sábado, 10 de junho de 2023

As Bodas de Caná da Galiléia - João 2:1-11


 

As bodas de Caná da Galiléia

João 2 registra para nós o primeiro milagre do nosso Senhor Jesus Cristo, tendo sido realizado nas bodas de um casal de noivos de Caná da Galiléia. Maria, mãe do Senhor Jesus havia sido convidada, bem como Jesus e seus discípulos que com Ele estavam. 

O problema

Durante a festa de casamento o vinho acaba e a mãe de Jesus recorre a Ele.

Não é certo que Maria tenha buscado Jesus esperando que Ele realizasse algum milagre, até porque até aquele momento, Cristo ainda não havia realizado nenhum. É possível que recorrer a Cristo fosse a solução de Maria para consolar os noivos e amenizar o sofrimento e vexame de ter que encerrar a festa mais cedo. Ainda que seja uma possibilidade, afirmar categoricamente que Maria esperava um milagre seria extrapolar os limites do texto bíblico e invalidar as palavras do próprio João, que no final da perícope declara que foi neste momento que Jesus principiou os seus sinais.

Por outro lado, os defensores da tese que Maria esperava um milagre de Jesus afirmam que o relato de João declara que foi assim que Jesus principiou os seus sinais em Caná da Galiléia, interpretando que o Senhor teria realizado milagres em outras cidades, tendo inclusive discípulos. Como seria possível que Jesus tivesse discípulos se não tivesse demonstrado o Seu poder? 

Em que pese o respeito e até mesmo a boa argumentação dessa tese, o próprio capítulo 1 do Evangelho de João declara que os discípulos de Jesus o haviam seguido pelo testemunho de João Batista, que o declarou como o Cordeiro de Deus, o Messias. João preparou o caminho para o início do ministério de Cristo, tendo batizado diversos homens e testificado acerca de Jesus. Esse testemunho, conforme o relato bíblico rendeu frutos: André e Pedro. Os outros dois discípulos são apresentados como Filipe e Natanael, que atenderam ao chamado do próprio Senhor Jesus sem a realização de qualquer milagre.

A questão que pode nos deixar curiosos é por que o Senhor Jesus inicia os seus sinais e maravilhas com algo tão banal como uma festa de casamento. Podemos acabar nos perguntando por que isso era importante. Jesus Cristo, podendo ter "gastado" o seu primeiro milagre curando um enfermo, fazendo um cego enxergar ou um paralítico andar; resolve transformar água em vinho para uma festa. 

Precisamos compreender a importância da hospitalidade para o povo judaico. Ser hospitaleiro e tratar bem ao próximo era um dever ético e moral, e a falta de hospitalidade era causa de vergonha e uma questão de extrema gravidade. Quando olhamos para o Antigo Testamento nós vemos que a hospitalidade ia além de tratar bem ao visitante, e também implicava no cuidado integral das necessidades daqueles que estavam em sua casa. Ló, por exemplo, oferece suas duas filhas aos homens de Sodoma para proteger os anjos do Senhor enviados a sua casa; Labão recebeu Jacó em sua casa por um mês. 

Pela cultura do Antigo Oriente a hospitalidade era um dever que deveria ser dispensado mesmo aos desconhecidos, assegurando a ele cuidado e proteção durante três dias, e a hospitalidade é uma marca dos povos do deserto, onde era comum haver tribos de nômades. Por se tratar de uma questão de sobrevivência num ambiente perigoso e precário, a hospitalidade era inclusive uma questão legal, uma obrigação com força de lei. 

Não apenas uma questão legal, a hospitalidade era uma questão bíblica. O judeu deveria amar ao estrangeiro como a si mesmo (Lv 19:34), e diversos preceitos bíblicos visavam a proteção do estrangeiro, do órfão e da viúva, em atendimento ao dever de hospitalidade como um aspecto do amor ao próximo.

Tomando essas informações como ponto de partida, é compreensível a preocupação de Maria com o término do vinho durante a festa de bodas. O vinho era alimento necessário para o povo antigo, e ter acabado poderia causar vergonha e constrangimento ao casal, que poderia ser objeto de comentários maliciosos e críticas. O casal no seu momento de maior alegria, celebrando o seu casamento poderia experimentar grande tristeza e constrangimento por não ter calculado direito as necessidades dos seus próprios convidados; ainda mais considerando os indícios de serem de fato hospitaleiros e solícitos, tendo convidado para suas bodas não apenas Jesus Cristo, como também 4 discípulos. O fim do vinho seria o fim da alegria do casal e insatisfação de todos os convidados.

A resposta de Jesus e a reação de Maria

Maria demonstra a sua preocupação com o fim do vinho e recorre imediatamente ao seu filho. Jesus, por outro lado, não demonstrou qualquer afetação. Ela demonstra sua total preocupação e recebe como resposta "Mulher, que tenho eu contigo? Não é chegada a minha hora."

Não foi uma resposta desrespeitosa e muito menos um fora dado pelo Filho de Deus na Sua  própria mãe. Cristo não estava dizendo que não se importava com o fim do vinho ou com a opinião da sua mãe, e nem que isso não era importante. Jesus disse exatamente o que foi dito: Não era chegada a Sua hora. Não era a preocupação de Maria e nem a urgência de repor o vinho que moveriam Jesus Cristo, e sim a Sua própria vontade e o Seu tempo para realizar os seus milagres. Jesus estava dizendo para sua mãe que não importava o quão nervosa e preocupada ela pudesse estar, o tempo de Deus é perfeito, e Seu agir não seria antecipado.

Tanto esta é a chave para compreender essa passagem, que a resposta de Maria ao seu filho foi dizer aos serventes que fizessem tudo que Ele mandasse. Maria não ficou ofendida, mas compreendeu que Jesus estava dizendo para ela não ficar ansiosa e tentar antecipar as ações e conselhos do Filho de Deus. Ela deveria confiar no seu filho.

Longe de ser uma questão irrelevante, vemos o quanto essa passagem é necessária até mesmo hoje, quando nos deparamos com doutrinas como a Mariologia, que inclui Maria como agente ativa na salvação dos homens, agindo como intercessora perante Jesus. Os homens, portanto, poderiam interceder a Maria, e ela, como mãe, intercederia por nós ao Filho.

A fala de Jesus está mostrando para nós que a preocupação e palavras de Maria não moveriam o Senhor quanto ao seu tempo e intento. O pedido de Maria não anteciparia o tempo de Jesus, mesmo diante da urgência em suprir as necessidades do casal. Ela intercedeu pelo casal de noivos, e isso nada adiantou para mudar os planos do Senhor Jesus.

