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| Imagem extraída de: Como entender a segunda vinda de Jesus (cancaonova.com) |
sábado, 21 de agosto de 2021
Uma expectativa saudável da volta de Cristo (2 Tessalonicenses 2:1-4)
domingo, 18 de julho de 2021
Três cruzes (Lucas 23:39-40)
Lucas relata um dos momentos que antecederam a morte de Jesus na cruz. Momento de extrema humilhação, blasfêmia e dor, no qual o Filho de Deus foi ofendido e desafiado a descer da cruz, se de fato era o Salvador. Naquele momento uma multidão enfurecida, diante do espetáculo da morte de três homens, questionava como aquele que supostamente salvava outras pessoas não era capaz de salvar a si mesmo; como o que declarava ser Filho de Deus poderia estar na cruz.
Nem mesmo os dois homens que estavam condenados com Jesus Cristo estavam isentos de tamanha ofensa! Quando lemos Mateus 27:44 e Marcos 15:32, descobrimos que ambos os ladrões insultaram Jesus e blasfemaram contra ele!
Lucas, por outro lado, mostra que um dos ladrões repreendeu o outro que desafiava Jesus a sair da cruz, e livrar a eles próprios no processo! Há um erro do autor bíblico?
Haviam três cruzes: Três condenados, dois culpados e um inocente a beira da morte num dos momentos mais didáticos que eu conheço! Sabemos que Deus é extremamente didático conosco, tanto por nossas limitações naturais, como pelo pecado cravado na nossa carne. Portanto, até mesmo o momento da crucificação é extremamente didático para nós!
Em primeiro lugar, há um homens prestes a morrer, mas que zombam do Filho de Deus!
Cristo havia sido crucificado entre dois homens, dois verdadeiros criminosos, que diferente de Jesus, estavam ali por seu próprio merecimento. Homens tão perigosos que mereceram a pena de morte aplicada pelo Império Romano!
A crucificação, neste aspecto, é didática, pois mostra o homem em seu estado natural: condenado na iminência de sofrer o justo juízo pelos seus pecados, e que ainda assim, capaz de zombar do único que pode nos salvar desta condição!
Neste exato momento há bilhões de pessoas com a expectativa de sofrer a morte eterna por seus pecados! Muitas destas, infelizmente, receberam a proclamação da Palavra de Deus, ouviram falar de Jesus, e são capazes de zombar do Senhor com piadas, sátiras, ironia e desprezo. Quantos deles não acusam Maria de criar uma religião inteira pra esconder um adultério? Que Jesus é um cara "de boas", mas o que estraga é o fã clube dele?
Quantos não fazem piada com o dilúvio? Com a criação do homem e da mulher? E não só piadas, como também graves acusações contra o nosso Deus! Quantas vezes não ouvi afirmações de Deus como uma criança mimada? Como um déspota e autoritário? Como o Deus cruel e insensível que manda matar mulheres e crianças?
E o estado natural não é só aquele no qual o homem confronta e acusa Deus, mas também aquele no qual o homem recusa reconhecer a sua existência, diante de sua própria miséria! Da mesma forma que o ladrão na cruz só se importava com a divindade de Jesus se isso fosse capaz de tirar ele da cruz, muitos de nós também o negamos quando nos deparamos com os nossos próprios dilemas pessoais, e mesmo com o problema do mal!
Quantos lá fora não questionam onde está Deus, que não vê crianças morrendo de fome ou sendo estupradas, pais matando filhos e esposas, guerras, doenças e todo mal do mundo? Há quem afirme que se Deus existe, já nos abandonou faz tempo, do contrário, não aconteceria tanta coisa ruim. Outros tantos dizem que ele pode ter criado, mas que não tem o menor interesse em interferir, e nem poder para fazê-lo!
O que esses homens estão fazendo está diretamente representando nos ladrões das cruzes: diante da sentença de morte, eles blasfemam contra Deus mesmo estando condenados. Na verdade, eles blasfemam por estarem condenados.
Em segundo lugar, uma das cruzes carregava um homem que seria salvo sem fazer nada para merecer.
Como eu já havia dito, em Mateus e Marcos nós descobrimos que os dois homens crucificados com Jesus zombaram e blasfemaram, desafiando-os a retirá-los da cruz. De repente um deles passa a repreender o outro, e inclusive reconhece que mereciam estar ali!
