sábado, 21 de agosto de 2021

Uma expectativa saudável da volta de Cristo (2 Tessalonicenses 2:1-4)

Nesta parte da sua carta, Paulo roga que a igreja de Tessalônica não seja perturbada com informações acerca da iminência da volta de Jesus. A expectativa da volta de Cristo era muito grande ao tempo dos apóstolos, e as pessoas viviam como se Cristo estivesse prestes a voltar ainda naquele século.

Paulo então orienta a sua igreja a tomar cuidado com três diferentes fontes de um ensino falso acerca do retorno de Jesus no fim dos tempos. Em primeiro lugar, a igreja deveria se manter firme nos ensinamentos de Jesus  Cristo, não permitindo que o seu entendimento sobre o Fim dos Tempos fosse prejudicado e deturpado por supostas revelações divinas. Neste ponto, Paulo está orientando a igreja a tomar cuidado com falsas revelações vindas supostamente de anjos ou mediante o exercício do dom de profecia.

Também deveria tomar cuidado com supostos ensinos e cartas atribuídas aos apóstolos de Jesus. Devemos considerar dolosamente ou por engano, cartas e ensinamentos eram atribuídos a Paulo e os demais apóstolos, sendo comum, inclusive, um gênero literário apocalíptico, no qual utilizava-se o nome de profetas e apóstolos para dar autoridade e valor ao texto produzido.

Estamos falando de um período sem redes sociais e tráfego digital de informações, no qual as notícias demoravam longos períodos de tempo para cruzar países e cidades. Era possível que informações e ensinos fossem distorcidos conforme as pessoas iam repassando umas  para as outras. Um grande exemplo disto é a revolta de Avídio Cássio contra o Imperador Romano Marco Aurélio, diante a falsa notícia da sua morte.

Paulo então ensina para igreja de Tessalônica que essas notícias da volta de Cristo ter acontecido, ou estar prestes a acontecer não deveriam ser levadas a sério, pois o retorno do Senhor Jesus só ocorre  após a manifestação de dois sinais, quais sejam, a apostasia e a manifestação do homem do pecado, o filho da perdição.

Portanto, a volta de Jesus será precedida pela apostasia, considerada como a rebelião contra Deus. O termo era utilizado no grego secular para referir-se a uma revolução política. Não há qualquer especificação se a apostasia seria por parte da igreja, ou se seria uma recusa geral por parte das pessoas. É certo que a antes da volta do Senhor, a rejeição a Deus e ao evangelho  vai crescer a nível alarmantes, com a negação da autoridade de Deus, a rejeição da verdade e a perseguição da igreja.

Antes que Cristo volte, também se manifestará o homem do pecado, também chamado de filho da perdição, assim como Judas Iscariotes, uma vez que o seu destino é ser destruído pelo Senhor. Entretanto, antes que isso ocorra ele se levantará como um opositor de Cristo, e reivindicará para si mesmo toda a autoridade e adoração, como se ele mesmo fosse Deus. 

É interessante que o homem do pecado não se apresentará como o Messias, pois o Messias é subordinado a Deus, enquanto ele não se subordina a ninguém pois considera a si mesmo como a autoridade, e não o Senhor e Sua Palavra.

A ideia que Paulo nos apresenta é que o homem do pecado é aquele que simplesmente irá se opor a Deus, sua Palavra e sua igreja, querendo ele mesmo reivindicar a autoridade divina e negar Deus em sua existência e soberania.

Assim, a expectativa da volta de Cristo não deveria afetar a igreja de forma que a afastasse até mesmo dos ensinos da Palavra. O temor de agir como as noivas que não levaram azeite o suficiente para manter a chama acesa não poderia afastar a igreja da vontade de Cristo.

Paulo está ensinando que a igreja não deveria aguardar o retorno iminente de Jesus? De forma alguma! É o mesmo Paulo que ensina aos Romanos que toda a criação, e não somente os homens, aguardam com ardente expectativa o retorno de Cristo! Há alguma contradição? Também não!

O que podemos entender a luz da bíblia sobre uma expectativa saudável da volta de Cristo?

Em primeiro lugar, com base na resposta de Paulo para igreja de Tessalônica, não devemos nos afastar dos ensinamentos bíblicos.

Não há mais nada a ser revelado, e nem há pessoa ou anjo com autoridade para conceder aos homens qualquer revelação que já não tenha sido deixada para nós por Cristo e seus apóstolos. Da mesma forma, o dom de profecias não pode ser usado de forma que vá contra ou além da Palavra de Deus.

Quando Paulo orienta a igreja a não dar ouvidos para espíritos, palavras ou cartas enviadas como se fossem dele, o que ele está ensinando para a igreja é que precisavam se manter fiéis ao ensino que receberam dele próprio antes da sua partida! E hoje, para nós como igreja, significa manter-se fiel ao ensino do Antigo e Novo Testamento, através das Palavras de Deus registradas na Lei, nos profetas, proferidas por Cristo e repassadas pelo ensino dos apóstolos.

Embora seja fácil achar que este problema era comum apenas ao período da igreja primitiva, quando as cartas e evangelhos ainda não estavam formalizados como cânon, e os ensinos dos apóstolos demoravam para serem  repassados; ainda hoje não é comum que notícias e correntes em redes sociais movam boa parte de nós com expectativas sensacionalistas do retorno de Jesus. 

Não são poucos os Cristos que se apresentam diariamente, sendo certo que hoje caminham na terra ao mesmo tempo, um Jesus brasileiro, um chinês e um russo! Quantas vezes os mesmos sinais apocalípticos são apontados em diversos períodos históricos diferentes? Não devemos crer que os sinais ocorrerão? Pelo contrário!

Devemos estar atentos, pois os sinais da volta de Jesus estão descritos na própria Palavra! Precisamos estar atentos, pois este dia pode estar muito perto de chegar.

O que devemos fazer, é viver como se Cristo pudesse voltar a qualquer momento, e ansiar por isso!

A volta de Jesus é iminente, e nós, a igreja, devemos ansiar por ela! Não deve haver desespero ou impulsos apaixonados no sentido de desfazer-se de tudo que é terreno, como se isso fosse necessário para a ascensão aos céus! A igreja deve aguardar com ardente expectativa o retorno de Jesus, sem achar que será surpreendida com uma notícia que se espalhará aos poucos, fazendo com que alguns não venham a perceber que o Senhor voltou!