O primeiro milagre

Ao seu tempo, Jesus Cristo ordena aos servos no casamento que enchessem as talhas de pedra utilizadas para o ritual de lavagem com água. Haviam seis delas, e cada uma delas poderia comportar de dois a três almudes, uma unidade de medida que variou bastante ao longo do tempo. As seis talhas no seu total poderiam ter armazenado de 150 a 200 litros de água. O nosso Senhor Jesus Cristo proveu o casal que nada tinha com bastante abundância. 

Não apenas a benção foi abundante, como acima de tudo era maravilhosa. O mestre-sala elogia o noivo por ter deixado o melhor vinho para o final. Se o melhor vinho era servido no início do casamento, e o vinho de pior qualidade servido ao final, isto significava que o vinho do milagre de Jesus era extraordinário. Era melhor que o melhor que o casal poderia oferecer aos seus convidados.

Mais importante do que isso é compreendermos que os milagres de Jesus sempre apontam pra obra dEle na nossa vida. Ele curava enfermos e expulsava demônios demonstrando que de fato era o Senhor que nos libertaria do pecado e sararia nossas enfermidades físicas e espirituais, Ele dava ordens aos mares e ventos demonstrando ser Senhor sobre toda a terra. Os seu milagres a todo momento demonstravam aos homens que Ele era o Filho de Deus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo!

As talhas de pedra eram utilizadas pelos judeus nos rituais de purificação, para lavar mãos e pés e se purificar quando necessário. O milagre é didático: á agua das talhas de pedra não seriam necessárias para purificar os homens, pois Cristo mesmo seria aquele que nos purificaria de todos os nossos pecados de uma vez por todas. Cristo substituiria a água da purificação pelo seu próprio sangue derramado na cruz. Vemos posteriormente o Senhor Jesus instituir na Ceia do Senhor o vinho como a representação do Seu próprio sangue.

E quais lições essa passagem deixa para nós?

Em primeiro lugar, Jesus Cristo é a nossa salvação, nossa provisão e a nossa alegria. As talhas de água serviam para purificação; o vinho era uma provisão necessária para vida diária e também um meio de alegria nas celebrações. Ao transformar a água das talhas em vinho, Jesus está simbolizando a Sua própria obra por nós. Logo, em Jesus encontramos não apenas a fonte da nossa salvação, como também da nossa alegria.

O Senhor Jesus não apenas é a fonte de purificação dos nossos pecados, como também é o nosso contentamento. Não precisamos apenas ser gratos pela nossa salvação, como também devemos nos alegrar no nosso Senhor. Devemos nos contentar e celebrar a vida em Cristo, que nos salvou e transformou a nessa vida para sempre. Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Na cruz o Senhor pagou o preço definitivo do nosso pecado. O Seu castigo nos trouxe a paz e nos religou ao nosso Deus. 

Em segundo lugar, precisamos aprender a confiar e descansar no Senhor. Digo isto com base na resposta de Cristo para Maria. Nossas prioridades, urgências e ansiedade não vão antecipar num milésimo de segundo os propósitos e ações de Deus. Muitas vezes dizemos acreditar no tempo de Deus para as coisas na nossa vida, mas nos mantemos ansiosos e até mesmo tentamos conquistar o favor do Senhor na esperança de conseguir a ação imediata de Deus.

Precisamos compreender que mesmo quando somos incapazes de ver, Deus já está agindo em nosso benefício. Precisamos compreender que no tempo certo as bençãos do Senhor virão para nossa vida. Precisamos compreender que o que você considera urgente pode não ser urgente para Deus, e algo que você deseja, e deseja imediatamente, pode jamais ser dado a você. 

Precisamos aprender com Maria e diante das adversidades e problemas, respirar fundo e dizer: Seja feita a Sua vontade.

Em terceiro lugar, as bençãos do Senhor são maiores e melhores do que tudo que você possa tentar conquistar por suas próprias mãos. O Senhor Jesus não só proveu a necessidade do casal para o fim da festa, como o fez de forma abundante. Não só proveu o vinho, como proveu o melhor vinho da festa! Aquilo que o casal tinha a oferecer para os seus candidatos era bom, mas o que o Senhor Jesus tinha a oferecer era ainda melhor! Nós podemos ser felizes, nós podemos ser prósperos, podemos ser prodígios em diversas áreas da nossa vida, mas tudo isso é pequeno diante das bençãos do Senhor em nosso favor. Corremos e lutamos para conquistar as coisas diariamente, enquanto o Senhor Jesus nos oferece Seu amor e salvação gratuitamente, sem nenhum esforço da nossa parte.

Podemos correr atrás de festividades, relacionamentos, objetivos profissionais, desafios pessoais e nos contentar em todas essas coisas. Elas são boas e agradáveis. Mas ter Cristo na sua vida é ainda melhor. 

Em quarto lugar, a vida em Cristo não é letárgica e triste. Jesus Cristo, longe de ser um eremita contemplativo e asceta, estava presente em todos os momentos da vida humana.  Ele nos ensina que a vida cristã não é o desligamento do convívio com as pessoas a nossa volta em prol de viver autocontrole e atividades introspectivas de devoção. Jesus não estava apenas em montes e desertos orando e jejuando; ele também estava presente em casamentos e outras festividades. A própria relação do cristão com Jesus é retratada como as festas de bodas, onde noivo e noiva se alegram na sua união.

Cristo deseja que tenhamos sim momentos de reflexão, oração e jejum apenas na presença dEle; mas para ser piedoso não precisamos deixar de ser contentes, de festejar e ser alegres, de brincar e sorrir. Ser santo é ser piedoso, mesmo onde outras pessoas não são. Podemos estar em ambientes familiares e festas onde nem todos são cristãos, e nessa ação sermos a luz no meio da escuridão. Jesus Cristo sentava à mesa com pecadores, Ele não procurava a mesa dos fariseus e dos "mais santos". Ele estava com as pessoas, influenciando elas e confrontando-as com seus pecados.


E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus.

E foi convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.

E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.

Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.

Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.

E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes.

Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima.

E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram.

E, logo que o mestre-sala provou a água feita em vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo,

E disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.

Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.

João 2:1-11

terça-feira, 23 de maio de 2023

Mandado Cultural - A relação do cristão com o mundo

Mandado Cultural

A relação do cristão com o mundo


Introdução

A bíblia nos ensina em Gênesis 1:26 que Deus fez o homem a sua imagem, conforme a Sua semelhança. Na prática a gente não pensa muito nisso, e a discussão sobre o que o Senhor quis dizer com isso acaba ficando muito restrita aos círculos de debate teológico, escolas dominicais e sermões expositivos. 

