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sábado, 29 de julho de 2023

Jesus e a mulher samaritana - Parte 03 (João 4:27-38)

E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela?

Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens:

Vinde, vide um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?

Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele.

E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come.

Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.

Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?

Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.

Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.

Lucas 4:27-38




Os discípulos que haviam saído para comprar comida retornaram do mercado e se surpreenderam de encontrar Jesus conversando com uma mulher. A razão pela qual os discípulos ficaram surpresos já foi apresentada nos sermões anteriores, podendo se considerar não apenas o fato de Jesus estar falando publicamente com uma mulher, mas também pelo fato de sendo ele um mestre judeu, estava conversando com uma samaritana. Entretanto, nenhum deles se dispõe à questionar o mestre sobre o que falava com ela ou qualquer coisa do tipo.

Precisamos compreender que os discípulos também eram judeus, sendo razoável compreender que suas relações com os samaritanos também não fossem além das relações comerciais e estritamente necessárias. Por outro lado, ver Cristo dialogando publicamente com uma mulher samaritana ia muito além do que poderia ser considerado normal.

Entretanto, naquele momento nenhum dos discípulos se arrisca a fazer qualquer questionamento, mesmo que as ações de Jesus levantassem curiosidade. Pode ser que naquele momento os discípulos tenham se dado conta que o Senhor sentar-se para conversar com uma mulher samaritana era tão inesperado quanto que ele escolhesse para seus discípulos um pescador e um cobrador de impostos. Tão inusitado quanto confiar o tesouro do evangelho para homens pobres e incultos, ao invés de trazer para seu lado fariseus e doutores da Lei.

Já de início temos a primeira lição: Muitas vezes ao caminhar com Cristo nos deparamos com questões e situações que não somos capazes de compreender. 

Nestas oportunidades, devemos agir da mesma forma que os discípulos, e com extrema humildade aguardar até que o Senhor decida nos revelar a Sua sabedoria e nos iluminar com o entendimento vindo do Espírito Santo. 

Há mesmo na própria Palavra passagens e trechos que num primeiro momento podemos ser incapazes de compreender, ou até mesmo ficar chocados com relatos como o de filhas que embebedaram seu pai para terem filhos, povos inteiros sendo dizimados, profetas sumonando ursas para atacar jovens ou coisas do tipo. 

Neste momento, a barbaridade dos relatos bíblicos, a extensão de fé que é esperada do cristão diante de situações complexas ou mesmo situações que nos expõem à risco de morte podem nos causar indignação. Entretanto, conforme pedimos orientação ao Espírito Santo e maturidade e humildade para nos submetermos à Palavra, percebemos que aquele primeiro choque decorre, na verdade, da nossa própria incapacidade de pensar à luz da Palavra e pela falta de experiência na vida cristã.

Ao mesmo tempo em que os discípulos estão retornando, a mulher sai imediatamente em direção à cidade da qual eles haviam acabado de chegar. A resposta da mulher à afirmação de Jesus de que Ele era o Messias foi a imediata fé, da qual não decorreu qualquer resposta ou pronunciamento apaixonado. A maior demonstração de uma fé genuína foi a vontade imediata de partilhar as boas novas que havia acabado de receber.

Eis a segunda lição: devemos ter o mesmo zelo evangelístico que a mulher samaritana. 

Importante ressaltar que a única coisa que aquela mulher ouviu da parte de Jesus é que Ele era o Messias. Jesus não havia ensinado nada como fizera no sermão da montanha, não explicou para aquela mulher o Pentateuco que ela possuía, não abordou as grandes profecias do Antigo Testamento acerca da Sua vinda. Ele havia apenas declarado para aquela mulher quem Ele era, e para ela, que havia acabado de testemunhar o Seu poder, foi o suficiente.

Aquela mulher então parte em direção à cidade, e convida aos demais a testemunhar da presença santa de Jesus Cristo. Ela não se presta a tentar convencer qualquer homem acerca de quem Cristo era, e os convida para desfrutar da presença do Mestre e desenvolver um relacionamento pessoal com Ele, dando o testemunho de tudo que Jesus havia revelado sobre a vida dela, demonstrando Seu próprio poder. 