Tinham dois homens diferentes, ambos culpados, mas para um deles o Senhor disse que ainda naquele dia estariam juntos no paraíso! Aquele homem que foi salvo estava pendurado numa cruz pagando a pena pelos crimes que cometeu! Ele não fez qualquer boa obra, ele não fez caridade, não assistiu os sermões de Jesus e sequer acompanhou seu ministério. Podemos crer que até aquele momento Jesus não teve qualquer contato com ele, visto que inicialmente era apenas mais um escarnecedor!
Tudo que aquele homem fez foi olhar para Jesus Cristo e clamar por piedade, e isto lhe foi imputado por justiça! Aquele homem foi salvo naquele momento! Ele não foi salvo sequer por uma expectativa ou promessa de se tornar um homem melhor e membro da igreja primitiva, pois tudo que sabemos da sua vida a partir da sua conversão é que ele morreu crucificado!
Conosco não é diferente, pois todos nós fomos salvos pelo Senhor mesmo tendo sido seus inimigos. Fomos objetos da sua misericórdia sem nem pedir por isto! Duas lições nos são apresentadas diante dessa mudança repentina.
a) Houve um agir de Deus que causou a mudança repentina daquele homem colocado na cruz! O Espírito Santo operou nele a regeneração necessária para olhar para Jesus e compreender que ele é o Salvador, o Filho de Deus!
E não poderia ser diferente! Os dois homens na cruz estavam na mesma condição de culpa, sofrendo a mesma sentença, ouvindo as mesmas palavras de blasfêmia e olhando para o mesmo Jesus na cruz! Um deles foi salvo e o outro não foi!
b) Não havia, portanto, qualquer fato ou ação que qualquer daqueles homens tenha praticado, que teria feito com que um deles fosse justificado e o outro não. Não havia qualquer mérito.
Por fim a didática da cruz: há dois pecadores, igualmente culpados, igualmente merecedores da pena de morte. A única coisa que os separava era Jesus Cristo!
A única coisa que diferenciava aqueles homem era a forma como eles olhavam para Jesus!
Um deles via apenas um homem, que se fosse Deus, tinha a obrigação de sair dali e tirar os outros dois da pena que sofriam. Para esse homem, Jesus crucificado não importava; Jesus só poderia ser Deus se pudesse livrá-lo; Jesus só poderia ser Deus se tivesse mãos fortes e lhe desse algum benefício imediato. Aquele homem não via Jesus como Senhor, mas apenas como mais um homem, cujo poder e influência acabaria com a morte.
O outro homem olhou para o Cordeiro de Deus, ferido e quase morto, clamando para que o Pai tivesse piedade daqueles homens que não sabiam o que estavam fazendo. Ele viu aquele homem ser submetido a toda espécie de humilhação, sufocar na cruz, e ainda assim o chamou de Mestre! Ele não exigiu qualquer benefício, milagre ou livramento. Tudo que ele pediu é que Jesus tivesse piedade dele e se lembrasse dele quando estivesse no Reino!
Aquele homem, diante do Filho de Deus pediu misericórdia e reconheceu os seus próprios pecados, e a justiça que havia em estar crucificado pelos crimes que cometeu. Ele não estava preocupado com a sua vida, mas passou a temer ao Senhor e amar Jesus.
Assim, aquelas três cruzes são didáticas para nós, pois mostram que a única coisa entre o cristão e o homem natural é Jesus Cristo.
Ambos são pecadores e merecedores do Juízo de Deus
Ambos são incapazes de livrar-se da sentença de morte por qualquer mérito que possua
No fim das contas, o que vai definir um cristão não são suas obras, mas a forma como ele olha para Jesus e para o que ele fez na cruz.
segunda-feira, 7 de junho de 2021
Você morreria por uma oração?
domingo, 23 de maio de 2021
A necessidade do amor (1 Coríntios 13:1-3)
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
sábado, 22 de maio de 2021
Bíblia Hebraica - O texto massorético
O texto hebraico do Antigo Testamento é denominado de texto massorético, pois se baseia na transmissão textual dos massoretas, eruditos judeus que na Idade Média se propuseram a formar a bíblia hebraica e transmitir o texto da forma mais exata possível. O texto massorético medieval é constituído de quatro elementos: texto consonantal, vocalização, organização textual e a massorá à margem.