Ocorre que esse conceito é de extrema importância para nossa, e está longe de ser uma mera discussão e conceituação sem implicação prática. Compreender a imagem e semelhança de Deus vai nos ajudar a compreender o que é o mandado cultural, e nos tornar cristãos mais conscientes sobre nós mesmos e nossa relação com o mundo a nossa volta.

O homem à imagem e semelhança de Deus

Imagem (tselem) e semelhança (demût) são dois termos que aparecem na mesma frase, na qual o nosso Senhor informa o seu desígnio de criar uma nova criatura totalmente diferente de todas as demais. Esta nova criatura criada por Deus foi moldada pelo próprio Senhor, que soprou o fôlego de vida em suas narinas e lhe deu uma missão gloriosa. Essa nova criatura divergia das demais, porque ela carregava em si mesma a imagem de Deus. O homem, segundo essas palavras, é similar, porém não idêntico ao Deus que o criou, tendo recebido a tarefa de representá-lo no cuidado do Jardim do Éden.

Como bem se entende hoje, dizer que o homem carrega a imagem e semelhança de Deus significa que Ele foi criado com características do Senhor, para representá-lo em funções semelhantes às que o nosso Deus exerce dos altos céus. Com isso, carregar em si a imagem de Deus significa que o homem possui aspectos semelhantes ao do Senhor, tais quais:
  • Capacidade intelectual
  • Pureza moral (antes da Queda)
  • Natureza espiritual
  • Domínio sobre a terra
  • Criatividade
  • Capacidade de tomar decisões éticas
  • Imortalidade (antes da Queda)
  • Sociabilidade e comunhão
Mesmo a Queda foi incapaz de tirar do homem a imagem de Deus (Gn 9:6 c/c Tg 3:9), mas tirou dele a plena semelhança com o Senhor, tendo em vista que o caráter pecaminoso do homem é incompatível com a santidade de Deus. Assim, o homem carrega em si mesmo a imagem de Deus corrompida pelos seus próprios pecados. Moral, intelecto, vida espiritual; tudo se encontra corrompido pela Queda do homem.

O que são os mandados criacionais?

Embora a imagem de Deus em nós esteja distorcida pelo pecado, ainda representamos o Senhor naquilo que Ele determinou que caberia à humanidade efetuar.  Podemos dividir a forma como o homem representa Deus na sua relação com o cosmos utilizando os três mandados criacionais encontrados desde o início da história humana.
  1. Mandado cultural - o homem precisava cultivar e proteger o Jardim do Éden.
  2. Mandado social - o homem recebeu a ordem de crescer e multiplicar, constituindo família.
  3. Mandado espiritual - o homem precisava se relacionar com Deus.

O que é o mandado cultural?

A criação do homem à imagem de Deus tem como aplicação os mandados criacionais, sendo o primeiro deles o mandado cultural. Ele se realiza através do domínio e sujeição (Gn 1:28) e da guarda e cultivo (Gn 2:15). Basicamente homem e mulher deveriam governar, desenvolver e manter o cosmos através do seu trabalho, que não pode ser interpretado como castigo, mas como um privilégio e responsabilidade. Pelo mandado cultural, compete ao homem cuidar da criação e do seu próximo.

Recebemos do Senhor a missão de reger a criação, portanto, o homem deve se envolver em todas as áreas que impliquem necessariamente no seu dever original de cuidar da criação, tais quais:

  • Política
  • Comércio
  • Artes
  • Trabalho
  • Indústria
  • Tecnologia
  • Lazer
  • Ecologia

Como funciona na prática?

Levando em consideração tudo que já foi dito, fica claro que o mandado cultural está longe de ser um mero conceito. Nele consiste a base da relação do homem com tudo a sua volta.  Se o homem recebeu uma missão desde o Éden que compreendia cuidar do jardim do Senhor, isso mostra a nossa responsabilidade com tudo que ocorre à nossa volta.

É preciso entender como o pecado afetou não somente a imagem de Deus em nós, como também a nossa capacidade de representá-Lo no cuidado do universo. Veja que nosso pecado não afeta somente o planeta terra, e um exemplo muito simples dessa afirmação é o fato de que atualmente nós somos capazes de produzir lixo espacial composto pelo resto de satélites e espaçonaves que lançamos para fora do planeta.

O homem que deveria dominar e sujeitar a natureza com amor e zelo, atualmente o faz de forma predatória, sem qualquer preocupação efetiva com guardar e cultivar aquilo que diariamente consome e destrói para fins de lucro, poder, acumulação de riquezas. Animais e plantas que deveriam ser preservados acabam sendo extintos, o solo que deveria ser cultivado é explorado até se tornar infértil e as árvores que deveriam prover sombra, alimento e recursos são desmatadas violentamente.

Na prática, compreender o mandado cultural é compreender que Deus te deu uma missão desde o início dos tempos. Você precisa representar Ele na forma como interage com o universo a sua volta! Precisa combater os impactos do pecado na natureza a sua volta! Como cristão, você precisa ser um agente de transformação e preservação. Deus não te criou pra destruir tudo a sua volta para satisfazer seus próprios desejos, afinal, você é apenas um servo cuidando da propriedade do seu Senhor. 

É a luta por políticas públicas de preservação e proteção da natureza, seres vivos e outros seres humanos; é o comércio que não explora o mercado de consumo; é a preocupação com a ecologia, com o impacto da indústria no meio ambiente, na forma que as tecnologias afetam nossa relação com o universo. 

Mandado cultural não é só um conceito. É a forma como você se relaciona com o mundo.





sábado, 20 de maio de 2023

O testemunho de João Batista (João 1:15-18)

 "João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou."

João 1:15-18


A partir do momento que João nos apresenta a dupla natureza de Cristo e seus aspectos mais marcantes de vida e ministério, ele passa a escrever a história do ministério de Jesus. Nosso Senhor é apresentado como plenamente Deus (1.1-13), plenamente homem (1.14), e agora nos é apresentado como o Messias esperado (1.15). João Batista é o último profeta, pois ele é o último a profetizar a vinda do Messias (Mateus 11:11-13), sendo seguido pelo próprio Senhor Jesus pregando acerca de Si e do Reino de Deus.

A vida e ministério de João Batista tiveram como objetivo testificar acerca da vinda do Messias,  sendo ele a voz que clama do deserto e que endireitaria o caminho para chegada do salvador. João portanto nos é apresentado nesse texto como aquele que pregou e proclamou abertamente a vinda de Jesus, que iniciou seu ministério de ensino, pregação e martírio depois de seu primo. É por essa razão que o profeta declara que Jesus veio após ele, reconhecendo que mesmo sendo considerado um grande homem, sua vida e objetivo nada mais era do que preparar as pessoas para a vinda de Jesus.