Aquela mulher não tinha qualquer instrução para dar, e para piorar, era detentora de um passado sórdido, e provavelmente conhecido por toda a cidade. Não era só mulher, o que por si só já descredenciaria a sua palavra; mas também era adúltera, o que fazia dela uma pessoa socialmente reprovável, e até mesmo passível de apedrejamento.

As nossas limitações podem nos impedir de entrar em debates teológicos e nos fazer perceber que somos incapazes de convencer alguém acerca da existência de Deus e da divindade de Jesus Cristo. E de fato, nós somos incapazes. As pessoas podem zombar de nós por nosso passado e história, e até mesmo tripudiar tudo aquilo que nós falamos simplesmente por ter sido dito por nós mesmos. Da mesma forma que a mulher samaritana poderia ser desconsiderada por ser uma mulher adúltera, podemos ser desconsiderados por sermos ex-traficantes, ex-adúlteros, devassos, maliciosos ou criminosos. Nem por isso podemos nos acovardar e deixar de pregar a Palavra. Se nossa própria regeneração não é suficiente para apontar Jesus para uma pessoa, façamos como a mulher samaritana, e convidemos as pessoas a elas mesmas terem contato com Jesus.

Aquelas pessoas então vão em direção à Jesus, diante do anúncio da mulher samaritana de que Ele era o Messias esperado. Neste meio tempo, os discípulos solicitam a Jesus que pare o que estava fazendo para se alimentar. Até aquele momento Jesus não havia se alimentado, e possivelmente não havia matado a Sua sede, tendo em vista que a mulher samaritana deixou seu cântaro e correu para cidade. 

A resposta de Jesus foi que Ele tinha comida para se alimentar naquele momento, mas os discípulos não conheciam. E de fato os discípulos não compreendiam o que Jesus falavam, tendo em vista que ficaram se questionando se alguém havia levado comida para eles enquanto estiveram fora, e por isso não era mais necessário comer. Nesse momento, Jesus os responde que a comida dele era fazer a vontade do Pai e realizar a obra à qual seu ministério estava proposta.

Jesus está  nos dando a terceira lição: Fazer a vontade de Deus é uma necessidade maior do que as nossas próprias necessidades pessoais. 

Jesus não está impondo aos seus discípulos que fizessem rigorosos jejuns de comida ou bebida, nem estava estabelecendo que deveriam ficar sem comer. Jesus está mostrando para seus discípulos que a necessidade dos samaritanos era espiritual e urgente, enquanto as dele eram secundárias. Como humano, Jesus poderia ficar dias sem comer ou beber, como outrora fizera no deserto enquanto fora tentado por Satanás, sem com isso morrer. Os samaritanos, por outro lado, estavam mortos em delitos e pecados, e precisavam urgentemente nascer de novo. Os discípulos queriam que Jesus deixasse aquelas pessoas esperando enquanto ele comia, mas para Jesus, alimentar espiritualmente as  pessoas era mais importante. 

Precisamos ter esse senso de urgência que coloca a missão do cristão acima das suas volições e anseios. Na prática muitas vezes vemos o chamado cristão para o evangelismo e pregação ser colocado de lado em decorrência de necessidades aparentemente mais urgentes como trabalhar, concluir uma carreira acadêmica, gerir nossos relacionamentos pessoais, ter momentos de lazer, etc.

É para nos fazer refletir o que é mais importante quando estamos a caminho de um passeio no fim de semana e recebemos uma ligação de uma pessoa precisando da nossa companhia; para refletir quando separamos dinheiro para pedir uma pizza e tomamos conhecimento das necessidades de um missionário; ou aquele momento em que estamos atrasados ou apressados para qualquer coisa e uma pessoa em situação de rua pede nossa atenção. Você para, olha a pessoa nos olhos enquanto ela fala, mesmo sabendo que muitas vezes ela só quer pedir dinheiro? Ou então você a interrompe com rispidez ou joga dinheiro imediatamente em suas mãos, como se fosse essa a única necessidade daquela pessoa?