O texto consonantal
a) Primeiro período (3º Século a.C.): texto consonantal bem conceituado, a partir do texto protomassorético. O que importava era o conteúdo do texto, e a exata reprodução das consonantes parecia algo secundário. Período que durou até a destruição do segundo Templo pelos romanos.
b) Segundo período (70 d.C. até o 7º século): maior unificação do texto massorético consonantal e sua preservação pelos rabinos.
c) Terceiro período (8º século d.C. até o final da Idade Média): estabelecimento da vocalização do texto consonantal, inicialmente com diferentes sistemas de pontuação. Período de continuada fixação do texto, com vistas a sua preservação.
A Escritura Sagrada do judaísmo precisa ser descrita como um corpus escalonado de textos autorizados: (1) Tanak, que é a revelação direta dada a Moisés no Monte Sinai e transmitida pela tradição; (2) livros proféticos; (3) Salmos. Essa divisão reflete o processo histórico de construção.
Os livros da terceira divisão do cânon hebraico passaram a integrar as Escrituras Sagradas após um longo processo de discussão entre o século 3º d.C. e 4º d.C. Tal processo foi atribuído à um suposto sínodo em Jâmnia, no qual o conselho superior dos judeus teria se reunido sob a liderança do rabino Gamaliel II, criando um cânone hebraico distinto do cristão. Entretanto, tal sínodo não ocorreu.
Transmissão e correções
O texto consonantal transmitido pelos massorestas apresenta diversas peculiaridades, como letras estranhas e pontos extraordinários; observações na margem sobre a leitura das consonantes.
Sobre os pontos extraordinários (puncta extraordinaria), 15 passagens receberam pontos por cima de determinadas letras ou de palavras inteiras. Alguns desses pontos indicam supressão, mas no geral se discute seu suposto uso para indicar a presença de supostos erros de cópia ou de variantes questionáveis.
Na BHS também ocorre o nun invertido (nun inversum) em 9 oportunidades, acompanhado de um sinal diacrítico, e seu uso é comparado ao do sigma invertido em fontes alexandrinas do grego. Indicariam que o texto está entre colchetes, fora do seu lugar original. Alguns consideram como abreviação para nakud, onde o nun era invertido para não ser considerado como parte do texto.
O texto massorético também apresenta letras suspensas (Litterae suspensae) em 4 palavras, utilizados como forma de correção do texto, necessária por razões de natureza crítico-textual.
Também apresenta letras ampliadas (litterae maiusculae) nos manuscritos medievais, no início de uma seção ou livro, para diferentes finalidades. Também podem ser utilizadas para indicar o meio de um livro.
Outro fenômeno é o Ketib-Qere, onde as observações marginais são feitas pelos copistas conectadas diretamente ao texto consonantal. Na margem é inserida uma palavra ou forma de palavra diferente da encontrada no texto, indicando a forma correta de ler em voz alta. Alguns dizem que se tratam de instrumento que visava a melhoria do texto. Outra corrente alega serem variantes textuais extraídas de um ou mais manuscritos e inseridas na margem.
Há também um tipo especial de Ketib-Qere, a ser lido sempre (Qere perpetuum), que ocorre sempre no nome de Deus, na pronúncia de Jerusalém e no uso do pronome pessoal da terceira pessoa do singular feminino.
O texto massorético também apresenta opiniões (Sebirin), passagens onde uma forma alternativa foi anotada à margem, com formas mais simples ou comuns de palavraas do texto que são consideradas difíceis ou complicadas. Recebem o significado de simples opiniões ou sugestões.
Há também correções dos escribas (Tiqqune sopherim), segundo a tradição rabínica, em 18 lugares onde há evidência de que os escribas interferiram no texto consonantal, corrigindo-o. Correções que tem a ver principalmente com leituras ofensivas, ensejando alterações.
Vocalização massorética
Haviam diferentes grupos de transmissores entre os massorestas, dependendo do tipo de trabalho que faziam: alguns copiavam exclusivamente o texto consonantal (soferim); outros eram responsáveis por adicionar os sinais vocálicos e acentos à estrutura consonantal (naqdanim); e aqueles que adicionavam observações nas margens e abaixo do texto, a fim de garantir e exercer controle sobre a forma do texto.