Ainda que fosse alguns meses mais velho que nosso Senhor Jesus, João declara que Cristo foi primeiro do que ele. Isto porque o ministério de Jesus e sua obra de salvação não apenas estão decretadas desde o início dos tempos, como também desde o início todas as coisas foram feitas por meio dEle, e sem Ele nada existiria. No tocante ao ministério de salvação, o do nosso Senhor Jesus não inicia aos 33 anos de idade, após o seu primo, e sim já no seu nascimento, fazendo-se homem como nós, para ser capaz de nos representar na cruz.

Em seguida o autor bíblico afirma que todos nós recebemos da plenitude e graça por graça do nosso Senhor Jesus. Esse conceito de plenitude passa a ser o aspecto de destaque de todas as afirmações seguintes, conforme veremos a seguir.

Em primeiro lugar, recebemos da plenitude do nosso próprio Senhor Jesus. Isso significa que Jesus Cristo deu a si mesmo por completo para nós e em nosso benefício. Jesus foi plenamente verdadeiro acerca de Si mesmo e do Seu ministério, não tendo deixado nada oculto ou restrito para um determinado grupo, como os gnósticos gostavam de afirmar haver um conhecimento secreto de Jesus passado para um grupo restrito de cristãos mais elevados. Todas as coisas acerca de Jesus que os homens precisavam conhecer foram graciosamente reveladas a todos os homens.

Cristo não apenas se deu a conhecer plenamente a todos os homens, como também entregou a Si mesmo de forma integral, sofrendo a morte em nosso lugar. Ele não apenas compartilhou os seus ensinos, como também deu a Si mesmo para sofrer em nosso lugar. Nosso Senhor se entregou ao martírio, sendo torturado e sacrificado por nós.

Em segundo lugar, João declara que recebemos a plenitude e graça de Jesus por graça. É importante deixar claro essa informação, de que Jesus entregou a Si mesmo, completamente, não pelos nossos méritos e merecimento, tendo em vista que nada tínhamos para oferecer a Ele. Jesus se entregou por nós pela sua exclusiva misericórdia e bondade. A graça da nossa salvação nos foi concedida gratuitamente e sem merecimento algum. Mesmo a nossa obediência à Palavra não nos torna merecedores dessa salvação, pois a nossa carne é pecaminosa, e mesmo nossas boas ações podem esconder más desígnios e motivações.

Quando Adão pecou no Éden não havia qualquer mérito nas suas ações e palavras, e já naquele momento o Senhor determinou que enviaria o Seu Filho para reparar o erro do primeiro casal. Deus gratuitamente oferece a salvação para a humanidade condenada por Adão.

Em terceiro lugar, em Cristo está a plenitude da revelação. Os judeus justificavam a si mesmos nas obras com base na Lei. Moisés era estimado e considerado extremamente importante na religião judaica, por ser aquele a quem o próprio Deus revelou a Sua Lei para toda humanidade. Ao criar uma comparação entre Moisés e Jesus, João não está criando uma divisão entre Lei e Graça e Verdade, como se o próprio Moisés e demais pessoas antes da vinda de Jesus tivessem vivido uma mentira.

A Lei em si mesma já possui aspectos de graça, como a possibilidade de expiar por pecados através de um sistema sacrificial, determinações morais, civis e religiosas que demonstram o aspecto cuidadoso do Senhor em relação ao Seu próprio povo escolhido e até mesmo por demonstrar a necessidade de se apresentar santo diante do Senhor. A Lei dada por intermédio de Moisés era verdadeira, pois Deus não é homem para mentir, e nem conduziria Seu povo em engano. Ela servia não para salvar o homem, mas para mostrar ao homem sua necessidade de ser salvo. 

O que João está nos ensinando é que a plenitude da graça e verdade vieram através do Senhor Jesus Cristo. Se no Antigo Testamento era possível expiar cada pecado individualmente através do sacrifício determinado, em Cristo há o sacrifício definitivo para a expiação de não apenas um, mas sim de todos os pecados de todos os indivíduos a quem desejou salvar. A Lei de Moisés é verdadeira ao profetizar a vinda do Messias, sendo Jesus Cristo a própria verdade da Salvação. Jesus não revoga o Antigo Testamento, sendo na verdade Ele mesmo a plenitude da vontade de Deus profetizada.

Antigo e Novo Testamento são igualmente a revelação de Deus para os homens, sendo certo que no AT Deus promete a redenção dos homens e revela Seu plano de salvar a humanidade através do Seu Filho. Em alguns momentos o próprio Jesus aparece aos homens, mas a revelação de fato ocorre com o nascimento o ministério do Filho. O AT revela uma parcela do caráter de Deus, enquanto o próprio Jesus nos permite conhecê-lo por completo.

Nisto consiste o último ponto: Cristo é a plenitude de Deus. João nos declara que ninguém viu a Deus, tendo sido Jesus a revelar quem o Senhor era. É por isso que Ele declara a Felipe que quem vê a Ele, vê ao Pai (João 14:9). Jesus possui a mesma majestade, glória, autoridade e poder que o Pai e o Espírito Santo, sendo consubstancial com os demais membros da Trindade.

E como isso se aplica a nós?

Primeiro, precisamos ter a mesma humildade e discernimento de João Batista e compreender que nossas vidas e ministérios, por mais grandiosos e frutíferos que sejam, não são o mais importante. É preciso proclamar ao Senhor Jesus com todas as nossas forças, fazendo com que Ele cresça e nós sejamos cada vez mais irrelevantes diante da verdade do Evangelho. Se nossas carreiras religiosas e seculares colocam a pessoa de Jesus em segundo plano, elas estão nos conduzindo por caminhos de perdição e engano.

Segundo, não há uma verdade secreta do evangelho escondida para nenhum grupo de pessoas especiais. Todos somos igualmente pecadores, e necessitados do Senhor Jesus. A verdade de Deus não está escondida, mas plenamente revelada na Palavra e na pessoa de Jesus. Nosso Senhor não apenas se deu a conhecer por completo, como também Se deu por completo em nosso benefício, sem ocultar esse fato de ninguém. 

Terceiro, precisamos tomar cuidado com o erro dos fariseus e nos tornarmos legalistas, tomando nossas ações como a nossa própria justiça. A Lei nos mostra que somos pecadores, e se nos atermos simplesmente ao que se deve ou não fazer podemos cair no erro de justificar nossas próprias ações e nos considerarmos justos pelas nossas obras. Além disso, corremos o risco de perder o olhar misericordioso em relação ao próximo, que é igualmente pecador, embora aos nossos olhos nossos pecados são sempre justificáveis. Ao ler a Palavra também precisamos aprender a misericórdia e amor do Senhor Jesus diante da nossa incapacidade de ser perfeitos.