A volta de Cristo é o grande evento no final da história da redenção! O próprio Filho de Deus descerá dos céus junto com a sua igreja num evento que será visto por todos os homens, e trará para si a igreja que ainda estava na terra, no mesmo momento em que ressuscitará os ímpios que estavam mortos, para que sejam julgados junto com os vivos! 

A igreja não pode viver como se a volta de Jesus fosse um evento distante, do contrário, pode passar a viver como se justiça social e piedade fossem o único objetivo. Deve haver urgência em levar a Palavra aos perdidos, e diligência no servir ao Senhor, pois o grande e glorioso momento da volta de Jesus será visto por todos os homens, mas o dia não pode ser definido. Cristo chegará repentinamente e de forma gloriosa! Como ele encontrará a sua igreja? Se ele retornasse hoje, como ele encontraria você?

Também devemos viver consolados, pois os sinais que antecedem a volta de Jesus não são bons, mas apontam para verdade da Palavra.

É desejo do Senhor que olhemos para o Seu retorno como a esperança do fim do pecado, do sofrimento e do mal. Basta olhar para nossa volta e ver que o pecado tem se agravado, e o amor de muitos tem se esfriado. Não são os avanços morais da sociedade ou a união de todos os povos que antecedem a volta de Jesus. Não é uma grande conversão em massa e paz para igreja que Paulo aponta como sinais do Grande Dia!

Pelo contrário, a igreja será perseguida. As pessoas no mundo e os falsos cristãos inseridos nas igrejas passarão a revoltar-se e recusar os ensinos de Jesus. Seus ouvidos não suportarão a verdade, e seus olhos estarão cegos para ver ao Senhor! Suas bocas serão fonte de blasfêmia, ofensas e veneno contra a igreja fiel do Senhor.

Isto tudo ocorrerá para que no fim, o homem reivindique a autoridade de Deus, e tente se colocar como senhor da sua vida! O homem do pecado irá se levantar e opor à Palavra! Serão muitos os homens que se levantarão contra a igreja, e colocar-se-ão como ídolo para adoração.

Compreendo que não haverá um anticristo, mas que anticristo é todo aquele contra cristo, ou seja, todos os pecadores impenitentes! Portanto, será a volta de Jesus será antecedida pela incredulidade e supervalorização do homem e suas capacidades como objeto de culto. Não são poucos os países onde se acredita que o cristianismo e a igreja são considerados como coisas ultrapassadas.

Mas devemos nos manter esperançosos, pois na mesma medida em que a Palavra de Deus é verdadeira no tocante às tribulações, também é verdadeira sobre a vitória do Senhor! Por pior que seja o quadro final, Cristo vencerá o homem do pecado com seu sopro e reivindicará para si o poder que lhe foi dado sobre os céus e a terra diante de todos os homens!

Imagem extraída de: Como entender a segunda vinda de Jesus (cancaonova.com)


domingo, 18 de julho de 2021

Três cruzes (Lucas 23:39-40)



Lucas relata um dos momentos que antecederam a morte de Jesus na cruz. Momento de extrema humilhação, blasfêmia e dor, no qual o Filho de Deus foi ofendido e desafiado a descer da cruz, se de fato era o Salvador. Naquele momento uma multidão enfurecida, diante do espetáculo da morte de três homens, questionava como aquele que supostamente salvava outras pessoas não era capaz de salvar a si mesmo; como o que declarava ser Filho de Deus poderia estar na cruz.

Nem mesmo os dois homens que estavam condenados com Jesus Cristo estavam isentos de tamanha ofensa! Quando lemos Mateus 27:44 e Marcos 15:32, descobrimos que ambos os ladrões insultaram Jesus e blasfemaram contra ele!

Lucas, por outro lado, mostra que um dos ladrões repreendeu o outro que desafiava Jesus a sair da cruz, e livrar a eles próprios no processo! Há um erro do autor bíblico? 

Haviam três cruzes: Três condenados, dois culpados e um inocente a beira da morte num dos momentos mais didáticos que eu conheço! Sabemos que Deus é extremamente didático conosco, tanto por nossas limitações naturais, como pelo pecado cravado na nossa carne. Portanto, até mesmo o momento da crucificação é extremamente didático para nós!

Em primeiro lugar, há um homens prestes a morrer, mas que zombam do Filho de Deus!

Cristo havia sido crucificado entre dois homens, dois verdadeiros criminosos, que diferente de Jesus, estavam ali por seu próprio merecimento. Homens tão perigosos que mereceram a pena de morte aplicada pelo Império Romano!

A crucificação, neste aspecto, é didática, pois mostra o homem em seu estado natural: condenado na iminência de sofrer o justo juízo pelos seus pecados, e que ainda assim, capaz de zombar do único que pode nos salvar desta condição!

Neste exato momento há bilhões de pessoas com a expectativa de sofrer a morte eterna por seus pecados! Muitas destas, infelizmente, receberam a proclamação da Palavra de Deus, ouviram falar de Jesus, e são capazes de zombar do Senhor com piadas, sátiras, ironia e desprezo. Quantos deles não acusam Maria de criar uma religião inteira pra esconder um adultério? Que Jesus é um cara "de boas", mas o que estraga é o fã clube dele? 

Quantos não fazem piada com o dilúvio? Com a criação do homem e da mulher? E não só piadas, como também graves acusações contra o nosso Deus! Quantas vezes não ouvi afirmações de Deus como uma criança mimada? Como um déspota e autoritário? Como o Deus cruel e insensível que manda matar mulheres e crianças? 

E o estado natural não é só aquele no qual o homem confronta e acusa Deus, mas também aquele no qual o homem recusa reconhecer a sua existência, diante de sua própria miséria! Da mesma forma que o ladrão na cruz só se importava com a divindade de Jesus se isso fosse capaz de tirar ele da cruz, muitos de nós também o negamos quando nos deparamos com os nossos próprios dilemas pessoais, e mesmo com o problema do mal!

Quantos lá fora não questionam onde está Deus, que não vê crianças morrendo de fome ou sendo estupradas, pais matando filhos e esposas, guerras, doenças e todo mal do mundo? Há quem afirme que se Deus existe, já nos abandonou faz tempo, do contrário, não aconteceria tanta coisa ruim. Outros tantos dizem que ele pode ter criado, mas que não tem o menor interesse em interferir, e nem poder para fazê-lo!

O que esses homens estão fazendo está diretamente representando nos ladrões das cruzes: diante da sentença de morte, eles blasfemam contra Deus mesmo estando condenados. Na verdade, eles blasfemam por estarem condenados.