A vocalização dos massoretas foi precedida por outras tentativas de fixar a pronúncia e leitura do texto, como a transcrição do texto hebraico em caracteres gregos, uso de sinais vocálicos e de pontuação e pontos diacríticos.
Houveram 3 sistemas de vocalização: palestina, babilônica e tiberiense. As vocalizações babilônica e palestina são divergentes não apenas nos sinais vocálicos utilizados, como também na própria fixação da pronúncia.
Já quando falamos da vocalização tiberiense, 3 fatores determinantes são destacados: (1) a vocalização se baseia na tradição da leitura oral, sendo mais recente; (2) a interação ou influência recíproca entre a pronúncia do hebraico e considerações de ordem gramatical; (3) decisões de natureza exegética.
A vocalização tiberiense se deu por duas famílias: Ben Asher e Ben Naftali, tendo suas diferenças listadas pelo Kitab al-Khilaf, um tratado que serve para apurar o grau de concordância dos manuscritos medievais que trazem vocalização tiberiense.
Dianta de diversas possibilidades de vocalização, entende-se que a crítica textual não pode ter como ponto de partida o texto vocalizado, e sim o consonantal, sem qualquer vocalização.
Divisão do texto e sistema de acentuação
Nos rolos de Qumran aparecem sistemas de divisão de texto, em especial a divisão prosaico bivalente, que faz distinção entre seções principais e seções subordinadas dentro do texto que é copiado de forma contínua. Desta forma, as divisões não são fruto da atividade dos massoretas, que apenas as transmitiram.
A Torá foi dividida pelos massoretas em leituras semanais, que poderiam durar um ano (parashás) ou três (sedarim), respectivamente 54 ou 154/167 seções semanais.
Também se aplica a divisão em versículos, que é a menor unidade significativa do texto e já pode ser identificada em alguns dos manuscritos de Qumram.
No tocante à acentuação, cumprem 3 funções: (1) sinais de cantilação para declamação ou recitação do texto no culto; (2) revelam sílabas tônicas; (3) sinais de pontuação e organização de texto.
Entre os acentos também temos o Paseq, que é um sinal vertical colocados entre duas palavras para indicar que devem ser mantidas separadas, ou quando a consonante final da primeira palavra é idêntica à inicial da segunda; e o Meteg, que é um tracinho que aparece ao lado esquerdo da vogal, para dar sustentação ou apoio à vocalização.
Já a divisão em capítulos foi inserida na Vulgata Latina, sendo introduzida também na bíblia hebraica por volta do século 14 d.C.
Massorá menor e massorá maior
Os massoretas desenvolveram um sistema de preservação do texto, denominado de massorá, consistente em notas marginais colocadas ao lado (massorá parva) ou abaixo (massorá marginal) do espaço em que se encontra o texto.
Tinham por objetivo principal impedir que surgissem formas de escrita anômalas ou irregulares. Tratava-se de uma forma de controle da qualidade do texto consonantal, que buscava também evitar erros e trazer dados estatísticos.
Temos a massorá menor indicando a aparição de uma palavra ou formulação, enquanto a massorá maior traz as referências ou passagens onde ocorrem essas palavras ou formulações.
- Impedir formas de escrita anômalas ou irregulares
- Evitar erros por desatenção ou acomodação
- Trazer dados estatísticos sobre uma palavra ou forma de palavra
- Controle da qualidade do texto consonantal
Manuscritos hebraicos da Idade Média
A bíblia completa em hebraico tem os manuscritos do início da Idade Média como textos fundamentais. São eles: PARA NATÁLIA DAR UM RESUMINHO
- Códice do Cairo
- Códice Aleppo
- Códice Leningrado
- Códice Oriental Ms. 4445
- Códice Sassoon 1053
- Códice Babilônico Petropolitano
- Fragmentos de Guenizá
- Bíblia Hebraica Quinta (BHQ)
- Stuttgarter Elektronische Studienbibel (SESB Version 2.0)
- Hebrew University Bible (HUB)
- Oxford Hebrew Bible Project (OHB)
quinta-feira, 8 de abril de 2021
Considerações sobre "João Calvino - 500 anos"
O livro escrito por Hermisten Maia aborda a vida e teologia do reformador de Genebra, João Calvino. A obra se divide em duas partes, sendo certo que a primeira consiste no apanhado histórico, trazendo o pano de fundo da Reforma Protestante. Tal divisão é extremamente necessária para compreender tanto a história da Reforma, quanto algumas das formulações teológicas e filosóficas da época.