Quarto, se Jesus é a plenitude de Deus não precisamos buscar ao Senhor em rituais, visões e atos proféticos. Se queremos conhecer a vontade de Deus não precisamos buscar novas revelações fora da Palavra: basta aprender com o próprio Jesus Cristo. Deus não se comprometeu a trazer novas revelações, e nem estabeleceu oráculos para atualizar constantemente os homens acerca do que é agradável a Ele. O Senhor nos deixou Sua Palavra, para meditarmos nela e encontrarmos todas as respostas que precisamos.



A humanidade de Cristo (João 1:14)

 "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."

João 1:14


O Evangelho de João inicia com a declaração de que no princípio era o Verbo, apresentando para nós a divindade de Jesus Cristo, como o Criador e Mantenedor de todas as coisas. Os versículos 1 a 13 tem por objetivo afirmar a divindade de Cristo, o nosso Deus. Já o versículo 14 é uma adição às informações anteriores. Jesus não apenas era o Verbo, Deus da Eternidade, como também se fez homem e habitou entre nós. É portanto uma afirmação da humanidade de Cristo.

Jesus não era um receptáculo que foi possuído pelo Espírito de Deus para realizar uma obra na terra, pois assim fosse, a ação de salvar teria sido realizada pelo Espírito Santo, e não pelo Filho. Também não era uma espécie de holograma espiritual que as pessoas poderiam ver, porém não poderiam tocar, caso assim fosse, a mulher com fluxo de sangue não teria tocado as Suas vestes e sido curada. Jesus também não era dotado de dupla personalidade, como se em seu corpo houvesse um homem chamado Jesus e o Filho de Deus como duas personalidades diferentes que se alternavam conforme o momento. Todos esses exemplos acima dizem respeito à heresias que já foram combatidas na história da Igreja.

O que João está nos ensinando, e que diversos outros textos corroboram, é que Jesus Cristo era plenamente Deus (1-13) e plenamente homem (14). Não havia divisão entre sua humanidade e divindade, e nem uma porção maior em detrimento da outra. A humanidade e divindade de Jesus Cristo eram plenas, e para isso, João nos apresenta algumas informações.

Em primeiro lugar, o Verbo se fez carne. A humanidade de Jesus era necessária para cumprir o plano da salvação. O homem pecou contra Deus, e era incapaz de pagar o preço do próprio pecado. Desde Adão e Eva nunca houve um homem capaz de expiar o preço dos próprios pecados de maneira permanente, de forma que o homem jamais poderia se apresentar diante de Deus santo. A mancha do pecado nos torna incapazes de nos apresentar diante de Deus. Seria como o culpado de um assassinato se apresentar diante do seu próprio juiz segurando a arma do crime, com as roupas ainda sujas do sangue da sua vítima.

A pena de um crime é proporcional ao dano causado, para que haja efetiva justiça e reparação do bem jurídico em questão, e, no caso do pecado, o bem jurídico a ser considerado é a glória do próprio Deus, que é Eterno e Perfeito. Portanto, como seríamos capazes de reparar um crime cuja vítima e glória são eternos e perfeitos? Sendo nós imperfeitos e finitos, a nossa vida como um todo seria incapaz de pagar a dívida que temos com Deus, assim como vemos na parábola do súdito incapaz de perdoar o seu servo (Mateus 18:21-35), cuja dívida não poderia ser paga nem com a totalidade dos seus dias e dos seus filhos. 

Por outro lado, não haveria justiça se um anjo pagasse o preço do pecado dos homens, sendo certo que fora a humanidade quem pecou, e não qualquer das legiões celestiais, as quais ainda conseguem estar próximas do Senhor, mesmo que cubram a própria face com suas asas.  Ninguém pode ser condenado pelo pecado dos outros, de forma que se o homem pecou, o homem deveria pagar o preço do seu próprio pecado.

Assim, Jesus assume a forma de homem, nascendo da virgem Maria e pagando o preço do nosso pecado. Por ser plenamente homem, Ele poderia oferecer a Si mesmo como o Réu pelo crime cometido contra Deus, pois em nada era diferente de Adão, sendo inclusive chamado de segundo Adão, pelo qual veio a justificação. Ao mesmo tempo, sendo plenamente Deus, Ele tinha a totalidade da glória e majestade necessária para perdoar o pecado cometido contra o Rei Glorioso e Eterno.

Em segundo lugar, Jesus habitou entre nós. Ele não apenas assumiu a forma de homem como também viveu como um. Ele sentiu na própria pele tudo aquilo que nós sentimos. Ele teve momentos de alegria e comunhão com seus discípulos, tinha uma rotina e vida de oração, ia para as sinagogas ensinar o verdadeiro significado da Palavra de Deus. Ele teve fome e sede, ele sentiu compaixão, e até mesmo precisou aprender a andar e falar, como qualquer um de nós precisou um dia.

Por outro lado, ele também experimentou a dor, sofrimento e angústia. Ele chorou durante o luto de Lázaro, Seu amigo. O Senhor foi alvo de injustiça e em tudo foi tentado, assim como cada um de nós. Ele não foi homem apenas na sua biologia, como também em toda a experiência de ter uma vida social, sentimental e religiosa. O nosso Senhor Jesus não passou pela terra alheio a tudo que estava acontecendo, pelo contrário, ele se importou com as necessidades das pessoas a Sua volta, alimentando os que tinham fome, curando os que estavam doentes e libertando os que estavam cativos de demônios. 

Em terceiro lugar, a humanidade pode finalmente contemplar a glória do Filho de Deus, o Unigênito do Pai. Mesmo sendo um homem como todos os demais, a glória de Deus finalmente pode ser contemplada pelos homens através da figura do próprio Filho. Havia mais na Sua presença e Suas palavras, pois todas as suas ações e pronunciamentos demonstravam a todos os homens a Sua autoridade divina. João nos afirma a superioridade de Jesus Cristo, incomparável a qualquer criatura nos céus e na terra. Isso porque Jesus é a exata expressão do Ser de Deus, mesmo tendo se esvaziado para viver como todos nós.

Sua glória se manifestava quando o Senhor falava, e Suas palavras paravam tempestades e expulsavam demônios de pessoas cativas. Quando Ele manifestava Sua vontade dizendo "Quero que seja curado", e de fato a pessoa era curada. Quando Ele proferia parábolas que faziam as escamas dos olhos das pessoas caírem e elas finalmente poderem contemplar a vontade verdadeira de Deus para vida delas. Seus sermões e ensinos eram gloriosos, e levavam as pessoas ao arrependimento e conversão genuína, tirando-as das trevas da iniquidade e dos ensinos de homens.