Em segundo lugar, uma das cruzes carregava um homem que seria salvo sem fazer nada para merecer.

Como eu já havia dito, em Mateus e Marcos nós descobrimos que os dois homens crucificados com Jesus zombaram e blasfemaram, desafiando-os a retirá-los da cruz. De repente um deles passa a repreender o outro, e inclusive reconhece que mereciam estar ali!

Tinham dois homens diferentes, ambos culpados, mas para um deles o Senhor disse que ainda naquele dia estariam juntos no paraíso! Aquele homem que foi salvo estava pendurado numa cruz pagando a pena pelos crimes que cometeu! Ele não fez qualquer boa obra, ele não fez caridade, não assistiu os sermões de Jesus e sequer acompanhou seu ministério. Podemos crer que até aquele momento Jesus não teve qualquer contato com ele, visto que inicialmente era apenas mais um escarnecedor!

Tudo que aquele homem fez foi olhar para Jesus Cristo e clamar por piedade, e isto lhe foi imputado por justiça! Aquele homem foi salvo naquele momento! Ele não foi salvo sequer por uma expectativa ou promessa de se tornar um homem melhor e membro da igreja primitiva, pois tudo que sabemos da sua vida a partir da sua conversão é que ele morreu crucificado!

Conosco não é diferente, pois todos nós fomos salvos pelo Senhor mesmo tendo sido seus inimigos. Fomos objetos da sua misericórdia sem nem pedir por isto! Duas lições nos são apresentadas diante dessa mudança repentina.

a) Houve um agir de Deus que causou a mudança repentina daquele homem colocado na cruz! O Espírito Santo operou nele a regeneração necessária para olhar para Jesus e compreender que ele é o Salvador,  o Filho de Deus! 

E não poderia ser diferente! Os dois homens na cruz estavam na mesma condição de culpa, sofrendo a mesma sentença, ouvindo as mesmas palavras de blasfêmia e olhando para o mesmo Jesus na cruz! Um deles foi salvo e o outro não foi! 

b) Não havia, portanto, qualquer fato ou ação que qualquer daqueles homens tenha praticado, que teria feito com que um deles fosse justificado e o outro não. Não  havia qualquer mérito.

Por fim a didática da cruz: há dois pecadores, igualmente culpados, igualmente merecedores da pena de morte. A única coisa que os separava era Jesus Cristo!

A única coisa que diferenciava aqueles homem era a forma como eles olhavam para Jesus! 

Um deles via apenas um homem, que se fosse Deus, tinha a obrigação de sair dali e tirar os outros dois da pena que sofriam. Para esse homem, Jesus crucificado não importava; Jesus só poderia ser Deus se pudesse livrá-lo; Jesus só poderia ser Deus se tivesse mãos fortes e lhe desse algum benefício imediato. Aquele homem não via Jesus como Senhor, mas apenas como mais um homem, cujo poder e influência acabaria com a morte.

O outro homem olhou para o Cordeiro de Deus, ferido e quase morto, clamando para que o Pai tivesse piedade daqueles homens que não sabiam o que estavam fazendo. Ele viu aquele homem ser submetido a toda espécie de humilhação, sufocar na cruz, e ainda assim o chamou de Mestre! Ele não exigiu qualquer benefício, milagre ou livramento. Tudo que ele pediu é que Jesus tivesse piedade dele e se lembrasse dele quando estivesse no Reino!

Aquele homem, diante do Filho de Deus pediu misericórdia e reconheceu os seus próprios pecados, e a justiça que havia em estar crucificado pelos crimes que cometeu. Ele não estava preocupado com a sua vida, mas passou a temer ao Senhor e amar Jesus.

Assim, aquelas três cruzes são didáticas para nós, pois mostram que a única coisa entre o cristão e o homem natural é Jesus Cristo.

Ambos são pecadores e merecedores do Juízo de Deus

Ambos são incapazes de livrar-se da sentença de morte por qualquer mérito que possua

No fim das contas, o que vai definir um cristão não são suas obras, mas a forma como ele olha para Jesus e para o que ele fez na cruz.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Você morreria por uma oração?

Daniel, pois, quando soube que o edito estava assinado, entrou em sua casa (ora havia no seu quarto janelas abertas do lado de Jerusalém), e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus, como também antes costumava fazer.

Daniel 6:10





Se o Presidente assinasse um Decreto hoje determinando que qualquer pessoa que fosse pega orando deveria ser morta, você pararia de orar? Parece uma medida muito extrema, mas é real, e não são poucas as igrejas perseguidas para confirmar isso! 

Você continuaria orando?

Daniel foi lançado aos leões por causa do hábito de orar! Não estamos falando de orações públicas ou proclamação aberta do evangelho: Ele simplesmente entrava no quarto diariamente para orar sozinho, e sem a intenção de ser visto! Era o suficiente!

Talvez você caia na tentação de criticar Daniel, afinal, ele só precisava segurar a onda dele por 30 dias! Era só não orar! Mas o que havia por detrás dessas orações? Simples: Orar é a única forma que nós temos de falar com Deus.

Daniel não estava disposto a passar 30 dias sem falar com o Senhor da vida dele! Seria como dias sem comida ou água! Seria como viver num ambiente de ar rarefeito, com o peito pesado e a sensação de desmaio! Eu tento imaginar o sofrimento do profeta de precisar viver numa sociedade que a todo momento é hostil com o povo de Deus; cercado do paganismo e idolatria dos palácios do império medo-persa! Daniel, vivendo esse contexto, entendia a necessidade de cultivar tempo de qualidade diante do Pai!

Sim, Daniel colocou a cabeça dele a prêmio para poder orar, como ele sempre fez!

E você? Morreria por uma oração? Caso sua resposta tenha sido positiva, eu te desafio a testar a sua afirmação!

Você pode afirmar que morreria sim, mas eu gostaria de saber... Você deixaria de orar no seu ambiente de trabalho porque os seus colegas e superiores consideram inadequado para um ambiente plural? 

Estudante, você negaria verdades da fé cristã no TCC ou Monografia só para não perder pontos com a banca examinadora?

Pense em todas as oportunidades nas quais você deixou de orar, seja por constrangimento, vergonha, ou outro motivo qualquer! Todas as vezes que você abre mão de orar, você está demonstrando que seu trabalho, estudos ou círculo de relacionamentos é mais importante que cultivar tempo de qualidade com Deus.