Inicialmente, destaca-se a Reforma como um movimento teológico e religioso, com raízes no Humanismo e Renascimento, os quais facilitaram a expansão das ideias e pensamentos de reforma dentro da igreja e sociedade. Tais movimentos por si só não era suficientes, de forma que a origem da Reforma Protestante encontra-se também na ênfase nas Escrituras dadas pelo Senhor. Havia grande comoção pelo retorno à Palavra Deus, em detrimento da tradição católica.
Ao abordar a história da vida de João Calvino, a obra trata dos pressupostos do reformador, sua vida, formação e experiência de conversão. Aliás, há poucas informações de caráter pessoal da experiência do reformador com Cristo, que se limita a citá-la poucas vezes e sem muitos detalhes. Um paralelo entre o Humanismo e a visão de Calvino nos é apresentada: para o humanista de seu tempo, a ênfase era na exaltação e capacidade do ser humano; Calvino, por outro lado, apresenta um humanismo caracterizado pela exaltação do homem como criatura portadora da imagem e semelhança de Deus, ressaltando a sua incapacidade. Portanto, o diferencial das duas visões é que a primeira coloca o homem no pedestal, e a segunda torna-o valoroso, na medida em que se valoriza Deus em primeiro lugar.
Nos termos acima, Calvino nos é apresentado como um humanista, pois detinha o conhecimento do movimento, e correspondia-se com amigos humanistas ao seu tempo. O pressuposto da valorização do homem está presente na sua obra e teologia, mesmo sem transformar o ser humano em objeto de adoração.
A segunda parte do livro aborda a teologia e prática de João Calvino. A pauta inicial diz respeito às Escrituras e o debate da sua suficiência como regra de fé e prática para a igreja e o indivíduo. A Palavra, embora não seja exaustiva em todos os assuntos, traz informações suficientes acerca da vida cristã e salvação do homem através de Jesus Cristo. Ela é autoritativa, pois não se propõe a explicar Deus e sua soberania, mas sim afirma-la e defendê-la como pressuposto.
Na medida em que a Palavra não é exaustiva, porém é autoritativa, dois pressupostos são defendidos na teologia de Calvino: (1) assim como defendia a Reforma Protestante, as Escrituras deveriam ser a regra de fé e prática da igreja, orientando o culto e a vida pessoal dos indivíduos. É a Palavra que deve justificar as ações, crenças e fé das pessoas, e não a tradição ou autoridade de líderes religiosos; (2) Por outro lado, a tradição tem o seu devido lugar tanto na história quanto na vida prática da igreja. A tradição pode trazer parâmetros para vida cristã, desde que não avoque para si a inspiração e infalibilidade das Escrituras.
Isto porque o responsável pelas Escrituras e sua preservação é o próprio Espírito Santo, o qual guiou os autores humanos na redação das palavras de Deus, no processo de inspiração. Quando Moisés, Lucas, Paulo ou qualquer outro autor bíblico escreveram, era o Espírito conduzindo-os na produção das Escrituras. Este mesmo Espírito preservou o texto bíblico pelos séculos seguintes, a fim de que a igreja tivesse acesso ao conhecimento de Deus. Por fim, o mesmo Espírito ilumina a igreja para reconhecer as Escrituras como Palavra de Deus. Com base nesta informação o Espírito Santo e a Palavra de Deus são inseparáveis.
Nas Escrituras o homem tem toda a informação necessária acerca de Deus, o relacionamento com a humanidade, queda, salvação e santificação. Ao tomar conhecimento de Deus, Seu poder e atributos, e de quem é o homem diante dEle de fato conhecer a si mesmo. Conforme já citado anteriormente, o conhecimento e valorização do homem só é possível na medida em que ele conhece e valoriza ao Deus cuja imagem e semelhança ele é dotado. Conhecer a Deus se torna um privilégio responsabilizador, pois apresenta ao homem a necessidade de busca diária da conformidade ao Deus Santo que o criou.
