segunda-feira, 7 de junho de 2021

Você morreria por uma oração?

Daniel, pois, quando soube que o edito estava assinado, entrou em sua casa (ora havia no seu quarto janelas abertas do lado de Jerusalém), e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus, como também antes costumava fazer.

Daniel 6:10





Se o Presidente assinasse um Decreto hoje determinando que qualquer pessoa que fosse pega orando deveria ser morta, você pararia de orar? Parece uma medida muito extrema, mas é real, e não são poucas as igrejas perseguidas para confirmar isso! 

Você continuaria orando?

Daniel foi lançado aos leões por causa do hábito de orar! Não estamos falando de orações públicas ou proclamação aberta do evangelho: Ele simplesmente entrava no quarto diariamente para orar sozinho, e sem a intenção de ser visto! Era o suficiente!

Talvez você caia na tentação de criticar Daniel, afinal, ele só precisava segurar a onda dele por 30 dias! Era só não orar! Mas o que havia por detrás dessas orações? Simples: Orar é a única forma que nós temos de falar com Deus.

Daniel não estava disposto a passar 30 dias sem falar com o Senhor da vida dele! Seria como dias sem comida ou água! Seria como viver num ambiente de ar rarefeito, com o peito pesado e a sensação de desmaio! Eu tento imaginar o sofrimento do profeta de precisar viver numa sociedade que a todo momento é hostil com o povo de Deus; cercado do paganismo e idolatria dos palácios do império medo-persa! Daniel, vivendo esse contexto, entendia a necessidade de cultivar tempo de qualidade diante do Pai!

Sim, Daniel colocou a cabeça dele a prêmio para poder orar, como ele sempre fez!

E você? Morreria por uma oração? Caso sua resposta tenha sido positiva, eu te desafio a testar a sua afirmação!

Você pode afirmar que morreria sim, mas eu gostaria de saber... Você deixaria de orar no seu ambiente de trabalho porque os seus colegas e superiores consideram inadequado para um ambiente plural? 

Estudante, você negaria verdades da fé cristã no TCC ou Monografia só para não perder pontos com a banca examinadora?

Pense em todas as oportunidades nas quais você deixou de orar, seja por constrangimento, vergonha, ou outro motivo qualquer! Todas as vezes que você abre mão de orar, você está demonstrando que seu trabalho, estudos ou círculo de relacionamentos é mais importante que cultivar tempo de qualidade com Deus.

É bem provável que você não possa afirmar que morreria por uma oração.

Esse simples versículo tem muito a nos ensinar, mas por hora vamos parar e refletir! Nos próximos artigos a gente conversa um pouco mais sobre esse versículo!

domingo, 23 de maio de 2021

A necessidade do amor (1 Coríntios 13:1-3)

 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.






Você acorda cedo todos os domingos, toma uma xícara de café, um banho (não necessariamente nessa ordem), se arruma e vai para a igreja. Você dirige as reuniões de oração, participa de todas as programações, e é dotado de dons que a sua própria igreja percebe! Você sabe o que precisa fazer e sabe que Deus capacita aqueles a quem escolhe para executar Seus planos, e isso inclui você! 

Mas no fundo, bem lá no fundo, por qual razão você tem exercido os dons que o Senhor te concedeu? Será que não se trata de um mero costume? Uma cartilha de obrigações cristãs? Será que de fato o que você tem feito é uma bênção aos olhos de Deus? Pior ainda: você viu que diversos milagres são operados por pessoas que não demonstram um amor verdadeiro por Jesus! Sendo assim, é possível que você seja uma delas? Calma, que todas essas perguntas tem respostas!

Aliás, o apóstolo Paulo se depara com esse mesmo problema há milhares de anos atrás, em Corinto, quando escreve a sua primeira carta. No capítulo 12 da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo havia abordado a unidade em Cristo e diversidade de dons e funções na igreja. Já no capítulo seguinte, Paulo inicia apresentando a eles um caminho melhor que o do exercício de dons: o caminho do amor.

Paulo, nos três primeiros versículos do capítulo 13 utiliza hipérboles para mostrar o tema da nossa reflexão de hoje: Os dons não servem para nada em nossa relação com Deus, se não o exercitamos como forma de amá-lO, bem como a Sua igreja e toda a criação.

O primeiro aspecto interessante das palavras de Paulo, é que elas dizem respeito em sua maioria à elementos da vida cotidiana do cristão, não apenas na sua relação com a igreja. Paulo não está abordando deveres específicos, para pessoas ou situações específicas. Afinal, sabemos que todos os cristão são dotados de dons concedidos pelo próprio Senhor; todo cristão possui fé; todos exercem a caridade e fazem sacrifícios.

Portanto, o que Paulo está nos mostrando é que o Senhor espera que nós demonstremos que o amamos com aquilo que nós vivemos diariamente. Não são as funções eclesiásticas e doação ao ministério da igreja que te define como cristão, e sim a capacidade de viver em Cristo. É por isso que o Senhor nos ensina que aquele que O ama, é o que guarda os seus mandamentos.

Paulo fala desses aspectos da vida cristã, apresentando-os de forma extremamente intensa e surpreendente, apenas para lançá-los por terra como coisas sem importância. A segunda lição, portanto, é que a qualidade da nossa vida cristã não se mede pela notoriedade dos nossos dons, e sim pelo amor depositado no exercício deles.

Então Paulo ensina que mesmo que aqueles irmãos fossem capazes de exercer dons extraordinários  como o de línguas, da forma que foi realizado no Pentecostes (Atos 2), onde os homens se entendiam nos seus idiomas originais, isso não significaria nada se o exercício do dom não tivesse como objetivo demonstrar amor. E mesmo que ele fosse capaz de falar a língua dos anjos que estão no céu, ainda assim, não significaria nada!