Certa vez presenciei durante um culto a entrada de um morador de rua na igreja, e durante a ministração do louvor um dos cantores que estava no púlpito pediu para demonstrarmos nossa alegria e comunhão através de cumprimentos e abraços. Entristeci-me ao constatar que mesmo as pessoas na mesma fileira de cadeiras daquele senhor não se dispuseram sequer a apertar a mão daquele homem. 

Via-se que não era "só mais um bêbado", pois o homem estava lúcido, não cheirava a álcool, mas apresentava mal cheiro intenso, e percebia-se não só pelo odor como aspecto que ele de fato habitava nas ruas. Ele estava na última fileira da igreja, eu na terceira, e me desloquei até ele, apertei sua mão, olhei nos seus olhos e perguntei seu nome. Ele, com extrema alegria me disse seu nome... Gustavo. Então ele agradeceu por eu ter perguntado o nome dele, sorriu, e o culto seguiu normalmente.

E se minhas roupas tivessem sujado? - Em casa eu as poderia lavar.

Ele estava sujo, poderia me contaminar com alguma bactéria ou vírus. - Eu poderia discretamente lavar as mãos em algum momento, sem levá-las à boca ou olhos.

Eu poderia ficar fedendo? -  Dificilmente, mas caso ocorresse, seria por muito pouco tempo comparado àquele homem.

Mas aquele culto poderia ser a última oportunidade daquele homem experimentar o calor da comunhão do corpo de Cristo. Poderia ser a oportunidade dele sair dali quebrantado pela Palavra e pelo acolhimento, ao invés de sair decepcionado, nos acusando de tratá-lo como se fosse menos humano que qualquer um. A necessidade daquele homem era maior do que qualquer coisa que nós pudéssemos alegar para nos mantermos afastados dele naquele momento.

Isso se confirma pela afirmação de Jesus, ao comparar o que estava ocorrendo com a ceifa que estava para acontecer. O tempo de ceifar as colheitas estava previsto para ocorrer daqui há quatro meses, e Jesus se aproveita disso para chamar a atenção dos seus discípulos.

Neste momento ele nos traz o quarto ensinamento: O tempo da colheita é agora.

Enquanto eles esperavam quatro meses pela colheita, ela já estava pronta para ser realizada. Jesus estava dizendo que a sua fome era de realizar a vontade do Pai, a semente que havia sido lançada no coração daqueles samaritanos já estava pronta para ser colhida naquele momento. Aquela era a hora de pregar o Reino de Deus e promover os batismos. 

A mensagem da mulher samaritana não demandaria meses para surtir efeitos, através do ensino da Palavra programático, de enviar um discípulo para passar meses com os samaritanos... O momento era aquele. Aliás, a semente em si já fora plantada desde o Pentateuco que os samaritanos consideravam como texto bíblico. A chegada de Jesus em Sicar era o momento da colheita dos frutos decorrente da Lei que previa a vinda do Messias. Quando Jesus declara que Ele era o Messias, estava realizando a colheita decorrente da semente plantada na Palavra. 

E o que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem.

Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa.

Eu vou enviei a ceifar onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.

Por fim, Jesus nos dá o quinto ensinamento: a função dos seus discípulos deve ser pregar o Reino, vejam o resultado ou não.

Quando Cristo declara que seus discípulos ceifam o que não plantaram, Ele está declarando a verdade do Evangelho pela qual compete a cada cristão pregar Jesus Cristo, e ter isso como sua única preocupação. Os discípulos estavam colhendo os frutos da pregação da Lei e dos profetas, e nós, hoje, colhemos os frutos que muitas vezes não fomos os responsáveis por plantar. Eles continuaram o trabalho que não haviam começado, e nós também fazemos isso.

Jesus também está falando sobre galardão que é ajuntado para vida eterna, deixando claro que tanto aquele que semeia quanto aquele que colhe se regozijam  nos frutos para vida eterna. O galardão portanto é apresentado como um benefício dado por Deus aos homens por sua graciosa vontade de ser abençoador e galardoador daqueles a quem ama. Não há uma distinção entre quem planta e quem  colhe, e no fim das contas, todos devemos administrar nossos talentos com dedicação e alegria.





sábado, 20 de maio de 2023

O testemunho de João Batista (João 1:15-18)

 "João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou."