O livro também aborda a responsabilidade pastoral, os quais são vocacionados e capacitados pelo próprio Senhor a fim de serem usados para o ensino e cuidado das igrejas temporais. O pastor deve ser reverente e submisso ao Senhor, preparando-se piedosamente na Palavra, a fim de ensinar e disciplinar a igreja, sendo porta-vozes da mensagem do evangelho. O pastor não deve apenas possuir conhecimento teológico e domínio bíblico, mas principalmente desenvolver vida e prática de oração, visto que o relacionamento do seu ministério com a igreja está abaixo do seu relacionamento com o próprio Deus.
Em seguida, a obra aborda a eleição divina, e seu uso gramatical no Antigo Testamento e Novo Testamento. Deus elege os homens sem qualquer pressuposto inicial que não seja a Sua própria vontade soberana e graciosa. A eleição divina tem como pressupostos: (1) a depravação total do homem, tornando-o totalmente culpado e carente de méritos diante do Senhor, com os quais poderia justificar a sua escolha para salvação; (2) diferente do homem, Deus é totalmente livre e soberano, de forma que a Sua decisão de salvar ou não qualquer indivíduo não depende de qualquer critério alheio, Deus não consulta ninguém no processo da salvação, muito menos aquele que será salvo; (3) desde a fundação do mundo o plano da salvação já estava estabelecido, de forma que as ações e decisões do homem que foram posteriores ao decreto divino não tem qualquer poder de alterá-lo.
Portanto, na teologia de Calvino o Senhor é apresentado como o autor da salvação e eleição dos homens, de acordo com a sua livre e soberana vontade, que é eterna e imutável, baseada na justiça de Cristo, derramada de forma graciosa e incondicional sobre os eleitos de forma individual e irresistível. A eleição divina é justa, pois considera a necessidade de pagamento do pecado, a incapacidade do homem de quitá-lo e a benevolência do Senhor.
Assim, segundo João Calvino, a eleição tem como objetivo abençoar os homens, salvando-os, para que Deus seja glorificado pelas suas obras de amor e misericórdia. Cientes de que fomos eleitos, não há nada que o homem possa oferecer a Deus, a não ser depositar a sua fé em Jesus Cristo e na verdade. Ao homem cabe o serviço a Deus e ao próximo como forma de amor, desenvolvendo uma vida de humildade e santidade como atos amorosos.
Viver de acordo com a vontade de Deus não se torna um meio para obter a salvação, e sim uma consequência direta de ser salvo. Para Calvino, a partir do momento em que somos eleitos por Deus, que não considerou nossos pecados, devemos louvar e adorar Jesus como autor e consumador da nossa fé, proclamando a salvação com certeza da nossa vitória conquistada no Senhor, a fim de promover a glória de Deus entre as nações.
A obra também aborda a espiritualidade de João Calvino, e sua abordagem sobre a oração, o qual deve estar firmada nas promessas do Senhor. Interessante que na visão de Calvino, a oração que não possui firmeza e convicção em seu cumprimento não é mais do que o ato de tentar ao Senhor. Devemos glorificar ao Senhor e dirigir a ele nossas súplicas convicto de que ele nos ouve e nos concede tudo aquilo do que precisamos. Devemos buscar refúgio nos momentos de oração e interceder uns pelos outros, conforme mandamento e exemplo do próprio Senhor Jesus.
O livro encerra com a ética social de Calvino, sua visão sobre a educação e o seu pensamento no tocante à ciência. Merece destaque a sua visão acerca da graça comum como fator de influência na cultura.
O livro, portanto, nos apresenta a pertinência do calvinismo para os tempos atuais. A obra serve para apresentar o que verdadeiramente foi defendido por João Calvino, e a extensão da sua contribuição para sociedade e igreja. Sua teologia sempre foi muito mais do que debate soteriológico, e a sua teologia nunca foi meramente especulativa, e sim dotada de um caráter de grande aplicabilidade pessoal e litúrgica.
Bíblia Hebraica - Língua, escrita e material de escrita
Fischer, Alexander Achilles. O texto do Antigo Testamento - Edição reformulada de Introdução à Bíblia Hebraica de Ernest Wurthwein / Fischer, Alexander Achilles. Trad. Vilson Scholz. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.