Em ambos os casos, a falta de amor tornaria aqueles cristãos como o metal que soa ou o sino que tine: serviriam apenas para fazer barulho! O exercício de todos  os dons, e mesmo os mais sublimes, nada agradam a Deus se não são exercitados com amor, de forma que o seu galardão se limita à própria comoção pública e olhar dos homens. Deus, a quem vale a pena agradar, continua a não receber a devida adoração.

E mesmo que o apóstolo conhecesse todos os mistérios ou fosse dotado de toda a sabedoria do mundo, continuaria não sendo nada! O homem que proferiu essas palavras é o mesmo que na visão de alguns teólogos teria sido arrebatado ao céu e visto coisas extraordinárias, que sequer teria capacidade de explicar! 

Salomão foi o homem mais sábio que existiu, e tamanha sabedoria não o impediu de viver uma vida amarga e idólatra quando passou a amar mais o conhecimento e mistérios do que o Deus que lhe concedeu toda a sabedoria!

Afinal, genialidade, conhecimento e sabedoria também podem ser desenvolvidos por não cristãos, e isso não os torna menos brilhantes, intelectualmente falando. Por outro lado, conhecimento e a capacidade de transmiti-lo também são dons do Espírito, e devem ser exercidos com amor.

E ainda que um homem seja dotado de tamanha fé que seja capaz de mover montanhas, sem amor ele continua não sendo nada. Afinal, é possível ter fé em ídolos, em si próprio e em outros homens, para no fim se decepcionar e culpar a Deus por eventual desilusão.

A caridade pode ser exercida por qualquer ser humano com o mínimo de compaixão diante do sofrimento do próximo, mas a caridade cristã só pode ser exercida por aqueles que amam a Deus e ao próximo como a si mesmos. É possível fazer caridade para aliviar dores de uma alma culpada, ou mesmo tentar esquecer a carência que temos de Deus. É muito comum ter caridade a fim de obter a admiração dos outros e visibilidade pública.

Em casos como esse, tudo que o homem ganharia doando todos os seus bens seria a multiplicação da pobreza. Ele, que antes era pobre de espírito, agora também se torna pobre de recursos, tornando sua miséria ainda mais intensa.

E mesmo o auto sacrifício não tem nenhum valor, se não visar única e exclusivamente o amor a Deus e ao próximo. Homens podem se sacrificar por uma causa injusta, desde que dotados de extrema convicção! Outros, sabendo que um dia morrerão de qualquer forma, podem decidir gravar seu nome na história, sacrificando-se como um mártir.

Nossa terceira reflexão traz a conclusão dessas ponderações: Dizemos que os dons não servem para nada, pois queremos dizer que eles não compram a salvação ou o amor de Deus para quem os exerce.

Não são poucos os relatos bíblicos de homens que foram usados por Deus, exerceram dons e ministérios, sem com isso conquistar qualquer agrado da parte do Senhor. Judas foi apóstolo, e exerceu dons ao lado dos demais discípulos, para mesmo assim ser chamado pelo Senhor Jesus de propriedade do diabo e filho da perdição.

Saul governou Israel até Davi, e inclusive profetizou, tendo ainda assim se tornado desprezado pelo Senhor, diante do seu coração vaidoso, que amou mais as glórias do poder do que o Deus que o pôs no trono!

Os dons, portanto, não são dados para igreja comprar a própria salvação ou o amor de Deus; e sim para demonstrar amor ao próximo, ao Senhor, e mesmo à criação. Deus deu os dons para igreja ser edificada e testemunhar o Reino no tempo presente! Quando exercemos os dons por amor, Cristo é testificado diante dos homens e a igreja verdadeiramente o glorifica!

E como isso se aplica a nós?

1º Precisamos primeiro sondar os nossos corações para colocar suas intenções à prova! Devemos ponderar o que tem motivado o exercício dos nossos dons, e se descobrirmos que há qualquer outra coisa que não seja o amor, devemos parar imediatamente. É melhor viver uma vida cristã de amor verdadeiro, ainda que isto signifique reduzir nosso ritmo. 

Faça pouco ou não faça nada.
Desde que seja por amor!

2º Como consequência, não devemos utilizar os nossos dons como muleta espiritual. É muito comum que em alguns momentos o nosso amor esfrie pelo nosso afastamento do Senhor, e percamos mesmo a vontade de estar na igreja, orar,  ler a bíblia e ter comunhão com o Senhor. Em momentos como esses podemos cair na armadilha de nos enterrar no exercício constante dos dons com a finalidade de resgatar o sentimento de bem aventurança! Lembre-se:
 os dons não compram o favor de Deus ou a alegria da comunhão que você não está vivendo.

3º Alegre-se e descanse, pois a maior coisa que Deus espera de você é o amor! Não importa se o que você faz parece pequeno, pois Deus não está preocupado com a extensão dos seus dons e sim com o combustível do seu coração! O que move no ministério? Alegre-se, pois não importa se você tem feito pouco ou não é visto exercendo seus dons! Há dons que a igreja não vê! Ainda assim, Deus te ama!

Se você faz por amor, não importa se você fala em línguas ou enche o copo de água do pastor; não importa se você é um oficial da igreja ou apenas um irmão que dá boa noite e entrega panfleto! Não importa se a igreja não te vê orando no púlpito, se quando você se tranca no quarto você ora sem ninguém pedir, porque se preocupa com o bem do próximo e com sua relação com Deus.

Assim sendo... Exerça os seus dons e viva sua vida movido pelo amor!

E que Deus te abençoe!

sábado, 22 de maio de 2021

Bíblia Hebraica - O texto massorético

O texto hebraico do Antigo Testamento é denominado de texto massorético, pois se baseia na transmissão textual dos massoretas, eruditos judeus que na Idade Média se propuseram a formar a bíblia hebraica e transmitir o texto da forma mais exata possível. O texto massorético medieval é constituído de quatro elementos: texto consonantal, vocalização, organização textual e a massorá à margem.