É bem provável que você não possa afirmar que morreria por uma oração.

Esse simples versículo tem muito a nos ensinar, mas por hora vamos parar e refletir! Nos próximos artigos a gente conversa um pouco mais sobre esse versículo!

domingo, 23 de maio de 2021

A necessidade do amor (1 Coríntios 13:1-3)

 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.






Você acorda cedo todos os domingos, toma uma xícara de café, um banho (não necessariamente nessa ordem), se arruma e vai para a igreja. Você dirige as reuniões de oração, participa de todas as programações, e é dotado de dons que a sua própria igreja percebe! Você sabe o que precisa fazer e sabe que Deus capacita aqueles a quem escolhe para executar Seus planos, e isso inclui você! 

Mas no fundo, bem lá no fundo, por qual razão você tem exercido os dons que o Senhor te concedeu? Será que não se trata de um mero costume? Uma cartilha de obrigações cristãs? Será que de fato o que você tem feito é uma bênção aos olhos de Deus? Pior ainda: você viu que diversos milagres são operados por pessoas que não demonstram um amor verdadeiro por Jesus! Sendo assim, é possível que você seja uma delas? Calma, que todas essas perguntas tem respostas!

Aliás, o apóstolo Paulo se depara com esse mesmo problema há milhares de anos atrás, em Corinto, quando escreve a sua primeira carta. No capítulo 12 da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo havia abordado a unidade em Cristo e diversidade de dons e funções na igreja. Já no capítulo seguinte, Paulo inicia apresentando a eles um caminho melhor que o do exercício de dons: o caminho do amor.

Paulo, nos três primeiros versículos do capítulo 13 utiliza hipérboles para mostrar o tema da nossa reflexão de hoje: Os dons não servem para nada em nossa relação com Deus, se não o exercitamos como forma de amá-lO, bem como a Sua igreja e toda a criação.

O primeiro aspecto interessante das palavras de Paulo, é que elas dizem respeito em sua maioria à elementos da vida cotidiana do cristão, não apenas na sua relação com a igreja. Paulo não está abordando deveres específicos, para pessoas ou situações específicas. Afinal, sabemos que todos os cristão são dotados de dons concedidos pelo próprio Senhor; todo cristão possui fé; todos exercem a caridade e fazem sacrifícios.

Portanto, o que Paulo está nos mostrando é que o Senhor espera que nós demonstremos que o amamos com aquilo que nós vivemos diariamente. Não são as funções eclesiásticas e doação ao ministério da igreja que te define como cristão, e sim a capacidade de viver em Cristo. É por isso que o Senhor nos ensina que aquele que O ama, é o que guarda os seus mandamentos.

Paulo fala desses aspectos da vida cristã, apresentando-os de forma extremamente intensa e surpreendente, apenas para lançá-los por terra como coisas sem importância. A segunda lição, portanto, é que a qualidade da nossa vida cristã não se mede pela notoriedade dos nossos dons, e sim pelo amor depositado no exercício deles.

Então Paulo ensina que mesmo que aqueles irmãos fossem capazes de exercer dons extraordinários  como o de línguas, da forma que foi realizado no Pentecostes (Atos 2), onde os homens se entendiam nos seus idiomas originais, isso não significaria nada se o exercício do dom não tivesse como objetivo demonstrar amor. E mesmo que ele fosse capaz de falar a língua dos anjos que estão no céu, ainda assim, não significaria nada!

Em ambos os casos, a falta de amor tornaria aqueles cristãos como o metal que soa ou o sino que tine: serviriam apenas para fazer barulho! O exercício de todos  os dons, e mesmo os mais sublimes, nada agradam a Deus se não são exercitados com amor, de forma que o seu galardão se limita à própria comoção pública e olhar dos homens. Deus, a quem vale a pena agradar, continua a não receber a devida adoração.

E mesmo que o apóstolo conhecesse todos os mistérios ou fosse dotado de toda a sabedoria do mundo, continuaria não sendo nada! O homem que proferiu essas palavras é o mesmo que na visão de alguns teólogos teria sido arrebatado ao céu e visto coisas extraordinárias, que sequer teria capacidade de explicar! 

Salomão foi o homem mais sábio que existiu, e tamanha sabedoria não o impediu de viver uma vida amarga e idólatra quando passou a amar mais o conhecimento e mistérios do que o Deus que lhe concedeu toda a sabedoria!

Afinal, genialidade, conhecimento e sabedoria também podem ser desenvolvidos por não cristãos, e isso não os torna menos brilhantes, intelectualmente falando. Por outro lado, conhecimento e a capacidade de transmiti-lo também são dons do Espírito, e devem ser exercidos com amor.

E ainda que um homem seja dotado de tamanha fé que seja capaz de mover montanhas, sem amor ele continua não sendo nada. Afinal, é possível ter fé em ídolos, em si próprio e em outros homens, para no fim se decepcionar e culpar a Deus por eventual desilusão.

A caridade pode ser exercida por qualquer ser humano com o mínimo de compaixão diante do sofrimento do próximo, mas a caridade cristã só pode ser exercida por aqueles que amam a Deus e ao próximo como a si mesmos. É possível fazer caridade para aliviar dores de uma alma culpada, ou mesmo tentar esquecer a carência que temos de Deus. É muito comum ter caridade a fim de obter a admiração dos outros e visibilidade pública.

Em casos como esse, tudo que o homem ganharia doando todos os seus bens seria a multiplicação da pobreza. Ele, que antes era pobre de espírito, agora também se torna pobre de recursos, tornando sua miséria ainda mais intensa.

E mesmo o auto sacrifício não tem nenhum valor, se não visar única e exclusivamente o amor a Deus e ao próximo. Homens podem se sacrificar por uma causa injusta, desde que dotados de extrema convicção! Outros, sabendo que um dia morrerão de qualquer forma, podem decidir gravar seu nome na história, sacrificando-se como um mártir.

Nossa terceira reflexão traz a conclusão dessas ponderações: Dizemos que os dons não servem para nada, pois queremos dizer que eles não compram a salvação ou o amor de Deus para quem os exerce.

Não são poucos os relatos bíblicos de homens que foram usados por Deus, exerceram dons e ministérios, sem com isso conquistar qualquer agrado da parte do Senhor. Judas foi apóstolo, e exerceu dons ao lado dos demais discípulos, para mesmo assim ser chamado pelo Senhor Jesus de propriedade do diabo e filho da perdição.