O hebraico antigo faz parte do grupo de línguas semíticas, tendo parentesco com os idiomas ugarítico, cananeu, fenício-púnico, moabita, amonita, edomita e aramaico. O hebraico bíblico deriva do judaico utilizado em Jerusalém nos séculos seto e sétimo a.C. Neste tempo, em Judá, a língua de contato e comércio era o aramaico imperial, razão pela qual alguns trechos dos livros mais recentes do Antigo Testamento estejam neste idioma (Jr 10:11; Dn 2:4-7:28; Ed 4:8-6:18; Ed 7:12-26).
O hebraico bíblico
O significado lexical de uma palavra no hebraico está vinculado às consonantes da "raiz" da palavra, e as formas e classes gramaticais se constituem pelo acréscimo de vogais e sílabas antes, dentro e ao final dessa raiz.
É certo que na transmissão do texto bíblico, devido a diferentes possibilidades de pronúncia que ensejariam diferentes interpretações, desenvolveu-se a escrita plena, onde algumas consonantes indicam vogais longas. Além disso, os massoretas na Idade Média criaram um sistema de sinais vocálicos que são colocados acima ou abaixo das consonantes.
No hebraico bíblico não existe diferente entre poesia e prosa, e a maioria do Antigo Testamento foi escrito em prosa. O que difere as duas formas é a diagramação em versos, e o paralelismo dos membros (sintético, antitético e sinônimo). Outra forma de identificar a poesia é o uso de colonometria, no qual se conta as consonantes para determinar a existência de versos poéticos (cólons).
A escrita
A escrita hebraica é quadrática, uma vez que a maioria das consonantes cabe dentro de um quadrado. Por sua origem, muitas vezes é chamada de escrita assíria. Entretanto, esse nome é atribuído originalmente para escrita aramaica, comum no período do império aquemênida ou persa, o que não significa que o hebraico tenha sido totalmente deixado de lado.
A escrita proto-hebraica desenvolveu-se nos tempos bíblicos, a partir do alfabeto fenício, e foi utilizada não apenas por Israel, mas também pelos povos vizinhos.
O material de escrita
Vários materiais foram utilizados para escrita hebraica, entre eles o talhar em pedras, muros, paredes, monumentos com inscrições; e a pintura com cal e/ou tinta. Outro material utilizado da mesma forma era a madeira talhada ou tábuas revestidas de cera. Também era possível o registro em metais como prata; e também o uso de argila, que poderia ser queimada na forma de tábua, ou utilizada em cacos para escrever (óstracos).
O uso do papiro, derivado de uma planta, também ocorria, sendo um material extremamente resistente. Entretanto, há poucos fragmentos na Palestina, pois as condições climáticas são menos favoráveis para sua preservação do que no Egito.
Couro também foi utilizado como material para escrita hebraica, como o primeiro rolo de Isaías descoberto na Caverna 1 de Qumran e que remonta ao 2º século a.C. Assim como o papiro, demorou para ser difundido, pois o tratamento da pele de animais era um processo difícil. Sua vantagem em relação ao papiro é a sua durabilidade.
Material desenvolvido através do uso de um solução calcária em pele de animais, sendo um material mais liso e claro, facilitando a escrita em dois lados e a leitura. Era um material mais elástico e sua superfície poderia ser lavada para ser reutilizado, e o texto apagado pode ser recuperado através do uso de infravermelho.
Rolo e códice
Antigamente os "livros" tinham forma de rolos, de forma que o uso de códices começou apenas na parte final do período helenístico. Entretanto, as sinagogas continuaram a utilizar o livro no formato de rolos. No geral, os textos são encontrados fragmentados em diversos rolos, razão pela qual há um trabalho de reconstrução do texto com base nos fragmentos adquiridos.
A passagem do rolo para o códice teve início no 1º século d.C., embora ambos tenham coexistido por um bom período de tempo. Nos primeiros séculos houveram vários centros cristãos de produção de bíblias (Cesareia, Antioquia e Alexandria).
Instrumentos para escrever e tinta
Para inscrições em monumentos utilizava-se cinzel. Para inscrições menores, utilizava-se ponteiro ou um objeto pontiagudo. Para carimbos ou sinetes se utilizava brocas e goivas. Já para papiro e couro utilizava-se tinta.
A tinta mais antiga era feita de vegetais e plantas, enquanto as mais recentes eram feitas de metais. Saber o tipo de tinta auxilia o trabalho de reconstrução de manuscritos, buscando-se aqueles fragmentos que possuem composição química semelhante.
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