João 1:15-18


A partir do momento que João nos apresenta a dupla natureza de Cristo e seus aspectos mais marcantes de vida e ministério, ele passa a escrever a história do ministério de Jesus. Nosso Senhor é apresentado como plenamente Deus (1.1-13), plenamente homem (1.14), e agora nos é apresentado como o Messias esperado (1.15). João Batista é o último profeta, pois ele é o último a profetizar a vinda do Messias (Mateus 11:11-13), sendo seguido pelo próprio Senhor Jesus pregando acerca de Si e do Reino de Deus.

A vida e ministério de João Batista tiveram como objetivo testificar acerca da vinda do Messias,  sendo ele a voz que clama do deserto e que endireitaria o caminho para chegada do salvador. João portanto nos é apresentado nesse texto como aquele que pregou e proclamou abertamente a vinda de Jesus, que iniciou seu ministério de ensino, pregação e martírio depois de seu primo. É por essa razão que o profeta declara que Jesus veio após ele, reconhecendo que mesmo sendo considerado um grande homem, sua vida e objetivo nada mais era do que preparar as pessoas para a vinda de Jesus.

Ainda que fosse alguns meses mais velho que nosso Senhor Jesus, João declara que Cristo foi primeiro do que ele. Isto porque o ministério de Jesus e sua obra de salvação não apenas estão decretadas desde o início dos tempos, como também desde o início todas as coisas foram feitas por meio dEle, e sem Ele nada existiria. No tocante ao ministério de salvação, o do nosso Senhor Jesus não inicia aos 33 anos de idade, após o seu primo, e sim já no seu nascimento, fazendo-se homem como nós, para ser capaz de nos representar na cruz.

Em seguida o autor bíblico afirma que todos nós recebemos da plenitude e graça por graça do nosso Senhor Jesus. Esse conceito de plenitude passa a ser o aspecto de destaque de todas as afirmações seguintes, conforme veremos a seguir.

Em primeiro lugar, recebemos da plenitude do nosso próprio Senhor Jesus. Isso significa que Jesus Cristo deu a si mesmo por completo para nós e em nosso benefício. Jesus foi plenamente verdadeiro acerca de Si mesmo e do Seu ministério, não tendo deixado nada oculto ou restrito para um determinado grupo, como os gnósticos gostavam de afirmar haver um conhecimento secreto de Jesus passado para um grupo restrito de cristãos mais elevados. Todas as coisas acerca de Jesus que os homens precisavam conhecer foram graciosamente reveladas a todos os homens.

Cristo não apenas se deu a conhecer plenamente a todos os homens, como também entregou a Si mesmo de forma integral, sofrendo a morte em nosso lugar. Ele não apenas compartilhou os seus ensinos, como também deu a Si mesmo para sofrer em nosso lugar. Nosso Senhor se entregou ao martírio, sendo torturado e sacrificado por nós.

Em segundo lugar, João declara que recebemos a plenitude e graça de Jesus por graça. É importante deixar claro essa informação, de que Jesus entregou a Si mesmo, completamente, não pelos nossos méritos e merecimento, tendo em vista que nada tínhamos para oferecer a Ele. Jesus se entregou por nós pela sua exclusiva misericórdia e bondade. A graça da nossa salvação nos foi concedida gratuitamente e sem merecimento algum. Mesmo a nossa obediência à Palavra não nos torna merecedores dessa salvação, pois a nossa carne é pecaminosa, e mesmo nossas boas ações podem esconder más desígnios e motivações.

Quando Adão pecou no Éden não havia qualquer mérito nas suas ações e palavras, e já naquele momento o Senhor determinou que enviaria o Seu Filho para reparar o erro do primeiro casal. Deus gratuitamente oferece a salvação para a humanidade condenada por Adão.