O texto consonantal

a) Primeiro período (3º Século a.C.): texto consonantal bem conceituado, a partir do texto protomassorético. O que importava era o conteúdo do texto, e a exata reprodução das consonantes parecia algo secundário. Período que durou até a destruição do segundo Templo pelos romanos.

b) Segundo período (70 d.C. até o 7º século): maior unificação do texto massorético consonantal e sua preservação pelos rabinos.

c) Terceiro período (8º século d.C. até o final da Idade Média): estabelecimento da vocalização do texto consonantal, inicialmente com diferentes sistemas de pontuação. Período de continuada fixação do texto, com vistas a sua preservação.

A Escritura Sagrada do judaísmo precisa ser descrita como um corpus escalonado de textos autorizados: (1) Tanak, que é a revelação direta dada a Moisés no Monte Sinai e transmitida pela tradição; (2) livros proféticos; (3) Salmos. Essa divisão reflete o processo histórico de construção.

Os livros da terceira divisão do cânon hebraico passaram a integrar as Escrituras Sagradas após um longo processo de discussão entre o século 3º d.C. e 4º d.C. Tal processo foi atribuído à um suposto sínodo em Jâmnia, no qual o conselho superior dos judeus teria se reunido sob a liderança do rabino Gamaliel II, criando um cânone hebraico distinto do cristão. Entretanto, tal sínodo não ocorreu.

Transmissão e correções

O texto  consonantal transmitido pelos massorestas apresenta diversas peculiaridades, como letras estranhas e pontos extraordinários; observações na margem sobre a leitura das consonantes.

Sobre os pontos extraordinários (puncta extraordinaria), 15 passagens receberam pontos por cima de determinadas letras ou de palavras inteiras. Alguns desses pontos  indicam supressão, mas no geral se discute seu suposto uso para indicar a presença de supostos erros de cópia ou de variantes questionáveis.

Na BHS também ocorre  o nun invertido (nun inversum) em 9 oportunidades, acompanhado de um sinal diacrítico, e seu uso é comparado ao do sigma invertido em fontes alexandrinas do grego. Indicariam que o texto está entre colchetes, fora do seu lugar original. Alguns consideram como abreviação para nakud, onde o nun era invertido para não ser considerado como parte do texto.

O texto massorético também apresenta letras suspensas (Litterae suspensae) em 4 palavras, utilizados como forma de correção do texto, necessária por razões de natureza crítico-textual.

Também apresenta letras ampliadas (litterae maiusculae) nos manuscritos medievais, no início de uma seção ou livro, para diferentes finalidades.  Também podem ser utilizadas para indicar o meio de um livro.

Outro fenômeno é o Ketib-Qere, onde as observações marginais são feitas pelos copistas conectadas diretamente ao texto consonantal. Na margem é inserida uma palavra ou forma de palavra diferente da encontrada no texto, indicando a forma correta de ler em voz alta. Alguns dizem que se tratam de instrumento que visava a melhoria do texto.  Outra corrente alega serem variantes textuais extraídas de um ou mais manuscritos e inseridas na margem. 

Há também um tipo especial de Ketib-Qere, a ser lido sempre (Qere perpetuum), que ocorre sempre no nome de Deus, na pronúncia de Jerusalém e no uso do pronome pessoal da terceira pessoa do singular feminino.

O texto massorético também apresenta opiniões (Sebirin), passagens onde uma forma alternativa foi anotada à margem, com formas mais simples ou comuns de palavraas do texto que são consideradas difíceis ou complicadas.  Recebem o significado de simples opiniões ou sugestões.

Há também correções dos escribas (Tiqqune sopherim), segundo a tradição rabínica, em 18 lugares onde há evidência de que os escribas interferiram no texto consonantal, corrigindo-o. Correções que tem a ver principalmente com leituras ofensivas, ensejando alterações. 

Vocalização massorética

Haviam diferentes grupos de transmissores entre os massorestas, dependendo do tipo de trabalho que faziam: alguns copiavam exclusivamente o texto consonantal (soferim); outros eram responsáveis por adicionar os sinais vocálicos e acentos à estrutura consonantal (naqdanim); e aqueles que adicionavam observações nas margens e abaixo do texto, a fim de garantir e exercer controle sobre a forma do texto.

A vocalização dos massoretas foi precedida por outras tentativas de fixar a pronúncia e leitura do texto, como a transcrição do texto hebraico em caracteres gregos, uso de sinais vocálicos e de pontuação e pontos diacríticos.

Houveram 3 sistemas de vocalização: palestina, babilônica e tiberiense. As vocalizações babilônica e palestina são divergentes não apenas nos sinais vocálicos utilizados, como também na própria fixação da pronúncia.

Já quando falamos da vocalização tiberiense, 3 fatores determinantes são destacados: (1) a vocalização se baseia na tradição da leitura oral, sendo mais recente; (2)  a interação ou influência recíproca entre a pronúncia do hebraico e considerações de ordem gramatical; (3) decisões de natureza exegética.

A vocalização tiberiense se deu por duas famílias: Ben Asher e Ben Naftali, tendo suas diferenças listadas pelo Kitab al-Khilaf, um tratado que serve para apurar o grau de concordância dos manuscritos  medievais que trazem vocalização tiberiense.

Dianta de diversas possibilidades de vocalização, entende-se que a crítica textual não pode ter como ponto de partida o texto vocalizado, e sim o consonantal, sem qualquer vocalização.

Divisão do texto e sistema de acentuação

Nos rolos de Qumran aparecem sistemas de divisão de texto, em especial a divisão  prosaico  bivalente, que faz distinção entre seções principais e seções subordinadas dentro do texto que é copiado de forma contínua. Desta  forma, as  divisões não são fruto da atividade dos massoretas, que apenas as transmitiram.