Saul governou Israel até Davi, e inclusive profetizou, tendo ainda assim se tornado desprezado pelo Senhor, diante do seu coração vaidoso, que amou mais as glórias do poder do que o Deus que o pôs no trono!

Os dons, portanto, não são dados para igreja comprar a própria salvação ou o amor de Deus; e sim para demonstrar amor ao próximo, ao Senhor, e mesmo à criação. Deus deu os dons para igreja ser edificada e testemunhar o Reino no tempo presente! Quando exercemos os dons por amor, Cristo é testificado diante dos homens e a igreja verdadeiramente o glorifica!

E como isso se aplica a nós?

1º Precisamos primeiro sondar os nossos corações para colocar suas intenções à prova! Devemos ponderar o que tem motivado o exercício dos nossos dons, e se descobrirmos que há qualquer outra coisa que não seja o amor, devemos parar imediatamente. É melhor viver uma vida cristã de amor verdadeiro, ainda que isto signifique reduzir nosso ritmo. 

Faça pouco ou não faça nada.
Desde que seja por amor!

2º Como consequência, não devemos utilizar os nossos dons como muleta espiritual. É muito comum que em alguns momentos o nosso amor esfrie pelo nosso afastamento do Senhor, e percamos mesmo a vontade de estar na igreja, orar,  ler a bíblia e ter comunhão com o Senhor. Em momentos como esses podemos cair na armadilha de nos enterrar no exercício constante dos dons com a finalidade de resgatar o sentimento de bem aventurança! Lembre-se:
 os dons não compram o favor de Deus ou a alegria da comunhão que você não está vivendo.

3º Alegre-se e descanse, pois a maior coisa que Deus espera de você é o amor! Não importa se o que você faz parece pequeno, pois Deus não está preocupado com a extensão dos seus dons e sim com o combustível do seu coração! O que move no ministério? Alegre-se, pois não importa se você tem feito pouco ou não é visto exercendo seus dons! Há dons que a igreja não vê! Ainda assim, Deus te ama!

Se você faz por amor, não importa se você fala em línguas ou enche o copo de água do pastor; não importa se você é um oficial da igreja ou apenas um irmão que dá boa noite e entrega panfleto! Não importa se a igreja não te vê orando no púlpito, se quando você se tranca no quarto você ora sem ninguém pedir, porque se preocupa com o bem do próximo e com sua relação com Deus.

Assim sendo... Exerça os seus dons e viva sua vida movido pelo amor!

E que Deus te abençoe!

sábado, 22 de maio de 2021

Bíblia Hebraica - O texto massorético

O texto hebraico do Antigo Testamento é denominado de texto massorético, pois se baseia na transmissão textual dos massoretas, eruditos judeus que na Idade Média se propuseram a formar a bíblia hebraica e transmitir o texto da forma mais exata possível. O texto massorético medieval é constituído de quatro elementos: texto consonantal, vocalização, organização textual e a massorá à margem.

O texto consonantal

a) Primeiro período (3º Século a.C.): texto consonantal bem conceituado, a partir do texto protomassorético. O que importava era o conteúdo do texto, e a exata reprodução das consonantes parecia algo secundário. Período que durou até a destruição do segundo Templo pelos romanos.

b) Segundo período (70 d.C. até o 7º século): maior unificação do texto massorético consonantal e sua preservação pelos rabinos.

c) Terceiro período (8º século d.C. até o final da Idade Média): estabelecimento da vocalização do texto consonantal, inicialmente com diferentes sistemas de pontuação. Período de continuada fixação do texto, com vistas a sua preservação.

A Escritura Sagrada do judaísmo precisa ser descrita como um corpus escalonado de textos autorizados: (1) Tanak, que é a revelação direta dada a Moisés no Monte Sinai e transmitida pela tradição; (2) livros proféticos; (3) Salmos. Essa divisão reflete o processo histórico de construção.

Os livros da terceira divisão do cânon hebraico passaram a integrar as Escrituras Sagradas após um longo processo de discussão entre o século 3º d.C. e 4º d.C. Tal processo foi atribuído à um suposto sínodo em Jâmnia, no qual o conselho superior dos judeus teria se reunido sob a liderança do rabino Gamaliel II, criando um cânone hebraico distinto do cristão. Entretanto, tal sínodo não ocorreu.

Transmissão e correções

O texto  consonantal transmitido pelos massorestas apresenta diversas peculiaridades, como letras estranhas e pontos extraordinários; observações na margem sobre a leitura das consonantes.

Sobre os pontos extraordinários (puncta extraordinaria), 15 passagens receberam pontos por cima de determinadas letras ou de palavras inteiras. Alguns desses pontos  indicam supressão, mas no geral se discute seu suposto uso para indicar a presença de supostos erros de cópia ou de variantes questionáveis.

Na BHS também ocorre  o nun invertido (nun inversum) em 9 oportunidades, acompanhado de um sinal diacrítico, e seu uso é comparado ao do sigma invertido em fontes alexandrinas do grego. Indicariam que o texto está entre colchetes, fora do seu lugar original. Alguns consideram como abreviação para nakud, onde o nun era invertido para não ser considerado como parte do texto.

O texto massorético também apresenta letras suspensas (Litterae suspensae) em 4 palavras, utilizados como forma de correção do texto, necessária por razões de natureza crítico-textual.

Também apresenta letras ampliadas (litterae maiusculae) nos manuscritos medievais, no início de uma seção ou livro, para diferentes finalidades.  Também podem ser utilizadas para indicar o meio de um livro.

Outro fenômeno é o Ketib-Qere, onde as observações marginais são feitas pelos copistas conectadas diretamente ao texto consonantal. Na margem é inserida uma palavra ou forma de palavra diferente da encontrada no texto, indicando a forma correta de ler em voz alta. Alguns dizem que se tratam de instrumento que visava a melhoria do texto.  Outra corrente alega serem variantes textuais extraídas de um ou mais manuscritos e inseridas na margem. 

Há também um tipo especial de Ketib-Qere, a ser lido sempre (Qere perpetuum), que ocorre sempre no nome de Deus, na pronúncia de Jerusalém e no uso do pronome pessoal da terceira pessoa do singular feminino.

O texto massorético também apresenta opiniões (Sebirin), passagens onde uma forma alternativa foi anotada à margem, com formas mais simples ou comuns de palavraas do texto que são consideradas difíceis ou complicadas.  Recebem o significado de simples opiniões ou sugestões.