Em terceiro lugar, em Cristo está a plenitude da revelação. Os judeus justificavam a si mesmos nas obras com base na Lei. Moisés era estimado e considerado extremamente importante na religião judaica, por ser aquele a quem o próprio Deus revelou a Sua Lei para toda humanidade. Ao criar uma comparação entre Moisés e Jesus, João não está criando uma divisão entre Lei e Graça e Verdade, como se o próprio Moisés e demais pessoas antes da vinda de Jesus tivessem vivido uma mentira.

A Lei em si mesma já possui aspectos de graça, como a possibilidade de expiar por pecados através de um sistema sacrificial, determinações morais, civis e religiosas que demonstram o aspecto cuidadoso do Senhor em relação ao Seu próprio povo escolhido e até mesmo por demonstrar a necessidade de se apresentar santo diante do Senhor. A Lei dada por intermédio de Moisés era verdadeira, pois Deus não é homem para mentir, e nem conduziria Seu povo em engano. Ela servia não para salvar o homem, mas para mostrar ao homem sua necessidade de ser salvo. 

O que João está nos ensinando é que a plenitude da graça e verdade vieram através do Senhor Jesus Cristo. Se no Antigo Testamento era possível expiar cada pecado individualmente através do sacrifício determinado, em Cristo há o sacrifício definitivo para a expiação de não apenas um, mas sim de todos os pecados de todos os indivíduos a quem desejou salvar. A Lei de Moisés é verdadeira ao profetizar a vinda do Messias, sendo Jesus Cristo a própria verdade da Salvação. Jesus não revoga o Antigo Testamento, sendo na verdade Ele mesmo a plenitude da vontade de Deus profetizada.

Antigo e Novo Testamento são igualmente a revelação de Deus para os homens, sendo certo que no AT Deus promete a redenção dos homens e revela Seu plano de salvar a humanidade através do Seu Filho. Em alguns momentos o próprio Jesus aparece aos homens, mas a revelação de fato ocorre com o nascimento o ministério do Filho. O AT revela uma parcela do caráter de Deus, enquanto o próprio Jesus nos permite conhecê-lo por completo.

Nisto consiste o último ponto: Cristo é a plenitude de Deus. João nos declara que ninguém viu a Deus, tendo sido Jesus a revelar quem o Senhor era. É por isso que Ele declara a Felipe que quem vê a Ele, vê ao Pai (João 14:9). Jesus possui a mesma majestade, glória, autoridade e poder que o Pai e o Espírito Santo, sendo consubstancial com os demais membros da Trindade.

E como isso se aplica a nós?

Primeiro, precisamos ter a mesma humildade e discernimento de João Batista e compreender que nossas vidas e ministérios, por mais grandiosos e frutíferos que sejam, não são o mais importante. É preciso proclamar ao Senhor Jesus com todas as nossas forças, fazendo com que Ele cresça e nós sejamos cada vez mais irrelevantes diante da verdade do Evangelho. Se nossas carreiras religiosas e seculares colocam a pessoa de Jesus em segundo plano, elas estão nos conduzindo por caminhos de perdição e engano.

Segundo, não há uma verdade secreta do evangelho escondida para nenhum grupo de pessoas especiais. Todos somos igualmente pecadores, e necessitados do Senhor Jesus. A verdade de Deus não está escondida, mas plenamente revelada na Palavra e na pessoa de Jesus. Nosso Senhor não apenas se deu a conhecer por completo, como também Se deu por completo em nosso benefício, sem ocultar esse fato de ninguém. 

Terceiro, precisamos tomar cuidado com o erro dos fariseus e nos tornarmos legalistas, tomando nossas ações como a nossa própria justiça. A Lei nos mostra que somos pecadores, e se nos atermos simplesmente ao que se deve ou não fazer podemos cair no erro de justificar nossas próprias ações e nos considerarmos justos pelas nossas obras. Além disso, corremos o risco de perder o olhar misericordioso em relação ao próximo, que é igualmente pecador, embora aos nossos olhos nossos pecados são sempre justificáveis. Ao ler a Palavra também precisamos aprender a misericórdia e amor do Senhor Jesus diante da nossa incapacidade de ser perfeitos.