A Torá foi dividida pelos massoretas em leituras semanais, que poderiam durar um ano (parashás) ou três (sedarim), respectivamente 54 ou 154/167 seções semanais.

Também se  aplica a divisão em versículos, que é a menor unidade significativa do texto e já pode ser identificada em alguns dos manuscritos  de Qumram.

No tocante à acentuação, cumprem 3 funções: (1) sinais de cantilação para declamação ou recitação do texto no culto; (2) revelam sílabas tônicas; (3) sinais de pontuação e organização de texto.

Entre os acentos também temos o Paseq, que é um sinal vertical colocados entre duas palavras para indicar que devem ser mantidas separadas, ou quando a consonante final da primeira palavra é idêntica à inicial da segunda; e o Meteg, que é um tracinho que aparece ao lado esquerdo da vogal, para dar sustentação ou apoio à vocalização.

Já a divisão em capítulos foi inserida na Vulgata Latina, sendo introduzida também na bíblia  hebraica por volta do século 14 d.C.

Massorá menor e massorá maior

Os massoretas desenvolveram um sistema de preservação do texto, denominado de massorá, consistente em notas marginais colocadas ao lado (massorá parva) ou abaixo (massorá marginal) do espaço em que se encontra o texto.

Tinham por objetivo principal impedir que surgissem formas de escrita  anômalas ou irregulares. Tratava-se de  uma forma de controle da qualidade do texto consonantal, que buscava também evitar erros e trazer dados estatísticos.

Temos a massorá menor indicando a aparição de uma palavra ou formulação, enquanto a massorá maior traz as referências ou passagens onde ocorrem essas palavras ou formulações.

- Impedir formas de escrita anômalas ou irregulares

- Evitar erros por desatenção ou acomodação

- Trazer dados estatísticos sobre uma palavra ou forma de palavra

- Controle da qualidade do texto consonantal

Manuscritos hebraicos da Idade Média

A bíblia completa em hebraico tem os manuscritos do início da Idade Média como textos fundamentais. São eles: PARA NATÁLIA DAR UM RESUMINHO

  • Códice do Cairo
  • Códice Aleppo
  • Códice Leningrado
  • Códice Oriental Ms.  4445
  • Códice Sassoon 1053
  • Códice Babilônico Petropolitano
  • Fragmentos de Guenizá
Edições impressas

As primeiras edições do texto bíblico hebraico foram preparadas por eruditos judeus, e traziam  comentários rabínicos e traduções aramaicas (targumim), dando origem à designação "Bíblia  Rabínica".  A "Primeira Bíblia Rabínica" (1516-1517) foi produzida em Veneza.

Já a Segunda Bíblia Rabínica (1524-1525), conhecida como Bombergiana, foi a primeira a trazer toda a massorá impressa, sendo considerada a mais significativa e normativa edição impressa, cujo texto acrescido da massorá  passou a ser visto como canônico. As coleções de variantes resultam da colação de manuscritos com o textus receptus.

Já as poliglotas trazem ao lado do texto original hebraico várias traduções dispostas em colunas paralelas.

Edições críticas

São edições que explicam o texto  e sua transmissão. Segue dois princípios: (1) Eclético, pelo qual se faz a escolha das melhores leituras que aparecem nos manuscritos disponíveis, e o resultado é publicado. Cada decisão é documentada, permitindo a leitura dos textos alternativos; (2) Diplomático, pelo qual se reproduz fielmente um documento usado como base.

Atualmente a base para o estudo e crítica textual do Antigo Testamento é a quarta edição da Bíblia Hebraixa, denominada Stuttgartensia (BHS). Reproduz o texto segundo o Códice Leningrado.

Outras edições críticas merecem ser listadas, como:

  • Bíblia Hebraica Quinta (BHQ)
  • Stuttgarter Elektronische Studienbibel (SESB Version 2.0)
  • Hebrew University Bible (HUB)
  • Oxford Hebrew Bible Project (OHB)

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Considerações sobre "João Calvino - 500 anos"

O livro escrito por Hermisten Maia aborda a vida e teologia do reformador de Genebra, João Calvino. A obra se divide em duas partes, sendo certo que a primeira consiste no apanhado histórico, trazendo o pano de fundo da Reforma Protestante. Tal divisão é extremamente necessária para compreender tanto a história da Reforma, quanto algumas das formulações teológicas e filosóficas da época.

Inicialmente, destaca-se a Reforma como um movimento teológico e religioso, com raízes no Humanismo e Renascimento, os quais facilitaram a expansão das ideias e pensamentos de reforma dentro da igreja e sociedade. Tais movimentos por si só não era suficientes, de forma que a origem da Reforma Protestante encontra-se também na ênfase nas Escrituras dadas pelo Senhor. Havia grande comoção pelo retorno à Palavra Deus, em detrimento da tradição católica.

Ao abordar a história da vida de João Calvino, a obra trata dos pressupostos do reformador, sua vida, formação e experiência de conversão. Aliás, há poucas informações de caráter pessoal da experiência do reformador com Cristo, que se limita a citá-la poucas vezes e sem muitos detalhes. Um paralelo entre o Humanismo e a visão de Calvino nos é apresentada: para o humanista de seu tempo, a ênfase era na exaltação e capacidade do ser humano; Calvino, por outro lado, apresenta um humanismo caracterizado pela exaltação do homem como criatura portadora da imagem e semelhança de Deus, ressaltando a sua incapacidade. Portanto, o diferencial das duas visões é que a primeira coloca o homem no pedestal, e a segunda torna-o valoroso, na medida em que se valoriza Deus em primeiro lugar.

