seria explicado através da visão de cada teólogo, de forma que a obra pudesse ser utilizada para consultas posteriores.

Outro ponto que deixou-me com a impressão de estar faltando alguma coisa foi a apresentação da Teodiceia ao abordar a bondade e soberania de Deus em contraste com a existência do mal no mundo. Embora o tema tenha sido discorrido por diversas páginas, senti falta de um fechamento para o mesmo, quase como se a resposta tivesse ficado em aberto (uma resposta que eu sinceramente gostaria de ler por parte do autor). Deixo claro que neste ponto, talvez eu não tenha sido capaz de compreender corretamente, em função do pouco conhecimento que tenho acerca do tema.

Feitas as duas ressalvas, não poderia deixar de elogiar o método do autor, que faz pouco uso de citações e paráfrases, esforçando-se por apresentar o tema em suas próprias palavras. Esse tipo de escrita me agrada muito, e reflete o esforço do reverendo em ponderar talvez dezenas de obras lidas e extremamente necessárias para formulação daquela única frase onde um conceito é apresentado! As citações são usadas para reforçar conceitos que o próprio autor apresentou com suas palavras.

Recomendo a leitura da obra para aprofundamento nas áreas de Antropologia Bíblica, Cristologia e Teologia Propriamente Dita, com uma boa aplicação em estudos sobre Cosmovisão Cristã (principalmente no capítulo 5) e Revelação Especial. Agradeço ao Reverendo Idauro Campos por presentear-me com a obra, bem como ao Reverendo Jonas Madureira por debruçar-se em horas de estudo para escrever uma obra tão bem fundamentada. Agradeço-o por fazer teologia diante de Deus!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O que dizer sobre... Crime e Castigo

Finalmente concluí a leitura do livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski!!! Tentei ler a primeira vez aos 17 anos de idade, e parei porque os passeios em meio aos delírios e loucura do protagonista logo nos primeiros capítulos quase me levaram a loucura também. Respirei algum tempo (mais exatamente 6 anos) e recomecei a leitura.

Uma cena digna do filme "Abraham Lincoln - O Caçador de Vampiros".

Li uma tradução da Editora Martin Claret que havia aqui em casa, independentemente das discussões envolvendo a editora, e até onde eu sei esta obra não está elencada entre as obras citadas nas ações judiciais e discussões. É uma versão de bolso (embora eu questione bastante qual bolso eles usaram como critério, pois nada no meu armário comporta o livro) com uma capa bem desenhada, que por algum motivo me fez lembrar do poster de Homem de Ferro 3.

Há semelhanças sim!

O livro aborda o crime cometido por Raskolnikóv (segundo a Nota do Tradutor, um nome em cuja etimologia encontra-se a palavra raskol, cisão, simbolizando o caráter cindido e atormentado do personagem). E aqui começa uma questão muito interessante, que seria qualificar o crime cometido.

Quando lemos o crime cometido com olhos da lei, estamos diante da prática de um latrocínio (Art. 157, §3º do Código Penal). Dostoiévski nos apresenta um assassinato de uma velha usurária, por um estudante, com o objetivo de roubar os objetos empenhados e o dinheiro da mesma. Entretanto, mais a frente descobrimos que este não foi o real motivo do crime, e o homicida queria apenas comprovar uma tese formulada por ele em um artigo que escrevera na universidade (discutiremos isso mais tarde).

Os verdadeiros crimes de Raskolnikóv foram um Homicício Duplamente Qualificado (por traição e motivo fútil) com Causa de Aumento de Pena por tratar-se de pessoa idosa, referente à velha usurária; e um Homicídio Qualificado por assegurar a impunidade do homicídio anterior, no que diz respeito à Lasivieta. Muda alguma coisa ser latrocínio ou homicídio? Sim!!! É a diferença entre ter um ladrão disposto a qualquer coisa e um assassino: um tem objetivo de roubar a qualquer custo, o outro só quer matar mesmo. Sinceramente não conheço a legislação penal aplicável em São Petersburgo ao tempo do livro, mas foi bastante interessante analisar com as lentes da legislação penal brasileira (o que inclusive ajuda a compreender o personagem um tanto mais).

Os cenários são bem descritos (do jeitinho que só Dostoiévski faz), de forma que você consegue se sentir abafado pelos ares de uma São Petersburgo suja e quente, e até mesmo sentir-se enlouquecer de claustrofobia no pequeno apartamento de Raskolnikóv. As narrativas do atropelamento de Marmeladov e da loucura de Ekaterina por pouco fizeram-me chorar.

As capas da Martin Claret trabalham com a desnecessária possibilidade de você não compreender a narrativa do autor.
A riqueza da narrativa de Dostoiévski não se restringe à descrição dos cenários, pois não perde qualidade quando diz respeito à construção dos fatos e personagens. Por exemplo, é absurdo como é possível sentir os calafrios de Arkádi pelo vento frio da tempestade, ou mesmo o seu terror no pesadelo da menina promíscua ou no dos ratos que subiam em seu corpo.Não tem jeito de não acabar imerso nos delírios e no ego de Raskolnikóv e gozá-los como se fossem seus, o que se torna contraditório, na medida em que é possível saudar o brilhantismo de Porfíri em cada investida realizada contra o homicida. Os crimes no começo do livro passam como um filme na cabeça do leitor!

Raskolnikóv foi muito bem construído, de forma que eu tentei ler um TCC de psicologia que abordava a temática do livro pra tentar compreendê-lo (não entendi nada do texto e desisti).Um personagem que oscila entre uma grande culpa (que nem ele mesmo sabe explicar) e um exacerbado amor próprio, e que delira a todo momento. Há de se considerar, ainda, a doença nervosa que praticamente colocou sobre si as suspeitas da autoria do crime. Não obstante todo o cuidado para não ser visto, e desconsiderando o amadorismo no crime, foi um desmaio dentro do comissariado de polícia que chamou a atenção para si.