Quarto, se Jesus é a plenitude de Deus não precisamos buscar ao Senhor em rituais, visões e atos proféticos. Se queremos conhecer a vontade de Deus não precisamos buscar novas revelações fora da Palavra: basta aprender com o próprio Jesus Cristo. Deus não se comprometeu a trazer novas revelações, e nem estabeleceu oráculos para atualizar constantemente os homens acerca do que é agradável a Ele. O Senhor nos deixou Sua Palavra, para meditarmos nela e encontrarmos todas as respostas que precisamos.



A humanidade de Cristo (João 1:14)

 "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."

João 1:14


O Evangelho de João inicia com a declaração de que no princípio era o Verbo, apresentando para nós a divindade de Jesus Cristo, como o Criador e Mantenedor de todas as coisas. Os versículos 1 a 13 tem por objetivo afirmar a divindade de Cristo, o nosso Deus. Já o versículo 14 é uma adição às informações anteriores. Jesus não apenas era o Verbo, Deus da Eternidade, como também se fez homem e habitou entre nós. É portanto uma afirmação da humanidade de Cristo.

Jesus não era um receptáculo que foi possuído pelo Espírito de Deus para realizar uma obra na terra, pois assim fosse, a ação de salvar teria sido realizada pelo Espírito Santo, e não pelo Filho. Também não era uma espécie de holograma espiritual que as pessoas poderiam ver, porém não poderiam tocar, caso assim fosse, a mulher com fluxo de sangue não teria tocado as Suas vestes e sido curada. Jesus também não era dotado de dupla personalidade, como se em seu corpo houvesse um homem chamado Jesus e o Filho de Deus como duas personalidades diferentes que se alternavam conforme o momento. Todos esses exemplos acima dizem respeito à heresias que já foram combatidas na história da Igreja.

O que João está nos ensinando, e que diversos outros textos corroboram, é que Jesus Cristo era plenamente Deus (1-13) e plenamente homem (14). Não havia divisão entre sua humanidade e divindade, e nem uma porção maior em detrimento da outra. A humanidade e divindade de Jesus Cristo eram plenas, e para isso, João nos apresenta algumas informações.

Em primeiro lugar, o Verbo se fez carne. A humanidade de Jesus era necessária para cumprir o plano da salvação. O homem pecou contra Deus, e era incapaz de pagar o preço do próprio pecado. Desde Adão e Eva nunca houve um homem capaz de expiar o preço dos próprios pecados de maneira permanente, de forma que o homem jamais poderia se apresentar diante de Deus santo. A mancha do pecado nos torna incapazes de nos apresentar diante de Deus. Seria como o culpado de um assassinato se apresentar diante do seu próprio juiz segurando a arma do crime, com as roupas ainda sujas do sangue da sua vítima.

A pena de um crime é proporcional ao dano causado, para que haja efetiva justiça e reparação do bem jurídico em questão, e, no caso do pecado, o bem jurídico a ser considerado é a glória do próprio Deus, que é Eterno e Perfeito. Portanto, como seríamos capazes de reparar um crime cuja vítima e glória são eternos e perfeitos? Sendo nós imperfeitos e finitos, a nossa vida como um todo seria incapaz de pagar a dívida que temos com Deus, assim como vemos na parábola do súdito incapaz de perdoar o seu servo (Mateus 18:21-35), cuja dívida não poderia ser paga nem com a totalidade dos seus dias e dos seus filhos. 

Por outro lado, não haveria justiça se um anjo pagasse o preço do pecado dos homens, sendo certo que fora a humanidade quem pecou, e não qualquer das legiões celestiais, as quais ainda conseguem estar próximas do Senhor, mesmo que cubram a própria face com suas asas.  Ninguém pode ser condenado pelo pecado dos outros, de forma que se o homem pecou, o homem deveria pagar o preço do seu próprio pecado.