Nos termos acima, Calvino nos é apresentado como um humanista, pois detinha o conhecimento do movimento, e correspondia-se com amigos humanistas ao seu tempo. O pressuposto da valorização do homem está presente na sua obra e teologia, mesmo sem transformar o ser humano em objeto de adoração.

A segunda parte do livro aborda a teologia e prática de João Calvino. A pauta inicial diz respeito às Escrituras e o debate da sua suficiência como regra de fé e prática para a igreja e o indivíduo. A Palavra, embora não seja exaustiva em todos os assuntos, traz informações suficientes acerca da vida cristã e salvação do homem através de Jesus Cristo. Ela é autoritativa, pois não se propõe a explicar Deus e sua soberania, mas sim afirma-la e defendê-la como pressuposto.

Na medida em que a Palavra não é exaustiva, porém é autoritativa, dois pressupostos são defendidos na teologia de Calvino: (1) assim como defendia a Reforma Protestante, as Escrituras deveriam ser a regra de fé  e prática da igreja, orientando o culto  e a vida pessoal dos indivíduos. É a Palavra que deve justificar as ações, crenças e fé das pessoas, e não a tradição ou autoridade de líderes religiosos; (2) Por outro lado, a tradição tem o seu devido lugar tanto na história quanto na vida prática da igreja. A tradição pode trazer parâmetros para vida cristã, desde que não avoque para si a inspiração e infalibilidade das Escrituras.

Isto porque o responsável  pelas Escrituras e sua preservação é o próprio Espírito Santo, o qual guiou os autores humanos na redação das palavras de Deus, no processo de inspiração. Quando Moisés, Lucas, Paulo ou qualquer outro autor bíblico escreveram, era o Espírito conduzindo-os na produção das Escrituras. Este mesmo Espírito preservou o texto bíblico pelos séculos seguintes, a fim de que a igreja tivesse acesso ao conhecimento de Deus. Por fim, o mesmo Espírito ilumina a igreja para reconhecer as Escrituras como Palavra de Deus. Com base nesta informação o Espírito Santo e a Palavra de Deus são inseparáveis.

Nas Escrituras o homem tem toda a informação necessária acerca de Deus, o relacionamento com a humanidade, queda, salvação e santificação. Ao tomar conhecimento de Deus, Seu poder e atributos, e de quem é o homem diante dEle de fato conhecer a si mesmo. Conforme já citado anteriormente, o conhecimento e valorização do homem só é possível na medida em que ele conhece e valoriza ao Deus cuja imagem e semelhança ele é dotado. Conhecer a Deus se torna um privilégio responsabilizador, pois apresenta ao homem a necessidade de busca diária da conformidade ao Deus Santo que o criou.

O livro também aborda a responsabilidade pastoral, os quais são vocacionados e capacitados pelo próprio Senhor a fim de serem usados para o ensino e cuidado das igrejas temporais. O pastor deve ser reverente e submisso ao Senhor, preparando-se piedosamente na Palavra, a fim de ensinar e disciplinar a igreja, sendo porta-vozes da mensagem do evangelho. O pastor não deve apenas possuir conhecimento teológico e domínio bíblico, mas principalmente desenvolver vida e prática de oração, visto que o relacionamento do seu ministério com a igreja está abaixo do seu relacionamento  com o próprio Deus.

Em seguida, a obra aborda a eleição divina, e seu uso gramatical no Antigo Testamento e Novo Testamento. Deus elege os homens sem qualquer pressuposto inicial que não seja a Sua própria vontade soberana e graciosa. A eleição divina tem como pressupostos: (1) a depravação total do homem, tornando-o totalmente culpado e carente de méritos diante do Senhor, com os quais poderia justificar a sua escolha para salvação; (2) diferente do homem, Deus é totalmente livre e soberano, de forma que a Sua decisão de salvar ou não qualquer indivíduo não depende de qualquer critério alheio, Deus não consulta ninguém no processo da salvação, muito menos aquele que será salvo; (3) desde a fundação do mundo o plano da salvação já estava estabelecido, de forma que as ações e decisões do homem que foram posteriores ao decreto divino não tem qualquer poder de alterá-lo.

Portanto, na teologia de Calvino o Senhor é apresentado como o autor da salvação e eleição dos homens, de acordo com a sua livre e soberana vontade, que é eterna e imutável, baseada na justiça de Cristo, derramada de forma graciosa e incondicional sobre os eleitos de forma individual e irresistível. A eleição divina é justa, pois considera a necessidade de pagamento do pecado, a incapacidade do homem de quitá-lo e a benevolência do Senhor. 

Assim, segundo João Calvino, a eleição tem como objetivo abençoar os homens, salvando-os, para que Deus seja glorificado pelas suas obras de amor e misericórdia. Cientes de que fomos eleitos, não há nada que o homem possa oferecer a Deus, a não ser depositar a sua fé em Jesus Cristo e na verdade. Ao homem cabe o serviço a Deus e ao próximo como forma de amor, desenvolvendo uma vida de humildade e santidade como atos amorosos. 

Viver de acordo com a vontade de Deus não se torna um meio para obter a salvação, e sim uma consequência direta de ser salvo. Para Calvino, a partir do momento em que somos eleitos por Deus, que não considerou nossos pecados, devemos louvar e adorar Jesus como autor e consumador da nossa fé, proclamando a salvação com certeza da nossa vitória conquistada no Senhor, a fim de promover a glória de Deus entre as nações.

A obra também aborda a espiritualidade de João Calvino, e sua abordagem  sobre a oração, o qual deve estar firmada nas promessas do Senhor. Interessante que na visão de Calvino, a oração que não possui firmeza e convicção em seu cumprimento não é mais do que o ato de tentar ao Senhor. Devemos glorificar ao Senhor e dirigir a ele nossas súplicas convicto de que ele nos ouve e nos concede tudo aquilo do que precisamos. Devemos buscar refúgio nos momentos de oração e interceder uns pelos outros, conforme mandamento e exemplo do próprio Senhor Jesus.