Sua glória se manifestou na vida de perfeita conformidade com a vontade do Pai. Desde a eternidade todos os aspectos da vida de Jesus Cristo foram proféticos, pois foram profetizados na Palavra de Deus do Antigo Testamento. Desde a profecia de que a salvação dos homens nasceria de uma virgem (Isaías 7:14), até mesmo as suas últimas palavras na cruz (Salmos 22:1) foram para cumprir integralmente a Palavra de Deus. Sabemos que nosso Senhor Jesus em tudo foi tentado, mas diferente de nós, Ele nunca pecou. Cristo foi o homem perfeito, o único que existiu, o único capaz de pagar o preço dos nossos pecados, pois era o único que poderia se apresentar diante de Deus sem qualquer pecado. Ele foi obediente até a morte de cruz para ser o Cordeiro sem manchas que aplacaria a ira do Senhor. Jesus foi o sacrifício perfeito.

Em quarto lugar, Jesus foi cheio de graça e verdade. A Palavra de Deus registra diversos milagres e demonstrações do poder de Jesus como Deus, e ainda assim, o que João destaca são suas expressões de misericórdia e verdade. Isso porque a vontade de Deus é que sejamos a imagem e semelhança do nosso Senhor, agindo na nossa vida da forma que o próprio Jesus agiu.

Cristo enquanto homem é gracioso, e todas as suas ações enquanto caminhou conosco foram expressões da Sua misericórdia. Ele jamais curou um enfermo ou libertou um endemoninhado com vistas a ganhar fama, tendo até mesmo em alguns casos se ocultado no meio da multidão ou se afastado de milhares de seguidores de barco, para que as pessoas não o pudessem seguir. Jesus repreendeu aqueles que acreditavam que Ele  havia se manifestado para combater o império romano com seu poder divino e seguidores.

Enquanto esteve na terra Jesus se preocupou em levar misericórdia para todos os homens, por mais odiáveis que eles pudessem ser. Ele cuidou de judeus, samaritanos, publicanos, soldados, mulheres marginalizadas, deficientes, pobres e viúvas. Ele foi cheio de graça, pois não escolhia a quem agir com misericórdia, mas vendo todos os homens como pecadores e ignorantes acerca da vontade de Deus. O nosso Senhor Jesus foi tão misericordioso que no momento da sua morte olhou para todos os homens furiosos que o haviam crucificado e escarneciam deles e pediu ao Pai que tivesse misericórdia, pois não sabiam o que estavam fazendo (Lucas 23:34)!

Cristo também foi extremamente verdadeiro, afinal, Ele é o caminho, a verdade e a própria vida. Jesus tratou a todos com verdade e sinceridade, e não proferiu qualquer mentira, mesmo quando sob risco de morte. A Sua verdade não diz respeito apenas ao fato de que nunca mentiu, mas também por ter ensinado para as pessoas a verdadeira vontade de Deus. Quando Ele ensinava e dizia "em verdade vos digo", Ele estava dizendo às pessoas o que de fato as palavras da Lei de Deus significavam. Ele não destruiu a Lei com um novo ensino, Ele apenas ensinou o que de fato a Lei ensinava. Não era a nova Palavra de Deus, mas sim a Palavra de Deus que estava ocultada pelo pecado e ignorância de líderes religiosos que só se importavam consigo mesmos e achavam que a justiça da sua vida dependia deles mesmos.

Isso nos ensina que:

Você não precisa fazer mais nada, pois o próprio Filho de Deus já fez tudo por você. A vida, ministério,  morte e ressurreição de Jesus cumpriram todos os requisitos para perdoar todos os seus pecados e garantir a sua salvação. Hoje você pode orar para o próprio Deus e falar diretamente com Ele, sabendo que Ele pode (e vai) te escutar. Tudo que você precisa para se apresentar diante de Deus é acreditar no que Jesus fez por você.

Jesus compreende e intercede por você junto ao Pai. Por ter vivido como cada um de nós, Jesus sabe de todas as suas limitações e tentações, e sabe muito bem que você é incapaz de não cometer mais pecados sem a ação do Espírito Santo. Quando você ora, Ele pode consolar o seu coração ferido e angustiado, porque um dia Ele também experimentou dor e angústia. Não há nada que você possa sentir ou sofrer que o próprio Jesus já não tenha sentido ou sofrido. Até mesmo o peso do pecado Ele sentiu, no momento em que carregou os seus na cruz do calvário, mesmo não tendo Ele pecado algum.

Precisamos ser verdadeiros e misericordiosos, assim como nosso próprio Senhor Jesus foi durante toda a Sua vida. O cristão precisa ser imitador do Senhor, guardando o bom testemunho da verdade, misericórdia e santidade em sua vida. Não podemos pregar o que não vivemos, do contrário seremos mentirosos e hipócritas. Não podemos mentir ou agir com dolo, com vistas a ter algum benefício. Pelo contrário, em todas as coisas devemos glorificar ao Senhor.

Por fim, é muito importante compreender que Jesus é totalmente Deus e totalmente homem, porque apenas dessa forma seria capaz de pagar o preço pelos nossos pecados. Negar a humanidade total e divindade total de Deus é colocar em dúvida a sua própria salvação e proclamar uma heresia que foi combatida por centenas de anos. Cristo foi totalmente homem para assumir a nossa culpa, e totalmente Deus para pagar a nossa dívida eterna.

Que Deus abençoe a sua vida!




sábado, 29 de abril de 2023

Cosmovisão cristã sob a perspectiva do Reino de Deus

 

A cosmovisão cristã é a forma como você interpreta a realidade, fenômenos e acontecimentos a sua volta, tendo como premissa a Verdade do Evangelho. Como já declarado por Felipe Fontes, da Mackenzie:

"A cosmovisão cristã não é apenas um conjunto de ideias, mas é, antes de qualquer coisa, um conjunto de verdades com as quais estamos comprometidos. Por isso, é fácil vê-la na forma como vivemos e não só no que entendemos como verdade. Porque ela transcende a teoria."

Se a sua cosmovisão diz respeito a forma como você interpreta o mundo, ela não é meramente um ideal subjetivo, mas se reflete principalmente nas suas ações. Se reflete na forma como você se posiciona socialmente, politicamente, filosoficamente. Se reflete na forma como você interpreta um dogma  ou recebe uma informação. A sua cosmovisão vai definir em qual lado de um debate você vai estar posicionado, por quais pautas sociais você vai lutar, e mesmo a forma que você vai se comportar.