Assim, Jesus assume a forma de homem, nascendo da virgem Maria e pagando o preço do nosso pecado. Por ser plenamente homem, Ele poderia oferecer a Si mesmo como o Réu pelo crime cometido contra Deus, pois em nada era diferente de Adão, sendo inclusive chamado de segundo Adão, pelo qual veio a justificação. Ao mesmo tempo, sendo plenamente Deus, Ele tinha a totalidade da glória e majestade necessária para perdoar o pecado cometido contra o Rei Glorioso e Eterno.

Em segundo lugar, Jesus habitou entre nós. Ele não apenas assumiu a forma de homem como também viveu como um. Ele sentiu na própria pele tudo aquilo que nós sentimos. Ele teve momentos de alegria e comunhão com seus discípulos, tinha uma rotina e vida de oração, ia para as sinagogas ensinar o verdadeiro significado da Palavra de Deus. Ele teve fome e sede, ele sentiu compaixão, e até mesmo precisou aprender a andar e falar, como qualquer um de nós precisou um dia.

Por outro lado, ele também experimentou a dor, sofrimento e angústia. Ele chorou durante o luto de Lázaro, Seu amigo. O Senhor foi alvo de injustiça e em tudo foi tentado, assim como cada um de nós. Ele não foi homem apenas na sua biologia, como também em toda a experiência de ter uma vida social, sentimental e religiosa. O nosso Senhor Jesus não passou pela terra alheio a tudo que estava acontecendo, pelo contrário, ele se importou com as necessidades das pessoas a Sua volta, alimentando os que tinham fome, curando os que estavam doentes e libertando os que estavam cativos de demônios. 

Em terceiro lugar, a humanidade pode finalmente contemplar a glória do Filho de Deus, o Unigênito do Pai. Mesmo sendo um homem como todos os demais, a glória de Deus finalmente pode ser contemplada pelos homens através da figura do próprio Filho. Havia mais na Sua presença e Suas palavras, pois todas as suas ações e pronunciamentos demonstravam a todos os homens a Sua autoridade divina. João nos afirma a superioridade de Jesus Cristo, incomparável a qualquer criatura nos céus e na terra. Isso porque Jesus é a exata expressão do Ser de Deus, mesmo tendo se esvaziado para viver como todos nós.

Sua glória se manifestava quando o Senhor falava, e Suas palavras paravam tempestades e expulsavam demônios de pessoas cativas. Quando Ele manifestava Sua vontade dizendo "Quero que seja curado", e de fato a pessoa era curada. Quando Ele proferia parábolas que faziam as escamas dos olhos das pessoas caírem e elas finalmente poderem contemplar a vontade verdadeira de Deus para vida delas. Seus sermões e ensinos eram gloriosos, e levavam as pessoas ao arrependimento e conversão genuína, tirando-as das trevas da iniquidade e dos ensinos de homens.

Sua glória se manifestou na vida de perfeita conformidade com a vontade do Pai. Desde a eternidade todos os aspectos da vida de Jesus Cristo foram proféticos, pois foram profetizados na Palavra de Deus do Antigo Testamento. Desde a profecia de que a salvação dos homens nasceria de uma virgem (Isaías 7:14), até mesmo as suas últimas palavras na cruz (Salmos 22:1) foram para cumprir integralmente a Palavra de Deus. Sabemos que nosso Senhor Jesus em tudo foi tentado, mas diferente de nós, Ele nunca pecou. Cristo foi o homem perfeito, o único que existiu, o único capaz de pagar o preço dos nossos pecados, pois era o único que poderia se apresentar diante de Deus sem qualquer pecado. Ele foi obediente até a morte de cruz para ser o Cordeiro sem manchas que aplacaria a ira do Senhor. Jesus foi o sacrifício perfeito.

Em quarto lugar, Jesus foi cheio de graça e verdade. A Palavra de Deus registra diversos milagres e demonstrações do poder de Jesus como Deus, e ainda assim, o que João destaca são suas expressões de misericórdia e verdade. Isso porque a vontade de Deus é que sejamos a imagem e semelhança do nosso Senhor, agindo na nossa vida da forma que o próprio Jesus agiu.