O livro encerra com a ética social de Calvino, sua visão sobre a educação e o seu pensamento no tocante à ciência. Merece destaque a sua visão acerca da graça comum como fator de influência na cultura.

O livro, portanto, nos apresenta a pertinência do calvinismo para os tempos atuais. A obra serve para apresentar o que verdadeiramente foi defendido por João Calvino, e a extensão da sua contribuição para sociedade e igreja. Sua teologia sempre foi muito mais do que debate soteriológico, e a sua teologia nunca foi meramente especulativa, e sim dotada de um caráter de grande aplicabilidade pessoal e litúrgica.


Bíblia Hebraica - Língua, escrita e material de escrita

 Fischer, Alexander Achilles. O texto do Antigo Testamento - Edição reformulada de Introdução à Bíblia Hebraica de Ernest Wurthwein / Fischer, Alexander Achilles. Trad. Vilson Scholz. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

O hebraico antigo faz  parte do grupo de línguas semíticas, tendo parentesco com os idiomas ugarítico, cananeu, fenício-púnico, moabita, amonita, edomita e aramaico. O hebraico bíblico deriva  do judaico utilizado em Jerusalém nos séculos seto e sétimo a.C. Neste tempo, em Judá, a língua de contato e comércio era o aramaico imperial, razão pela qual alguns trechos dos livros mais recentes do Antigo Testamento estejam neste idioma (Jr 10:11; Dn 2:4-7:28; Ed 4:8-6:18; Ed 7:12-26).

O hebraico bíblico

O significado lexical de uma palavra no hebraico está vinculado às consonantes da "raiz" da palavra, e as formas e classes gramaticais se constituem pelo acréscimo de vogais e sílabas antes, dentro e ao final dessa raiz.

É certo que na transmissão do texto bíblico, devido a diferentes possibilidades de pronúncia que ensejariam diferentes interpretações, desenvolveu-se a escrita plena, onde algumas consonantes indicam vogais longas. Além disso, os massoretas na Idade Média criaram um sistema de sinais vocálicos que são colocados acima ou abaixo das consonantes.

No hebraico bíblico não existe diferente entre poesia e prosa, e a maioria do Antigo Testamento foi escrito em prosa. O que difere as duas formas é a diagramação em versos, e o paralelismo  dos membros (sintético, antitético e sinônimo). Outra forma de identificar a poesia é o uso de colonometria, no qual se conta as consonantes para determinar a existência de versos poéticos (cólons).

A escrita

A escrita hebraica é quadrática, uma vez que a maioria das consonantes cabe dentro de um quadrado. Por sua origem, muitas vezes é chamada de escrita assíria. Entretanto, esse nome é atribuído originalmente para escrita aramaica, comum no período do império aquemênida ou persa, o que não significa que o hebraico tenha sido totalmente deixado de lado.

A escrita proto-hebraica desenvolveu-se nos tempos bíblicos, a partir do alfabeto fenício, e foi utilizada não apenas por Israel, mas também pelos povos vizinhos.

O material de escrita

Vários materiais foram utilizados para escrita hebraica, entre eles o talhar em pedras, muros,  paredes, monumentos com inscrições; e a pintura com cal e/ou tinta. Outro material utilizado da mesma forma era a madeira talhada ou tábuas revestidas de cera. Também era possível o registro em metais como prata; e também o uso de argila, que poderia ser queimada na forma de tábua, ou utilizada em cacos para escrever (óstracos).

O uso do papiro, derivado de uma planta, também ocorria, sendo um material extremamente resistente. Entretanto, há poucos fragmentos na Palestina, pois as condições climáticas são menos favoráveis para sua preservação do que no Egito.

Couro também foi utilizado como material  para escrita hebraica, como o primeiro rolo de Isaías descoberto na Caverna  1 de Qumran e que remonta ao 2º século a.C. Assim como o papiro, demorou para ser difundido, pois o tratamento  da pele de animais era um processo difícil. Sua vantagem em  relação ao papiro é a sua durabilidade.

Material desenvolvido através do uso de um solução calcária em pele de animais, sendo um material mais liso e claro, facilitando a escrita em dois lados  e a leitura. Era um material mais elástico e sua superfície poderia ser lavada para ser reutilizado, e o texto apagado pode ser recuperado através do uso de infravermelho.

Rolo e códice

Antigamente os "livros" tinham forma de rolos, de forma que o uso de códices começou apenas na parte final do período helenístico. Entretanto, as sinagogas continuaram a utilizar o livro no formato de rolos. No geral, os textos são encontrados fragmentados em diversos rolos, razão pela qual há um trabalho de reconstrução do texto com base nos fragmentos adquiridos.

A passagem do rolo para o códice teve início no 1º século d.C., embora ambos tenham coexistido por um bom período de tempo. Nos primeiros séculos houveram vários centros cristãos de produção de bíblias (Cesareia, Antioquia e Alexandria).

Instrumentos para escrever e tinta

Para inscrições em monumentos utilizava-se cinzel. Para inscrições menores, utilizava-se ponteiro ou um objeto pontiagudo. Para carimbos ou sinetes se utilizava brocas e goivas. Já para papiro  e couro utilizava-se tinta.

A tinta mais antiga era feita de vegetais e plantas, enquanto as mais recentes eram feitas de metais. Saber o tipo de tinta auxilia o trabalho de reconstrução de manuscritos, buscando-se aqueles fragmentos que possuem composição química semelhante.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Resumo do livro "Congregacionalismo Brasileiro"

Editado pelo Departamento de Educação Religiosa e Publicações – DERP da União de Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.