Quando falamos do conjunto de verdades que pautam a nossa cosmovisão, estamos falando das verdades bíblicas, as quais geralmente são sintetizadas em quatro pilares: criação, queda, redenção e consumação. Portanto:

  • Deus é o criador do universo e tudo que nele há (Gênesis 1:1);
  • Todos os homens são pecadores à semelhança de Adão (Romanos 3:23-26);
  • Cristo morreu e ressuscitou para reatar o relacionamento dos pecadores com Deus (Romanos 3:23-26);
  • Na consumação dos tempos Deus fará novos céus e terra para habitarmos com Ele (Isaías 65:17).
Os quatro pilares da cosmovisão cristã, na verdade, poderiam ser resumidas na cosmovisão do Reino de Deus. O cristão entende a realidade presente e as suas expectativas quanto ao futuro do ponto de vista de que Deus Reina sobre toda a criação. Há diversas passagens bíblicas que evidenciam o Reino de Deus não apenas como algo futuro, mas também como a realidade do povo cristão.

Essa visão do Reino de Deus como algo presente e agora nos torna responsáveis pelas coisas que acontecem a nossa volta. O Reino gera uma consciência transformadora e história, que nos revela a postura social, política e religiosa que precisamos viver. O próprio Cristo é quem declarou a contemporaneidade do Reino de Deus:

"Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo ali! pois o reino de Deus está entre vós."

Lucas 17:20-21 

Quando dizemos que o Reino de Deus é eterno, declaramos que Cristo não vai se tornar o Rei apenas no fim dos tempos, mas que desde sempre Ele reina sobre todas as coisas. Uma teologia que ensine o homem apenas a olhar para o futuro com esperança escatológica é uma teologia ruim. Viver a cosmovisão cristã nada mais é do que buscar a Cristo diariamente através da política, ciência, vida religiosa, família, trabalho, etc.

Portanto, a cosmovisão do Reino de Deus parte das seguintes premissas:

  • Cristo reina por toda a eternidade, englobando passado, presente e futuro;
  • O Reino de Deus é experimentado onde a igreja de Cristo está presente;
  • Como Rei, os decretos do Senhor são experimentados através do impacto da moral de Deus na elaboração das leis.
  • O cristão não deve se omitir diante do crescimento da maldade e depravação, sob o argumento de que o mundo jaz no maligno, e não pertencemos a ele.
  • O cristão deve ser o padrão moral e exemplo para os demais a sua volta.
  • A igreja deve ser influente para além do seu culto e atividades internas.

Pra quem não entender a razão da imagem: sua cosmovisão é a lente pela qual você enxerga o mundo hehehe



quinta-feira, 6 de abril de 2023

Uma Páscoa para recordar a segurança que só Cristo concede

A Páscoa é uma data comemorativa para nós, cristãos, de extrema importância e complexidade. Ela é capaz de gerar os mais variados sentimentos naquele que reflete o que a Palavra registra sobre a morte e ressurreição de Jesus Cristo. O nosso Senhor, o Filho de Deus, levou sobre si as nossas dores e transgressões, sofrendo castigo que estava reservado para cada um de nós. Os últimos capítulos do evangelho de Mateus relatam a história do martírio de Jesus em nosso lugar, e a grande questão que fica é: como recordar com alegria e reverência uma data tão especial para nós, mas que envolve tanto sofrimento do nosso Senhor?

Jesus deixa para nós o verdadeiro exemplo de que a vida também é composta de momentos nos quais sorrimos e nos alegramos em meio ao sofrimento e ansiedades. São os sorrisos ensombrecidos que somos capazes de dar durante um momento de muita angústia. Quando somos capazes de nos contentar, mesmo que infimamente, em meio a lágrimas e tristezas. Na véspera da sua traição, tortura e morte, Jesus ceiava na companhia dos discípulos que amava; eu meio a dores físicas e emocionais ele conseguiu olhar com amor para sua própria mãe; e mesmo sob zombaria, ele clamou ao Pai pelo perdão daqueles que só desejavam a sua morte.

Relembrar o sofrimento de Jesus é sempre um motivo de muita tristeza, mas pensar que tudo ocorreu da exata forma como Ele determinou, e que tudo foi feito intencionalmente em nosso benefício torna a lembrança também um motivo de alegria. Pensar que tudo foi feito por misericórdia de amor é motivo para glorificar e se alegrar no Senhor!

São os pequenos detalhes que fazem toda a diferença! É dito que ele "entregou o espírito" (Mateus 27:50), Sua vida não foi roubada, e sim dada de boa vontade para nos dar vida. A morte foi apenas uma etapa do plano do Senhor, e após o terceiro dia o Senhor ressuscitou, tendo reaparecido para os seus discípulos, orientado eles e prometido que estaria conosco até a consumação dos séculos. Cristo foi o sacrifício definitivo para perdoar os pecados de todos os homens que depositam nEle a sua fé. 

Então podemos encarar a Páscoa como a oportunidade de recordar a segurança que só Cristo concede. Se seguirmos os exemplos do nosso Senhor Jesus, seremos capazes sim de sofrer imaginando as dores que Cristo levou em nosso lugar, mas, ao mesmo tempo, seremos capazes de sorrir sabendo que o sepulcro amanheceu vazio. 

Cristo é o Cordeiro Pascal, que foi ferido e moído por nós. O Cordeiro que levou sobre si a iniqudade e nossas dores, embora não tenha aberto sua boca, como um cordeiro levado ao matadouro (Isaías 53:4-7 c/c Atos 8:34-35. É o dia de recordar a segurança que só Cristo pode trazer, e compreender que a morte já foi derrotada, e que o sepulcro está vazio. Em Cristo nascemos novamente, e um dia estaremos  pessoalmente na presença dEle. Sem pecados ou sua influência. Apenas a alegria de se estar diante de Deus.

A Páscoa traz a lembrança do sofrimento, mas também nos traz alegria da salvação e o exemplo maior do amor de Deus. A lembrança da agonia do Senhor na cruz, e da esperança, surpresa e felicidade de encontrar o sepulcro vazio, e constatar que de fato o Senhor cumpriu a promessa que nos daria a vida eterna.


domingo, 2 de abril de 2023

O que dar a quem pode te dar tudo?

 Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam.

Hebreus 11:6


Constantemente eu me pego pensando no qual desequilibrada é a relação do cristão com Jesus. Entenda como equilíbrio o estado no qual ambos os lados possuem o mesmo peso, de forma que a balança não pende para nenhum dos lados. É uma relação desequilibrada no tocante as partes envolvidas, tendo em vista que de um lado temos o Deus Todo Poderoso, ilimitado em conhecimento, poder, autoridade, santidade, bondade; enquanto do outro lado temos um homem, pequeno, breve, inconstante e incapaz de agradar ao Senhor em seu estado natural e pecaminoso.