Há também correções dos escribas (Tiqqune sopherim), segundo a tradição rabínica, em 18 lugares onde há evidência de que os escribas interferiram no texto consonantal, corrigindo-o. Correções que tem a ver principalmente com leituras ofensivas, ensejando alterações. 

Vocalização massorética

Haviam diferentes grupos de transmissores entre os massorestas, dependendo do tipo de trabalho que faziam: alguns copiavam exclusivamente o texto consonantal (soferim); outros eram responsáveis por adicionar os sinais vocálicos e acentos à estrutura consonantal (naqdanim); e aqueles que adicionavam observações nas margens e abaixo do texto, a fim de garantir e exercer controle sobre a forma do texto.

A vocalização dos massoretas foi precedida por outras tentativas de fixar a pronúncia e leitura do texto, como a transcrição do texto hebraico em caracteres gregos, uso de sinais vocálicos e de pontuação e pontos diacríticos.

Houveram 3 sistemas de vocalização: palestina, babilônica e tiberiense. As vocalizações babilônica e palestina são divergentes não apenas nos sinais vocálicos utilizados, como também na própria fixação da pronúncia.

Já quando falamos da vocalização tiberiense, 3 fatores determinantes são destacados: (1) a vocalização se baseia na tradição da leitura oral, sendo mais recente; (2)  a interação ou influência recíproca entre a pronúncia do hebraico e considerações de ordem gramatical; (3) decisões de natureza exegética.

A vocalização tiberiense se deu por duas famílias: Ben Asher e Ben Naftali, tendo suas diferenças listadas pelo Kitab al-Khilaf, um tratado que serve para apurar o grau de concordância dos manuscritos  medievais que trazem vocalização tiberiense.

Dianta de diversas possibilidades de vocalização, entende-se que a crítica textual não pode ter como ponto de partida o texto vocalizado, e sim o consonantal, sem qualquer vocalização.

Divisão do texto e sistema de acentuação

Nos rolos de Qumran aparecem sistemas de divisão de texto, em especial a divisão  prosaico  bivalente, que faz distinção entre seções principais e seções subordinadas dentro do texto que é copiado de forma contínua. Desta  forma, as  divisões não são fruto da atividade dos massoretas, que apenas as transmitiram.

A Torá foi dividida pelos massoretas em leituras semanais, que poderiam durar um ano (parashás) ou três (sedarim), respectivamente 54 ou 154/167 seções semanais.

Também se  aplica a divisão em versículos, que é a menor unidade significativa do texto e já pode ser identificada em alguns dos manuscritos  de Qumram.

No tocante à acentuação, cumprem 3 funções: (1) sinais de cantilação para declamação ou recitação do texto no culto; (2) revelam sílabas tônicas; (3) sinais de pontuação e organização de texto.

Entre os acentos também temos o Paseq, que é um sinal vertical colocados entre duas palavras para indicar que devem ser mantidas separadas, ou quando a consonante final da primeira palavra é idêntica à inicial da segunda; e o Meteg, que é um tracinho que aparece ao lado esquerdo da vogal, para dar sustentação ou apoio à vocalização.

Já a divisão em capítulos foi inserida na Vulgata Latina, sendo introduzida também na bíblia  hebraica por volta do século 14 d.C.

Massorá menor e massorá maior

Os massoretas desenvolveram um sistema de preservação do texto, denominado de massorá, consistente em notas marginais colocadas ao lado (massorá parva) ou abaixo (massorá marginal) do espaço em que se encontra o texto.

Tinham por objetivo principal impedir que surgissem formas de escrita  anômalas ou irregulares. Tratava-se de  uma forma de controle da qualidade do texto consonantal, que buscava também evitar erros e trazer dados estatísticos.

Temos a massorá menor indicando a aparição de uma palavra ou formulação, enquanto a massorá maior traz as referências ou passagens onde ocorrem essas palavras ou formulações.

- Impedir formas de escrita anômalas ou irregulares

- Evitar erros por desatenção ou acomodação

- Trazer dados estatísticos sobre uma palavra ou forma de palavra

- Controle da qualidade do texto consonantal

Manuscritos hebraicos da Idade Média

A bíblia completa em hebraico tem os manuscritos do início da Idade Média como textos fundamentais. São eles: PARA NATÁLIA DAR UM RESUMINHO

  • Códice do Cairo
  • Códice Aleppo
  • Códice Leningrado
  • Códice Oriental Ms.  4445
  • Códice Sassoon 1053
  • Códice Babilônico Petropolitano
  • Fragmentos de Guenizá
Edições impressas

As primeiras edições do texto bíblico hebraico foram preparadas por eruditos judeus, e traziam  comentários rabínicos e traduções aramaicas (targumim), dando origem à designação "Bíblia  Rabínica".  A "Primeira Bíblia Rabínica" (1516-1517) foi produzida em Veneza.

Já a Segunda Bíblia Rabínica (1524-1525), conhecida como Bombergiana, foi a primeira a trazer toda a massorá impressa, sendo considerada a mais significativa e normativa edição impressa, cujo texto acrescido da massorá  passou a ser visto como canônico. As coleções de variantes resultam da colação de manuscritos com o textus receptus.

Já as poliglotas trazem ao lado do texto original hebraico várias traduções dispostas em colunas paralelas.

Edições críticas

São edições que explicam o texto  e sua transmissão. Segue dois princípios: (1) Eclético, pelo qual se faz a escolha das melhores leituras que aparecem nos manuscritos disponíveis, e o resultado é publicado. Cada decisão é documentada, permitindo a leitura dos textos alternativos; (2) Diplomático, pelo qual se reproduz fielmente um documento usado como base.

Atualmente a base para o estudo e crítica textual do Antigo Testamento é a quarta edição da Bíblia Hebraixa, denominada Stuttgartensia (BHS). Reproduz o texto segundo o Códice Leningrado.

Outras edições críticas merecem ser listadas, como:

  • Bíblia Hebraica Quinta (BHQ)
  • Stuttgarter Elektronische Studienbibel (SESB Version 2.0)
  • Hebrew University Bible (HUB)
  • Oxford Hebrew Bible Project (OHB)

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Considerações sobre "João Calvino - 500 anos"

O livro escrito por Hermisten Maia aborda a vida e teologia do reformador de Genebra, João Calvino. A obra se divide em duas partes, sendo certo que a primeira consiste no apanhado histórico, trazendo o pano de fundo da Reforma Protestante. Tal divisão é extremamente necessária para compreender tanto a história da Reforma, quanto algumas das formulações teológicas e filosóficas da época.