Os congregacionais foram chamados originalmente de “independentes”, por volta do final do século XVI e início do século XVII, durante a Reforma Inglesa. Trata-se de um modelo de comunidades autônomas que surge de movimentos históricos como o de Wycliffe, os lolardos, menonitas e anabatistas.

É certo que quando falamos de modelos de estruturação eclesiástica, podemos nos deparar com três regimes gerais: (1) Episcopal; (2) Congregacionalista; (3) Presbiteriano.

No tocante ao Congregacionalismo, trata-se do modelo onde cada comunidade local é uma igreja completa e autônoma, não sujeita a qualquer entidade além da própria assembleia de membros. Assim, as igrejas se unem para cooperação e consulta, e não por hierarquia e submissão de algumas igrejas a outras. Na forma, adota uma democracia, porém na prática é uma teocracia, pois é Cristo o Cabeça da igreja.

Trata-se de um tipo de organização político-administrativa resultante da prática dos princípios teológicos fundamentais descobertos pela Reforma Protestante. Suas primeiras manifestações históricas ocorreram em Londres, com a prisão e condenação de grupos em 1567 e 1568. É certo que em 1561 já havia aparecido na cidade de Londres uma declaração de fé.

O congregacionalismo brasileiro se dá através de Robert Reid Kalley, que era de origem presbiteriana, mas ao criar a primeira Igreja Evangélica do Brasil se distanciou da tradição presbiteriana na matéria eclesiástica e introduziu uma constituição do tipo Congregacionalista na igreja.

Kalley também evitou adotar a nomenclatura “Congregacional”, que não tinha boa reputação por causa do liberalismo das igrejas americanas no final do século XIX. Por essa razão adotou unicamente a nomenclatura “Evagélica” na fundação das duas primeiras igrejas: a Igreja Evangélica Fluminense (Rio de Janeiro - 1858) e a Igreja Evangélica Pernambucana (Recife – 1873). Quando 13 igrejas brasileiras se uniram às 5 igrejas de Portugal formaram uma entidade denominacional chamada Aliança das Igrejas Evangélicas Indenominacionais.

Se por um lado Kalley não queria ser ligado às demais denominações existentes, também se recusava a atribuir “Congregacional” à sua nomenclatura, diante do erro teológico das comunidades que traziam o nome. O pastor não queria que as igrejas fossem consideradas como parte do grupo de liberais da época. É certo que a designação de “Congregacionais” foi adotada definitivamente em 1916.

Quando falamos de Congregacionalismo as seguintes obras devem ser consideradas: Os Axiomas da Religião (Dr. E. Y. Mullins); A Manual of Congregational Principles (Dr. R. W. Dale); Nossos Princípios: Um Manual da Igreja Congregacionalista (Rev. G. B. Johnson); Creeds and Plataforms of Congregationalism (W. Walker); Evangelical & Congregational (The Evangelical Fellowship of Congregational Churches - EFCC).


 PRINCÍPIOS CONGREGACIONAIS 

A) Igreja:

 

A comunidade de crentes de todos os tempos que Cristo irá apresentar ao Pai. Historicamente e no tempo, é a comunidade dos que professam a fé em Cristo, segundo a Palavra. O termo também pode ser adotado para designar um grupo de igrejas locais, em semelhança com Atos 9:31. O modelo bíblico é a da comunidade local, onde cada igreja é autônoma, completa e independente, ligadas umas as outras pela fé e amor.


B) Autonomia e Soberania das igrejas locais:

As igrejas são autônomas, pois podem se administrar por suas próprias leis, sendo administrativamente independentes. Também são soberanas, pois não estão subordinadas a qualquer poder coercitivo fora de si mesmas. A assembleia de membros é o poder supremo de direção da igreja, e nenhuma autoridade denominacional pode exercer sobre a igreja qualquer parcela de comando ou poder legislativo.

No congregacionalismo, independência não significa isolamento, e sim autonomia, liberdade de consciência e de governo. Como Cristo está presente em cada igreja integralmente, dirigindo-as pelo Espírito, entende-se pela capacidade de tomar decisões de acordo com a vontade do próprio Senhor Jesus, sem excluir a possibilidade de erro quando a igreja se encontra fraca ou afastada do Senhor.

 

C) Comunidades de igrejas locais: 

O que caracteriza uma comunidade como igreja local é ser dirigida por Deus e ser obediente a Ele. Seguindo esta lógica, a união das igrejas com Cristo cria necessariamente a união das igrejas entre si, no sentido simples de companheirismo e ajuntamento. Assim: (1) cada igreja respeita o caráter e atos das demais; (2) cada igreja deve promover o bem estar das demais; (3) cada igreja deve buscar fortalecimento junto às outras nas tarefas comuns ao Evangelho.

Torna-se natural e conveniente a constituição de federações e associações pelas quais expressem tal comunhão e companheirismo.  Essas entidades não tem caráter eclesiástico, ou qualquer poder legislativo sobre as igrejas. Uma União, Associação, Federação, Confederação, Concílio ou Convenção de Igrejas não é uma igreja em si mesma, de forma que não batiza, não recebe, não disciplina, não exclui membros de igrejas, não dirige assembléias das igrejas locais e nem administra os seus bens.

Essas comunidades de igrejas locais também não ordenam ministros por seu próprio poder, mas a pedido das igrejas. Esse ministro pode ser pastor, ainda que não assuma a direção de uma igreja, ou nunca venha a exercer.

 

D) Oficiais Eclesiásticos: 

Os oficiais são denominados pastores, presbíteros e diáconos. O pastor exerce as funções de presidente da igreja, sendo responsável pela doutrina; os presbíteros e diáconos são oficiais de função restrita à igreja que os elegeu  e ordenou. As igrejas locais possuem prerrogativa para consagrar obreiros para atividades específicas do seu ministério, além dos oficiais acima, sempre que julgar conveniente e útil.