Mas essa relação também  é desequilibrada quando pensamos no próprio objeto da nossa relação com Deus. O preço da nossa vida, o perdão dos nossos pecados, a restauração da santidade verdadeira e nossa capacidade de viver plenamente felizes por toda a eternidade ao lado do próprio Deus que nos criou está de um lado da balança, enquanto do nosso lado há apenas fé naquele que é capaz de todas estas coisas. Em termos simples, Jesus nos diz: "Eu posso te dar tudo!"; e nós respondemos "Eu posso acreditar nisso!". 

Há de fato esse desequilíbrio, que nos levaria a acreditar verdadeiramente que estamos em constante dívida com o Senhor Jesus. Entretanto, a carta aos Hebreus, e mais especificamente seus capítulos 10 e 11 nos mostram que estamos errados! Acreditar que você está em dívida com Jesus é negar o que Ele mesmo fez por você, afinal, Ele é Deus, e morreu na cruz no seu lugar exatamente para que a dívida do seu pecado fosse quitada. E somente nesse caso poderíamos falar de equilíbrio na nossa relação com Deus, pois de um lado temos o Senhor pronto para receber o preço dos nossos pecados, e do outro o Filho de Deus com plena capacidade de quitar a dívida por nós.

A questão que fica é: O que podemos dar para Jesus, se Ele próprio é quem pode nos dar todas as coisas?

Podemos (e devemos), dar ao Senhor a nossa fé.

Não são poucos os versículos espalhados pela bíblia sagrada no qual o nosso Senhor deixa claro que o que Ele deseja de nós é a fé. Em João 6:35 o Senhor declara: "Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.". Em João 11:25 ele declara: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá". Então o que nós de fato somos capazes de dar a Deus é a nossa própria fé.

E dar a nossa fé não é apenas uma questão de sentimentos, pois dela depende a nossa própria salvação.  Os textos lidos acima deixam bem claro que é necessário ter fé no Senhor Jesus para que não haja mais fome e sede, e para que viva eternamente, ainda que morto. 

É impossível agradar a Deus sem fé em Jesus, pois a condição do homem sem a ação de Jesus Cristo na vida dele é de ser objeto da Ira de Deus. A gravidade dos nossos pecados faz com que não haja boa disposição do Senhor ao nos contemplar como criaturas rebeldes que diariamente vivemos como se Ele não importasse. 

É impossível agradar a Deus sem a fé em Jesus, porque antes de tudo é impossível estar diante de Deus e Sua santidade plena com a mancha dos nossos pecados. É preciso estar santificado e irrepreensível para estar diante de Deus, que é Santo.

Então o primeiro passo é acreditar que Ele existe

A mensagem sobre a fé não é sobre ter fé na humanidade, ter fé no nosso potencial para o bem, ter fé nas gerações futuras, e espiritualmente falando, nunca foi sobre ter fé com base em sinais e prodígios. Fé é desenvolver o conhecimento de Deus, acreditando que Ele existe, e, mais especificamente, caminhou entre nós, morreu por nós, ressuscitou por nós e ainda hoje intercede por nós junto ao Pai. É muito fácil para o homem acreditar que Jesus é uma figura histórica que marcou o mundo, deu bons exemplos e lições de como desenvolver a humanidade, mas isso não é tudo.

A verdade é que precisamos crer que Deus existe, e Jesus não era só um homem, mas também o próprio Deus conosco. Ele não pregava sobre o potencial do homem melhorar e conquistar a sua própria salvação, pelo contrário, ele sempre pregou o Reino de Deus, declarando a Si mesmo como o caminho, a verdade e a vida. Ele é categórico ao afirmar que NINGUÉM vai ao Pai senão por meio dEle. Ele não pede que os homens tenham fé na sua capacidade de fazer o bem e evoluir um tanto mais a cada geração que passa. Jesus ensina constantemente que é preciso depositar a sua fé no próprio Senhor, pois o mundo jaz no maligno.

O segundo passo é acreditar que Ele é galardoador daqueles que o buscam

O autor da carta aos Hebreus encerra o versículo sobre a impossibilidade de agradar a Deus dizendo não apenas que é necessário ter fé e acreditar que Deus existe, mas também que ele é galardoador daqueles que O buscam. Portanto é certo que Deus se agrada de você no seu reconhecimento das bênçãos que diariamente Ele o presenteia.

A fé é trabalhada não apenas como o acreditar que Deus existe, mas que Ele existe e cuida de você diariamente. É impossível agradar a Deus se você vive como se o Senhor estivesse distante, afinal, a fé não é liturgia e rito, e sim relacionamento. Quanto mais se conhece de Deus, mas fé nós desenvolvemos. É por isso que é impossível agradar a Deus sem uma fé que O reconhece como abençoador daqueles que O buscam, pois quanto mais próximo você está do Senhor, mais e mais você consegue ver as bênçãos dEle pra sua vida.

A fé compreende acreditar nas bênçãos do Senhor, porque o relacionamento do homem com Deus já começa com uma bênção, e a principal delas: a salvação. Se você não crê nessa bênção logo no começo, não vai conseguir ter fé e agradar ao Senhor. Jesus morreu na cruz te oferecendo o melhor e maior presente da sua vida. E não só te presenteou com essa salvação, como também com todas as demais coisas as quais você pode ser grato. Família, emprego, alimentos, proteção física, cura de doenças, felicidade, amor, etc. Você agrada a Deus reconhecendo que todas essas boas dádivas são presentes dEle para você.

Deus não quer apenas que você saiba que Ele existe, é Todo Poderoso e está irado com os homens pelos seus pecados. Muitas religiões acreditam na existência de uma divindade poderosa que abusa dos homens ou exige deles sacrifícios em troca de benefícios para aplacar a sua ira. Nosso amado Deus apenas exige que tenhamos fé na obra dEle em nosso benefício, e isso nos é imputado por justiça, como diz Romanos 4:3-5.

Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada por justiça.

Romanos 4:3-5

Você agrada a Deus tendo fé no que Ele fez por você, na Sua misericórdia contigo. Isso para o homem já é extremamente difícil, pois desejamos o controle e a certeza naquilo que fazemos. A salvação, por outro lado está totalmente fora do nosso controle, pois Cristo realizou toda a obra sozinho. Isso tira do homem o controle sobre o que de fato o leva para perto de Deus e o coloca na condição de uma criança totalmente dependente dos cuidados dos seus pais.

Então a resposta é simples: 

O que dar a quem pode te dar tudo? Apenas a sua fé. Acredite diariamente que Deus existe, e que Ele existe para você. Que as Suas misericórdias se renovam a cada dia. Que Ele te deu gratuitamente a salvação, e todas as demais bênçãos que você tem na sua vida. Agrade a Deus com fé, se aproximando e conhecendo mais dele, desenvolvendo um relacionamento mais íntimo com ele. Dê ao Senhor a única coisa que Ele exige de você.



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