Inicialmente, destaca-se a Reforma como um movimento teológico e religioso, com raízes no Humanismo e Renascimento, os quais facilitaram a expansão das ideias e pensamentos de reforma dentro da igreja e sociedade. Tais movimentos por si só não era suficientes, de forma que a origem da Reforma Protestante encontra-se também na ênfase nas Escrituras dadas pelo Senhor. Havia grande comoção pelo retorno à Palavra Deus, em detrimento da tradição católica.

Ao abordar a história da vida de João Calvino, a obra trata dos pressupostos do reformador, sua vida, formação e experiência de conversão. Aliás, há poucas informações de caráter pessoal da experiência do reformador com Cristo, que se limita a citá-la poucas vezes e sem muitos detalhes. Um paralelo entre o Humanismo e a visão de Calvino nos é apresentada: para o humanista de seu tempo, a ênfase era na exaltação e capacidade do ser humano; Calvino, por outro lado, apresenta um humanismo caracterizado pela exaltação do homem como criatura portadora da imagem e semelhança de Deus, ressaltando a sua incapacidade. Portanto, o diferencial das duas visões é que a primeira coloca o homem no pedestal, e a segunda torna-o valoroso, na medida em que se valoriza Deus em primeiro lugar.

Nos termos acima, Calvino nos é apresentado como um humanista, pois detinha o conhecimento do movimento, e correspondia-se com amigos humanistas ao seu tempo. O pressuposto da valorização do homem está presente na sua obra e teologia, mesmo sem transformar o ser humano em objeto de adoração.

A segunda parte do livro aborda a teologia e prática de João Calvino. A pauta inicial diz respeito às Escrituras e o debate da sua suficiência como regra de fé e prática para a igreja e o indivíduo. A Palavra, embora não seja exaustiva em todos os assuntos, traz informações suficientes acerca da vida cristã e salvação do homem através de Jesus Cristo. Ela é autoritativa, pois não se propõe a explicar Deus e sua soberania, mas sim afirma-la e defendê-la como pressuposto.

Na medida em que a Palavra não é exaustiva, porém é autoritativa, dois pressupostos são defendidos na teologia de Calvino: (1) assim como defendia a Reforma Protestante, as Escrituras deveriam ser a regra de fé  e prática da igreja, orientando o culto  e a vida pessoal dos indivíduos. É a Palavra que deve justificar as ações, crenças e fé das pessoas, e não a tradição ou autoridade de líderes religiosos; (2) Por outro lado, a tradição tem o seu devido lugar tanto na história quanto na vida prática da igreja. A tradição pode trazer parâmetros para vida cristã, desde que não avoque para si a inspiração e infalibilidade das Escrituras.

Isto porque o responsável  pelas Escrituras e sua preservação é o próprio Espírito Santo, o qual guiou os autores humanos na redação das palavras de Deus, no processo de inspiração. Quando Moisés, Lucas, Paulo ou qualquer outro autor bíblico escreveram, era o Espírito conduzindo-os na produção das Escrituras. Este mesmo Espírito preservou o texto bíblico pelos séculos seguintes, a fim de que a igreja tivesse acesso ao conhecimento de Deus. Por fim, o mesmo Espírito ilumina a igreja para reconhecer as Escrituras como Palavra de Deus. Com base nesta informação o Espírito Santo e a Palavra de Deus são inseparáveis.

Nas Escrituras o homem tem toda a informação necessária acerca de Deus, o relacionamento com a humanidade, queda, salvação e santificação. Ao tomar conhecimento de Deus, Seu poder e atributos, e de quem é o homem diante dEle de fato conhecer a si mesmo. Conforme já citado anteriormente, o conhecimento e valorização do homem só é possível na medida em que ele conhece e valoriza ao Deus cuja imagem e semelhança ele é dotado. Conhecer a Deus se torna um privilégio responsabilizador, pois apresenta ao homem a necessidade de busca diária da conformidade ao Deus Santo que o criou.

O livro também aborda a responsabilidade pastoral, os quais são vocacionados e capacitados pelo próprio Senhor a fim de serem usados para o ensino e cuidado das igrejas temporais. O pastor deve ser reverente e submisso ao Senhor, preparando-se piedosamente na Palavra, a fim de ensinar e disciplinar a igreja, sendo porta-vozes da mensagem do evangelho. O pastor não deve apenas possuir conhecimento teológico e domínio bíblico, mas principalmente desenvolver vida e prática de oração, visto que o relacionamento do seu ministério com a igreja está abaixo do seu relacionamento  com o próprio Deus.

Em seguida, a obra aborda a eleição divina, e seu uso gramatical no Antigo Testamento e Novo Testamento. Deus elege os homens sem qualquer pressuposto inicial que não seja a Sua própria vontade soberana e graciosa. A eleição divina tem como pressupostos: (1) a depravação total do homem, tornando-o totalmente culpado e carente de méritos diante do Senhor, com os quais poderia justificar a sua escolha para salvação; (2) diferente do homem, Deus é totalmente livre e soberano, de forma que a Sua decisão de salvar ou não qualquer indivíduo não depende de qualquer critério alheio, Deus não consulta ninguém no processo da salvação, muito menos aquele que será salvo; (3) desde a fundação do mundo o plano da salvação já estava estabelecido, de forma que as ações e decisões do homem que foram posteriores ao decreto divino não tem qualquer poder de alterá-lo.

Portanto, na teologia de Calvino o Senhor é apresentado como o autor da salvação e eleição dos homens, de acordo com a sua livre e soberana vontade, que é eterna e imutável, baseada na justiça de Cristo, derramada de forma graciosa e incondicional sobre os eleitos de forma individual e irresistível. A eleição divina é justa, pois considera a necessidade de pagamento do pecado, a incapacidade do homem de quitá-lo e a benevolência do Senhor. 

Assim, segundo João Calvino, a eleição tem como objetivo abençoar os homens, salvando-os, para que Deus seja glorificado pelas suas obras de amor e misericórdia. Cientes de que fomos eleitos, não há nada que o homem possa oferecer a Deus, a não ser depositar a sua fé em Jesus Cristo e na verdade. Ao homem cabe o serviço a Deus e ao próximo como forma de amor, desenvolvendo uma vida de humildade e santidade como atos amorosos. 