E) Recepção e Disciplina de Membros de uma Comunidade Local: 

Membros de uma igreja local são recebidos por batismo, transferência ou por jurisdição (caso em que não é possível conseguir a Carta de Transferência da igreja anterior). A fim de evitar proselitismo e zelar pelo respeito entre igrejas, não é  recomendado receber uma pessoa sob disciplina em outra igreja, a menos que haja reconciliação.

As igrejas locais devem disciplinar seus membros de forma amorosa, com o objetivo de restaurar o disciplinado.

O autor defende que disciplina, transferência ou reconciliação de membros é de competência da assembleia eclesiástica. Entretanto, o que vemos na prática é a aplicação da disciplina sem a submissão à assembleia da igreja, a fim de preservar ao  máximo o disciplinado. A maior parte das disciplinas atualmente são aplicadas em gabinete pelo pastor da igreja, ou mediante decisão colegiada do corpo  de oficiais.

 

F) Ordenações Eclesiásticas:

As igrejas congregacionais não são sacramentalistas, e consideram Eucaristia e Batismo como símbolos da continuidade da comunhão dos crentes com Deus e a igreja. Tais ordenanças não conferem qualquer graça especial que já não tenha sido derramada sobre o cristão. Isso não anula a possibilidade de que  tais ocasiões se tornem motivo de bênçãos pessoais e coletivas  para igreja.

Quanto ao batismo, as igrejas congregacionais reconhecem a validade do batismo por imersão ou afusão, entretanto, praticam exclusivamente o batismo por aspersão. Como o batismo é um sinal de fé adulta e consciente, as igrejas congregacionais não praticam o pedobatismo.

 

A HISTÓRIA CONGREGACIONAL DO BRASIL

 

A) Primeiro Período – Maio de 1855 a Julho de 1876: período correspondente à estada do casal Kalley no Brasil, com a implantação do trabalho. Funda-se a Escola Dominical em Petrópolis (19/05/1855). Em 08 de novembro de 1857 é fundada a Igreja Evangélica Fluminense, e efetuado o batismo do primeiro brasileiro: Pedro Nolasco de Andrade. Período de grande perseguição, no qual Kalley conseguiu o reconhecimento da liberdade de culto, casamento de não católicos, registro civil, óbitos e possibilidade de sepultamento em cemitérios públicos. Em 10 de julho de 1876 o casal  parte definitivamente para Escócia, oito dias após a aceitação do texto dos 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo.

B) Segundo Período – 1876 a 1913: período do desenvolvimento eclesiástico e instalação da Convenção das Igrejas do Brasil e Portugal. Fundação da Sociedade de Evangelização e do O Cristão.

C) Terceiro Período – 1913 a 1942: período da expansão nacional e da união da Primeira Convenção das Igrejas do Brasil e Portugal com a Igreja Cristã Evangélica. Período de instalação do Seminário Evangélico Congregacional, em 03 de março de 1914. O Cristão  se torna o órgão oficial da Denominação.

D) Quarto Período – 1942 a 1969: a União das Igrejas Evangélicas do Brasil e a Igreja Cristã Evangélica do Brasil se fundiram como União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil, na 13ª Convenção (1942). Fundação do Instituto Bíblico da Pedra em 1944, onde passou a funcionar o internato do Seminário Congregacional. A União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil surge como um grupo dissidente da União de 1942, em discordância à pratica de dois modos de batismo, diversidade no modo de governo e discordância no tocante à segurança da salvação. Em 1969 os dois grupos congregacionais se unem novamente como a UIECB.

 E) Quinto Período – 1969 aos dias atuais: período de consolidação nacional com a aprovação da Constituição de 1969 e instituição da atual União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

 

OS 28 ARTIGOS DA BREVE EXPOSIÇÃO DAS DOUTRINAS FUNDAMENTAIS DO CRISTIANISMO

 Trata-se de 28 artigos, com embasamento bíblico, nos quais a síntese da teologia cristã pode ser apresentada para qualquer cristão, os quais abordam:

 

1º.  Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus;

2º.  Do Testemunho da Revelação a Respeito de Deus e do Homem;

3º.  Da Natureza dessa Revelação;

4º.  Da Natureza de Deus;

5º.  Da Trindade na Unidade;

6º.  Da  Criação do Homem;

7º.  Da Queda do Homem;

8º.  Da Consequência da Queda;

9º.  Da Imortalidade da Alma;

10º.  Da Consciência e do Juízo Final;

11º.  Da Perversidade do Homem e do Amor de Deus;

12º.  Da Origem da Salvação;

13º.  Do Autor da Salvação;

14º.  Da Obra do Espírito Santo no Pecador;

15º.  Do Impenitente;

16º.  Da Única Esperança de Salvação;

17º.  Da Obra do Espírito Santo no Crente;

18º.  Da União do Crente com Cristo e do Poder para o Seu Serviço;

19º.  Da União do Corpo de Cristo;

20º.  Dos Deveres dos Crentes;

21º.  Da Obediência dos Crentes;

22º.  Do Sacerdócio dos Crentes e dos Dons do Espírito;

23º.  Da Relação de Deus para com o Seu Povo;

24º.  Da Lei Cerimonial e dos Ritos Cristãos;

25º.  Do Batismo com Água;

26º.  Da Ceia do Senhor;

27º.  Da Segunda Vinda do Senhor;

28º.  Da Ressurreição para Vida ou para a Condenação.

Kalley entendeu a necessidade de elaborar uma súmula das doutrinas fundamentais para instrução dos neófitos e para os membros da Igreja Evangélica Fluminense. Por tal razão, em 02/10/1874, apresentou a necessidade de artigos de fé que resumissem as doutrinas fundamentais do Cristianismo.

 


Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...