O personagem é afligido no livro por momentos de extrema lucidez alternados por delírios, nos quais ele sequer se recorda de como chegou à determinados lugares. A expectativa de ser descoberto a qualquer momento leva Raskolnikóv à perambular pela cidade escondendo os vestígios do crime, tomado por um vigor violento, mas, logo que exposto ao ambiente externo do seu apartamento, sua energia se esvai com tamanha intensidade que chega mesmo a dormir na relva.

A escolha do título assenta muito bem com o dilema vivido pelo assassino, visto que, ainda que faltassem provas da autoria do crime, Raskolnikóv expõem-se de tal maneira, que em pouco tempo Porfíri já não duvidava dele. Situações como confessar o crime à um policial dentro de uma casa de chá, os embates do Porfíri, visitar o local do crime após uma informação dada pelo próprio comissário de polícia, e lá questionar acerca do sangue no chão (o stress o levou a tal delírio). Nestes momentos, Raskolnikóv goza pela ausência de indícios de autoria que o vinculem ao crime praticado, e até mesmo desafia os comissários a pegá-lo. Raskolnikóv triunfa sua capacidade de dissimular culpa, inocência, doença e até mesmo loucura.

Em contrapartida, há momentos no qual o personagem se torna taciturno e sente o peso de uma culpa que ele mesmo não consegue explicar. Ainda que alegue que seu grande descontentamento é ter hesitado na prática do crime, de forma que não poderia ser considerado um homem extraordinário, Raskolnikóv evidencia uma culpa que, não assumida pela sua razão (amante de si mesma) é carregada por um senso de moralidade contra o qual luta a todo instante. Podemos usar como exemplo que, após socorrer Marmeladov e ter o sangue deste na sua roupa e ser informado disto, toma um ar mais sério e declara que realmente ele está todo coberto de sangue, o que é uma clara reflexão sobre os assassinatos. Ou quando declara que não foi a velha que ele matou, e sim a si mesmo.

Raskolnikóv inconscientemente sente necessidade de ser remido pelo seu crime (visto que conscientemente ele considera que não pode ser considerado criminoso por ser extraordinário), e, em momentos como estes, dá todo o dinheiro que tem à uma viúva ou tenta impedir uma mulher embriagada de ser molestada por um homem que a seguia. Raskolnikóv tenta, a todo momento provar que não estava errado, ao tentar fazer do mundo um lugar melhor.

Agora o crime!!! Não, Raskolnikóv não sentiu fome e roubou para comer! Ele matou porque se considerava superior! Como assim? Na universidade Raskolnikóv escreveu um artigo no qual apresentava uma tese na qual afirmava que há homens ordinários e extraordinários, e que estes últimos estão acima da lei, reformulando-as ou ignorando-as para mudar o mundo. Usa como um dos exemplos Napoleão e todas as mortes vinculadas ao mesmo, que, ao invés de lançar sobre ele o estigma de assassino, são celebradas junto com suas vitórias civis.

Ocorre que Raskolnikóv considera-se um desses homens, e a fim de comprovar sua tese, planeja assassinar a velha usurária e usar o seu dinheiro para custear a sua ascensão, não por necessidade financeira, mas por recusar-se ser considerado um dos homens comuns, aos quais todas as leis são imputadas. Raskolnikóv mesmo admite isto, comparando-se com Razumikhim, um exemplo de esforço e juízo (menos quando está bêbado). A própria situação financeira de Raskolnikóv é questionável, visto que o mesmo poderia dar aulas para custear seus estudos, optando, em sentido contrário por ficar deitado em seu divã durante dias, apenas pensando e sem vontade alguma de trabalhar. Somos apresentados à um Raskolnikóv ainda mais doentio: diferente de um homem que matou por dinheiro, um homem que matou por matar. Não há como negar este fato, na medida em que durante toda a narrativa não há um momento no qual o assassino pense em usar o fruto do roubo (não por medo ser pego, ele simplesmente não pensa no que roubou), não tendo sequer abrido as bolsas para saber o que tinha dentro.

Raskolnikóv sendo um dos homens extraordinários do mundo.
Os personagens secundários e suas histórias não deixam a desejar. Em alguns momentos, os dramas secundários chegam a ser mais intensos que o principal! Histórias bem construídas e vinculadas. Personagens com os mais variados perfis. Meu destaque vai para Porfíri, com jogos psicológicos e artimanhas dignas do "L" e Kira de Death Note! Aliás, acredito que Tsugumi Ohba tenha realmente lido Crime e Castigo... É muita coincidência mais alguém criar um estudante homicida e genial (sim, não nego que Raskolnikóv é de certa forma um gênio) e um policial igualmente genial, que já tem o assassino antes da evidência.

Porfíri e Raskolnikóv.


No fim, o personagem só encontra a paz de espírito que tanto ansiava no amor de Sônia, filha de Marmeladov, que o seguiu até a Sibéria, local no qual cumpria a pena pelo crime. Aliás, foi por esta mulher que ele se entregara à polícia, visto, não obstante Porfíri descobri-lo, houve um terceiro que por motivos de autopenitência confessou o crime no momento em que Raskolnikóv seria preso (após uma maravilhosa tortura psicológica). De fato, é compreensível que a única coisa forte o suficiente para transpor o amor próprio (que no caso de Raskolnikóv é o que impede sua reabilitação e superação da culpa) é o amor a outra pessoa. Ir para a Sibéria punir seu corpo pelo crime cometido não surtiu nenhum efeito até o amor por Sônia rasgar sua alma, momento no qual ele encontra redenção.

Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...