Viver de acordo com a vontade de Deus não se torna um meio para obter a salvação, e sim uma consequência direta de ser salvo. Para Calvino, a partir do momento em que somos eleitos por Deus, que não considerou nossos pecados, devemos louvar e adorar Jesus como autor e consumador da nossa fé, proclamando a salvação com certeza da nossa vitória conquistada no Senhor, a fim de promover a glória de Deus entre as nações.

A obra também aborda a espiritualidade de João Calvino, e sua abordagem  sobre a oração, o qual deve estar firmada nas promessas do Senhor. Interessante que na visão de Calvino, a oração que não possui firmeza e convicção em seu cumprimento não é mais do que o ato de tentar ao Senhor. Devemos glorificar ao Senhor e dirigir a ele nossas súplicas convicto de que ele nos ouve e nos concede tudo aquilo do que precisamos. Devemos buscar refúgio nos momentos de oração e interceder uns pelos outros, conforme mandamento e exemplo do próprio Senhor Jesus.

O livro encerra com a ética social de Calvino, sua visão sobre a educação e o seu pensamento no tocante à ciência. Merece destaque a sua visão acerca da graça comum como fator de influência na cultura.

O livro, portanto, nos apresenta a pertinência do calvinismo para os tempos atuais. A obra serve para apresentar o que verdadeiramente foi defendido por João Calvino, e a extensão da sua contribuição para sociedade e igreja. Sua teologia sempre foi muito mais do que debate soteriológico, e a sua teologia nunca foi meramente especulativa, e sim dotada de um caráter de grande aplicabilidade pessoal e litúrgica.


Bíblia Hebraica - Língua, escrita e material de escrita

 Fischer, Alexander Achilles. O texto do Antigo Testamento - Edição reformulada de Introdução à Bíblia Hebraica de Ernest Wurthwein / Fischer, Alexander Achilles. Trad. Vilson Scholz. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

O hebraico antigo faz  parte do grupo de línguas semíticas, tendo parentesco com os idiomas ugarítico, cananeu, fenício-púnico, moabita, amonita, edomita e aramaico. O hebraico bíblico deriva  do judaico utilizado em Jerusalém nos séculos seto e sétimo a.C. Neste tempo, em Judá, a língua de contato e comércio era o aramaico imperial, razão pela qual alguns trechos dos livros mais recentes do Antigo Testamento estejam neste idioma (Jr 10:11; Dn 2:4-7:28; Ed 4:8-6:18; Ed 7:12-26).

O hebraico bíblico

O significado lexical de uma palavra no hebraico está vinculado às consonantes da "raiz" da palavra, e as formas e classes gramaticais se constituem pelo acréscimo de vogais e sílabas antes, dentro e ao final dessa raiz.

É certo que na transmissão do texto bíblico, devido a diferentes possibilidades de pronúncia que ensejariam diferentes interpretações, desenvolveu-se a escrita plena, onde algumas consonantes indicam vogais longas. Além disso, os massoretas na Idade Média criaram um sistema de sinais vocálicos que são colocados acima ou abaixo das consonantes.

No hebraico bíblico não existe diferente entre poesia e prosa, e a maioria do Antigo Testamento foi escrito em prosa. O que difere as duas formas é a diagramação em versos, e o paralelismo  dos membros (sintético, antitético e sinônimo). Outra forma de identificar a poesia é o uso de colonometria, no qual se conta as consonantes para determinar a existência de versos poéticos (cólons).

A escrita

A escrita hebraica é quadrática, uma vez que a maioria das consonantes cabe dentro de um quadrado. Por sua origem, muitas vezes é chamada de escrita assíria. Entretanto, esse nome é atribuído originalmente para escrita aramaica, comum no período do império aquemênida ou persa, o que não significa que o hebraico tenha sido totalmente deixado de lado.

A escrita proto-hebraica desenvolveu-se nos tempos bíblicos, a partir do alfabeto fenício, e foi utilizada não apenas por Israel, mas também pelos povos vizinhos.

O material de escrita

Vários materiais foram utilizados para escrita hebraica, entre eles o talhar em pedras, muros,  paredes, monumentos com inscrições; e a pintura com cal e/ou tinta. Outro material utilizado da mesma forma era a madeira talhada ou tábuas revestidas de cera. Também era possível o registro em metais como prata; e também o uso de argila, que poderia ser queimada na forma de tábua, ou utilizada em cacos para escrever (óstracos).

O uso do papiro, derivado de uma planta, também ocorria, sendo um material extremamente resistente. Entretanto, há poucos fragmentos na Palestina, pois as condições climáticas são menos favoráveis para sua preservação do que no Egito.

Couro também foi utilizado como material  para escrita hebraica, como o primeiro rolo de Isaías descoberto na Caverna  1 de Qumran e que remonta ao 2º século a.C. Assim como o papiro, demorou para ser difundido, pois o tratamento  da pele de animais era um processo difícil. Sua vantagem em  relação ao papiro é a sua durabilidade.

Material desenvolvido através do uso de um solução calcária em pele de animais, sendo um material mais liso e claro, facilitando a escrita em dois lados  e a leitura. Era um material mais elástico e sua superfície poderia ser lavada para ser reutilizado, e o texto apagado pode ser recuperado através do uso de infravermelho.

Rolo e códice

Antigamente os "livros" tinham forma de rolos, de forma que o uso de códices começou apenas na parte final do período helenístico. Entretanto, as sinagogas continuaram a utilizar o livro no formato de rolos. No geral, os textos são encontrados fragmentados em diversos rolos, razão pela qual há um trabalho de reconstrução do texto com base nos fragmentos adquiridos.

A passagem do rolo para o códice teve início no 1º século d.C., embora ambos tenham coexistido por um bom período de tempo. Nos primeiros séculos houveram vários centros cristãos de produção de bíblias (Cesareia, Antioquia e Alexandria).

Instrumentos para escrever e tinta

Para inscrições em monumentos utilizava-se cinzel. Para inscrições menores, utilizava-se ponteiro ou um objeto pontiagudo. Para carimbos ou sinetes se utilizava brocas e goivas. Já para papiro  e couro utilizava-se tinta.

A tinta mais antiga era feita de vegetais e plantas, enquanto as mais recentes eram feitas de metais. Saber o tipo de tinta auxilia o trabalho de reconstrução de manuscritos, buscando-se aqueles fragmentos que possuem composição química semelhante.

Os 28 artigos da breve exposição das doutrinas fundamentais do Cristianismo

 Artigo 1 - Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus "Existe um só Deus, vivo e pessoal; suas obras no céu e na terra mani...