Cristo enquanto homem é gracioso, e todas as suas ações enquanto caminhou conosco foram expressões da Sua misericórdia. Ele jamais curou um enfermo ou libertou um endemoninhado com vistas a ganhar fama, tendo até mesmo em alguns casos se ocultado no meio da multidão ou se afastado de milhares de seguidores de barco, para que as pessoas não o pudessem seguir. Jesus repreendeu aqueles que acreditavam que Ele  havia se manifestado para combater o império romano com seu poder divino e seguidores.

Enquanto esteve na terra Jesus se preocupou em levar misericórdia para todos os homens, por mais odiáveis que eles pudessem ser. Ele cuidou de judeus, samaritanos, publicanos, soldados, mulheres marginalizadas, deficientes, pobres e viúvas. Ele foi cheio de graça, pois não escolhia a quem agir com misericórdia, mas vendo todos os homens como pecadores e ignorantes acerca da vontade de Deus. O nosso Senhor Jesus foi tão misericordioso que no momento da sua morte olhou para todos os homens furiosos que o haviam crucificado e escarneciam deles e pediu ao Pai que tivesse misericórdia, pois não sabiam o que estavam fazendo (Lucas 23:34)!

Cristo também foi extremamente verdadeiro, afinal, Ele é o caminho, a verdade e a própria vida. Jesus tratou a todos com verdade e sinceridade, e não proferiu qualquer mentira, mesmo quando sob risco de morte. A Sua verdade não diz respeito apenas ao fato de que nunca mentiu, mas também por ter ensinado para as pessoas a verdadeira vontade de Deus. Quando Ele ensinava e dizia "em verdade vos digo", Ele estava dizendo às pessoas o que de fato as palavras da Lei de Deus significavam. Ele não destruiu a Lei com um novo ensino, Ele apenas ensinou o que de fato a Lei ensinava. Não era a nova Palavra de Deus, mas sim a Palavra de Deus que estava ocultada pelo pecado e ignorância de líderes religiosos que só se importavam consigo mesmos e achavam que a justiça da sua vida dependia deles mesmos.

Isso nos ensina que:

Você não precisa fazer mais nada, pois o próprio Filho de Deus já fez tudo por você. A vida, ministério,  morte e ressurreição de Jesus cumpriram todos os requisitos para perdoar todos os seus pecados e garantir a sua salvação. Hoje você pode orar para o próprio Deus e falar diretamente com Ele, sabendo que Ele pode (e vai) te escutar. Tudo que você precisa para se apresentar diante de Deus é acreditar no que Jesus fez por você.

Jesus compreende e intercede por você junto ao Pai. Por ter vivido como cada um de nós, Jesus sabe de todas as suas limitações e tentações, e sabe muito bem que você é incapaz de não cometer mais pecados sem a ação do Espírito Santo. Quando você ora, Ele pode consolar o seu coração ferido e angustiado, porque um dia Ele também experimentou dor e angústia. Não há nada que você possa sentir ou sofrer que o próprio Jesus já não tenha sentido ou sofrido. Até mesmo o peso do pecado Ele sentiu, no momento em que carregou os seus na cruz do calvário, mesmo não tendo Ele pecado algum.

Precisamos ser verdadeiros e misericordiosos, assim como nosso próprio Senhor Jesus foi durante toda a Sua vida. O cristão precisa ser imitador do Senhor, guardando o bom testemunho da verdade, misericórdia e santidade em sua vida. Não podemos pregar o que não vivemos, do contrário seremos mentirosos e hipócritas. Não podemos mentir ou agir com dolo, com vistas a ter algum benefício. Pelo contrário, em todas as coisas devemos glorificar ao Senhor.

Por fim, é muito importante compreender que Jesus é totalmente Deus e totalmente homem, porque apenas dessa forma seria capaz de pagar o preço pelos nossos pecados. Negar a humanidade total e divindade total de Deus é colocar em dúvida a sua própria salvação e proclamar uma heresia que foi combatida por centenas de anos. Cristo foi totalmente homem para assumir a nossa culpa, e totalmente Deus para pagar a nossa dívida eterna.

Que Deus abençoe a sua vida!




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